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terça-feira, 7 de outubro de 2025

"A pintura do automóvel" - Conto de Fernando Pessoa

 
Tomas Castaño (Artista espanhol, n. 1953), "Chinatown, New York - 1930", 2019.
 
 

A pintura do automóvel

Eu explico como foi (disse o homem triste que estava com uma cara alegre), eu explico como foi...

Quando tenho um automóvel, limpo-o. Limpo-o por diversas razões: para me divertir, para fazer exercícios, para ele não ficar sujo.

O ano passado comprei um carro muito azul. Também limpava esse carro. Mas, cada vez que o limpava, ele teimava em se ir embora. O azul ia empalidecendo, e eu e a camurça é que ficávamos azuis. Não riam... A camurça ficava realmente azul: o meu carro ia passando para a camurça. Afinal, pensei, não estou limpando este carro: estou-o desfazendo.

Antes de acabar um ano, o meu carro estava metal puro: não era um carro, era uma anemia. O azul tinha passado para a camurça. Mas eu não achava graça a essa transfusão de sangue azul.

Vi que tinha que pintar o carro de novo.

Foi então que decidi orientar-me um pouco sobre esta questão dos esmaltes. Um carro pode ser muito bonito, mas, se o esmalte com que está pintado tiver tendências para a emigração, o carro poderá servir, mas a pintura é que não serve. A pintura deve estar pegada, como o cabelo, e não sujeita a uma liberdade repentina, como um chinó. Ora o meu carro tinha um esmalte chinó, que saía quando se empurrava.

Pensei eu: quem será o amigo mais apto a servir-me de empenho para um esmalte respeitável? Lembrei-me que deveria ser o Bastos, lavador de automóveis com uma Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis, e deve portanto saber o que vale a pena esfregar.

Procurei-o e disse-lhe: «Bastos amigo, quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com que esmalte é que o hei de pintar?»

«Com BARRYLOID», respondeu o Bastos, «e só uma criatura muito ignorante é que tem a necessidade de me vir aqui maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo modo o primeiro chauffeur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinhas».

«Perfeitamente...»

«Com que é que você quer pintar um carro», continuou o Bastos sem me ligar importância, «senão com um esmalte que seja ao mesmo tempo brilhante e permanente? E, ainda por cima fácil de aplicar... Isto do fácil de aplicar é comigo, mas é uma virtude, e as virtudes citam-se... Vá-se embora!...»

«Bom...», disse eu.

«Isto de esmaltes de nitrocelulose», prosseguiu o Bastos, dando-me um encontrão, não é um assunto de mercenaria a retalho. Tem uma coisa maçadora a que se chama ciência. Sabe o que é? Mas é maçadora para quem prepara as coisas; para nós, que as recebemos preparadas para as aplicarmos, é um alívio e uma alegria. Este BARRYLOID é o produto de longos cuidados feitos no primeiro laboratório de tintas, lacas e vernizes. Percebeu? Não é o primeiro produto do género que apareceu, porque o ser primeiro está bem se se trata de estar numa bicha, mas não se trata de tintas ou de coisas que metam estudo e provas. Não: nas tintas e na prática, a última palavra é que é a primeira.»

«Meu caro Bastos...», disse eu.

«Só BARRYLOID», respondeu o Bastos, virando-me as costas.

«Eu queria agradecer...», prossegui.

«Traga o carro», disse o Bastos.

Levei-lhe o carro e ele pintou-o a BARRYLOID. E não há camurça, nem chuva, nem poeira da pior estrada, que consiga envergonhar esse esmalte de aço. Sim: o Bastos tratou-me mal, mas tratou bem a verdade. Não há nada como o BARRYLOID.

... Tanto assim que, quando comprei o meu segundo carro, tratei logo de saber se ele vinha já pintado a BARRYLOID. Ele aí está na base da página e no fim da minha história. Passa-se a camurça, mas é preciso usar óculos fumados: o brilho deslumbra. E, o que é mais, deslumbrará, porque dura.

A minha camurça dura eternamente. O que se tem gasto muito são os óculos fumados; e os elogios dos amigos que veem os meus carros pintados a BARRYLOID.

