Mostrar mensagens com a etiqueta Eduarda Chiote. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eduarda Chiote. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de junho de 2024

"Fica comigo" - Poema de Eduarda Chiote


Frederick Morgan (English painter, 1847–1927), A Gentle Reminder, c. 1899.

 

Fica comigo


Mãe,
arqueia os joelhos
para que o crepúsculo do medo
possa ceder ao berço
onde repouse.
E não me toques. Não me toques,
não me beijes.
Deixa-me permanecer aninhado no vazio
qual bicho de
sono.
Não me despertes.
Mãe, sou um menino de leite.
Apaga o seio.
Fica comigo: a noite
começa.


Eduarda Chiote
, in 'Antologia Poética'
 

quinta-feira, 30 de maio de 2024

"Não há fronteira" - Poema de Eduarda Chiote


Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834–1917), Interior, also known as The Rape, 1868-1869,
 

O Poeta diz: a vida
é uma «merda» que precisa ser vista com o máximo
requinte.
O requinte do olhar. Olhar que o obrigue a pecar.
Porque a vida
tal como o olhar
exerce-se fora da inocência dos sentidos
numa mesma intenção
e cumplicidade: a da boca
cega
que procura já, da morte, o peito recém-nascido
e canibal.
Porque é nesse altar
onde o pavio aceso toda a noite fulgura
que os lábios se entreabrem: flagelados de jejum
e castidade — céu despedaçado pela
águia fracionando
o espaço
das cidades.
Não há intimidade no mal — escreve o poeta exilado.
Vinda de onde, então,
Poesia,
a poderosa luz da tua absurda
generosidade?
Do «animal que se sente no mundo como a água
na água?» — Não se sabe.
Escreve-se por nada, Arnaldo, para ninguém,
para nada.
Por isso, implacável, a ti mesma
eu me ofereço — um osso duro de roer
mas que ácido floresce
no aroma que mistura o oiro à merda e o mar
ao sal. 
A Frágil Reparação da Minha Morte -
Antologia (1974-2023)
 
 
 
A frágil reparação da minha morte : antologia (1974-2023) -
  Eduarda Chiote; org. Maria F. Roldão. - Porto:
Officium Lectionis, 2023. - 229, [6] p. ; 24 cm.
(daqui)
 

Com organização de Maria F. Roldão, a editora Officium Lectionis acaba de publicar a Antologia (1974-2023) de Eduarda Chiote. Com um lúcido e estruturado texto de abertura, foram selecionados poemas de nove dos treze livros de poemas escritos pela autora entre 1974 e 2022, aos quais se acrescentam dois conjuntos de inéditos. (daqui)
 

Descrição

 
Concedeste-me a liberdade
sabendo que não queria (não podia) soltar-me:
que, deste modo, te pertenceria
– prisioneira para sempre
da minha escravidão.
Transformaste-me (com o meu acordo)
numa adúltera shakespear(iana)
e romântica.
Sim, deste-me a possibilidade de pecar em paz,
privando-me do teatral jogo sem jogo das crianças,
em verdade brincando de brincar
ao brincar.
Mas não se pode viver sem omissão
– faz parte da natural privacidade,
tal como o indizível
da poesia.
Porque, muito pelo contrário
e ao contrário do que é suposto pensar,
as regras poéticas são algemas a que se oferece o pulso.
Acaso te ocorreu simples?
Meu amor, meu pobre amor, entre a convenção
e a veneração nos movemos: foi então,
essa, a frágil reparação da minha Morte? – o teres inventado
o perdão, para quem culpa
não tinha?
 

Eduarda Chiote,
A Frágil Reparaçãoda Minha Morte -
Antologia (1974-2023) 

 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

“Cantiga de Amor” - Poema de Eduarda Chiote


Almada Negreiros (Artista multidisciplinar português, 1893-1970),
Bailarina
, c. 1948. Guache e grafite sobre papel, 53 × 37 cm.



Cantiga de Amor

 
Ó rosa dos sete ventos, por sete ventos
rodada,
defende-me
dos ladrões,
dos espantos doidos,
dos ventos,
e de mim. De mim também
e dos meus ventos
chorados.

