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quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Algumas reflexões sobre a mulher" - Poema de Eugénio de Andrade


 
William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916),
'I am Going to See Grandma' (aka 'Mrs. Chase and Child'), 1889,
San Antonio Museum of Art.



Algumas reflexões sobre a mulher


Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.


Eugénio de Andrade
(1923–2005),
 in "Coração do Dia", 1958.


 
William Merritt Chase
, 'Portrait Group (Dorothy, Helen, and Bob)', c. 1904.
Oil on canvas. North Carolina Museum of Art.

[By all accounts William Merritt Chase was a doting father. Though he painted many members of wealthy white society of his time, the artist took special delight in portraying his wife, their eight children, and the boisterous life of the Chase household. However, in this formal ensemble, all is decorous and well mannered. The children are clearly experienced models. Four-year-old Bob grips his father’s cane with authority.] (daqui)
 

 
William Merritt Chase, 'Afternoon by the Sea' (aka 'Gravesend Bay'), 1888,
  Private Collection.
 

E tu, sozinho e pensativo na tua dor,
procurarás a tua mãe, e nestes braços
esconderás o teu rosto;
no seio que nunca muda terás repouso. 


Giuseppe Giusti
(1809–1850),
trecho do poema 'Affetti d'una Madre'.
 

domingo, 14 de setembro de 2025

"Mulher" - Poema de José Carlos Ary dos Santos


 Ezequiel Pereira (Pintor português, 1868 - 1943), "Lavando roupa no rio", 1894.


Mulher


A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama.

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração.

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha.

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são.

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade.

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher.


José Carlos Ary dos Santos
(Poeta e declamador português, 1936–1984)



Ezequiel Pereira, Cruz Quebrada, 1891.


"No homem, o desejo gera o amor; na mulher o amor gera o desejo."

"In men, desire begets love, and in women, love begets desire."
 
Jonathan Swift

Citando Fitzharding, em carta de 28 de outubro de 1712 in "The works of Jonathan Swift:
containing additional letters, tracts, and poems not hitherto published;
with notes, and a life of the author"‎ - Volume 3, Página 61.

 
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.

Ezequiel Pereira, pintor paisagista e professor, nasceu em Lisboa em 1868. Discípulo de Silva Porto, estudou em Paris e destacou-se no ensino artístico durante 40 anos. Foi premiado em várias exposições e condecorado pelo Governo. Viveu entre Lisboa, Ponta Delgada e Faro, deixando um legado de dedicação à arte e à educação. Faleceu em 1943, tendo a sua obra sido homenageada postumamente.


 
Duarte Faria e Maia (Pintor açoriano, 1867 - 1922), 
Autorretrato, c. 1897, Museu Carlos Machado.
 
Duarte Faria e Maia estudou em Paris, em 1887, onde foi discípulo de Blanc, Dupain e Olivier Merson, destacando-se como pintor de costumes populares, da vida rural e de paisagens. Participou nas exposições do Grémio Artístico, em 1882, na Sociedade Promotora de Belas-Artes, em 1887, e na 1ª Exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em 1901. 
A principal coleção das suas pinturas encontra-se no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, instituição que possui cerca de três dezenas de obras deste pintor. Está representado no Museu do Chiado, em Lisboa, com o Retrato do Pintor Ezequiel Pereira (1903).

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

"Ser Mulher" - Poema de Gilka Machado



Jens Juel (Danish painter, 1745–1802), Portrait of Thomasine Gyllembourg
(Danish author, 1773–1856), c. 1790.



Ser Mulher


Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!


Gilka Machado, in "Cristais partidos", 1915.


sexta-feira, 26 de julho de 2024

"Evocação feminina" - Poema de Virgínia Schall



Claude Monet
 (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926).
Women in the Garden (Femmes au jardin), 1866, Musée d'Orsay.



Evocação feminina 
 
(Dedico este poema às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa (in memoria)
 e especialmente à poeta e amiga Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres poetas
 de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos séculos.)

 
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras.

E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.

Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes.

Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias.

Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.

O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?

Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados.
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas.

Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!
[Escritora, cientista, educadora e poetisa brasileira, 1954 - 2015]


Claude Monet, Le Parc Monceau, 1878, Metropolitan Museum of Art.


"Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação."