Fernando Pessoa - Ficção e Teatro.
(Introdução, organização e notas de António Quadros.) 
Mem Martins: Europa-América, 1986 - 97. 

[Texto de publicidade às Tintas Baryloid. 1ª publ. in Folhas de Poesia, nº 3. Lisboa: Set. 1958, com o título «O Automóvel ia desaparecendo».]



Tomas Castano, "Blue Car in Old Havana: Reflections of the Past", 2018.


"Uma paisagem conquista-se com as solas dos sapatos, não com as rodas de um automóvel."

William Faulkner
[Escritor americano (1897–1962), vencedor do prémio Nobel de Literatura de 1949]
 
 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

"Retrato do povo de Lisboa" - Poema de Ary dos Santos

 
 
Inês Dourado (Pintora portuguesa, n. 1958), "Lisboa de Luz e Cor" (Lisboa, Portugal), 2021. 
Aguarela e guache sobre papel, 39,5 x 57 cm.



Retrato do povo de Lisboa


É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.

Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.


Ary dos Santos, in "Fotos-grafias", 1970.



Inês Dourado, "Lisboa Luminosa e Colorida", 2022. Óleo em tela, 50x60 cm.
 

"Lisboa [...] onde todos os que bebem água, não tem mais de um estreito chafariz para tanta gente [...] e deve de trazer a Lisboa 'Água Livre' que de duas léguas dela trouxeram os Romanos, por condutas debaixo da terra, subterrâneos furando muitos montes e com muito gasto e trabalho." 

 
 

Aqueduto das Águas Livres em Campolide - Lisboa em 1905.
Postal Ilustrado - Fototipia Animada, Edições Martins
 (daqui)


Aqueduto das Águas Livres

A condução da água em canais remonta já à Antiguidade. Os Fenícios foram mestres nas construções subterrâneas. Por outro lado, os canais à superfície, apoiados em arcadas, são invenção dos Romanos.

Em Portugal, a influência romana faz-se sentir tanto pelas ruínas arqueológicas, por exemplo, o Aqueduto de Conímbriga, como também pelo fascínio dos governantes da Idade Moderna pela Antiguidade. Assim, aparece-nos o aqueduto como paradigma das obras públicas.

Em 1571, no tratado "Da fábrica que falece a cidade de Lisboa", de Francisco de Holanda, aparece a primeira referência ao aqueduto, numa tentativa de fazer chegar a Lisboa a água das fontes das águas livres, no Vale do Carenque. As obras, essas só viriam a ter início século e meio mais tarde, por alvará régio de D. João V.
Em agosto de 1732, o arquiteto italiano António Canevari dirige o projeto, tendo sido posteriormente afastado e substituído, em 1733, por José da Silva Pais, Manuel da Maia e Custódio Vieira. Coube a Manuel da Maia o comando dos trabalhos até 1736; a partir daí foi Custódio Vieira a dirigir a obra.

O Aqueduto das Águas Livres tem uma extensão - incluindo todos os ramais - de 58 135 metros, possuindo 137 claraboias - que serviam para ventilar os canais -, 35 arcos (14 em ogiva e os restantes de volta perfeita), tendo o central um vão de 29 metros de largura por 65 de altura, o que o torna o maior arco em pedra construído em todo o mundo. O Aqueduto abastecia 34 chafarizes.
Mãe de Água das Amoreiras é o nome dado ao reservatório que recebia e distribuía as águas canalizadas pelo aqueduto aos chafarizes. Este edifício, que servia de término ao Aqueduto, foi da responsabilidade do arquiteto Carlos Mardel (bem como o Arco das Amoreiras) e só foi concluído em 1834.

É sob a direção de Carlos Mardel que, em 1748, corre água pela primeira vez em Lisboa. Esta monumental e notável obra de engenharia hidráulica, que levou mais de um século a ser erguida, só foi retirada do sistema de abastecimento da águas à cidade de Lisboa em 1967. (daqui)
 


 Francisco de Holanda, Autorretrato, ca. 1573,
 o artista apresentando o seu "Livro das Imagens".


