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domingo, 5 de julho de 2026

"O sapato perfumado" - Poema de Ricardo da Cunha Lima



Donald Zolan (American painter, 1937–2009), 'New Shoes'



O sapato perfumado


Era uma vez um sapato
totalmente amalucado.
Seu esquisito costume
era usar um bom perfume.
Ele nunca passeava
sem estar bem asseado;
pra isso, sempre passava
perfume por todo lado,
bastando o seu couro inteiro
com fragrâncias do estrangeiro,
e na sola e no cadarço
espalhava água-de-cheiro.
Que eu me lembre se casou
(e que lindo par formou!)
com a meia do garçom,
a qual tinha, por seu lado,
o costume amalucado
de pintar-se com batom.


Ricardo da Cunha Lima
em "De cabeça para baixo",
São Paulo, Companhia das Letrinhas, 2000.


"De cabeça para baixo" de Ricardo da Cunha Lima, 
Ilustração de Gian Calvi. Companhia das Letrinhas, 2000.


SOBRE O LIVRO

Este livro de poemas é também um manual para aprender a ler e escrever poesia. Ricardo Cunha Lima lida com a linguagem de uma maneira extremamente lúdica, brincando com as palavras e com o modo de ver o mundo.

Um livro de poemas que ensina o que é poesia e que estimula o leitor a escrever seus próprios poemas. Esta é, em linhas gerais, a proposta que Ricardo Cunha Lima desenvolve em "De cabeça para baixo". O autor lida com a linguagem de uma maneira extremamente lúdica: brinca com as palavras e com o modo de ver o mundo. Um de seus poemas nos fala, por exemplo, de um aspirador de pó... alérgico a pó: "Toda vez que era ligado,/ Já ficava todo inchado,/ Inteirinho empelotado". E Ricardo, que quer levar o leitor aos "bastidores" do mundo poético, ensina que esse poema é um "vilancico", uma forma típica da poesia espanhola da Idade Média. Rima, métrica, aliteração, soneto e antítese são outros conceitos explicados pelo autor, neste livro de poemas que é também um manual para aprender a ler poesia. Prémio Jabuti 2001 de melhor livro infantojuvenil. Título altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ 2000, categoria poesia.
 (daqui)

 ***
 
Obras de Donald Zolan
 
Donald Zolan (American painter, 1937–2009)
 
 


Donald Zolan, 'Dozens Of Daisies'
 


Donald Zolan, 'Country Walk'
 


Donald Zolan, 'The Big Catch'
 

 
Donald Zolan, 'Summer Lake'
 
 
 
Donald Zolan, 'Morning Discovery'



Donald Zolan, 'Sabina in the Grass'
 


Donald Zolan, 'Summer Thunder'

sábado, 6 de junho de 2026

"Simpatia" - Poema de Afonso Schmidt



Donald Zolan (American painter, 1937
2009), 'Forest friends'


Simpatia

 
Numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrada vão:
o cão estima a criança,
e a criança estima o cão.

Que delicada aliança
dos seres da criação:
uma risonha criança,
um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança
e sorriu lá na amplidão:
ele gosta da criança,
que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,
os dois felizes lá vão:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.


Afonso Schmidt
(1890–1964),
em 'Poesia brasileira para a înfância
por Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito,
São Paulo, Ed. Saraiva, 1968.
 
 

Donald Zolan, 'Backyard Buddies'


"Felizes os cães, que pelo faro dão com os amigos!"


Machado de Assis
 (1839–1908),
Trecho do conto ´Primas de Sapucaia´.
 
 
 
Donald Zolan, "Best Friends"
 

sexta-feira, 30 de maio de 2025

"Amor" - Poema de Roseana Murray


Donald Zolan (American painter, 1937 - 2009), 'Nostalgic Summer Memories'.
 

Amor


Todas as palavras
de amor já foram ditas,
desde o começo,
todos os espantos.
E no entanto,
há que carregá-las
no bolso,
sempre ao alcance
das mãos,
há que desdobrá-las,
encharcadas de aurora,
de crepúsculo,
de tempo,
para que digam
uma e outra vez.
"Caligrafia dos Sentimentos" 
 
 
"Caligrafia dos Sentimentos" de Roseana Murray.
Livro ilustrado com caligrafia de Silvane Silva.
Editora Feminas, 2020.
 
