
Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886–1973), 'Distância', 1928.
Biografia
I
Não tive biografia
mas metáforas
Manga na praça
foi a infância
A alma dividida
de nascença
Com ela o mundo
arfava em cada coisa
O mar inchava
o Sol de maresia
Inchava na palavra
e as velas iam
Vivi sofri – eis tudo
e o vivido
arrasta o barco
pelo mar que é findo
II
A biografia
se instaurou
sem mim
Alguém a foi
vivendo
sem sabê-lo
Alguém deitou
no sono
em que acordei
Alguém
no meu lugar
foi biografado
III
Como se esperasse
de outra imagem
e música tornasse
ao bandolim
E nunca mais parasse
era voragem
alguém desvencilhava-se
de mim
Carlos Nejar (n. 1939)
in 'Um País o Coração', 1980.
in 'Um País o Coração', 1980.

Tarsila do Amaral, 'Cidade', 1929
“Sempre considerei as ações dos homens como as melhores intérpretes dos seus pensamentos.”
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