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quinta-feira, 19 de maio de 2022

"Solidão" - Poema de Irene Lisboa


'Young People in a Parisian Garden', 1881. 


Solidão 

 
Cai chuva, chora.
Chora, chora.
Solidão, solidão!

Já não canta o pássaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solitária.
Cai chuva.

Não sou freira e estou num convento.
A paz, o silêncio, a chuva, os claustros...
Ser freira!

O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito pássaro, onde estás?
Acompanha-me, já não chove.
Solidão, melancolia. 


Irene Lisboa
, in 'Outono Havias de Vir', 1937.


Francisco Miralles y Galup, 'Street Scene on a Rainy Day', c. 1891.


"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."

"l'important n'est pas ce que l'on a fait de nous mais ce que nous faisons nous-mêmes de ce qu'on a fait de nous."

Jean-Paul Sartre (Nobel de Literatura, 1964),
 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

"Belo verso" - Poema de Irene Lisboa


Janos Laszlo Aldor (Hungria, 1895 - 1944), Cattle Grazing in a Spring Field

(Janos László Aldor nasceu em Nagyigmánd, na Hungria em 1895. Em 1919 concluiu o curso de arquitetura, mas como pintor foi autodidata. A partir de 1914 começou a expor seus quadros regularmente. Ficou conhecido pelos retratos de mulheres. Faleceu em 1944.)


Belo verso


Apetecia-me escrever um belo verso.
Sonoro, elegante, correto, de mármore!
Nele pôr o que outros me inspirassem.
O que ali aquele poeta estava cantando.
Ele o cantava e eu o repetia.
Acrescentava, desdobrava, acrescia da minha ansiedade.
Mas verso bem feito!
Cheio do que se sonha, não do que se sente.
Parece-me pobre o que sinto.
E vulgar.
Estes olhos que sem querer se envidraçam, fúteis,
sem recato, infantis, esta voz insegura, enfim,
 tudo isto…
Que figura iriam fazer dentro de um verso elegante, lapidar?
Belo verso trair-te-iam, roubar-te-iam toda a graça e até a ressonância, o êxtase
e aquela espécie de embalo que ao espírito sempre dás.
Mas sinceramente me apetecia escrever um verso de mármore belo!
Tudo, tudo por causa daquele poema…
Daquela exaltação do desejo, daquele arrebatamento lírico, infixo,
 daquela sensualidade espumosa...
Meu velhíssimo verso falhado, meu, não o dos outros...
Com que te haveria eu de ilustrar?
Com que te encher, meu divino, lúcilo, aéreo,
palavroso poema do nada?


Irene Lisboa,
  em Outono havias de vir latente e triste,
 com o pseudónimo de João Falco, Lisbos, 
Seara Nova, 1937



Janos Laszlo Aldor, Feeding Time, 1940


"Quando somos jovens, temos manhãs triunfantes."

(Victor Hugo)


Janos Laszlo Aldor, Young Wife, 1913


"A educação é uma descoberta progressiva da nossa própria ignorância."

Janos Laszlo Aldor, Young lady in local clothes, 1942


"Quando tiveres cumprido o teu dever, resta-te ainda outro: mostrares-te satisfeito."

(Johann Wolfgang von Goethe)


quarta-feira, 29 de julho de 2020

"Desassossego" - Poema de Irene Lisboa


Boris Kustodiev (1878-1927, Russian), Portrait of Julia Kustodieva,
 the artist's wife, 1903


Desassossego


Levanto os olhos.
Tinha-os sobre uma chapinha circunflexa, uma
espécie de oito luminoso, fixos no chão.
Olhos circunvagantes, um momento parados.

Tanta inquietação!
Rodopiante, como as moscas gulosas, teimosas,
insaciáveis.
Coração indefeso...

Agora o sol é já um sapatinho.
Uma meiazinha de criança, minúscula.

