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sábado, 22 de novembro de 2025

"Canção da mirada secreta" - Poema de Lya Luft


William Mainwaring Palin (English painter and decorative artist, 1862-1947), 
The Promenade, Caudebec-en-Caux, 1909.


Canção da mirada secreta 
 

Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raízes. 


Lya Luft, em "Secreta mirada", 1997.
 
 

William Mainwaring Palin, Jeux d’enfants dans un Salon, s.d.


"A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias."

Lya Luft, 
em Perdas e ganhos, 2003.
 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

"Todas as águas" - Poema de Lya Luft


Thomas Francis Dicksee (British painter, 1819–1895), Distant Thoughts, 1886


 Todas as águas

Quando pensei que estava tudo cumprido,
havia outra surpresa: mais uma curva
do rio, mais riso e mais pranto.

Quando calculei que tudo estava pago,
anunciaram-se novas dívidas e juros,
o amor e o desafio.

Quando achei que estava serena,
os caminhos se espalmaram
como dedos de espanto

em cortinas aflitas. E eu espio,
ainda que o olhar seja grande
e a fresta pequena.


Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
 

sábado, 25 de novembro de 2023

"O rio do tempo" - Poema de Lya Luft


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), Morning Coffee, c. 1910


O rio do tempo

O tempo não existe,
nem dentro nem fora.
Esses peixes de opala
são nomes que nadam na memória:
são rostos, são risos, são prantos,
são as horas felizes.

O tempo não existe,
pois tudo continua aqui, e cresce
como se arredonda uma árvore
pesada de frutos que são peixes,
que são nomes de nomes, são rostos
com máscaras.

O tempo não existe. Sou apenas
o aqui e o presente, e o atrás disso,
como um rio que corre mas não passa
— pois ele é sempre, em mim, agora.
 
 
 Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
 
 

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Perder, ganhar - Poema de Lya Luft



Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834–1917), "Woman Ironing", c 1869,
oil on canvas, 92.5 × 73.5 cm, Neue Pinakothek, Munich, Germany.



Perder, ganhar


Com as perdas, só há um jeito:
perdê-las.
Com os ganhos,
o proveito é saborear cada um
como uma fruta boa da estação.

A vida, como um pensamento,
corre à frente dos relógios.
O ritmo das águas indica o roteiro
e me oferece um papel:
abrir o coração como uma vela
ao vento, ou pagar sempre a conta
já vencida.


Lya Luft, in "Para não dizer adeus", 2005. 
 


Edgar Degas, "Woman Ironing", c. 1876–87, oil on canvas, 81.3 x 66 cm,
National Gallery of Art, Washington, DC.



"A vida é luta. A vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal."


Machado de Assis
, Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881 (aqui)
 

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

"Dizendo adeus" - Poema de Lya Luft


Akseli Gallen-Kallela (Finnish painter, 18651931), "Life and Death", 1884.


Dizendo adeus


Estou sempre dando adeus:
também ao desencontro e ao
desencanto.

Estou sempre me despedindo
do ponto de partida que me lança de si,
do porto de chegada que nunca é
aqui.

Estou sempre dizendo adeus:
até a Deus,
para o reencontrar em outra esquina
de adeuses.

Estarei sempre de partida,
até o momento de sermos deuses:
quando me fizeres dar adeus à solidão
e à sombra.


Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

"Temporal" - Poema de Lya Luft



Louisa Matthíasdóttir (Icelandic-American painter, 1917–2000),
'Self-portrait', 1984

 Temporal

O tempo rasteja no telhado
depois de se fazerem filhos e dívidas,
e as dúvidas brotarem nas frestas
da porta.

O tempo trança bordados no rosto
e manchas na mão,
mas a gente não muda: ainda chove
no escuro e um pássaro começa a cantar,
um amigo morre antes dos quarenta anos,
e nossa mãe, com quase cem, nem está
nem se ausenta.
Como tudo o mais,
o tempo não tem explicação:
corrói e transfigura, expande
ou empobrece, conforme a escolha
de cada um.

(Eu, com medo e susto,
escolho a multiplicação.)


Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.

