Gato
I
As retinas do gato
dardejam no escuro
da pele do rato
arauto das noites
o gato passeia
no dorso do muro
tenso como um arco
o gato desenha
os moldes do salto
crivado de fúrias
salto que o liga
à ponte do olfato.
II
Onde se esconde
este sósia de conde?
Por onde passeia
o dorso que se alteia?
Seu dorso de vaga
que se acende e se apaga?
Quantas rotinas
têm as suas retinas?
Quantos sóis de cobalto
nas arcadas do salto?
Quando o seu faro pulsa
sente o odor da Ursa?
Ou apenas preserva
seu contorno na treva?
O gato não esconde
o seu fulgor de conde.
Francisco Carvalho (1927-2013),
in "Raízes da Voz", 1996.
As retinas do gato
dardejam no escuro
da pele do rato
arauto das noites
o gato passeia
no dorso do muro
tenso como um arco
o gato desenha
os moldes do salto
crivado de fúrias
salto que o liga
à ponte do olfato.
II
Onde se esconde
este sósia de conde?
Por onde passeia
o dorso que se alteia?
Seu dorso de vaga
que se acende e se apaga?
Quantas rotinas
têm as suas retinas?
Quantos sóis de cobalto
nas arcadas do salto?
Quando o seu faro pulsa
sente o odor da Ursa?
Ou apenas preserva
seu contorno na treva?
O gato não esconde
o seu fulgor de conde.
Francisco Carvalho (1927-2013),
in "Raízes da Voz", 1996.
Bruno Liljefors, "Cat with European Green Woodpecker", 1890.
Escritores e gatos
Os escritores, tal como os gatos, são criaturas solitárias, ciosas do seu espaço e da sua liberdade, que gostam de silêncio, de concentração e de companhia quanto baste. Os gatos não exigem demais de quem vive com eles nem reclamam atenção a toda a hora, e os escritores aceitam de bom grado essa situação, que os deixa à vontade e não lhes cria sentimentos de culpa quando estão ausentes.
Os gatos parecem pacíficos e domésticos, mas nunca cortaram realmente o elo com o mundo selvagem. Basta ver um gato assanhado para perceber de onde vêm as suas unhas em garra, as orelhas pontiagudas, os dentes afiados, a boca aberta bufando. Basta vê-los caçar para os descobrir como felinos, da estirpe do gato bravo, do tigre ou da pantera.
Os escritores também têm esse lado nunca domesticado nem domesticável. Por muito que se tente convertê-los às convenções, ao que se considera correto (politicamente ou não), eles encontram saídas e saltam para fora.Também eles são da estirpe dos felinos.
Tal como os gatos, também eles são sensuais, com todos os sentidos despertos para o mundo à sua volta. Dotados de olhos multifacetados, que veem longe e perto, na luz e na sombra. Ou no escuro.
Se for esse o caso, também eles sabem ser ternos, partilhar com o outro a sua pele macia, o calor do seu corpo.
E, tal como os gatos, também os escritores têm sete vidas. Quando enfrentam perigos e são atacados, empurrados para quedas de grande altura, usam todos os seus recursos de defesa (que são muitos) e sabem cair de pé.
(A quem se interessar por este tema e quiser saber mais, sugiro que leia o capítulo II do meu romance A Cidade de Ulisses).
Os gatos parecem pacíficos e domésticos, mas nunca cortaram realmente o elo com o mundo selvagem. Basta ver um gato assanhado para perceber de onde vêm as suas unhas em garra, as orelhas pontiagudas, os dentes afiados, a boca aberta bufando. Basta vê-los caçar para os descobrir como felinos, da estirpe do gato bravo, do tigre ou da pantera.
Os escritores também têm esse lado nunca domesticado nem domesticável. Por muito que se tente convertê-los às convenções, ao que se considera correto (politicamente ou não), eles encontram saídas e saltam para fora.Também eles são da estirpe dos felinos.
Tal como os gatos, também eles são sensuais, com todos os sentidos despertos para o mundo à sua volta. Dotados de olhos multifacetados, que veem longe e perto, na luz e na sombra. Ou no escuro.
Se for esse o caso, também eles sabem ser ternos, partilhar com o outro a sua pele macia, o calor do seu corpo.
E, tal como os gatos, também os escritores têm sete vidas. Quando enfrentam perigos e são atacados, empurrados para quedas de grande altura, usam todos os seus recursos de defesa (que são muitos) e sabem cair de pé.
(A quem se interessar por este tema e quiser saber mais, sugiro que leia o capítulo II do meu romance A Cidade de Ulisses).
Teolinda Gersão (Professora universitária e premiada escritora portuguesa, n. 1940) (daqui)
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