Mas de si que deixará esta minaz luta, este desassossego?
Cansaço e severidade.

Agora é uma moeda redondinha.
Cada vez mais pequena.
Luz e forma sempre nova...
Agora é só uma dedada, some-se.
Agora mais nada.
Igualdade.


Irene Lisboa



 
Boris Kustodiev, Self-portrait


"Quando não encontramos o repouso em nós próprios, é inútil ir procurá-lo noutro lado."
 


Boris Kustodiev, Country, 1919
 

"Quando me contrariam, despertam-me a atenção, não a cólera: aproximo-me de quem me contradiz e instrui."

(Michel de Montaigne)
 

sexta-feira, 22 de março de 2019

"Pequenos Poemas Mentais" - Poemas de Irene Lisboa


František Kupka, Self-portrait with wife, 1908


Pequenos poemas mentais

Mental: nada, ou quase nada sentimental.

I

Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indómitos ódios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.

II

Como sempre, há de chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunirá, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
É provável, mas desconfiados e inválidos,
Rosnando estúpidos, com cães.

Ó inúteis, aquietai-vos!
Voltai como os cães das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.

III

Esse gesto...
Esse desânimo e essa vaidade...
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!

A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela, e curiosa!
E então assim acabrunhada...
Com franqueza, enternece-me.

Subtil
A minha mão que, julgo, ridicularizas,
de que desconheces a suavidade,
cerra-te pacificamente os olhos
e aquieta benignamente o ar.
Paira sobre a tua cabeça, móbil, branda,
na prática de um velho rito,
feminil, piedoso, desconhecido e inconfesso.

IV

Ó luxúria brutal, perversa e felina,
dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.

Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...
solidão, infinita solidão!
E neste movimento, neste balouço, adormeço,
Cá, lá... morte, vida... morte, vida...
Todas as ausências, todas as negações.

V

Os poetas cumprimentam-se, delicados.
Cada um como seu metro, o seu espírito, a sua forma;
as suas credenciais...
Mas são simpáticos os poetas!
Sensíveis, femininos, curiosos.
Envolve-os um mistério.
Não! Esta é a linguagem de toda gente: o mistério...
Que mistério?
Os poetas são apenas reservados, são apenas...
perturbados e capciosos.

VI

Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.
E as árvores soturnas não se mexem.
Estio!
Não se vêem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos, estampadas...
Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem de manhã.
A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.
Aqui, uma janela discreta que se abre, preta, cega.
Ali outra fechada.
E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se...

E eu, ai eu! Prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!


Irene Lisboa
Um dia e outro dia…
1936 



Frantisek Kupka, The Book Lover, 1897


"Dia a dia ia-se agravando a minha secreta aversão por tudo aquilo de que se tira proveito. Ler e sonhar, estes narcóticos, eram os meus antídotos, mas as regiões onde são possíveis os atos pareciam-me definitivamente fora de alcance."
 
Ernst Jünger, Jogos Africanos
 
 
Ernst Jünger

 
Escritor e biólogo alemão, Ernst Jünger nasceu a 29 de março de 1895, em Heidelberg. Filho de um farmacêutico, começou os estudos em Hanôver, no ano de 1901, mas fugiu de casa aos dezoito anos de idade, para se alistar na Legião Estrangeira, cumprindo a sua comissão no Norte de África.

Combateu também na Primeira Grande Guerra, onde foi ferido por diversas vezes, o que lhe valeu algumas condecorações por bravura. Finda a guerra, serviu como oficial no exército da República de Weimar, entre 1919 e 1923.

Publicou o seu primeiro livro em 1920, com o título In Stahlgewittern, obra em que analisava o estado de coisas e o destino da nação alemã. Também nessa época começou a contribuir para a imprensa de direita. 
 
Teve possibilidade de prosseguir os seus estudos, frequentando as universidades de Leipzig e de Nápoles, formando-se em Biologia, e tornando-se um reputado entomologista, chegando a catalogar e nomear algumas espécies de insetos.

