Um dos pensadores mais influentes de toda a história da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 427 a. C.
Dando continuidade às preocupações de Sócrates,
seu mestre, tentou ultrapassar o relativismo que resultava das
doutrinas dos sofistas, incapazes de superar a antinomia entre ser e
devir, tal como haviam sido enunciados por Parménides de Élea e Heraclito.
É o primeiro filósofo de cujas obras foi preservada uma parte
significativa, o que permite reconstituir com grande fidedignidade as
traves mestras do seu pensamento.
No núcleo do sistema platónico encontra-se a distinção radical entre o mundo
sensível e o mundo
inteligível, cada um deles com existência autónoma.
O primeiro corresponde ao mundo da corporeidade, contingente e corruptível, domínio da mudança, da diversidade e das aparências; o segundo é o mundo das essências ideais, imutáveis, necessárias e eternas, em suma, da permanência, da unidade e da Verdade universal.
Dotadas de uma existência objetiva independentemente de qualquer
sujeito cognoscente, as essências ideais, ou Ideias, são para Platão os
arquétipos (modelos) a partir dos quais foram formados - por «imitação»,
ou mimésis - todos os entes do mundo sensível. O agente dessa intervenção teria sido uma divindade (o demiurgo) que, dessa forma, fez transitar a physis (o mundo físico, a natureza) de um estado primordial de desordem (o caos) à ordem.
No âmbito gnosiológico, o dualismo idealista de Platão tem como consequência, do ponto de vista formal, a inoperância de todo o conhecimento empírico.
Este, de ordem indutiva e tomando por base as representações sensíveis,
reporta-se apenas a uma realidade contingente e mutável, não podendo
elevar o sujeito além da mera doxa (opinião).
Do ponto de vista material, por maioria de razão, o conhecimento que tem por objeto a physis
é relegado para um plano subalterno em favor de todo o saber baseado na
contemplação inteletiva dos puros conceitos, com especial incidência
na matemática e na ética. Associando a unidade, a harmonia, a virtude e a
sabedoria, tal como Sócrates, Platão coloca no topo da hierarquia das
Ideias do mundo inteligível, enquanto elementos unificadores, as ideias
de Uno, de Bem e de Belo.
Subsidiária da mesma arquitetónica dualista, a antropologia platónica
considera a alma como essência do homem, vendo o corpo apenas como uma
prisão que lhe limita todas as potencialidades. Participando dos
atributos do inteligível, a alma é considerada imortal e originária do
mundo das Ideias, pelo que a sua existência no mundo físico deve ser
orientada para libertação de todas as solicitações materiais e sensuais
através do uso da razão e da prática da virtude, visando atingir o saber
da Verdade, num processo de ascese que lhe permita regressar ao mundo de plenitude a que genuinamente pertence.
Esse processo de ascese baseia-se no método que Platão designa como dialéctica
e caracteriza-se pelo recurso ao diálogo e à discussão dos conceitos
tendo em vista a respetiva consciencialização e esclarecimento, com a
finalidade de facilitar a reminiscência (ou anamnese) - isto é, o relembrar - das Ideias que a alma havia contemplado aquando da sua permanência no mundo inteligível.
No que respeita ao pensamento político, Platão foi em grande parte
influenciado pela sua ascendência e formação aristocráticas, atribuindo
ao regime democrático, geralmente defendido pelos sofistas, a
responsabilidade pela decadência de Atenas.
Assim, a organização da cidade modelo que sugeriu deixa transparecer
uma visão elitista ao gravitar em torno de uma triagem apertada dos
cidadãos em que o lugar do indivíduo se esvai, cedendo perante a força
do interesse comum ditado pelos «mais aptos».
O objetivo da seleção dos cidadãos seria a distribuição destes em três ordens, de acordo com o carácter que demonstrassem: à ordem dos governantes
pertenceriam os sábios, que se deixam conduzir pela justiça, cabendo ao
melhor dos quais, após um longo período de formação, o cargo de Filósofo-Rei, autoridade última da cidade; aqueles que se distinguissem pela coragem deveriam integrar a ordem dos guardiões,
com a tarefa de zelar pela segurança interna e externa da cidade; os
restantes, que se deixam dominar pelas coisas dos sentidos, fariam parte
da ordem dos produtores, com a função de prover às necessidades materiais da cidade, cuidando da agricultura, da indústria e do comércio.
Para evitar qualquer elemento de conflitualidade e discórdia na cidade,
Platão defende também quer a comunidade dos bens, quer a comunidade das
mulheres e dos filhos. Além disso, propõe que todas as crianças
deveriam ter uma educação comum para que o processo de seleção dos
melhores pudesse decorrer com eficácia e sem desvios.
Platão
morreu em 347 a. C. já com idade avançada, deixando, no entanto, um
grande número de discípulos que reconheciam a fecundidade das suas
teses.
A Academia que fundara em 385 a. C. para proporcionar
formação a todos quantos o quisessem seguir sobreviveu quase mil anos
até ter sido mandada encerrar por Justiniano I em 529 d. C. Porém, a
perenidade do seu pensamento foi muito além dessa data, sendo ainda hoje
reconhecido o seu legado como um dos mais marcantes para a génese da
atual cultura ocidental.
Obras de Platão:
Classificação clássica em tetralogias, segundo Trasílio, da Corte de Tibério.
1.a tetralogia: Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon.
2.a tetralogia: Crátilo, Teeteto, Sofista, Político.
3.a tetralogia: Parménides, Filebo, Banquete (ou Simpósio), Fedro.
4.a tetralogia: I* e II* Alcibíades, Hiparco*, Rivais* (ou Anterastai).
5.a tetralogia: [Teágenes], Cármides, Laques, Lísias.
6.a tetralogia: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Ménon.
7.a tetralogia: Hípias Menor, Hípias Maior*, Íon*, Menexeno.
8.a tetralogia: [Clitofonte], República, Timeu, Crítias.
9.a tetralogia: [Minos], Leis, [Definições], [Cartas ].
Todas as obras, com exceção da Apologia de Sócrates e das Cartas, foram redigidas em forma de diálogo.*
- Diálogos cuja autenticidade merece algumas dúvidas.
Entre [] - Obras quase unanimemente consideradas apócrifas (com exceção da Carta VII).
(daqui)