 


Louisa Matthíasdóttir (Icelandic-American painter, 1917–2000),
'Self-portrait with Dark Coat', 1991


Remate para qualquer poema

 
Passeou pelos espelhos dos dias
suas clandestinas alegrias
que mal se refletiram desertaram


Ruy Belo
, Todos os Poemas I,
Assírio & Alvim
 
 
Edição/reimpressão: 10-2004
Editor: Assírio & Alvim
 
O volume «Todos os Poemas», editado em 2000 (Assírio & Alvim), foi reeditado em três volumes, respeitando a organização que o autor tinha originalmente concebido. Esta edição segue o estabelecimento de texto efetuado por Gastão Cruz e Teresa Belo. A revisão do texto agora concluída obedece às normas ortográficas vigentes, exceto nos casos em que as opções do autor são um desvio intencional a essas normas, passando o presente volume a constituir a edição de referência da poesia de Ruy Belo.
 

terça-feira, 3 de outubro de 2023

"Quando fecho a porta" - Poema de Lya Luft

 

Richard Edward Miller (American Impressionist painter, 1875–1943),
Reflections, c. 1915



Quando fecho a porta

Na parede atrás de minha mesa,
ombro a ombro,
a menina e seu pai, em dois retratos,
conversam sobre o que há no escuro
da noite, como entender o mundo,
e por que as montanhas eram tão azuis.
Quando apago a luz e fecho a porta,
eles riem baixinho desta que hoje sou:
ainda tão distraída e desassossegada,
cheia de encantamento, susto e assombro.

(E devem dizer, meneando as cabeças:
Parece que ela nunca vai mudar.)

Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
 
 
Richard Edward Miller, Woman in blue seated at a dressing table,
 c. 1916–1917, Private collection.


"O amor é o sentimento dos seres imperfeitos, posto que a função do amor é levar o ser humano
 à perfeição."

Aristóteles, citado por Maria Eugênia de Castro em "O Livro dos Signos", pág. 99. (daqui)
 
 

terça-feira, 5 de setembro de 2023

"Escolha" - Poema de Lya Luft



Frédéric Dufaux
(Swiss painter, 1852-1943), Elégante à l'ombrelle en bord de lac, 1900.



Escolha


Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Voo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:
eu quero o delírio. 


Lya Luft
, em "Para não dizer adeus", 2005.
 

domingo, 12 de junho de 2022

"Canção do recomeço" - Poema de Lya Luft

 
Harold Harvey (English, 1874-1941), Portrait of the Artist's Wife, 1917 
 


Canção do recomeço 

 
A casa que voltei depois de tantos anos
boia como uma ilha de aguapés na noite
presa por uma raiz a um tempo doce e dolorosa,
que me define.

Na madrugada, caminho pela casa como no fundo do mar
onde essa raiz se finca.
Pelas vidraças, o jardim são algas;
meus filhos dormem em seus quartos como quando
eram meninos:
nossas respirações, como sentimento, fundem-se
neste bojo.

Este é meu lugar aonde voltei depois de tantos anos
como quem, misturando peças dos enigmas mais
arcaicos, montasse laboriosamente o seu quebra-cabeça. 


 Lya Luft, em "Mulher no palco", 1984
 
 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

"Canção na plenitude" - Poema de Lya Luft



Herbert James Gunn (Scottish landscape and portrait painter, 1893–1964),
'Portrait of Angela in Blue', n.d.

 
Canção na plenitude


Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.


Lya Luft, in 'Secreta Mirada'


quinta-feira, 30 de abril de 2015

"Dizeres Íntimos" - Poema de Florbela Espanca


 
Ferdinand Hodler (Swiss painter, 1853–1918),'The dream', 1897
 

Dizeres Íntimos


É tão triste morrer na minha idade! 
E vou ver os meus olhos, penitentes 
Vestidinhos de roxo, como crentes 
Do soturno convento da Saudade! 

E logo vou olhar (com que ansiedade!...) 
As minhas mãos esguias, languescentes, 
De brancos dedos, uns bebés doentes 
Que hão-de morrer em plena mocidade! 

E ser-se novo é ter-se o Paraíso, 
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, 
Aonde tudo é luz e graça e riso! 