Chegou a Berlim no ano de 1927, onde presenciou com agrado a ascensão do Nacional-Socialismo, dando o seu aval ao pensamento nietzscheano e professando doutrinas antissemíticas em publicações nacionalistas. Publicou, por essa altura uma coletânea de ensaios, Das Abenteurliche Herz (1929), Die Totale Mobilmachung (1931) e Der Arbeiter, Herraschaft und Gestalt (1932), obras tidas como de grande qualidade pela crítica, e que refletiam mais uma vez as suas preocupações e esperanças quanto ao seu país.

O destino reservou-lhe porém uma ironia, pois apaixonou-se por uma mulher judia, o que fez com fosse lentamente mitigando o seu antissemitismo. E, em consequência de um incidente com Else Lasker-Schüler que, galardoada com um prémio literário, em 1932, foi arrasada pela imprensa nacional-socialista e espancada até perder os sentidos pelas S. A. [SturmAbteilung], Jünger optou por abandonar Berlim no ano seguinte.

Em 1934 publicou Geheimnisse der Sprache e Bläter und Steine e, após Africanische Spiele (1936), deu ao prelo Auf den Marmorklippen (1939). Esta obra foi considerada como a mais profética alguma vez escrita sobre a Alemanha nacional-socialista, e conta a história de dois irmãos que, regressando de uma guerra, procuram a paz interior, ameaçada porém pelo regime. Circulando largamente, foram no entanto suspensas as suas reedições pelas autoridades, já que o romance aludia muito claramente à situação da Alemanha, e predizia de certa forma a sua desgraça.

Deflagrou a Segunda Guerra Mundial e Jünger serviu na Wehrmacht no posto de capitão, mantendo um diário dos seus dias em França, onde chegou a conhecer personalidades como Pablo Picasso. Nele escreveu a sua certeza na perdição da Alemanha, facto marcado pela morte do seu filho nas fileiras de Itália. Quando a conspiração contra Adolf Hitler foi descoberta e aniquilada, foi apurado que Jünger tinha tido conhecimento dela, sem no entanto ter participado ativamente. Foi por isso demitido das suas funções.

Com a queda de Berlim, Jünger recusou-se a comparecer numa Entnazifizierung kommission [tribunal de "desnazificação"], pelo que as suas obras foram interditas durante cerca de três anos. Ao fim desse período publicou Der Friede (1947), obra em que anunciava o seu afastamento definitivo da política, embora se viesse a tornar grande apoiante da ideia de uma união europeia.

Em 1970 publicou uma obra interessante sobre as suas experiências com estupefacientes, Annäherungen: Drogen und Rausch. Jünger havia consumido cocaína, haxixe, e mesmo éter na década de 20, passando, nos anos 50, aos alucinogéneos, como o LSD e a mescalina.
 
Tido como um dos precursores do chamado 'realismo mágico', Ernst Jünger foi honrado com títulos académicos e galardoado com vários prémios, incluindo o Prémio Goethe, antes de falecer em 1998. (Daqui)
 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

"Jeito de Escrever" - Poema de Irene Lisboa


Pierre Bonnard, The Letter, c. 1906, oil on canvas, National Gallery of Art



Jeito de Escrever


Não sei que diga. 
E a quem o dizer? 
Não sei que pense. 
Nada jamais soube. 

Nem de mim, nem dos outros. 
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas... 
Seja do que for ou do que fosse. 
Não sei que diga, não sei que pense. 

Oiço os ralos queixosos, arrastados. 
Ralos serão? 
Horas da noite. 
Noite começada ou adiantada, noite. 
Como é bonito escrever! 

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito. 
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo. 
No tempo vago... 
Ele vago e eu sem amparo. 
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas! 


E por mais não ter que relatar me cerro. 
Expressão antiga, epistolar: me cerro. 
Tão grato é o velho, inopinado e novo. 
Me cerro! 

