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domingo, 7 de maio de 2023

"Tese e Antítese" - Poema de Antero de Quental


 
James Tissot (French painter and illustrator, 1836–1902), The Circle of the Rue Royale, a scene in Paris
 seen from the balcony of the Hôtel de Coislin overlooking the Place de la Concorde, 1868.
 
 

Tese e Antítese

I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspeto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia!

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia…
Respira fumo e fogo embriagada…
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
Num cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante…
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
‘Té que a revolva o remoinhar da luta,
‘Té que a fecunde o sangue dos heróis!

(1870) 

Antero de Quental
, in Odes Modernas
 
 

 
Odes Modernas
 
Coletânea de poesias, de Antero de Quental, dedicada a Germano Meireles, publicada em 1865, que, refletindo as influências do humanitarismo de Proudhon e da dialética evolucionista de Hegel, rompeu com a temática sentimentalista que caracterizou a segunda geração romântica e impôs o romantismo social, marcado pelo fervor revolucionário, pela sede de justiça social e pela crença na apoteose futura da verdade: "O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade:/ Justiça, é esse o tema imenso do sermão:/ A missa nova, essa é missa de Liberdade:/ E órgão a acompanhar... a voz da Revolução!" ("No templo").
 
 Referindo-se, em 1887, na célebre "Carta autobiográfica dirigida ao Professor Wilhelm Storck", às Odes Modernas, Antero chamar-lhes-á "poesia de combate", caracterizando o tom e os temas predominantes no volume: "o panfletário divisa-se muitas vezes por detrás do poeta, e a Igreja, a monarquia, os grandes do mundo são o alvo das suas apóstrofes de nivelador idealista. Noutras composições, é verdade, o tom é mais calmo e patenteia-se nelas a intenção filosófica do livro, vaga sim, mas humana e elevada".
 
Assumindo a "missão revolucionária da poesia" exposta na nota posfacial, é na qualidade de "Soldado do Futuro" ("Pois, se são operários do futuro,/ Semeadores da seara nova,/ Que lançam uma ideia em cada cova,/ Da dura história sobre o chão escuro", de "Pater"), à escuta da "voz das multidões", que Antero se dirige "A um Poeta": "Há mais alta missão, mais alta glória:/ O combater, à grande luz da História,/ Os combates eternos da Justiça". Esta "Justitia mater" de raiz proudhoniana aparece em "Tese e Antítese" concebida hegelianamente como a "nova ideia" - "desgrenhada/ Torva no aspeto, à luz da barricada" - que o poeta, como revolucionário, ajuda a revelar.

Na célebre "Nota" posfacial, Antero formula uma conceção socialmente militante da missão do poeta e da poesia, voltada para a "reconstrução do mundo humano sobre as bases eternas da Justiça, da Razão e da Verdade, com exclusão dos Reis e dos Governos tirânicos, dos Deuses e das Religiões inúteis e ilusórias", sustentando, assim, uma prática poética inconciliável com o que designa de "arte pela arte", isto é, uma poesia meramente decorativa. Este texto, juntamente com os prefácios de Teófilo Braga à Visão dos Tempos e às Tempestades Sonoras, motivou as alusões irónicas de Castilho, na carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, à moderna escola de Coimbra e à sua poesia ininteligível, vindo, portanto, a desencadear a Questão Coimbrã(daqui)
 

sábado, 2 de setembro de 2017

"Reticências" - Poema de Álvaro de Campos



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836-1902),
 Bad News (The Parting), 1872. 


Reticências


Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação. 
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; 
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! 
Vou fazer as malas para o Definitivo, 
Organizar Álvaro de Campos, 
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... 
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. 
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir... 
Produtos românticos, nós todos... 
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. 
Assim se faz a literatura... 
Santos Deuses, assim até se faz a vida! 
Os outros também são românticos, 
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres, 
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar, 
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos, 
Os outros também são eu. 
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente, 
Rodinha dentada na relojoaria da economia política, 
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios, 
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida... 
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela, 
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, 
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica. 
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, 
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando, 
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, 
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema... 
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra... 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

terça-feira, 29 de agosto de 2017

"Porco trágico I - Poema de Alberto Pimenta



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836-1902),
'La Partie carrée', 1870, National Gallery of Canada.


porco trágico I


conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.

a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito
de si
e pouco ou nada dos outros.

o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.


de 'Obra Quase Incompleta', Fenda, 1990

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"A Estrada Branca" - Poema de José Tolentino Mendonça



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836-1902),
'On the Thames', c. 1874, Private collection.



A Estrada Branca


Atravessei contigo a minuciosa tarde 
deste-me a tua mão, a vida parecia 
difícil de estabelecer acima do muro alto 

folhas tremiam 
ao invisível peso mais forte 

Podia morrer por uma só dessas coisas 
que trazemos sem que possam ser ditas: 
astros cruzam-se numa velocidade que apavora 
inamovíveis glaciares por fim se deslocam 
e na única forma que tem de acompanhar-te 
o meu coração bate 


in 'A Estrada Branca'


sábado, 12 de agosto de 2017

"Prova Documental" - Poema de Francisco Carvalho



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836-1902),
'Gentleman in a railway carriage', 1872.


