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terça-feira, 2 de abril de 2013

"De um Amor Morto" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Caspar David Friedrich - Os penhascos de Rügen, c. 1818.
 


De um Amor Morto


De um amor morto fica 
Um pesado tempo quotidiano 
Onde os gestos se esbarram 
Ao longo do ano 

De um amor morto não fica 
Nenhuma memória 
O passado se rende 
O presente o devora 
E os navios do tempo 
Agudos e lentos 
O levam embora 

Pois um amor morto não deixa 
Em nós seu retrato 
De infinita demora 
É apenas um facto 
Que a eternidade ignora 


 


Vida e obra de Caspar David Friedrich

Portrait of Caspar David Friedrich, 
Gerhard von Kügelgen c. 1810–20


Caspar David Friedrich (5 de setembro de 1774 - 7 de maio de 1840) foi um pintor, gravurista, desenhista e escultor romântico alemão. Friedrich, grande paisagista, é o mais puro representante da pintura romântica alemã. Suas paisagens primam pelo simbolismo e idealismo que transmitem. 


Caspar David Friedrich in his Studio (1819), by Georg Friedrich Kersting


Friedrich nasceu em Greifswald e estudou na Academia de Copenhague. Em 1798, instalou-se em Desden, onde se tornou membro de um circulo artístico e literário, imbuído de ideais do movimento romântico.


Caspar David Friedrich - Cross in the Mountains 1805-06, Pencil and sepia, 640 x 931 mm 


Seus primeiros desenhos, delineados com lápis ou com sépia, exploravam motivos recorrentes em seu trabalho: praias rochosas, planícies áridas, cadeias infinitas de montanhas e árvores se agigantando em direção ao céu. Mais tarde, seu trabalho passou a refletir uma resposta emocional ao cenário real e visível.


Caspar David Friedrich - Manhã sobre a montanha, 1810-11. 


Friedrich começou a pintar óleos em 1807. Uma de suas primeira telas, "A cruz nas montanhas", é bem representativa do amadurecimento de seu estilo.


Caspar David Friedrich - Cross in the Mountains (Tetschen Altar) 


Na obra "A cruz nas montanhas" há um ousado rompimento com a pintura religiosa tradicional e um destaque especial para a paisagem. A figura do Cristo crucificado se reproduz em silhueta, criada pelo Pôr-do-Sol na montanha, dominando o ambiente.


Caspar David Friedrich - Cruz e catedral na montanha, 1812.


Como escreveu o próprio pintor, todos os elementos da composição tem um significado simbólico. As montanhas são alegorias da fé; os raios de sol simbolizam o fim do mundo pré-cristão; e os pinheiros marcam o surgimento da esperança.


View of a Harbour by Caspar David Friedrich, 1815-1816


As cores frias mas ácidas de Friedrich, com brilhante luminosidade, e a variedade de contornos, aumentam o sentimento de melancolia, de isolamento, trazendo a sensação de impotência humana diante das forças da natureza expressas em suas pinturas.
 

Caspar David Friedrich - O peregrino sobre o mar de névoa, 1818.


Como membro efetivo da Academia de Dresden, Friedrich acabou por influenciar muitos pintores românticos alemães que vieram após ele. Ainda que sua projeção tenha diminuído após a morte, é certo que os observadores do Século 20 permanecem fascinados com sua imaginação. 

Hoje ele é tido como um dos ícones de Romantismo alemão, com uma obra de importância internacional, e um dos melhores paisagistas de todos os tempos.


Caspar David Friedrich - Casal contemplando a lua, 1830-35.

domingo, 8 de abril de 2012

"Tempo" - Poema de Miguel Torga



Gerhard von Kügelgen, Allegory of Grief (Alegoria de luto), 1815,
Deutsches Historisches Museum
 

Tempo 


Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 

Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 


Miguel Torga
, in 'Cântico do Homem'


Tranquility - Time Solitaire. Music United with Nature.



"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer
do seu próprio conhecimento"


Platão


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Mulheres à beira-mar" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Michael Ancher (Danish realist artist, 1849-1927), A Stroll on the Beach, 1896
 


Mulheres à beira-mar


Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente
a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga,
feliz de ser tão verde.