Francisco de Holanda

Ensaísta, artista plástico, arquiteto, historiador e crítico de arte português, nascido provavelmente em 1517, em Lisboa, e falecido em 1584. Estudou em Itália, entre 1538 e 1547. Ali teve acesso ao círculo de Vitória Colonna, figura notável do renascimento italiano, facto que lhe proporcionou o convívio com grandes artistas da sua época, como Parmigianino, Giambologna e, em especial Michelangelo Buonarroti, que nele despertou o fervor pelo classicismo.
Regressou, mais tarde, a Portugal, onde obteve várias ajudas da parte do infante D. Henrique, do cardeal-arcebispo de Évora e dos reis D. João III (a mando deste monarca, pintou os livros do coro do Convento de Cristo) e D. Sebastião.

O ideal estético renascentista exprime-se acentuadamente neste autor, que afirma que o dever primordial do artista é cultivar a sua íntima originalidade, "imitar-se a si mesmo"; depois, seguir a lição da natureza (puro espelho do Criador) e a lição dos antigos, mestres imortais de grandeza, simetria, perfeição e decoro.
Dotado de uma grande versatilidade intelectual, o autor distinguiu-se pelos seus desenhos da série "Antiguidades de Itália" (1540-1547), pelo seu contributo como instrumento de estudo na reconstituição do património arqueológico romano e da arte italiana da primeira metade do século XVI. Foi ainda autor do projeto da fachada da igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora.

A sua paixão pelo classicismo refletiu-se no seu tratado Da Pintura Antiga, que divulga o essencial da obra de Michelangelo e do movimento artístico de Roma no segundo quartel do século XVI. Escreveu ainda o primeiro ensaio sobre urbanismo na Península Ibérica, como o título Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, e alguns livros de desenhos como De Aetibus Mundi Imagines e Antigualhas. (daqui)
 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

"Não gosto tanto de livros" - Poema de Adília Lopes

 

Camille Engel (American realist painter, b. 1955)
 

Não gosto tanto de livros
​

​Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.


Adília Lopes, in 'Obra'.
Mariposa Azual, Lisboa, 2000.


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

"A Casa da Poesia" - Poema de José Jorge Letria



Fátima Marques (Artista plástica brasileira, n. 1956), 'Encontro com o Futuro', 2019.



A Casa da Poesia


A poesia tem uma casa
como as pessoas têm,
só que é diferente,
só que tem espaço
para todos quantos
nela querem entrar
com a terna alegria
de quem a vai habitar.

É um casa sem portas nem janelas,
sem teto e sem cave,
pois assim tem mais espaço
para quem nela quer morar.

É uma casa de sons,
que por vezes parecem música,
embora sejam apenas palavras,
palavras simples e graves,
agudas e tristes,
cantantes e belas,
palavras que são a pedra e a cal
dessa casa onde todos podem morar.

A poesia tem uma casa
toda feita de versos
que podem ou não rimar,
que podem fazer rir e chorar
como os palhaços do circo
que, à sua maneira,
são poetas da oficina do riso,
da festa das mais sonoras gargalhadas.

A poesia gosta de acordar cedo
para ouvir os pássaros a cantar
e os rios a correr
e os sonhos a acordar
dentro da cabeça
de quem não os quer deixar morrer.

A poesia junta os sons
com a delicadeza
das bordadeiras e dos ourives
quando querem
que aconteça beleza.

A poesia dá nome
ao que não tem nome
e se umas vezes rima,
como acontece nesta fala,
outras vezes não rima
e escreve como quem cala
por saber que a poesia
deve estar sempre acima
de quaisquer jogos de sala.

A poesia vai à escola
com um bibe feito de versos,
de mãos dadas com os meninos
que lhe querem perguntar
qual é a idade certa
para a poesia se revelar.

Na escola da poesia
ninguém tem notas para lhe dar,
pois ela não está
nem nunca esteve
ali só para passar.
Tem um desejo apenas:
ficar no coração
de quem a quiser lembrar.

A poesia tem uma casa
onde moram os poetas
e para eles terá sempre
as portas imaginárias
iluminadas e abertas.

A poesia anda de metro,
ou nos elétricos da cidade,
sem ter pressa de chegar,
porque isto de não ter pressa
é a sua liberdade
e é dessa liberdade
que gosta de se alimentar.