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados, 
solta a outra, de pena expectante. 
Uma que agarra, a outra que espera... 

Ó ilusão! 
E tudo acabou, acaba. 
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda? 

Silêncio. 
Nem pássaros já, noite morta. 
Me cerro. 
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e 
solidão. 

Da indiferença. 
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada. 
Noite vasta e contínua, caminha, caminha. 
Alonga-te. 
A ribeira acordou. 


Irene Lisboa, in 'Antologia Poética' 


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

"Canto" - Poema de Irene Lisboa


William Ewart Lockhart (Scottish, 1846-1900), The white cockade, 1899



Canto


... e o vento, 
o vento dos altos a que me dei, 
a ti me trouxe 
a ti me entregou. 
Se em mim já estavas! 
Pela boca, pelos olhos e pelas mãos, 
arreigado e voraz, 
meu invasor enternecido. 

Cinco vidas, nada menos, 
cinco vidas querias ter. 
Cinco vidas... 
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada, 
uma só não te bastaria? 
Uma, 
quintuplicada, centuplicada na hora inefável, 
no momento embriagado... 
Uma, para me dares, para eu de ti receber, 
vergada, sucumbida? 
É primavera! saiu-me da boca. 
E tu sorriste. 
Sorriste, creio. 
Primavera e todas as estações… 
Chuva e sol, tempo sem idade. 

Aqueles suaves, langues verdes, tão cariciosos; 
os redondos troncos 
e os musgos fofos; 
os melros agrestes 
e as campainhas roxas daquelas flores da minha infância, 
de que me ensinaste o nome tão doce, tão estranho… 
E as loucas nuvens corredias 
e as pedras hieráticas 
e as veredas amáveis, 
como se os ofereciam! 
Amavam-nos, 
Não o viste? 
No passo certo em que ambos íamos 
tudo, tudo nos prendia 
e nós tudo deixávamos. 
Mas o vento… 
o vento dos altos a que me dei, 
mais do que o resto a ti me trouxe, 
a ti me entregou. 
Como se eu te esperasse 
e te pudesse fugir, 
sôfrego quiseste-me prender. 
Eu presa já estava... 

E assim continuámos. 

Aquela hora não esquece. 
Não pode esquecer, 
nem se repete. 

Mudarás tu ou mudarei eu. 
O mundo acena-te. 
E não se é nada... 
Mas a hora, a hora, a hora tão cobiçada, 
a hora que chegou, 
passando, não passa… 
morrendo, ficou... 
Nos ramos, 
nas heras luzentes, 
na chuvinha suspensa, 
nas voltas do caminho, 
na frescura aspirada, 
na solidão alegríssima e confidente, 
em ti e em mim. 
Ficou. 
Está. 
Mas a ninguém o confesses 
nem disso te convenças. 

Permanece, 
está naquelas flores rosadas, 
quase sem cor, dos lindos arbustos… 
Tornaremos jamais a vê-los sem nos lembrarmos? 
Eles… somos nós passando, 
Tu, silencioso; 
eu, aconchegada. 
Na tua mão quente, 
a minha, presa e enraizada, 
tão segura e tão confiante, 
era uma dádiva. 
Naquele breve momento 
tu a recebias e guardavas. 

Assim, inteira, a mim me guardasses! 

Ou, sequer, a lembrança inconfundível 
do repente doce e acre 
em que me beijaste, 
como se eu fosse uma folha, 
uma baga de árvore 
e tu uma rajada. 
Em que me aspiraste 
ou em que me sorveste... 
Não me ficaria a boca em sangue? 
Deixaste-me, 
deixaste a tua escrava um pouco atemorizada, 
meu senhor. 
Se eu pudesse voar, 
soltar-me dos teus braços, 
iria como um pássaro, receoso e deslumbrado, 
de árvore em árvore, de ramo em ramo, 
sem nada ver, tonto, tonto, 
até que de novo o chamasses. 

