Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Nejar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Nejar. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Biografia" - Poema de Carlos Nejar

 


Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
1973), 'Distância', 1928.


Biografia

I

Não tive biografia
mas metáforas
Manga na praça
foi a infância

A alma dividida
de nascença
Com ela o mundo
arfava em cada coisa

O mar inchava
o Sol de maresia
Inchava na palavra
e as velas iam

Vivi sofri – eis tudo
e o vivido
arrasta o barco
pelo mar que é findo

II

A biografia
se instaurou
sem mim

Alguém a foi
vivendo
sem sabê-lo

Alguém deitou
no sono
em que acordei

Alguém
no meu lugar
foi biografado

III

Como se esperasse
de outra imagem

e música tornasse
ao bandolim

E nunca mais parasse
era voragem

alguém desvencilhava-se
de mim


Carlos Nejar (n. 1939)
in 'Um País o Coração', 1980.
 
 

Tarsila do Amaral, 'Cidade', 1929


“Sempre considerei as ações dos homens como as melhores intérpretes dos seus pensamentos.”


John Locke (Filósofo inglês, conhecido como o "pai do liberalismo", 16321704)
 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

"Cântico" - Poema de Carlos Nejar



Pierre Puvis de Chavannes (French painter, 1824-1898), Hope [L'Espérance], 1872.
Walters Art Museum

[In the wake of the catastrophic Franco-Prussian War of 1870-71, the artist painted this picture of a young woman seated in a devastated landscape holding an oak twig as a symbol of hope for the nation's recovery from war and deprivation. This painting was exhibited at the Paris Salon of 1872. A smaller variant, showing the subject nude, is at the Musée d'Orsay, Paris. Puvis de Chavannes was one of the most original artists of his generation. His utopian visions, in which the figures seem to float in a dream-like landscape, served as a point of departure for many younger artists, such as Paul Gauguin (1848-1903) and Henri Matisse (1869-1954).]
(daqui)
 
 
Cântico


Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo. 
 
 
Carlos Nejar,
in“Canga (Jesualdo Monte)”. 
 Editora Civilização Brasileira. 1971. 
 
 

Pierre Puvis de Chavannes, L'Espérance [Hope], 1871-1872 Musée d'Orsay

[Pierre Puvis de Chavannes was deeply affected by the Franco-Prussian war and produced several works related to the conflict. In particular, at the Salon of 1872 he exhibited 'Hope', now in the Walters Art Gallery, Baltimore. The Musée d'Orsay has a smaller version, also painted between 1871 and 1872.

The painter portrays hope as a naked girl sitting on a burial mound covered with white drapery. Behind her, a desolate landscape with the ruins of a building and the makeshift crosses of improvised cemeteries evoke the war. However some elements in the painting point to a new era, full of promise. The olive branch in the girl's hand symbolises the return of peace while the light glimmering behind the hills suggests the dawn of the new day. The flowers growing between the pebbles of the burial mound also bear witness to this rebirth. The lack of any historical detail gives the painting universal symbolic value.

The simplified composition of the work, the use of matte colours and the absence of any modelling are characteristic of Pierre Puvis de Chavannes' manner. Paul Gauguin, who was a great admirer of the painter, had a reproduction of this painting in Tahiti; moreover it figures in his 'Still Life with Hope', painted in 1901.]
(daqui)
 
 
Pierre Puvis de Chavannes, Autorretrato, 1887 

Pintor francês, nascido no ano de 1824, em Lyon, e falecido a 14 de dezembro de 1898, em Paris, Pierre Cecile Puvis de Chavannes notabilizou-se pela pintura mural em tela de grandes dimensões, que se apunha à parede numa técnica denominada marouflage (devido à cola, maroufle, que era utilizada para a adesão). Decidiu tornar-se pintor em 1847, após a viagem de convalescença que realizou a Itália. Assim se explica a inspiração na Antiguidade Clássica, tendo idealizado as figuras por meio de um desenho simples, cores irreais e bidimensionalidade espacial, e tentando simultaneamente imitar a tonalidade esbatida da pintura a fresco. 
 
A tendência para a alegoria e o ambiente mitológico onde se encontram figuras cuja constituição remete à escultura Clássica, assim como o perfeito domínio da linha, da cor e do ritmo com um resultado emocional e expressivo excecional, influenciou e suscitou a homenagem de simbolistas (sobretudo pelas obras O Pescador Pobre e Esperança) e de pós-impressionistas, tendo granjeado igualmente um sem-número de admiradores devido à habilidade com que estruturava as diferentes partes das enormes superfícies pintadas. Foi aluno de Thomas Couture e de Eugène Delacroix, tendo recebido também influências das obras de Chassériau, Ingres e Poussin.

A primeira exposição em que entraram obras suas foi a do Salon de 1850, apesar de apenas ter começado a ter realmente sucesso após a exibição das pinturas Concordia e Bellum (adquiridas pelo Museu da Picardia de Amiens, instituição que compraria outras do mesmo autor, como Ave Picardia Nutrix, Trabalho e Descanso) no Salon de 1861. O grande êxito que conheceria durante parte da sua vida deveu-se ao carácter extremamente plástico e decorativo das suas obras, que era realçado pela monumentalidade das telas. 

