François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Allegory of Painting´, 1765, National Gallery of Art.
O espelho curvo
I
Olha-os lá, naquela encruzilhada;
Parecem hesitar depois retomam
A estrada. À frente deles o menino corre,
A braçadas colheram para os poucos vasos
Pelo campo essas flores que nem nome têm.
E o anjo está lá em cima, a observá-los
E envolto pelo vento de suas cores.
Tem um dos braços nu no pano rubro,
Parece que segura um espelho, e que a terra
Se reflete na água dessa outra margem.
E que designa agora, com o dedo
Que aponta nessa imagem um lugar?
Será outra casa ou será outro mundo,
Será mesmo uma porta, em meio à luz
Aqui mesclada às coisas e aos signos?
II
Gostam de voltar tarde, assim. Já não distinguem
O caminho sequer por entre as pedras
De onde ainda brota uma sombra ocre-rubra.
Mas estão confiantes. Junto da soleira
A relva é fácil e não existe morte.
E ei-los agora embaixo das abóbodas.
Há escuridão ali no rumor dessas folhas
Secas, que o vento que não sabe move
Por sobre as lajes, de uma sala a outra,
O que tem nome e o que é apenas coisa.
Eles vão indo, vão. Além entre as ruínas,
É o país onde as margens são tranquilas,
Os caminhos imóveis. Pelos quartos
Irão dispondo as flores, junto ao espelho
Que consume talvez, e talvez salve.
Yves Bonnefoy (1923–2016), in 'Obra Poética'.
Ttradução e organização de Mário Laranjeira.
São Paulo: Editora Iluminuras, 1998.
[Ortografia / Lexicografia]
A forma embaixo
corresponde a um advérbio de uso comum no português do Brasil. Na norma
europeia do português, este advérbio corresponde geralmente à locução
adverbial em baixo (ex.: chama o teu irmão, que está lá em baixo; o rapaz andou em baixo durante uns tempos).
Não se trata propriamente de uma variação ortográfica, pois não há
nenhuma determinação que recomende o uso de palavra ou locução nestes
casos, mas de uma diferença entre a tradição lexicográfica portuguesa
(que regista sempre a locução em baixo e não tem registo de embaixo, exceto no Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado) e a tradição lexicográfica brasileira (que preconiza embaixo e apenas regista em baixo como regionalismo de Portugal, nomeadamente no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). (daqui)
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