Prova Documental


Já assumi a solidão dos outros 
já provei do enigma insolúvel 
já calcei as botas do morto 
já tive segredo e foi de água abaixo. 

Já fugi ao encontro marcado 
já fui banido, já disse adeus 
já fui soldado, já fui rapsodo 
já tive inocência e foi de água abaixo. 

Já fui esperto, já fui afoito 
já puxei faca, já toquei pífaro 
já fui vaiado depois da briga 
já tive saudade e foi de água abaixo. 

Já fui árcade, já fui arcaico 
já fui pateta, já fui patético 
já perdi no jogo e na vida 
já tive amor e foi de água abaixo. 

Já tive pressa, já sentei praça 
já tive ouro, já tive prata 
já tive lenda, já tive fazenda 
já tive paz e foi de água abaixo. 

Já tive herdade, já fui deserdado 
já tive episódio, já tive epitáfio 
já levei o andor de Nosso Senhor 
já tive esperança e foi de água abaixo. 

Já tive mando, já corri mundo 
já fui a Roma e não quis ver o Papa 
já fui pra cama com Ana Bolena 
já tive infância e foi de água abaixo. 

Já fui Arlequim, já fui Pierrot 
já tive herança, já tive prosápia 
já tive estrela, já fui primogénito 
já tive cabelo e foi de água abaixo. 

Já fui feliz, já tive almofariz 
já fui a Belém, já comi vatapá 
já andei a cavalo no arco-íris 
já tive paisagem e foi de água abaixo. 

Já pesquei hipocampo de anzol 
já fui de trem ver o quebrar da barra 
já tive odalisca, já tive andaluza 
já tive memória e foi de água abaixo. 


Francisco Carvalho, in 'As Verdes Léguas'


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

"Não me mostres nenhum norte" - Poema de A. M. Pires Cabral



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836-1902),

The Gallery of HMS Calcutta (Portsmouth), 1876.


Não me mostres nenhum norte


Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"Talvez" - Poema de Pablo Neruda



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836-1902),
 "Portrait of the Princess de Broglie", 1895.


Talvez


Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...


sábado, 25 de agosto de 2012

"Ode aos livros" - Poema de Pablo Neruda



Pierre-Auguste Renoir
(French Impressionist artist, 1841–1919),
'Two Young Girls Reading', 1874, Private Collection.
 

Ode aos livros


Nós
os poetas caminheiros
explorámos o mundo, a cada porta
recebeu-nos a vida,
participámos na luta terrestre.
A nossa vitória qual foi?
Um livro, um livro cheio
de contactos humanos,
de camisas, um livro
em solidão, com homens
e ferramentas, um livro
é a vitória. Vive e cai
como todos os frutos,
não só tem luz,
não só tem sombra,
apaga-se,
desfolha-se,
perde-se de rua em rua,
despenha-se na terra
Livro de versos
de amanhã, volta
outra vez a ter neve ou musgo
nas tuas páginas
para que os pés
ou os olhos vão gravando sinais:
descreve-nos
de novo o mundo, as fontes
entre a espessura,
os altos arvoredos,
os planetas polares,
e o homem
nos caminhos,
nos novos caminhos,
avançando
na selva, na água, no céu,
na mais nua solidão marinha,
o homem
descobrindo os últimos segredos,
o homem
regressando com um livro,
o caçador
tornando a casa com um livro,
o camponês
lavrando com um livro.


Pablo Neruda


- Leitura e Lazer -

Sir John Lavery (Irish painter, 1856
1941), 'Summer'
(The Green Hammock)
, 1905.



Sir John Lavery (Irish painter, 18561941), 'Red Hammock', 1936.
 
 

William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher,
 18491916), 'Sunlight and Shadow', 1884. 



William Merritt Chase, 'The Open Air Breakfast' (also known as 'The Backyard, 
Breakfast Out of Doors'), 1888, Toledo Museum of Art.
 


William Chadwick
 (American impressionist painter, 18791962),
 'The Hammock', n.d. 



Winslow Homer 
(American painter, 18361910), Girl in a Hammock', 1873.



Valentine Cameron Prinsep
(Indian-born British artist, 1838
1904),
'Sweet Repose', n.d.
 
 

Władysław Ślewiński (Polish painter, 1854–1918), 
'Sleeping woman with a cat', 1896. 



Emanuel Phillips Fox
(Australian impressionist painter, 1865
1915),
'A Love Story', 1903, Art Gallery of Ballarat.
 


Joseph DeCamp
(American painter and educator, 18581923),
 'The Hammock', c. 1895.



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836
1902),
 'The Hammock', 1880. 



Robert Thegerström
(Swedish painter and graphic artist, 18571919),
'Laziness' (Lättja), 1887.
 
 
"Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? 
Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?" 


Manoel de Barros
, em 'Exercícios de ser criança'