Clarice Lispector
(1920-1977), em crónica "O artista perfeito", 1969
e posteriormente publicada no livro "A Descoberta do Mundo", 1984.

terça-feira, 23 de abril de 2024

"Mulheres do meu país" - Poema de Maria Teresa Horta

 

 
Ilustração de Bárbara Amaral, À Boleia do Cravo



Mulheres do meu país


Deu-nos Abril
o gesto e a palavra

fala de nós
por dentro da raiz

Mulheres
quebrámos as grandes barricadas
dizendo: igualdade
a quem ouvir nos quis

E assim continuamos
de mãos dadas

O povo somos:
mulheres do meu país


Maria Teresa Horta, in “Mulheres de Abril”,
Lisboa, Editorial Caminho, 1977.
 
 
Maria Teresa Horta,“Mulheres de Abril” - 1º edição, 1977,
112 páginas. Lisboa, Editorial Caminho.
 
 
 RESUMO


O livro "Mulheres de Abril", de Maria Teresa Horta, de 1977, utiliza-se de uma linguagem política engajada na tentativa de levante da mulher como testemunha tanto do processo de desvinculação ditatorial ocorrida na Revolução dos Cravos, quanto da história opressora fomentada pelo patriarcalismo. A mimese desse testemunhar se dá principalmente por via da memória poética feminina.
 

segunda-feira, 25 de março de 2024

"Há cidades cor de pérola" - Poema de Herberto Helder


Albert Henry Collings (English artist, 18681947), 'Portrait of Gertie Millar'
(English actress and singer, 1879–1952), 1905.
 

Lugar IV


Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois noturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
Olho minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um desespero 
fulminante, 
a quem beijo os pés supostos 
entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
 a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
 ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.


Herberto Helder, in 'Lugar', 1962,
in 'Poesia Toda', Assírio & Alvim, 1996
 

Albert Henry Collings (English artist, 18681947), 'The Fish Bowl', 1907


Teoria das cores

 
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exatamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efetuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou o peixe amarelo.


Herberto Helder, Os Passos em Volta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 22-24


sexta-feira, 8 de março de 2024

"Cantiga de Amor" - Poema de Manuel Bandeira



Charmaine Olivia
 (Contemporary artist, born in Southern California, 1988),
 Marilyn Monroe (American actress, model and singer, 1926–1962).


Cantiga de Amor 


Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci)
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basileia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!


Manuel Bandeira (1886–1968), Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986 - p. 418-419.

 


Charmaine Olivia
, Secret Life of Marilyn Monroe, 2015.


Marilyn Monroe
 
 
Atriz norte-americana, e um dos grandes símbolos sexuais do cinema, nascida a 1 de junho de 1926, em Los Angeles, na Califórnia, e falecida a 5 de agosto de 1962, também na Califórnia. De seu nome verdadeiro Norma Jean Mortensen, viveu uma infância atribulada, com o pai a abandonar o lar e a mãe a sofrer problemas mentais. Educada num orfanato, casou-se aos 16 anos com um homem que lhe infligia maus tratos. Torna-se operária fabril e mais tarde modelo de pin-ups
Em 1946, é contratada pela 20th Century Fox como figurante, participando nessa condição em filmes como The Shocking Miss Pilgrim (1947), The Asphalt Jungle (Quando a Cidade Dorme, 1950), All About Eve (Eva, 1950) e Monkey Business (A Culpa Foi do Macaco, 1952). 
Foi Howard Hawks quem reparou no seu potencial, colocando-a como protagonista ao lado de Jane Russell na comédia Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Louras, 1953). O filme é um sucesso retumbante, elevando Monroe à categoria de «diva loura» e de símbolo sexual. 
Depois de filmar o western River of No Return (Rio Sem Regresso, 1954), teve um casamento mediático com a estrela do basebol Joe Di Maggio, ligação que durou 18 meses. 
Filmou pela primeira vez sob a orientação de Billy Wilder em The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado, 1956), um grande êxito a nível internacional. Apostada em consagrar-se como atriz dramática, decide matricular-se no Actors Studio, tornando-se colega de Montgomery Clift, de quem se torna grande amiga.
Em Nova Iorque, conhecerá o dramaturgo Arthur Miller com quem se casará em finais de 1956. Com o seu contrato reforçado, protagoniza a comédia Bus Stop (Paragem de Autocarro, 1956) e The Prince and the Showgirl (O Príncipe e a Corista, 1957), mas o último falharia nas bilheteiras. Quase simultaneamente, a sua vida pessoal torna-se muito instável: o seu casamento com Miller estava a passar por uma crise, obrigando a atriz a refugiar-se no álcool e nas drogas. Será Billy Wilder quem a convencerá a interpretar aquele que seria o papel mais célebre da sua carreira: o de Sugar Kane, uma intérprete musical que sonha em casar com um milionário na comédia Some Like It Hot (Quanto Mais Quente Melhor, 1959). Em seguida, contracenou com Yves Montand em Let's Make Love (Vamo-nos Amar, 1960).
Vítima de sucessivas depressões nervosas, a fragilidade da atriz começou a causar-lhe numerosos dissabores profissionais: durante as rodagens de The Misfits (Os Inadaptados, 1961), foram constantes as suas discussões com o realizador John Huston e Clark Gable, para além de numerosos atrasos. Paralelamente, circulavam boatos das suas ligações afetivas clandestinas com o presidente John Kennedy e com Robert Kennedy. 
No dia 5 de agosto de 1962, um mês depois de ter sido despedida por George Cukor das filmagens de Something's Got to Give (1962), a atriz foi encontrada inanimada na cama do seu apartamento. A autópsia revelou suicídio por ingestão de barbitúricos, mas a hipótese de crime ainda hoje é ventilada. (daqui)
 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