Ó rosa dos sete espinhos
e no rochedo
cravados,
limpa o mar de todo o sangue, 
limpa a praia marinheira
das ondas do meu
pecado.

Limpa o coração deserto e a inocência do menino
trespassada pelo vidro da garrafa
arremessada
por veleiro sobre areia
adormecida,
por soltos cabelos
de água.

Ó rosa dos sete espinhos, por sete espinhos
rodada, traz-me o frio do céu limpo,
as nuvens da trovoada,
nos olhos do meu amor
e nas ruínas
abertas
de uma casa destelhada.

Ó rosa dos sete estrelos, por sete estrelos
rodada,
traz contigo todo o luto
desta música
inventada
no seu boné de marujo
ou no corpo não impresso de uma nota
descuidada.

Ó rosa dos sete estrelos, ó silêncio enevoado,
leva contigo
o poema, leva contigo
a palavra.
Leva contigo
o poeta
numa pérola de neve
e pela dor
fustigada
ó rosa clara de morte
ó nome do meu
amado.


Eduarda Chiote
, A Musa ao Espelho: Pathos
Pequena antologia quase inédita de poesia contemporânea portuguesa
(livro+cd), Gailivro, 2007


Descrição

A Musa ao Espelho
apresenta um espetáculo intenso e eclético. Os poemas são interpretados por José Carlos Tinoco, acompanhado por Juca Rocha (piano), Ianina Khmélik (violino), Vanessa Pires (violoncelo) e Fátima Santos (acordeão). Os temas compostos ou adaptados para cada um dos poemas acentuam a ambiência do texto, transportando o espetador através de uma viagem imaginária, visitando diferentes espaços físicos e emocionais. Obra constituída por livro com os poemas, CD audio e DVD do espetáculo em caixa.
Poemas de Ana Luísa Amaral, António Maria Lisboa, Bénedicte Houart, Carlos Poças Falcão, Daniel Jonas, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Eduarda Chiote, Filipa Leal, Helga Moreira, Humberto R., João Luís Barreto Guimarães, João Rios, Manuel António Pina, Rosa Alice Branco e Rui Lage.
 
 
Almada NegreirosSem título, s. d. Grafite e tinta da China sobre papel.
Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – 
Coleção Moderna.

 
"Sobre a terra, antes da escrita e da imprensa, existiu a poesia." 
 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"Os passos da Poesia" - Poema de Eduarda Chiote





Os passos da Poesia


Deslizas pela delicadeza
com teus pés magoados.
Por que caminhas agora sobre vidros,
por que exiges de ti essa aguda cautela?
Os céus teriam sido a morada, as areias finas
do nosso desencontro?
Soubera-o eu e ter-te-ia ajudado a não descalçar os sapatos.
As meias também.
Deixar-te ficar com elas, durante o amor,
tem sido (foi sempre) um motivo de deleite.
De carinho.
Uma inclinação natural
de proteger-te.
Se te pintara, numa imensa e clara tela, começaria
por essa mancha: estremecida.
Estremecida!
Ia jurar que nunca te apercebeste de como posso,
em discrição, exceder-lhe os pormenores
– convocar o fascínio,
a cor, a textura; pressagiar-lhe os passos de um suor doloroso.
Por que permiti, então, o caminhares por lugares
penosos?
Não mo perdoo.
Agora que os aperfeiçoas na fuga, espero bem poder acolhê-los
como pombas,
lavar-tos com a imaginação perfumada
das nuvens,
o olhar atento ao delicado equilíbrio, no quadro,
da moldura.
Anunciavam já, no tempo em que ao meu encontro
corriam, esse enredo de minuciosas
dores? – Quais? As de viver? O competente espaço
onde os acolho para a frescura da relva
por nascer?


sexta-feira, 19 de julho de 2019

"Uma Beleza Dificílima" - Poema de Eduarda Chiote


 


Uma Beleza Dificílima


 O silêncio
abre
o coração das sombras.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.

