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sábado, 7 de junho de 2025

"Canção Amiga" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Centro da cidade do Rio de Janeiro, 1936.
 

Canção Amiga 


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Carlos Drummond de Andrade,
in Novos Poemas, José Olympio, 1948.

 

sábado, 14 de dezembro de 2024

"Fim de Outono" - Poema de Fernanda de Castro


Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Casa de Campo, 1965.



Fim de Outono 
 
 
Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

Tudo seco pelas hortas,
Grandes lágrimas no chão
Nem uma flor pelos montes,
Tudo numa quietação
Soluça numa oração
O triste cantar das fontes.

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

A terra fechou as portas
Aos beijos do sol ardente,
E agora está na agonia...
Valha à terra agonizante
A Santa Virgem Maria!

Fim de Outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

"A árvore dos poemas" - Poema de Mario Quintana

 

Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Paisagem do Rio de Janeiro, 1938.
 
 

A árvore dos poemas

 
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Seus galhos se contorcem todos como mãos de enterrados vivos,
Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!
E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas retirantes…

De vez em quando uma tomba, exausta à beira do caminho,
Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de cântaro,
A doçura de fruto que poderia haver num poema.
Maldita a geração sem poetas que deixa as almas seguirem

Seguirem como animais em estúpida migração!
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Qual será o destino das almas? 


Mário Quintana, in "Baú de Espantos"
Porto Alegre - Editora do Globo, 1986.

sábado, 14 de setembro de 2024

"A Canção da Vida" - Poema de Mário Quintana


Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Paisagem, 1965.
 


A Canção da Vida

 
A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!) 


Mário Quintana
, in 'Esconderijos do Tempo'
 

Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Paisagem,s.d.
 
 
Fundo de quintal...
Silêncio. No velho muro,
uns cacos de sol...


Jorge Fonseca Jr. (1912-1985)
Haicais em "Brasa Dormida" [inédito]

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

“O último poema” - Poema de Manuel Bandeira



Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Paisagem de Primavera Florida
na Ilha de Paquetá – RJ, 1931
. Óleo sobre tela, 55 X 33 cm.
 


O último poema

 
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. 


1930
 
Manuel Bandeira
,
50 poemas escolhidos pelo autor,
Ed. Cosac Naify, São Paulo, 2006. 
 

Manuel Bandeira - 50 poemas escolhidos pelo autor
 Ano de edição : 2006
Editora: Cosac Naify
 
 
 RESUMO
 
Numa obra que não ultrapassa 350 poemas, os cinquenta reunidos neste livro são claramente uma síntese da poética de Manuel Bandeira, feita por alguém que a conhece como ninguém, ou seja, o próprio poeta. O leitor se surpreenderá com os novos significados que brotam a partir do rearranjo (encomendado a Bandeira pelo poeta e editor José Simeão Leal, do antigo Serviço de Documentação do MEC) e com as articulações inesperadas entre poemas muitas vezes lidos, relidos e nem por isso já inteiramente desvendados. Do ácido "Os sapos" à tranquila "Consoada", estão presentes na antologia os temas dominantes em sua poética: a poesia, o erotismo, o Recife da infância, a religiosidade. 
A edição é acompanhada de um CD com 29 poemas lidos pelo próprio Bandeira, um material raro, que durante décadas ficou restrito aos colecionadores, e que sai agora em edição limitada. daqui