E os meus vinte e três anos ... (Sou tão nova!) 
Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida!...” 
Responde a minha Dor: “Que linda a cova!” 


Florbela Espanca
,
 in "Livro de Mágoas" 


Toni Braxton - Un-Break My Heart


«Sou fascinada pelo lado complicado. Tenho um olho alegre que vive: sou uma pessoa despachada, adoro família, adoro a natureza. Mas eu tenho um outro olho que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento.»  - Lya Luft
 

terça-feira, 22 de maio de 2012

"Sempre" - Poema de Pablo Neruda



Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)



Sempre


Ao contrário de ti
não tenho ciúmes. 

Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos teus cabelos,
vem com mil homens entre os seios e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo.

Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida.


Pablo Neruda,
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
Tradução de Nuno Júdice 
 
 

Gleb Goloubetski


"A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem."

(Pablo Neruda)



Gleb Goloubetski


"Nem acredites se pensas que te falo: palavras são meu jeito mais secreto de calar."

(Lya Luft)



Gleb Goloubetski


"A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes."

(Khalil Gibran)

domingo, 22 de abril de 2012

"Ler significa reler e compreender, interpretar" - Texto de Leonardo Boff


 
Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)



“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.”

Leonardo Boff, 1997

[Leonardo Boff, pseudónimo de Genézio Darci Boff (Concórdia, 14 de dezembro de 1938), é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais.]


Imagem de  Ben Goossens
 
 
"Uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter."
 
 (Clarice Lispector)


 
Imagem de  Ben Goossens


"Eu continuo a ser uma coisa só: um palhaço, o que me coloca em nível mais alto 
do que o de qualquer político." 
 
 (Charles Chaplin)
 

 
Imagem de  Ben Goossens


"Há gente que, em vez de destruir, constrói; em lugar de invejar, presenteia; em vez de envenenar, embeleza; em lugar de dilacerar, reúne e agrega." 
 
 (Lya Luft)
 

 
Imagem de  Ben Goossens


"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." 

(Ruy Barbosa) 
 

Ruy Barbosa

Ruy Barbosa de Oliveira (Salvador, 5 de novembro de 1849 — Petrópolis, 1 de março de 1923) foi um jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro. Um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo, foi um dos organizadores da República e coautor da constituição da Primeira República juntamente com Prudente de Morais. Ruy Barbosa atuou na defesa do federalismo, do abolicionismo e na promoção dos direitos e garantias individuais. Primeiro Ministro da Fazenda do novo regime, marcou sua breve e discutida gestão pelas reformas modernizadoras da economia. Destacou-se, também, como jornalista e advogado. Foi deputado, senador, ministro. Em duas ocasiões, foi candidato à Presidência da República. Empreendeu a Campanha Civilista contra o candidato militar Hermes da Fonseca. Notável orador e estudioso da língua portuguesa, foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, sendo presidente entre 1908 e 1919. Como delegado do Brasil na II Conferência da Paz, em Haia (1907), notabilizou-se pela defesa do princípio da igualdade dos Estados. Sua atuação nessa conferência rendeu -lhe o apelido de "O Águia de Haia". Teve papel decisivo na entrada do Brasil na I Guerra Mundial. Já no final de sua vida, foi indicado para ser juiz da Corte Internacional de Haia, um cargo de enorme prestígio, que recusou. 


Imagem de  Ben Goossens


"A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é o maior elemento da estabilidade." 
 
(Ruy Barbosa) 
 
 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

"Chamo-Te" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


"Criação do sol e da lua" 


Chamo-Te 


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio 
E suportar é o tempo mais comprido. 

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, 
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. 

Há muitas coisas que não quero ver. 

Peço-Te que sejas o presente. 
Peço-Te que inundes tudo. 
E que o Teu reino antes do tempo venha 
E se derrame sobre a Terra 
Em Primavera feroz precipitado. 




