quinta-feira, 28 de maio de 2026

"A obra de arte" - Texto de Fernando Pessoa


 
Carl Johann Spielter (Danish painter, 1851
1922), 'A Discerning Collector', 1911.


A obra de arte


A obra de arte, fundamentalmente, consiste numa interpretação objetivada duma impressão subjetiva
Difere, assim, da ciência, que é uma interpretação subjetivada de uma impressão objetiva, e da filosofia, que é, ou procura ser, uma interpretação objetivada de uma impressão objetiva.

A ciência procura as leis particulares das coisas — isto é, aquelas leis que regem os assuntos ou objetos que pertencem àquele tipo de coisas que se estão observando. A ciência é uma subjetivação, porque é uma conclusão que se tira de determinado número de fenómenos. A ciência é uma coisa real e, dentro dos seus limites, certa, porque é uma subjetivação de uma impressão objetiva, e é, assim, um equilíbrio.

A filosofia trabalhará sempre em vão porque procura objetivar...

Na arte temos a distinguir três partes. A arte envolve uma impressão, ou ideia, sobre a qual se trabalha; envolve uma interpretação dessa ideia ou impressão de modo a torná-la artística; e envolve, finalmente, uma coisa de que se tem essa impressão ou ideia.

A arte obedece, portanto, a três critérios exteriores. Tem que obedecer às leis que regem toda a impressão ou ideia. Tem que obedecer às leis que regem toda a interpretação. E tem que obedecer às leis que regem toda a objetivação. Quais são, em cada caso, essas leis?

Primeiro, quais as leis que regem a impressão ou ideia? Estas leis são três. Abrangem, como se vê, o elemento subjetivo da arte. 1.°: Uma impressão ou ideia é perfeita e típica na proporção em que é característica do indivíduo que a tem, isto é, na proporção em que nessa ideia se revela a) o temperamento do indivíduo, b) todo o temperamento do indivíduo (o mais possível do temperamento do indivíduo), c) o temperamento do indivíduo o mais harmonicamente disposto dentro de si que seja possível (analyse this last element). De modo que o elemento subjetividade da arte envolve a originalidade como critério objetivo (note if this expression is good) .

Segundo, quais as leis que regem a objetivação? Vejamos o que quer dizer objetivação. A palavra implica a redução da ideia, ou seja o que for (que há de ser ideia, e não objeto, para poder dizer-se que se objetiva) à categoria de objeto; isto quer dizer, à categoria de coisa análoga a qualquer coisa que ocupa o mundo exterior. São três as leis que regem a determinação do objetivo como tal. 1.º Um objeto tem de ser limitado, distinto dos outros objetos. 2.º Um objeto é composto de partes formando um todo; essas partes existem nesse todo em virtude de serem partes de tal todo, nem se consideram partes senão em relação a tal todo; e o todo, podendo ser considerado como uma coisa independentemente das partes, só o pode ser em virtude da harmonização das partes na formação desse todo. 3.º (deve ser 1.º). Cada objeto é real na proporção em que pode ser observado em diferenças grandes por o maior número possível de pessoas. Temos, pois, como leis da objetivação: 1.º (3rd above) A lei da verosimilhança. 2.º (1st above) A lei da não-repetição. 3.º (2nd above) A lei da relação de interdependência entre o todo e as partes de que é composto. (A lei da unidade harmónica. Porque, quando observamos um todo, observamo-lo através das partes que o compõem, mas, vendo-as de golpe, somamo-las de chofre na ideia desse todo).

Terceiro. Quais são as leis que regem a interpretação. Entende-se que por interpretação se entende apenas um alto grau — o mais alto — do fenómeno envolvido na sensação de qualquer coisa. Essas leis são também três: 1.° Uma interpretação é tanto mais completa quanto mais conserva todas as relações do objeto interpretado, a sua harmonia especial e típica tanto quanto possível. 2.° Uma interpretação é tanto mais perfeita quanto mais consegue fazer esquecer o objeto interpretado na própria interpretação. (É assim que uma tradução é perfeita quando parece não ser uma tradução) (...).


Fernando Pessoa, in "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação".
(Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1966. - 177.
 


 
Carl Johann Spielter, 'The Art Lover', 1922.


"A obra de arte convida a subjetividade a se construir como olhar, livre abertura para o objetivo, e o conteúdo particular a se pôr a serviço da compreensão em lugar de ofuscá-lo fazendo prevalecer as suas inclinações. À medida que o sujeito exerce a aptidão de se abrir, desenvolve a aptidão de compreender, de penetrar no mundo aberto pela obra. Gosto é, finalmente, comunicação com a obra para além de todo saber e de toda técnica. O poder de fazer justiça ao objeto estético é a via da universidade do julgamento do gosto."
 

Mikel Dufrenne (19101995), in "Phénoménologie de I'expérience esthétique", 1953.

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