Mas a longa, 
a magnânima tarde 
não me concedeu asas... 
Por isso a minha mão dentro da tua, 
sensível e cativa, 
te disse, te repetiu longamente, à saciedade, 
o que bem querias saber 
e até o que sentias. 
Te confessou quanto lhe pediste. 


sábado, 7 de maio de 2016

"Meados de Maio" - Poema de Irene Lisboa


Aleksandra SavinaUmbrella Series 
 


Meados de Maio 


Chuvoso maio! 

Deste lado oiço gotejar 
sobre as pedras. 
Som da cidade ... 
Do outro via a chuva no ar. 
Perpendicular, fina, 
Tomava cor, 
distinguia-se 
contra o fundo das trepadeiras 
do jardim. 
No chão, quando caía, 
abria círculos 
nas pocinhas brilhantes, 
já formadas.

Há lá coisa mais linda 
que este bater de água 
na outra água? 
Um pingo cai 
E forma uma rosa... 
um movimento circular, 
que se espraia. 
Vem outro pingo 
E nasce outra rosa... 
e sempre assim! 

Os nossos olhos desconsolados, 
sem alegria nem tristeza, 
tranquilamente 
vão vendo formar-se as rosas, 
brilhar 
e mover-se a água... 


in 'Antologia Poética'


Aleksandra Savina, Umbrella Series, Acrylic on Canvas


"Alguns pressentem a chuva; outros contentam-se em molhar-se." 



terça-feira, 18 de março de 2014

"Amor" - Poema de Irene Lisboa


Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze), Le Grand Orgasme, 1947


Amor


Aqueles olhos aproximam-se e passam. 
Perplexos, cheios de funda luz,
 doces e acerados, dominam-me. 
Quem os diria tão ousados?
 Tão humildes e tão imperiosos,
 tão obstinados!

 Como estão próximos os nossos ombros! 
Defrontam-se e furtam-se,
 negam toda a sua coragem. 
De vez em quando,
esta minha mão, 
que é uma espada e não defende nada,
 move-se na órbita daqueles olhos,
 fere-lhes a rota curta, 
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor, 
que sensível és...
 Sensível e violento, apaixonado. 
Tão carregado de desejos!

 Acalmas e redobras 
e de ti renasces a toda a hora. 
Cordeiro que se encabrita e enfurece 
e logo recai na branda impotência.

 Canseira eterna! 
Ou desespero, ou medo. 
Fuga doida à posse, à dádiva.
 Tanto bater de asas frementes, 
tanto grito e pena perdida... 
E as tréguas, amor cobarde? 
Cada vez mais longe, 
mais longe e apetecidas. 
Ó amor, amor,
 que faremos nós de ti
e tu de nós?