 Roseana Murray autora de livros de poesia e contos para crianças, jovens e adultos é graduada em Língua e Literatura francesa pela Universidade de Nancy através da Aliança Francesa. Trabalha com o Projeto de Leitura Café, Pão e Texto, recebendo Escolas Públicas em sua casa para um café da manhã literário. Faz palestras sobre a Formação do Leitor. Tem cerca de cem livros publicados. (daqui)
 
 
Donald Zolan, 'Country Kitten'.


"Gatos são poemas ambulantes. Pisam na terra como se estivessem no céu
e seus olhos atravessam as fronteiras dos mundos invisíveis."

Roseana Murray
, "Falando de Pássaros e Gatos", 1990. 
 
 
Donald Zolan, 'Just we two'.


"Fica demonstrado que as coisas que vemos e que são comuns a todos, as coisas que são iluminadas pela luz exterior, são muito menores do que as coisas que vemos com a luz dos nossos olhos. De resto é da mistura das duas luzes que o mundo é feito."

Afonso Cruz, em 'O Pintor Debaixo do Lava-Loiças', 2011.
 
 
Afonso Cruz, 'O Pintor Debaixo do Lava-Loiças'
Editora: CAMINHO 


SINOPSE
 
(Livro recomendado PNL2027 dos 15-18 anos - leitura fluente)
 
A liberdade, muitas vezes, acaba por sobreviver graças a espaços tão apertados quanto o lava-loiças de um fotógrafo. Esta é a história, baseada num episódio real (passado com os avós do autor), de um pintor eslovaco que nasceu no final do século XIX, no império Austro-Húngaro, que emigrou para os EUA e voltou a Bratislava e que, por causa do nazismo, teve de fugir para debaixo de um lava-loiças. (daqui)
 

domingo, 13 de outubro de 2024

"Tempestade" - Poema de Henriqueta Lisboa


Donald Zolan (American painter, 1937 - 2009)
 
 

Tempestade


– Menino, vem para dentro,
olha a chuva lá na serra,
olha como vem o vento!

– Ah, como a chuva é bonita
e como o vento é valente!

– Não sejas doido, menino,
esse vento te carrega,
essa chuva te derrete!

– Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!

E enquanto o vento soprava
e enquanto a chuva caía,
que nem um pinto molhado,
teimoso como ele só:

– Gosto de chuva com vento,
gosto de vento com chuva!


Henriqueta Lisboa
, in Lírica, 1958.
 

Donald Zolan, Rainy Day Pal., s.d.
 
 
"Se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva."
 
José Lins do Rego, em dezembro de 1947; citado em "O moleque Ricardo: romance‎"
Página xiv, de José Lins do Rêgo - 1973 - 213 páginas.
 

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

"Caixa mágica de surpresas" - Poema de Elias José



Donald Zolan (American painter, 1937–2009)


Um livro


Um livro
é uma beleza,
é caixa mágica
só de surpresa!

Um livro
parece mudo,
Mas nele a gente
descobre tudo.

Um livro
tem asas
longas e leves
que, de repente,
levam a gente
longe, longe.

Um livro
é parque de diversões
cheio de sonhos coloridos,
cheio de doces sortidos,
cheio de luzes e balões.

Um livro é uma floresta
com folhas e flores
e bichos e cores.
É mesmo uma festa,
um baú de feiticeiro,
um navio pirata do mar,
um foguete perdido no ar,
É amigo e companheiro.


Elias José,
in "Caixa Mágica de Surpresas", 1984. 



Elias José, "Caixa Mágica de Surpresas", 1984
Editora: PAULUS, 20º edição, 24 páginas.

 
Descrição

Este livro é, de facto, uma caixa mágica de surpresa de onde surgem as histórias de animais, pessoas e situações, por meio da poesia com muito ritmo, som, imagens e rimas.

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Criança desconhecida e suja brincando à minha porta" - Poema de Alberto Caeiro



Donald Zolan (American painter, 1937–2009)



Criança desconhecida e suja brincando à minha porta


Criança desconhecida e suja brincando à minha porta, 
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos. 
Acho-te graça por nunca te ter visto antes, 
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança, 
Nem aqui vinhas. 
Brinca na poeira, brinca! 
Aprecio a tua presença só com os olhos. 
Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la, 
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez, 
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar. 

