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domingo, 3 de setembro de 2017

"Porto Sentido" - Poema de Carlos Tê / Rui Veloso

Porto Sentido


Quem vem e atravessa o rio,
junto à Serra do Pilar,
vê um velho casario
que se estende até ao mar. 

Quem te vê ao vir da Ponte
és cascata sanjoanina
erigida sobre um monte,
no meio da neblina,
por ruelas e calçadas,
da Ribeira até à Foz,
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós. 

Esse teu ar grave e sério
dum rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria. 

Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento,
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento...
e é sempre a primeira vez,
em cada regresso a casa,
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa.




Porto sentidoRui Veloso


"A admiração começa onde acaba a compreensão."


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

"Aniversário" - Texto de Miguel Torga




Gerês, 12 de Agosto de 1952 - Quarenta e cinco anos. 

“Numa solidão cortada por dois telegramas e dois postais, lá se passou mais este dia fatídico do meu aniversário. E digo fatídico, porque realmente o é todo aquele que assinala o nascimento de um poeta, mormente aqui em Portugal e nos tempos que vão. Desde que me conheço com alguma consciência que sinto isso. E sempre que me ponho a olhar do alto de cada marco do caminho andado, apenas consigo vislumbrar o rasto agonizante de um pobre destino humano, que nem ao menos se refresca na bica de nenhum verdadeiro devotamento tutelar. Nunca se viu no pó da estrada peregrino tão sedento e desiludido da ternura dos semelhantes! 
Sismógrafo hipersensível, que regista os estremecimentos do mundo e de si próprio, e que um abalo mais brutal desafina, acabei por ficar desirmanado na sala do observatório, absurdo, espectral, a pulsar desalmadamente enquanto a corda se não acaba, sem conseguir ver do passado mais do que a serrilhada angústia de um gráfico incansável, que só meia dúzia de entendidos poderão mais tarde decifrar." 

Miguel Torga, DIÁRIO

[Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (Vila Real, São Martinho de Anta, 12 de agosto de 1907 — Coimbra, 17 de janeiro de 1995), foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.]




O Parque Nacional da Peneda-Gerês ou conjunto serrano da Peneda-Gerês", situa-se no extremo nordeste do Minho, estendendo-se até Trás-os-Montes, desde as terras da Serra da Peneda até a Serra do Gerês - daí a sua designação -, sendo recortado por dois grandes rios, o Rio Lima e Cávado. Fazendo fronteira com a Galiza, abrangendo os distritos de Braga (concelho de Terras de Bouro), Viana do Castelo (concelho de Melgaço, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca) e Vila Real (concelho de Montalegre) numa área total de cerca de 70 290 hectares. 


Foto de Rui Videira, Peneda, Gerês, Portugal


O Parque Nacional da Peneda-Gerês abrange território de 22 freguesias distribuídas pelos concelhos de Arcos de Valdevez, Melgaço, Montalegre, Ponte da Barca e Terras de Bouro. Esta Área Protegida forma um conjunto com o parque natural espanhol da Baixa Limia - serra do Xurés, constituindo com este, desde 1997, o Parque Transfronteiriço Gerês-Xurés e a Reserva da Biosfera com o mesmo nome.




É uma das maiores atrações naturais de Portugal, pela rara e impressionante beleza paisagística e pelo valor ecológico e etnográfico e pela variedade de fauna (corços, garranos, lobos, aves de rapina) e flora (pinheiros, teixos, castanheiros, carvalhos e várias plantas medicinais). Estende-se desde a serra do Gerês, a Sul, passando pela serra da Peneda até a fronteira espanhola.
Inclui trechos da estrada romana que ligava Braga a Astorga, conhecida como Geira. No parque situam-se dois importantes centros de peregrinação, o Santuário de Nossa Senhora da Peneda, réplica do santuário do Bom Jesus de Braga, e o de São Bento da Porta Aberta, local de grande devoção popular. (Daqui)
 

Foto de Rui Videira, Gerês, Portugal


"Há sitios no mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles." 

Miguel Torga
Biografia de Miguel Torga (Aqui)



Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés (RBTGX) foi declarada em 27 de Maio de 2009, pela UNESCO, e está localizada na Comunidade Autónoma da Galiza (Espanha) e na Regiâo Norte de Portugal. Abrange uma área total de 267.958 ha. distribuidos por duas áreas protegidas, divididas por uma fronteira mas unidas pelo continuo natural e pela cultura.