Irene Lisboa 



Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze), La flamme, 1947



Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze), Bleu optimiste, 1951






Irene Lisboa


Irene Lisboa, Natal de 1917

 
 Irene Lisboa (Arruda dos Vinhos, 25 de dezembro de 1892 – Lisboa, 25 de novembro de 1958), poetisa e ficcionista, foi professora primária, realizou estudos de pedagogia na Suíça, França e Bélgica, tendo, neste domínio, publicado alguns estudos sob o pseudónimo de Manuel Soares. Colaborou em publicações periódicas como Presença, Sol Nascente, Seara Nova, Litoral e Cadernos de Poesia. Depois da publicação do volume de prosa 13 Contarelos, Irene Lisboa faz a sua verdadeira estreia no domínio das Letras portuguesas com a publicação das obras de poesia Um Dia e Outro Dia (1936) e Outono Havias de Vir (1937), sob o pseudónimo de João Falco. Obras acolhidas com louvor por uma parte da crítica, sobretudo aquela próxima de Seara Nova, e que inauguram, para José Gomes Ferreira, um novo molde de escrita poética feminina, levando "a poesia até às últimas consequências do desconcerto formal, dessacralizando-a, esvaziando-a de todos os rituais, sem contudo a banalizar nem tomar ares de revolucionária indómita" (p. 19), sendo que a "preferência não escondida pela gente do povo e o amor por certas pequeninas coisas" são alguns dos traços que lhe valeriam, na sua carreira literária, uma injusta indiferença por parte das casas editoras e da crítica mais conservadora. Do ponto de vista formal, a rutura com os cânones da lírica tradicional funda-se numa poesia de rigor novo, a uma vista inadvertida, próxima da prosa ("Achaste a forma que te convinha,/a forma boa para o teu pensamento.../metrificada ou não/mas curta, emotiva,/exclamativa. /Como tu agora escreves/pensamos nós todos/infinitas vezes." (in "Outro Dia", Um Dia e Outro Dia...); "Escrever assim... / escrever sem arte,/sem cuidado,/sem estilo,/sem nobreza,/sem lindeza.../sem maior concentração,/sem grandes pensamentos,/sem belas comparações,/não será escrever!/Mas assim me apetece,/que o entendam ou não,/que o admitam ou não,/escrever.../estender/o delgado, esfiado,/inoperante/pensamento." (in "Outro Dia" in Um Dia e Outro Dia...), impressão corroborada pela epígrafe que abre o segundo volume de versos, Ao que vos parecer versos chamai verso e ao resto chamai prosa, e que ficaria célebre na polémica - que teve como defensores, entre outros, Adolfo Casais Monteiro - para a afirmação do verso livre em Portugal. A escrita confessional, a atenção a momentos e pequenos nadas do quotidiano, a observação dos mais humildes, muitas vezes contendo implicitamente uma crítica a valores burgueses, a consciência de si mesma objetivizada no confronto com um mundo inóspito, transitarão da poesia para o volume Solidão - Notas do Punho de uma Mulher, uma obra híbrida, que se aproxima do género diarístico pela inclusão de algumas datações genéricas e por um pendor introspetivo que procura desarticular as causas de um mal-estar indefinido - dir-se-ia uma menina e moça da atualidade, obsidiada por uma tristeza omnipresente e encontrando na escrita um instrumento de autoconhecimento -, apoiando-se na memória e no registo da momentaneidade, mas que se aproxima também da novelística pela transfiguração da "experiência de observação do mundo e dos outros" (retratos, cenas) em "matéria de escrita" (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras de Irene Lisboa, Lisboa, Presença, 1991). Entre a obra poética e publicação destas notas inscreve-se o volume narrativo Começa uma Vida, que, continuado em Voltar Atrás para Quê?, dá sequência, agora, sob a forma de novela autobiográfica, a um discurso do eu que se autoanalisa com lucidez e melancolia, e ao intimismo auto-reflexivo e fragmentário daqueles dois outros registos. A sua bibliografia abrange ainda obras para crianças, como Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma ou Queres Ouvir? Eu Conto - Histórias Para Maiores e Mais Pequenos se Entreterem, e coletâneas de crónicas, como O Pouco e o Muito, Esta Cidade ou Título Qualquer Serve. No que diz respeito ao género cronístico, também aí o "o sujeito aprende sobre si mesmo a partir da observação do mundo, alternando movimentos que o dobram sobre si com outros que, no exterior, lhe fornecem materiais de contraste. [...] As "vidas que me cercam", deste modo, têm um efeito de espelho amplificador da vida da narradora, assim posta na posição axial de quem faz parte de um tempo e de uma cidade." (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras Completas de Irene Lisboa. Esta Cidade!, vol. V, Lisboa, Presença, 1995, pp. 10-11).

Irene Lisboa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-03-18].


 
Irene Lisboa, Quinta dos Lacerdas Palma de Baixo, Outubro de 1933