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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

"Ah! Os Relógios" - Poema de Mário Quintana



David Burliuk (Russian poet, artist and publicist of Ukrainian origin,
1882–1967), 'The time', 1910


Ah! Os Relógios


Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...


Mário Quintana
,
in 'A Cor do Invisível'

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Romance" - Poema de Afonso Lopes Vieira



Giacomo Balla (Italian painter, art teacher and poet, 1871–1958),
'Flight of the Swallows' ('Voo das Andorinhas'), 1913.


Romance


Por noite velha, truz truz,
Bateram à minha porta.
— De onde vens, ó minha alma?
— Venho morta, quase morta.

Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.

Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
— De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?

Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!

Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».

— Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.


Afonso Lopes Vieira,
in 'Ilhas de Bruma', 1917



Umberto Boccioni, 'Estados de espírito (estudo): aqueles que ficam', 1911.
 Óleo sobre tela, Museu de Arte Moderna de Nova York.



Umberto Boccioni, 'Estados de Alma III - Aqueles que permanecem', 1911,
 MoMA, Nova York


"A vida é o pouco que nos sobra da morte."

Walt Whitman
 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

"Gargalhada" - Poema de Cecília Meireles

 

Giacomo Balla (Italian painter, art teacher and poet, 1871–1958),
'Pessimism and Optimism', 1923


Gargalhada


Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
- e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas. Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje esta música heroica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.


Cecília Meireles, in 'Viagem', 1939 

sábado, 5 de setembro de 2015

"Uma Ausência de Mim" - Soneto de Alberto da Costa e Silva


Fortunato Depero, Portrait of Gilbert Clavel, (Figura seduta al caffè), 1918


Soneto


Uma ausência de mim por mim se afirma.
E, partindo de mim, na sombra sobre
o chão que não foi meu, na relva simples
outro ser que sonhei se deita e cisma.

Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores,
os bichos sob o sol, a chuva e tudo —
ou foi o sonho dos demais que sonho?

A epiderme da vida me vestiu,
ou breve imaginar de um ócio inútil
ergueu da sombra a minha carne, ou sou

um casulo de tempo, o centro e o sopro
da cisma do outro ser que de mim fala
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba.

in 'A Linha da Mão'

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"Queixas de um Utente" - Poema de José Miguel Silva




Queixas de um Utente

 
Pago os meus impostos, separo 
o lixo, já não vejo televisão 
há cinco meses, todos os dias 
rezo pelo menos duas horas 
com um livro nos joelhos, 
nunca falho uma visita à família, 
utilizo sempre os transportes 
públicos, raramente me esqueço 
de deixar água fresca no prato 
do gato, tento ser correto 
com os meus vizinhos e não cuspo 
na sombra dos outros. 

Já não me lembro se o médico 
me disse ser esta receita a indicada 
para salvar o mundo ou apenas 
ser feliz. Seja como for, 
não estou a ver resultado nenhum. 


José Miguel Silva, 
in 'Ulisses Já Não Mora Aqui'




Fortunato Depero (1892-1960)

domingo, 30 de agosto de 2015

"Pedra Tumular" - Poema de António Manuel Couto Viana


Fortunato Depero, War-party, 1925. National Gallery of Modern Art, Rome


Pedra Tumular


A minha geração fugiu à guerra, 
Por isso a paz que traz não tem sentido: 
É feita de ignorância e de castigo, 
Tão rígida e tão fria como a pedra. 

Desfazem-se-lhe as mãos em gestos frágeis, 
Duma verdade inútil por vazia, 
E a língua imóvel nega o som à vida, 
Por hábito ou por falta de coragem. 

Se há rumores lá de fora, às vezes, lembra: 
Porque é que pulsa o coração do mundo, 
Precipitado, angustioso, ardente? 

Mas depressa submerge na indiferença 
- Que lhe deram um túmulo seguro; 
E o relógio dá-lhe horas certas, sempre. 


in 'Mancha Solar'


Fortunato Depero, The Chair’s Party, 1927


"A biblioteca é o templo do saber, e este tem libertado mais pessoas do que todas as guerras da história."
 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

"Elegia" - Poema de Alberto Pimenta



Giacomo Balla (Italian Futurist painter, art teacher and poet, 1871–1958),
'Abstract Speed + Sound
' ('Velocità Astratta + Rumore'), 1913–1914.

Peggy Guggenheim Collection, Venice
 
 
elegia


já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja


Alberto Pimenta,
in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca' 
 

Alberto Pimenta 


Alberto Pimenta, poeta e ensaísta, formado em Germânicas pela Universidade de Coimbra, desenvolveu a atividade de docente na Universidade de Heidelberg, entre 1960 e 1976, e na Universidade Nova de Lisboa. 
 
Herdeiro da revolução surrealista e da poesia experimental, a poesia, para Alberto Pimenta, é um ato poético, "atual/atuante", que deve ser experimentado e que tem como essência o seu carácter fundamentalmente libertário, emancipado de qualquer retórica ou géneros preestabelecidos ou de qualquer literatura oficializada pela crítica. 
 
Inconformista e iconoclasta, a sua atividade (contra) cultural recobre diversos domínios, como as obras visuais, a poesia, atos poéticos e intervenções teatrais, a teoria, a prosa, a organização de antologias e a edição de obras raras. 
 