Michael Ancher, "Two Women on the Beach at Skagen", 1908.


"Só a fantasia permanece sempre jovem; o que nunca aconteceu nunca envelhece."

(Friedrich Schiller)




Johann Christoph Friedrich von Schiller, poeta e dramaturgo alemão, nasceu em Marbach (Württemberg), em 1759, e morreu em Weimar, em 1805.
Contra vontade, faz os seus estudos superiores, cursando Medicina, e chega a ser médico militar. De espírito exaltado, e ainda influenciado pelos escritos do historiador e filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), defende e propaga ideias verdadeiramente anárquicas, o que o obriga a uma vida errante. Por desobediência às leis do país, com saídas não autorizadas para o estrangeiro, é preso e impedido de escrever, motivo por que resolve fugir para Mannheim. A sua ânsia de liberdade revela-se, com exaltação, na sua primeira obra, que ele escreve aos 21 anos, o drama Os Salteadores (1780), que tem uma estreia ruidosa no Teatro Nacional de Mannheim e torna o seu autor conhecido no mundo do teatro.
Ainda do período da sua juventude irrequieta são a sátira Intriga e Amor (1784) e os dramas Conspiração de Fiesko (1783) e Dom Carlos (começo) (1783), em que faz a apologia do republicanismo humanista e que lhe granjeia o título de cidadão francês.
Em 1783-84 exerce o lugar de poeta dramático em Mannheim, mas a sua situação financeira entra em declínio, de que é salvo por um amigo que lhe garante a subsistência durante os anos de 1785 a 1787, que ele passa em Leipzig e Dresden.
Em 1787 conclui o drama Dom Carlos e faz a sua mudança para Weimar. Logo em 1788 escreve para a revista Rheinische Thalia o conto O Visionário.
Dedica-se então a trabalhos sobre temas históricos e publica, também em 1788, a História da Queda dos Países Baixos, o que lhe proporciona um lugar de professor na Universidade de Jena, tendo feito a sua entrada naquela universidade com uma conferência subordinada ao título: Que significa e com que finalidade se estuda História Universal?
Em 1790 casa com Charlotte von Lengefeld.
A propósito da publicação da sua História da Guerra dos Trinta Anos (1793) foi-lhe concedida uma bolsa de estudo, na Dinamarca, para o estudo intensivo do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), pelo que teve de se ausentar para aquele país. Em 1794, já de novo em Weimar, dá-se a aproximação e estabelece-se a amizade com o escritor Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e começam os trabalhos dos dois poetas para revistas de literatura e arte. Schiller publica algumas baladas: O Mergulhador e Os Grous do Íbico.
Em 1799 publica a trilogia dramática Wallenstein, a que se seguem trabalhos de índole filosófica como Cartas Filosóficas de Júlio e Rafael, O Ideal e a Vida, Os Artistas, Canção do Sino e Sobre a Educação Estética do Homem (1793), em que o poeta exprime os seus conceitos de estética e moral.
Através de todas as obras de Schiller está presente a ideia da liberdade, que toma forma nova, ao mesmo tempo que ele próprio passa a ter um espírito novo. Na sua juventude era a luta pela liberdade «física» que o preocupava; na sua idade madura é a liberdade «ideal» que o inspira para a construção das suas grandes obras.
Mas, apesar de a estrutura de Wallenstein e a de Maria Stuart serem obra de mestre, Schiller não está satisfeito: a sua preocupação dominante é agora construir um drama em verso que, em contexto histórico, dê forma ao conflito trágico entre as personagens, no seu encadeamento geral, e a sua determinação de conquistar a liberdade moral, o que só é possível na queda ou na renúncia abnegada.
Em satisfação deste seu desejo, Schiller escreve, nos últimos anos da sua vida, as três obras de maior significado de toda a sua atividade literária: A Donzela de Orleães (1801), com a qual cria a tragédia romântica; A Noiva de Messina (1803), através da qual restabelece o coro do teatro antigo; e Guilherme Tell (1804), com o qual institui o drama popular como festival.
Schiller morreu em 1805 e com ele o expoente máximo da história do teatro alemão.

Friedrich von Schiller. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.