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domingo, 15 de fevereiro de 2026

"Ah quantas máscaras e submáscaras" - Poema de Fernando Pessoa


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup
(Spanish painter, 1848–1901), The Masque (Mujer con Mascara), c. 1901.



Ah quantas máscaras e submáscaras
 
VIII

Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?

De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.

Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas

E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.

s.d.

Fernando Pessoa,
"35 Sonnets", in "Poemas Ingleses".

(Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena
e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.)
Lisboa: Ática, 1974. - 165. Tradução de Jorge de Sena
 

 
Lino Selvatico (Italian painter, 1872–1924), 'Francesca wearing a mask'
('Francesca con la maschera')
,  c. 1920.



How many masks wear we, and undermasks 

VIII

How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
And, when a thought would unmask our soul's masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking. 


Fernando Pessoa, '35 Sonnets'.
1ª ed., Lisbon: 1918.

35 Sonnets é uma coletânea de poemas, publicada em forma de opúsculo, em 1918, por Fernando Pessoa, em edição de autor, escrita originalmente num inglês arcaico (isabelino). Faz parte de um pequeno conjunto de livros publicados em vida por Pessoa, na língua inglesa, onde se incluem Antinous e os English Poems I-II e III.
Neste conjunto de 35 Sonetos, o poema VIII remete para a metáfora das máscaras, muito referida a respeito de Pessoa, uma vez que a origem em latim do nome Pessoa, persona, significa máscara.
 (daqui)
 


Francesco Hayez (Italian painter, 1791–1882), 'Vengeance is Sworn
('Consiglio alla vendetta')
, 1851, Liechtenstein Museum.



"A arte não é um espelho que mostra a realidade como ela é. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata." 


Walter Kaufmann, in "Life at the Limits (Man's Lot)", 1978.



Lorenzo Lippi
(Italian painter and poet from Florence, 1606–1665)
'Allegory of Simulation', c. 1642.


"O grande filósofo é um poeta dotado de consciência intelectual."


Walter Kaufmann, in "Critique of Religion and Philosophy", 1958.
 

domingo, 30 de novembro de 2014

"Os Palhaços" - Poema de Guilherme de Azevedo


William Merritt Chase,"Keying Up" – The Court Jester,



Os Palhaços


Heróis da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
eu gosto de vocês,
porque amo as expansões dos grandes risos francos
e os gestos de entremez,

e prezo, sobretudo, as grandes ironias
das farsas joviais.
que em visagens cruéis, imperturbáveis, frias.
à turba arremessais!

Alegres histriões dos circos e das praças,
ah, sim, gosto de vos ver
nas grandes contorções, a rir, a dizer graças
de o povo enlouquecer,

ungidos pela luta heróica, descambada,
de giz e de carmim,
nas mímicas sem par, heróis da bofetada,
titãs do trampolim!

Correi, subi, voai num turbilhão fantástico
por entre as saudações
da turba que festeja o semideus elástico
nas grandes ascensões,

e no curso veloz, vertiginoso, aéreo,
fazei por disparar
na face trivial do mundo egoísta e sério
a gargalhada alvar!

Depois, mais perto ainda, a voltear no espaço,
pregai-lhe, se podeis,
um pontapé furtivo, ó lívidos palhaços,
luzentes como reis!

Eu rio sempre, ao ver aquela majestade,
os trágicos desdéns
com que nos divertis, cobertos de alvaiade,
a troco duns vinténs!

Mas rio ainda mais dos histriões burgueses,
cobertos de ouropéis,
que tomam neste mundo, em longos entremezes,
a sério os seus papéis.

São eles, almas vãs, consciências rebocadas,
que enfim merecem mais
o comentário atroz das rijas gargalhadas
que às vezes disparais!

Portanto, é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
nas cómicas funções,
até fazer morrer, em desmanchados gestos,
de riso as multidões!

E eu, que amo as expansões dos grandes risos francos
e os gestos de entremez,
deixai-me dizer isto, ó nobres saltimbancos:
eu gosto de vocês!


Guilherme de Azevedo, in 'A Alma Nova'


William Merritt Chase, Autorretrato, 1915-1916, óleo sobre tela, 
"A arte não é um espelho que mostra a realidade 'como ela é'. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata."

(Walter Kaufmann)