A poesia tem uma casa
que não é grande nem pequena,
pois tem sempre o tamanho
que tem cada poema.

A poesia vai à escola
com mil versos na mochila
e depois lança-os ao vento
para que possam chegar mais longe
do que chega o pensamento
e, num tempo sem memória,
consigam durar sempre mais
do que dura o esquecimento.

A poesia tem um jardim,
um terraço e um quintal
para receber os amigos
vindos do mundo animal:
os cães do abandono
que não têm casa nem dono,
os gatos livres e espertos
que mantêm sempre, rebeldes,
os olhos bem abertos,
as andorinhas e os pardais
e outros bichos mais,
incluindo os de conta,
e uma vez por outra
também uma barata tonta.

A poesia gosta de rir
porque o riso a alivia
dos medos e dos fantasmas
que lhe aparecem dia a dia
e também das contas certas
que não rimam com alegria
e adiam a felicidade
como quem mata a magia.

A poesia tem uma escola
onde gostava de aprender
que trovoadas e ciclones,
planetas e clones
são formas do universo
não se cansar e morrer.

A poesia tem uma casa
onde escreve à luz de velas
e que nunca há de ter teto
para poder ver as estrelas.

Não é voto de pobreza
este seu modo de ser,
é apenas a maneira
mais perfeita e certeira
de nunca se perder
nos estranhos labirintos
da aventura de escrever.

A escola da poesia
tem muitos livros num livro
que se conhece à distância,
pois é nele que se guardam
os mistérios da infância.

A poesia dá nome
ao que no falar comum
raramente nome tem
e deixa sempre em cada um
o desejo sentido
de falar com mais alguém
para que a poesia cresça
e os leitores mereça
porque lhes faz bem.

A casa da poesia
tem tom azul de mar
nas paredes que não tem
mas que dá gosto inventar,
apenas porque sabe bem
ter uma casa assim
mesmo à mão de semear.

A casa da poesia
nunca será assaltada,
porque aquilo que nela existe,
sendo um tesouro raro,
afinal não vale nada
para os ladrões escondidos
no escuro da madrugada.

A casa da poesia
está cheia de crianças,
de histórias e de lendas,
de jogos e de danças
e até a Beatriz
com um pauzinho de giz
desenha asas em vez de tranças.

A casa da poesia
tem uma mesa imensa
onde um poeta irrequieto
espalha o seu afeto
na hora de escrever
uma ode ou um soneto.

Na mesa da poesia
há sempre lugar para mais um,
e que se saiba não há poeta
que dela saia em jejum,
seja moderno ou antigo,
consagrado ou esquecido,
de elegias ou canções,
seja Cesário Verde,
Fernando Pessoa, Ruy Belo
ou mesmo Luís de Camões.
E esse livro de poemas,
vê lá onde é que o pões!

A poesia tem uma casa
que não aparece nos jornais,
talvez por iguais a ela
não existirem mais.
É uma casa hospitaleira
onde o sono é fantasia
e cada poema tem
a sua própria melodia.

A casa da poesia
cedo se abre para a festa,
espaço de luz e de sombra,
talvez canção de gesta
onde cabe a gente toda
com a alegria a circular
de uma velha canção de roda.

A poesia vai à escola
para alegrar o recreio
com uma rima daquelas
que acertam em cheio
nos medos que não largam
os meninos com receio
de estarem numa sala
com fantasmas lá no meio.

Na casa da poesia
existe sempre à mão
a poeira de magia
a que se chama inspiração
e esse jeito secreto
de juntar trabalho e emoção.

Na casa da poesia
cabem netos e avós,
pais, primos e irmãos
em páginas ímpares e pares,
e cabe sempre a nossa voz,
pois os esforços não são vãos
quando teima a poesia
em não nos deixar sós.

Na casa da poesia
há sempre uma luz acesa
e uma vela que alumia
com a intensa luz do dia
a mágoa ou a tristeza
e que convida duendes e fadas
para nos fazerem companhia
nas longas madrugadas.

A poesia vai à escola,
ainda hoje ou amanhã,
com um cesto de frutos
onde o morango e a romã
se põem a conversar,
talvez mesmo a namorar,
para que nunca seja vã
essa vontade de mostrar
aquilo que a poesia,
seja cereja ou maçã,
desde sempre guarda
para nos encantar.