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas. 
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão, 
Sabes que te cabe na mão. 
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior? 
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta. 
 

Alberto Caeiro, "Poemas Inconjuntos",
Poemas Completos de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa.

[1ª publ. in "Poemas Inconjuntos". Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.]
 

Kenny G - Sentimental
 


"Não me interessa nenhuma religião cujos princípios não melhoram nem tomam em consideração
 as condições dos animais." 

 
 
"Abraham Lincoln portrait" (1809–1865), by George Peter Alexander Healy
(American portrait painter, 1813–1894), National Portrait Gallery,
Smithsonian Institution, Washington, D.C.


Abraham Lincoln, décimo sexto presidente dos Estados Unidos da América, nasceu a 12 de fevereiro de 1809 no Kentucky, América do Norte, no seio de uma humilde família, e morreu assassinado a 14 de abril de 1865, em Washington. 
Abraham Lincoln viveu também em Indiana com os seus pais, Thomas e Nancy Hanks Lincoln. Residiu depois em New Salem (Illinois), desta feita sozinho e trabalhando como empregado de balcão a partir de 1831. Ainda nesta localidade ganhou a vida como agente dos Correios, marcando todos os que o conheciam pela honestidade que lhe era intrínseca, e tornou-se deputado estatal (integrado no partido Whig) em 1834 e membro do Senado dez anos depois. 
Fez também serviço militar, chegando a participar na Black Hawk War no posto de capitão. Foi a partir da sua inserção no meio político que se dedicou ao estudo do Direito e em 1836 começou a exercer advocacia, tendo inclusivamente criado um escritório em Springfield, aquando da sua mudança para esta cidade (onde casou com Mary Todd, de quem teve quatro filhos), e sido associado de um outro, juntamente com William Herndon. A sua habilidade natural neste ramo e a itinerância que então caracterizava os tribunais do estado do Illinois contribuíram para o seu reconhecimento geral, pelo que se tornou membro da Câmara de Representantes em 1846 e do Congresso entre 1847 e 1849. 
O seu manifesto desacordo com a política do então presidente James Polk (sobretudo a propósito da Guerra do México) e, mais tarde, com a proposta de lei aprovando a escravidão no Nebraska e no Missouri elaborada pelo senador Stephen Douglas, aumentaram a sua notoriedade. 
Lincoln foi uma das personagens de destaque na formação do Partido Republicano dos Estados Unidos da América (1854), e assim estava aberto o caminho para que fosse apresentado como candidato a presidente dos Estados Unidos em 1860, pela assembleia nacional republicana. Contudo, havia bastantes oponentes ao seu governo, e quando se tornou efetivamente o 16.º presidente, em 1861, os onze estados sulistas que viriam a formar a Confederação dos Estados da América retiraram-se da Federação e declararam guerra, iniciando-se deste modo a guerra civil, conhecida como Guerra da Secessão (12/4/1861 - 1/4/1865). 
Como é sabido, foi a fação do Norte que saiu vencedora do conflito, Lincoln foi reeleito em 1864 e em 1865 a escravatura foi abolida nos EUA com a introdução das 13.ª e 14.ª emendas, havendo-se já procedido anteriormente à sua eliminação em alguns dos estados a partir do dia 22 de setembro de 1862 ("Proclamação de Emancipação"). 
Durante o seu primeiro mandato tornou possível a compra de terrenos governamentais na zona Oeste a um preço muito baixo, através do Homestead Act (1862), criou os bancos nacionais para suportarem um sistema financeiro sólido e propiciou uma renda de apoio às universidades agrícolas da cada estado (ele próprio vinha de uma família de agricultores, estando portanto sensível a este tipo de necessidades). 
Abraham Lincoln acabou por morrer assassinado no Teatro Ford pelo fundamentalista sulista John Wilkes Booth, no decorrer da peça de teatro "O nosso primo americano" a que o presidente assistia em Washington, treze dias depois da guerra civil ter terminado. (daqui)