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domingo, 21 de julho de 2024

"Atração" - Poema de João de Deus


Fernand Toussain (Belgian painter and illustrator, 1873–1956), Contemplation.



Atração


Meus olhos sempre inquietos
Que posso até dizer,
Só acham na alma objetos
Que os possam entreter;

Meus olhos... coisa rara!
Porque hão de em ti parar
Como a corrente para
Em encontrando o mar!?

E penso nisto, cismo...
Mas é tão natural
Cair-se no abismo
Duma beleza tal!...

Olhei!... Foi indiscreta
A vista que te pus.
A pobre borboleta
Viu luz... caiu na luz!

Uma atração mais forte
Que toda a reflexão,
(É fado, é sina, é sorte!)
Me arrasta o coração...

in 'Ramo de Flores', 1868
 
"Ramo de Flores" é uma coletânea de poesias líricas, de João de Deus, onde sobressai a temática amorosa ("Sede de amor", "Enlevo", "Adeus", "Saudade"), centrada no motivo da mulher sedutora ("Sempre!", "Atração", "O seu nome"). Do ponto de vista formal, as composições primam pela musicalidade, frequentemente associada ao uso das formas métricas e estróficas tradicionais (vejam-se, a título de exemplo, os efeitos do uso do verso tetrassílabo em "Simpatia" ou "Saudade"). O volume contém apreciações críticas à coletânea Flores do Campo, assinadas por Alexandre da Conceição, Luciano Cordeiro, Guiomar Torrezão e Cândido de Figueiredo. (daqui)
 

terça-feira, 4 de junho de 2024

"Adeus tranças cor de ouro" - Poema de João de Deus



Fernand Toussaint (Belgian painter and illustrator, 1873–1956),
Lady in green dress with mirror.


Adeus tranças cor de ouro



Adeus tranças cor de ouro,
Adeus peito cor de neve!
Adeus cofre onde estar deve
Escondido o meu tesouro!

Adeus bonina, adeus lírio
Do meu exílio de abrolhos!
Adeus, ó luz dos meus olhos
E meu tão doce martírio!

Adeus meu amor-perfeito,
Adeus tesouro escondido,
E de guardado, perdido
No mais íntimo do peito.

Desfeito sonho dourado,
Nuvem desfeita de incenso
Em quem dormindo só penso,
Em quem só penso acordado!

Visão, sim, mas visão linda,
Sonho meu desvanecido!
Meu paraíso perdido
Que de longe adoro ainda!

Nuvem que ao sopro da aragem
Voou nas asas de prata,
Mas no lago que a retrata
Deixou esculpida a imagem!

Rosa de amor desfolhada
Que n'alma deixou o aroma,
Como o deixa na redoma
Fina essência evaporada!

Gota de orvalho que o vento
Levou do cálix das flores,
Curto abril dos meus amores,
Primavera de um momento!

Adeus Sol, que me alumia
Pelas ondas do oceano
Desta vida, deste engano,
Deste sonho de um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave inocente,
Se volta a quadra inclemente,
Acha abrigo o passarinho;

Mas eu nesta soledade
Quando em meus sonhos te estreito
Rosto a rosto, peito a peito,
Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida!
Adeus infortúnio e sorte!
Adeus estrela-do-norte!
Adeus bússola perdida!


João de Deus (1830-1896),
 in 'Campo de Flores'