"Poema melancólico a não sei que mulher" - Poema de Miguel Torga


 
Raimundo de Madrazo y Garreta (Spanish painter, 1841–1920),
Young Lady with a Mask and Glass of Absinthe, Unknown date.
 

Poema melancólico a não sei que mulher 
 
 
Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão... 


Miguel Torga
, in 'Diário VII'
 
 
Raimundo de Madrazo y Garreta, Preparing for the Costume Ball, Unknown date,
 Private collection.
 
 
"Mulheres sem charme são como poetas que não leem."

"Les femmes sans charme sont comme les poètes qu'on ne lit pas."
 
Astolphe de Custine, in "Le monde comme il est" - Página 101; 
 Publicado por E. Renduel, 1835.


Raimundo de Madrazo y Garreta, Aline with a mask, Unknown date,
National Museum of Fine Arts of Cuba.


"Todo mundo diz que as mulheres são como a água. Penso que é porque a água é a fonte da vida e se adapta ao ambiente. Assim como as mulheres, a água dá de si mesma em todo lugar aonde vai para nutrir a vida."
 
  Xinran, As Boas Mulheres da China. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

domingo, 19 de novembro de 2023

"Abnegação" - Poema de Antero de Quental



Adolfo Belimbau
(Italian painter, 1845 - 1938), The Butterfly Girl



Abnegação



Chovam lírios e rosas no teu colo!
Chovam hinos de glória na tua alma!
Hinos de glória e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!

Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palma,
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!

E nem sequer te lembres de que eu choro...
Esquece até, esquece, que te adoro...
E ao passares por mim, sem que me olhes,

Possam das minhas lágrimas cruéis
Nascer sob os teu pés flores fiéis,
Que pises distraída ou rindo esfolhes!


Antero de Quental, in Odes Modernas, 1865
 
 
Adolfo Belimbau (Italian painter, 1845 - 1938)
 
 
A importância da Mulher no progresso da civilização 
 
 
"Se na história não procurarmos só uma data ou um facto descarnado, mas tentarmos nela descobrir alguma coisa mais, um princípio harmónico e as leis que governam esses factos, ainda nas suas menores evoluções, veremos que a história da civilização da mulher, do seu desenvolvimento e da sua moralidade, anda sempre ligada aos factos do desenvolvimento da civilização e da moralidade dos povos: veremos que aonde a sua condição se amesquinha, onde desce em dignidade, onde a mulher em vez do triplo e sagrado carácter de amante, esposa e mãe passa a ser escrava sem liberdade nem vontade, só destinada a saciar as paixões brutais dum senhor devasso, aí também veremos descer o nível da civilização e moralidade: à doçura dos costumes suceder a fereza e a brutalidade; e em vez do amor, essa flor do sentimento pura e recatada, só apareceram a paixão instintiva e brutal, necessidade puramente física do animal que obedece à lei da reprodução, à devassidão e à poligamia!" 


Antero de Quental (1842–1891), in 'Prosas da Época de Coimbra'

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

"Retrato de mulher" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Winslow Homer (American painter and illustrator, 1836 - 1910), Reverie, 1872



Retrato de mulher


Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade 


Sophia de Mello Breyner Andresen
,
em “O Nome das Coisas”, Assírio & Alvim.
 