Miguel Ângelo, Autorretrato


Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (Caprese, 6 de março de 1475 — Roma, 18 de fevereiro de 1564), mais conhecido simplesmente como Michelangelo ou Miguel Ângelo, foi um pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores criadores da história da arte do ocidente.
Ele desenvolveu o seu trabalho artístico por mais de setenta anos entre Florença e Roma, onde viveram seus grandes mecenas, a família Medici de Florença, e vários papas romanos. Iniciou-se como aprendiz dos irmãos Davide e Domenico Ghirlandaio em Florença. Tendo o seu talento logo reconhecido, tornou-se um protegido dos Medici, para quem realizou várias obras. Depois fixou-se em Roma, onde deixou a maior parte de suas obras mais representativas. Sua carreira se desenvolveu na transição do Renascimento para o Maneirismo, e seu estilo sintetizou influências da arte da Antiguidade clássica, do primeiro Renascimento, dos ideais do Humanismo e do Neoplatonismo, centrado na representação da figura humana e em especial no nu masculino, que retratou com enorme pujança. 
Várias de suas criações estão entre as mais célebres da arte do ocidente, destacando-se na escultura o Baco, a Pietà, o David, as duas tumbas Medici e o Moisés; na pintura o vasto ciclo do teto da Capela Sistina e o Juízo Final no mesmo local, e dois afrescos na Capela Paulina; serviu como arquiteto da Basílica de São Pedro implementando grandes reformas em sua estrutura e desenhando a cúpula, remodelou a praça do Capitólio romano e projetou diversos edifícios, e escreveu grande número de poesias.
Ainda em vida foi considerado o maior artista de seu tempo; chamavam-no de o Divino, e ao longo dos séculos, até os dias de hoje, vem sendo tido na mais alta conta, parte do reduzido grupo dos artistas de fama universal, de fato como um dos maiores que já viveram e como o protótipo do génio. Miguel Angelo foi um dos primeiros artistas ocidentais a ter sua biografia publicada ainda em vida. Sua fama era tamanha que, como nenhum artista anterior ou contemporâneo seu, sobrevivem registos numerosos sobre sua carreira e personalidade, e objetos que ele usara ou simples esboços para suas obras eram guardados como relíquias por uma legião de admiradores. Para a posteridade Michelangelo permanece como um dos poucos artistas que foram capazes de expressar a experiência do belo, do trágico e do sublime numa dimensão cósmica e universal. (daqui)


Miguel Ângelo, Autorretrato 


Miguel Ângelo, Visão parcial do teto da Capela Sistina


Miguel Ângelo, The Original Creation


Miguel Ângelo, A criação de Adão, Capela Sistina




Miguel Ângelo, Maria e Jesus, detalhe do Juízo Final, 1534–41, Capela Sistina

 
Miguel Ângelo, um dos nus do teto da Capela Sistina


"Se cada um cultivar afeto, beleza e lealdade em seu ambiente, por pequeno que seja, 
isso há de espalhar claridade no mundo."

(Lya Luft)


domingo, 19 de fevereiro de 2012

"Convite" - Poema de Lya Luft



Laura Knight (English artist, 1877–1970), The Cornish Coast, 1917


Convite


Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou 
mistério.

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos 
a sério.


Lya Luft, em "Perdas e Ganhos", 2003


Simply Red - Holding Back The Years
 
 
"As pessoas não são nobres desde o nascimento, mas se enobrecem através de suas ações. As pessoas não são medíocres desde o seu nascimento, mas tornam-se assim através de suas ações. Se existe alguma diferença entre as pessoas, então essa diferença está somente nas suas realizações." - Daisaku Ikeda

[Daisaku Ikeda (Tóquio, Japão, 2 de janeiro de 1928) é um filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista japonês. Foi galardoado em 2007 com o Prémio Mundial do Humanismo pela Academia do Humanismo da Macedónia.]

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"Vegetal e Só" - Poema de Eugénio de Andrade



Vladimir de Leon Llaguno (Cuban painter, draughtsman, serigrapher,
engraver, and graphic designer, b. 1963)



Vegetal e Só


É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
sem a febre de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exatamente sem nenhuma letra.


Eugénio de Andrade,
in «As palavras Interditas», 1951 


Amy Winehouse - Rehab



"Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode se afastar, 
mas sabemos que retorna; ele nos aguenta e nos chama, nos dá impulso e abrigo, e nos faz ser melhores:
 como o verdadeiro amor."