Sendo Reserva da Biosfera Transfronteiriça há todo um esforço comum entre as entidades dos dois países na definição de metas e de prioridades de ação, o que contribui para consolidar a imagem do Parque Transfronteiriço Gerês-Xurés (PTGX). Criado em 1997, o PTGX é constituído pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês e pelo Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés, formando uma unidade natural de elevada biodiversidade.

Mais do que uma designação, a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés pretende ser o reconhecimento da necessidade de um esforço comum e coordenado de salvaguarda dos valores de flora, fauna e paisagem que as duas áreas protegidas partilham, promovendo o desenvolvimento económico sustentável, a participação ativa dos agentes sociais do território e uma relação equilibrada entre as populações e a Natureza. (Daqui)

quinta-feira, 16 de julho de 2015

"A Língua Portuguesa" - Poema de Alberto de Lacerda


 Fotografia de Rui Videira - Rio Douro, Porto, Portugal 



A Língua Portuguesa 


Esta língua que eu amo
Com seu bárbaro lanho
Seu mel
Seu helénico sal
E azeitona
Esta limpidez
Que se nimba
De surda
Quanta vez
Esta maravilha
Assassinadíssima
Por quase todos os que a falam
Este requebro
Esta ânfora
Cantante
Esta máscula espada
Graciosíssima
Capaz de brandir os caminhos todos
De todos os ares
De todas as danças
Esta voz
Esta língua
Soberba
Capaz de todas as cores
Todos os riscos
De expressão
(E ganha sempre a partida)
Esta língua portuguesa
Capaz de tudo
Como uma mulher realmente
Apaixonada
Esta língua
É minha Índia constante
Minha núpcia ininterrupta
Meu amor para sempre
Minha libertinagem
Minha eterna
Virgindade.


«A Língua Portuguesa» in Exílio in Oferenda I,
 Lisboa, IN-­CM, 1984, pp. 316-317)


segunda-feira, 27 de abril de 2015

"Devastação" - Crónica de José Saramago


Foto de Rui Videira, Maciço da Gralheira, Portugal
 
 
Devastação


Todos os anos exterminamos comunidades indígenas, milhares de hectares de florestas e até inúmeras palavras das nossas línguas. A cada minuto extinguimos uma espécie de aves e alguém em algum lugar recôndito contempla pela última vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz não se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. Somos isso, uma espécie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projeto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a única coisa que nos distancia na realidade dos animais é a nossa capacidade de esperança. Produzimos uma cultura de devastação baseada muitas vezes no engano da superioridade das raças, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder económico. Sempre me pareceu incrível que uma sociedade tão pragmática como a ocidental tenha deificado coisas abstratas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens efémeras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade... 
 

José Saramago, in 'Revista Universidad de Antioquia (2001)'

domingo, 16 de novembro de 2014

"Sempre amei por palavras muito mais do que devia" - Poema de Alice Vieira


Foto de Rui Videira - Vila Nova de Gaia, Porto, Portugal



Sempre amei por palavras muito mais do que devia


sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero
 
 in O QUE DOI AS AVES
(Caminho, 2009)


Foto de Rui Videira - Porto & Vila Nova de GaiaPortugal
 
 
"A arte é o espelho da pátria. O país que não preserva os seus valores culturais jamais verá a imagem de sua própria alma."



Chopin Nocturne E Flat Major Op.9 No.2


sábado, 1 de novembro de 2014

"Defeito de Fabrico" - Poema de A. M. Pires Cabral


Foto de Rui Videira - Porto, Portugal
 


Defeito de Fabrico


Quando nasci, trazia de origem 
um farol que despejava luz a jorros 
sobre o que quer que fosse, 
mormente sobre as dobras 
pérfidas da noite. 

Mas, por estranho que pareça, 
também os faróis estão sujeitos 
às leis da erosão, 

e o meu farol deliu-se. Hoje não é 
mais do que um triste farolim de bicicleta 
que apenas me alumia dois palmos de noite. 

Amanhã estará reduzido 
a uma simples lanterna de bolso 
com que mal poderei reconhecer 
o lugar onde estou. 

Até que um dia será, está bom de ver, 
o mais fiável cúmplice da noite – 

– da noite que devia dissipar, 
e não fundir-se nela. 

Defeito de fabrico. 
Mas a garantia caducou e o fabricante 
nega-se a ressarcir-me do escuro. 


A. M. Pires Cabral, 
in 'Cobra-d'Água'




"Nós não paramos de brincar porque envelhecemos, mas envelhecemos porque paramos de brincar."