 
 
"O Nome das Coisas" de Sophia de Mello Breyner Andresen
Edição/reimpressão: 09-2015 
 
 
Sinopse

«O Nome das Coisas» foi publicado pela primeira vez em 1977, pela Moraes Editores. A edição que agora se apresenta mantém a antiga ortografia e obedece à fixação de texto levada a cabo por Carlos Mendes de Sousa e Maria Andresen Sousa Tavares. «O Nome das Coisas», diz-nos Fernando Cabral Martins no prefácio que preparou para esta edição, «[…] parece procurar uma geografia portuguesa e europeia, mas que logo se torna aérea, um espaço misturado de ideias, transmutado em alguma coisa de mais transparente. Desenha uma realidade que serve a uma habitação religiosa do mundo. Num primeiro momento, parece suspender a representação, construindo um mundo à parte. Logo, no entanto, a pregnância da história cria como que pequenas fissuras, e a presença de certas coisas exteriores passageiras e concretas impõe a opacidade e a impureza.» (daqui)
 

sábado, 4 de julho de 2020

"Se te chamarem flor" - Poema de Geir Nuffer Campos



William Brymner (Canadian painter and educator, 1855–1925),
'Portrait of a Young Girl', 1904, Winnipeg Art Gallery.


Cantiga de acordar mulher


Se te chamarem flor
toma cuidado:
vê se não é gente que te quer por
numa redoma – lindo objeto – a vegetar
alheia a tempo e lugar!

Se te chamarem flor,
acorda e toma cuidado:
olha que te levam para o mesmo lado
de tanto destino mal-aventurado!


Geir Nuffer Campos,
in 'Cantiga de acordar mulher' 


sábado, 20 de junho de 2020

"Cantiga de acordar mulher" - Poema de Geir Nuffer Campos



Ernst Ludwig Kirchner (German expressionist painter, 1880–1938),
'Two Women', 1911–12/1922. Los Angeles County Museum of Art.



Cantiga de acordar mulher



Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida…
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
 
in 'Cantiga de Acordar Mulher', 1964.



Ernst Ludwig Kirchner, 'Head of the Painter'
 ('Self-portrait'), 1925.



"A paixão quer que tudo seja eterno, mas a natureza impõe que tudo acabe."

(Denis Diderot)
 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

"Vêm da infância" - Poema de Eugénio de Andrade



Henri Fantin-Latour (French painter and lithographer, 1836–1904), 'La Lecture', 1877,


Vêm da infância


Vêm da infância, essas mulheres.
Caladas, discretas, sem pressa
de existir. Esplêndidas mulheres essas,
penteadas com a risca ao meio,
as orelhas descobertas pelo cabelo
de sombra clara.
No seu coração o mundo
não era tão pequeno e o que faziam
não lhes parecia humilhação.
Sabiam envelhecer com a vagarosa
luz das crianças
e dos animais da casa.
A par da rosa.


Eugénio de Andrade,
in 'Sal da língua', 1995
.

 
 Henri Fantin-Latour, 'A Leitura', 1870, Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa


"Quando as mulheres têm génio, acho-as mais originais do que nós."

(Denis Diderot)


 
 Henri Fantin-Latour, 'The Two Sisters', 1859, Saint Louis Art Museum, St. Louis (Missouri)


"A mulher é o primeiro domicílio do homem."

(Denis Diderot)
 

quarta-feira, 27 de maio de 2020

"Revolução e Mulheres" - Texto incluído no livro "Cravo" de Maria Velho da Costa


Charles Sprague Pearce, Auvers-sur-oise, 1914



REVOLUÇÃO E MULHERES



1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insetos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.


Charles Sprague Pearce, In the Poppy Field, 1914



2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no elétrico para um carrinho de corda.


Charles Sprague Pearce,Women in the Fields


3. PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.


Charles Sprague Pearce, Harvester


4. SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.


Charles Sprague Pearce, Solitude, 1889 


5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:

— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quis.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso. 
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.


 
Charles Sprague Pearce, Peines de Coeur


6. PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.


Charles Sprague Pearce, Le retour du troupeau


7. REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.(Daqui)

Dezembro 1975

Maria Velho da Costa, Cravo, Lisboa, Moraes Editores, 1976.


Charles Sprague Pearce, Reading by the Shore


"A mulher é uma flor que se estuda, como a flor do campo, pelas suas cores, pelas suas folhas e sobretudo pelo seu perfume."

José de Alencar,
in Cinco minutos / A viuvinha