Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Veloso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Veloso. Mostrar todas as mensagens

domingo, 3 de setembro de 2017

"Porto Sentido" - Poema de Carlos Tê / Rui Veloso

Porto Sentido


Quem vem e atravessa o rio,
junto à Serra do Pilar,
vê um velho casario
que se estende até ao mar. 

Quem te vê ao vir da Ponte
és cascata sanjoanina
erigida sobre um monte,
no meio da neblina,
por ruelas e calçadas,
da Ribeira até à Foz,
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós. 

Esse teu ar grave e sério
dum rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria. 

Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento,
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento...
e é sempre a primeira vez,
em cada regresso a casa,
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa.




Porto sentidoRui Veloso


"A admiração começa onde acaba a compreensão."


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"Poema à Mãe" - Eugénio de Andrade


Robert Duncan (b.1952, Salt Lake City, Utah, United States)



Poema à Mãe 


No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
Era uma vez uma princesa 
no meio de um laranjal... 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 


in "Os Amantes Sem Dinheiro"


Rui Veloso e Mariza - Não queiras saber de mim

  

 
 
Não queiras saber de mim


Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate 
Pior do que eu não há 
Fico fora de combate 
Como se chegasse ao fim 
Fico abaixo do tapete 
Afundado no serrim 

Não queiras saber de mim 
Porque eu estou que não me entendo 
Dança tu que eu fico assim 
Hoje não me recomendo 

Mas tu pões esse vestido 
E voas até ao topo 
E fumas do meu cigarro 
E bebes do meu copo 
Mas nem isso faz sentido 
Só agrava o meu estado 
Quanto mais brilha a tua luz 
Mais eu fico apagado 

Dança tu que eu fico assim 
Porque eu estou que não me entendo 
Não queiras saber de mim 
Hoje não me recomendo 

Amanhã eu sei já passa 
Mas agora estou assim 
Hoje perdi toda a graça 
Não queiras saber de mim 




Rui Veloso / Luz Casal - Inesperadamente

  

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Vida" - Poema de Agostinho da Silva


Absurdist painting by Michael Cheval



Vida 


Três votos fará aquele 
que não ser tolo decida 
e venha deles primeiro 
o de obediência à vida 

será o segundo a vir 
o de não querer ser rico 
o muito passe de largo 
o pouco lhe apure o bico 

não violar-se a si próprio 
como principal o veja 
alto ou baixo gordo ou magro 
assim nasceu assim seja


 in 'Poemas'
 


Per7ume - 'Intervalo' 
(participação especial de Rui Veloso)