Revelada nos anos revolucionários de 70, a obra de Alberto Pimenta opera uma sistemática e satírica provocação aos agentes de uma cultura literária institucionalizada e, de modo lato, ao convencionalismo, ao kitsch, ao moralismo burguês capitalista, provocação, aliás, corroborada por alguns atos simbólicos de que apresenta testemunho em Obra Quase Incompleta (em 31 de julho de 1977, Alberto Pimenta encerrou-se numa jaula no Jardim Zoológico de Lisboa; em 25 de maio de1991, expôs-se para venda à porta da Igreja dos Mártires; no dia 10 de junho do mesmo ano queimou publicamente o seu ensaio O Silêncio dos Poetas, entre muitos outros). 
 
O seu projeto de rutura vanguardista ultrapassa, assim, a perspetiva de defesa de uma forma estética completa, que deve integrar a palavra dita, representada, visualizada ou lida, para conter em si a noção de que a palavra literária opera uma constante transgressão, não podendo ser controlada por qualquer forma de poder, inclusivamente o crítico. (daqui)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

"A Paz sem Vencedor e sem Vencidos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Umberto Boccioni, sketch of "The City Rises", 1910.


A Paz sem Vencedor e sem Vencidos 


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 
A paz sem vencedor e sem vencidos 
Que o tempo que nos deste seja um novo 
Recomeço de esperança e de justiça 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Fazei Senhor que a paz seja de todos 
Dai-nos a paz que nasce da verdade 
Dai-nos a paz que nasce da justiça 
Dai-nos a paz chamada liberdade 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dual", 1972.
 

Umberto Boccioni, Self-portrait, 1905.
 
Umberto Boccioni foi um pintor e escultor italiano, nascido no dia 19 de outubro de 1882, em Reggio di Calabria, e falecido no dia 16 de agosto de 1916, em Sorte (Verona), em consequência de uma queda de cavalo durante manobras militares. 
Foi um dos representantes máximos do movimento futurista que defendia o progresso acidental, a máquina e o estilo de vida ruidoso e agitado da vida urbana. 


Umberto Boccioni, Self-portrait, oil on canvas, 1905,
 Metropolitan Museum of Art.
 
Em 1901, mudou-se para Roma para estudar, acabando por fazer amizade com outros pintores, pertencentes a este movimento. No início, mostrou-se interessado na pintura impressionista, principalmente na obra de Cézanne. Fez então algumas viagens a Paris, São Petersburgo e Milão.


Umberto Boccioni, The City Rises, 1910.
 
Regressando em 1910, entrou em contacto com Carlo Carrà, Luigi Russolo e Filippo Tommaso Marinetti e, um ano depois, encontrava-se entre os autores do "Manifesto Futurista de Pintura", do qual foi um dos principais teóricos. Foi com a intenção de procurar as bases dessa nova estética que viajou para Paris, onde se encontrou com Pablo Picasso e Georges Braque.


Horizontal Volumes by Umberto Boccioni, 1912.
 
Ao retornar, em 1912, publicou o "Manifesto Técnico da Pintura Futurista", no qual foram registados os princípios teóricos da arte futurista: condenação do passado, desprezo pela representação naturalista, indiferença em relação aos críticos de arte e rejeição dos conceitos de harmonia e bom gosto aplicados à pintura. 
Nesse mesmo ano, participou da primeira exposição futurista mas as suas obras ainda deixavam transparecer a preocupação do artista com os conceitos propostos pelo cubismo. Os retratos deformados pelas sobreposições de planos ainda não conseguiam expressar com clareza a sua conceção teórica. 


Umberto Boccioni, Dynamism of a Cyclist, 1913.

Um ano mais tarde, com sua obra Dinamismo de um Jogador de Futebol, Boccioni conseguiu finalmente fazer a representação do movimento por meio de cores e planos desordenados, como num pseudofotograma.


Umberto Boccioni, Unique Forms of Continuity in Space, 1913.
 
Em 1911, inicia a sua atividade como escultor, com obras menos numerosas que as suas pinturas mas mais livres e atrevidas e onde sempre afloram elementos neoimpressionistas, conseguindo um intercâmbio surpreendente entre o côncavo e o convexo, superando as experiências cubistas. 


'Development of a Bottle in Space', bronze sculpture 
by Umberto Boccioni, 1913, Metropolitan Museum of Art.
 
Nas suas obras escultóricas, que combinam madeira, ferro e cristal, Boccioni pretende ilustrar a interação que se estabelece entre um objeto em movimento e o espaço que o rodeia.
Apesar de tudo, permaneceu sempre muito ligado a uma conceção romântica e tradicional do movimento e do quadro como janela. 
Em 1915, participou como voluntário na Primeira Guerra Mundial e, é nesta altura que começa a distanciar-se do futurismo (da velocidade e do dinamismo), aproximando-se de uma análise das imagens plásticas, isto é, dos volumes arredondados e mais estáticos, influenciado por Cézanne.

Umberto Boccioni. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-03].


Portrait of Ferruccio Busoni, 1916 by Umberto Boccioni, 


Umberto Boccioni, Landscape-Mountains, 1916.