Alguns dos edifícios que albergam as suas obras são a Biblioteca Pública de Boston (onde o artista trabalhou entre 1894 e 1896), o Palácio das Artes de Lyons (de 1883 a 1886), a Sorbonne (em 1887), o Panteão (com a temática de Santa Genoveva, numa primeira fase, tendo voltado a decorar este espaço entre 1896 e 1898) e o Hôtel de Ville (de 1891 a 1894), em Paris. Estava situado também nesta última cidade o seu estúdio, na Place Pigalle. (daqui)
 
 
Pierre Puvis de Chavannes, The Sacred Grove, Beloved of the Arts and Muses, 1884/89
 

domingo, 11 de agosto de 2019

"Amar na luz" - Poema de Carlos Nejar



Peleg Franklin Brownell, Bathing Beach, Massachusetts, 1916


Amar na luz


Amar na luz ou à sombra de um cometa,
com o tempo fungível, fugitivo.
O barulho das ondas afugenta
o que restou de mim sob o rochedo.

Amar com as horas todas, aturdindo
os corpo nus, as almas, os sentidos.
E perceber que a amada está fluindo
até o som, e aos peixes perseguindo.

E é por isso que neles vou descendo
e não sei se é amor, que já me invade,
ou por ele que morro em toda a parte.

Ou terei de morrer, se já me fogem
as vagas de um viver, que à vida solvem,
apenas por estar com o amor fluindo. 


in“Amar, a mais alta constelação”.
 Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1991.


Peleg Franklin Brownell, The Beach, St. Kitts, 1913 


“Adoro os prazeres simples. Eles são o último refúgio dos homens complicados.”

(Oscar Wilde)


sábado, 27 de julho de 2019

"Se perguntas onde fui" - Poema de Carlos Nejar


Jan van Beers (1852–1927, Belgian painter and illustrator, the son of the poet Jan van Beers,
 1821–1888), An Elegant Woman on a Balcony at the Sea, undated.


Se perguntas

I

Se perguntas onde fui,
devo dizer: o mar.
Estive sempre ali,
mesmo estando a mudar.

Foi ali que escrevi
tua pele, teu suor.
Ao tempo, seus faróis.
Não mudei de mudar.

II

O que mudou em mim,
senão andar mudando
sem nunca mais mudar?

Quem mudará em mim,
se não sei mudar?

III

Ou me mudei. Sou outro.
Outra ventura, outra
virtude, cadência,
remota criatura.

Então que se apresente.
Seja tenaz, plausível
esse rosto invisível
e áspero.

Mudei. Soprava o mar.
Mudei de não mudar.


Carlos Nejar, in 'Árvore do Mundo' 

domingo, 13 de janeiro de 2013

"Humano peso" - Poema de Carlos Nejar



Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917), The Red Roof, 1897


Humano peso

 
Os sonhos não os têm só quem navega
ou tenta navegar no vento aceso,
mas quem por  entre abismos fica ileso
como se flutuasse numa verga

e as âncoras baixassem na tristeza
ou tristes conduzíssemos o peso,
mais a desolução da carne, a intensa
gravidade das coisas, homem preso

ao mínimo das águas, desatento
aos astros, aos planetas e se alterna
mas é somente febre disparada.

O sonho, o frágil corpo, os elementos
navegam as mudanças subalternas
e os nadas de espuma, em puro nada.


Carlos Nejar
, in “Amar, a mais alta constelação”.
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1991.


Pinturas de Federico Zandomeneghi
Federico Zandomeneghi 

Federico Zandomeneghi (Veneza, 2 de junho de 1841 — Paris, 31 de dezembro de 1917) é um dos poucos pintores italianos que aderiram às ideias e técnicas do impressionismo. Nascido em Veneza, começou a pintar na oficina do pai, que era escultor. Depois juntou-se ao grupo dos Macchiaioli. Resolveu então trabalhar sozinho e ficou durante oito anos em sua cidade natal, mudando-se depois para Paris. Lá conheceu Edgar Degas, que influenciou profundamente sua pintura. Seu estilo transformou-se definitivamente, ao adotar as formas impressionistas.
Os temas mais frequentes de seus quadros são as cenas ao ar livre e os retratos femininos, num estilo muito semelhante ao de seu amigo Degas.


Federico Zandomeneghi, Casetta a Montmartre, 1879 


Federico Zandomeneghi, Le Moulin de la Galette, 1878 


 Federico Zandomeneghi, Place du Tertre a Parigi, 1880


Federico Zandomeneghi, La Strada.


Federico Zandomeneghi, Palazzo Pretorio, 1865


Federico Zandomeneghi, Moulin de la Galette, 1878


Federico Zandomeneghi, I poveri sui gradini dell'Aracoeli in Roma 
(Impressionni di Roma), 1872


Federico Zandomeneghi, Place d'Anvers, Paris, 1880


Federico Zandomeneghi, Parc Monceau


Federico Zandomeneghi, Terrazzasul Boulevard, c. 1880


Federico Zandomeneghi, Il Café de la Nouvelle Athènes, 1885


Federico Zandomeneghi, At the Theater, c. 1890


Federico Zandomeneghi, Il tè, c. 1892


Federico Zandomeneghi, Nature morte, pommes, 1917


Os Portugueses

“Que o português médio conhece mal a sua terra – inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio – é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la.”

“Citar um autor nacional, um contemporâneo, um amigo ou inimigo, porque nele se aprendeu ou nos revimos com entusiasmo, é, entre nós, uma raridade ou uma excentricidade como usar capote alentejano. A referência nobre é a estrangeira por mais banal que seja, e quem se poderá considerar isento de um reflexo que é, por assim dizer, nacional?”

“Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou coletivo.”

“Mas seja qual for a interpretação ideológica de Camões, não é possível, para ninguém, separar o seu canto épico da apologia histórica de um povo enquanto vanguarda de uma fé ameaçada na Europa do tempo e de um império igualmente guarda-avançada da expressão comercial e guerreira do Ocidente. É essa a «matéria» textual e moral do Poema.”

“Em princípio, todo o português que sabe ler e escrever se acha apto para tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.”

Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Gradiva, 2005.