A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas são as folhas. Simples.
Lisa a copa.

Não há rumor na terra.
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.

Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.

Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direção
ao pó.


Eduarda Chiote, in 'A Celebração do Pó'


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

"Delicadeza" - Poema de Eduarda Chiote


Armando Alves, Paisagem, óleo s/ tela, 100x100, 2004



Delicadeza


Essa delicadeza, cada vez mais difícil, pela qual se perde 
a vida, como a entendo, 
pratico. 
Essa subtileza de pesadelo branco, como a sinto 
extrema sempre, 
às vezes. 
Ingénua - um animal discreto; sem dono 
e sem direitos. 
Por ela arrisco um aceitar alguém 
que nunca foi 
criança. 
Um ler que me não prende mais a atenção, um ser gentil 
para com uma pessoa ingrata 
- um cultivar uma paixão isenta 
"dos cardos do contacto". 
Um não precisar esclarecer seja o que for, 
pois tudo na vida é afinal 
bem mais sério 
do que parece. 
É por essa gentileza 
que se um grito me chega ao ouvido 
prefiro escutar nele o cheiro de um corpo que se perdeu 
do meu 
e ainda assim dizer 
Deus seja louvado, 
oxalá ele consiga agora ficar 
silencioso qual rasto de leitura sem palavra. 
Sim, é por essa gentileza, mulher poeta ou homem sensível 
- não me distingo nem de um nem do outro -, 
que muito embora as minhas esperanças 
se tenham desfeito há muito 
me permito, e não obstante um total desencanto, 
acreditar, ainda, numa simpatia sem despeito; 
pois e em virtude dessa mesma gentileza, 
não quero saber mais do que me dizem 
ou confiar menos do que o desapontamento 
me permita. 
Estou consciente 
de que as criaturas ou coisas imprestáveis podem ser justas 
e belas, 
e de que chegaremos, meu delírio, 
à mansidão, se o coração enciumado 
se não puser de fora 
- se o coração se tornar generoso e vigilante 
como a espera das folhas 
de que a copa carece 
em pleno inverno. 

Por isso, se te disser que sinto frio, 
que a água da chaleira 
evaporou, 
mas que de vez em quando sempre, 
às vezes, 
o embaraço do vapor em que ela se dissolve 
deixa uma gota mais aflita 
no desamparo em que me acolhes, 
lembra-te da comoção 
que me embarga a voz, quando, após uma longa 
ausência, apareces, para e de cada vez 
que tal acontece, te ires 
definitivamente 
embora. 


Eduarda Chiote, in 'Não me Morras'


Armando Alves (daqui)

Armando José Ruivo Alves GOM (Estremoz, 1935) é um artista plástico português.
Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, e na Escola Superior de Belas-Artes do Porto; aqui conclui o curso de Pintura com vinte valores, o que originou, em 1968, a formação do grupo Os Quatro Vintes, com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, com o qual se apresenta em exposições no final da década de 1960.
Entre 1963 e 1973 foi professor assistente na ESBAP, onde introduziu o estudo das Artes Gráficas, área a que viria a dedicar-se prolongadamente, tendo estado profissionalmente ligado a três editoras: Editorial Inova (1968); Editorial Limiar (1975); Editorial Oiro do Dia (1980). Dirigiu graficamente obras literárias, produziu cartazes, comemorativos e publicitários, catálogos de exposições e programas de concertos e de atividades desportivas. Em 1983 recebeu o prémio na Mostra de Artes Gráficas Grafiporto 83, no Museu Nacional de Soares dos Reis.


Armando Alves, Objecto, madeira pintada

Tendo começado por uma figuração que pode aproximar-se do universo neo-realista, optou seguidamente por um informalismo matérico desenvolvido na década de 60. Nos anos 70 dedica-se à construção de objectos pintados, de grande depuração formal. A partir dos anos 80 retoma os valores da paisagem que reformula à luz de um abstraccionismo lírico.
Foi agraciado com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito; recebeu o Prémio de Artes Casino da Póvoa 2009. (Daqui)

Armando Alves, Sem Título, 2012