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terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Fim de Verão" - Poema de Paulo Henriques Britto



Jim Daly (American painter, born 1940), Summer’s End



Fim de Verão

XIV

A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.

É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco

porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza

com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,

proporcionando às retinas
já habituadas à rotina

de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória

uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.

Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.


Paulo Henriques Britto
,
Fim de Verão, 2022
 
 

Jim Daly, The Immigrant Spirit, 1992 

At the 1904 St. Louis World's Fair, a concessionaire who was selling ice cream ran out of cups. The concessionaire next to him was selling crisp, wafer-like pastry baked on a flat waffle iron. It was his idea to roll one of his wafers into a cornucopia, let it cool, and put a scoop of ice cream into it. 
The idea was an immediate hit and the "World's Fair Cornucopia", or ice cream cone, was born. Both the concessionaires were immigrants, and in my painting, The Immigrant Spirit, I wanted to show that spirit of enterprise and innovation. 
The same spirit brought the immigrants through Ellis Island and carried them through the new land. Thy were truly "pillars of a nation." —
 Jim Daly
 
 
 
Jim Daly, Her Secret Place, 1991


⁠"Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças."

Manoel de Barros,
Trecho do poema Exercícios de ser criança.
in Poesia completa, São Paulo: LeYa, 2010.
 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

"Geração Paissandu" - Poema de Paulo Henriques Britto



James McNeill Whistler (American painter and printmaker, 1834–1903),
Arrangement in Grey and Black No. 2: Portrait of Thomas Carlyle, 1872-73,
Kelvingrove Art Gallery and Museum in Glasgow, Scotland. 
 

Geração Paissandu



Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam -
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.

Paulo Henriques Britto,
in "Os cem melhores poemas brasileiros do século."
Rio de Janeiro: objetiva, 2001. Org. de Ítalo Moriconi.