Já os pais se vão deitar,
que amanhã é outro dia
e no quarto dos meninos
há uma luz que cintila
e há dez magos em fila
com a poção que anuncia
que na página em branco
irá nascer poesia,
a liberdade mais livre
que existiu algum dia.


José Jorge Letria
, "A Casa da Poesia",
Lisboa, Terramar, 2003.

 
"A Casa da Poesia" de José Jorge Letria,
Ilustração: Rui Castro
Editor: Terramar, 2003

 


Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 4º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.



Fátima Marques, 'Liberdade', 2018


"Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar."


Helen Keller
,  
"The story of my life" - página 393, Helen Keller, John Albert Macy, Annie Sullivan -
Doubleday, Page & Company, 1903 - 439 páginas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

"Ode à vida" - Poema de Pablo Neruda

 


Mark Grantham (Canadian Painter, born 1966), "I Thought I Heard My Name", 
 Barrington Street, Halifax, n.d.
 

Ode à vida

 
Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonia, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos creem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho
nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não saíram da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargores
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia
da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adote nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios.


Pablo Neruda,' Odas elementales', 1954,
Tradução de Luís Pignatelli,
Publicações Dom Quixote, 1977.
 


Mark Grantham, "Homeward", n.d.
 

"A vida é um viajante que deixa a sua capa arrastar atrás de si, para que lhe apague o sinal dos passos."

Louis Aragon, Les Voyageurs de l'impériale: roman.‎
Publicado por Gallimard (Le Monde réel), 1942. 


domingo, 1 de setembro de 2024

"Setembro" - Poema de Vasco Graça Moura

 


Damião Martins
(Pintor cubista brasileiro desde 1978), Colheita de uva, s.d.


Setembro


agora o outono chega, nos seus plácidos
meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa
um cabaz de maçãs por sobre a vedação:
redondas, verdes, o seu perfume vai
dentro de quinze dias ser mais forte.

a noite cai mais cedo e apetece
guardar certos vermelhos da folhagem
e amarelos e castanhos nas ladeiras
de setembro. a rádio fala no tempo variável
que vem aí dentro de dias. talvez caia

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo
os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.
aproveita-se o outono no macio
enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.
devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele. 


Vasco Graça Moura
, in "Poesia 2001/2005",
Quetzal Editores, 2006.


Damião Martins, Vindimas, s.d.
 
 
Vindimas

 
As vindimas consistem na colheita dos cachos de uvas, destinados à produção de vinho, quando estas atingem o grau indicado de amadurecimento. Os cachos são então enviados para os lagares, onde começa a produção de diversos tipos de vinhos. Para obter uma boa qualidade de vinho é necessário escolher a data exata em que se deve iniciar as vindimas.

As vindimas têm lugar, habitualmente, em setembro, após uma decisão nesse sentido tomada pelos enólogos, que desde o final de agosto anterior analisam amostragens para controlar a maturação das uvas, assim como a acidez, peso e cor. É necessário encontrar o grau de acidez indicado porque com o passar do tempo os ácidos transformam-se em açúcares, o que leva a um aumento do álcool.

Cabe aos produtores, em função da casta, determinar a relação que mais lhes convém em função do tipo de vinho que pretendem produzir. Posteriormente, deve ser feito o transporte dos cachos nas melhores condições, já que, devido ao calor próprio da época, as uvas amassadas começam a fermentar antes do tempo.

Também é possível prever a melhor altura para as vindimas através de um método popular que consiste em verificar quando murcham os pés das uvas e as peles dos bagos começam a contrair.

Marcada a data da vindima, a cada propriedade onde há cultivo de uvas acorrem então dezenas de trabalhadores sazonais, normalmente oriundos das terras vizinhas, e é iniciado um dos mais característicos momentos da etnografia portuguesa. Muitas vezes são famílias completas que se deslocam para as vindimas, numa tradição que atravessa gerações: as mulheres, auxiliadas pelas crianças, cortam os cachos, que são colocados em cestas de vime. Cabe então aos homens transportar estes cestos para os lagares. Antigamente eram grupos de homens que pisavam as uvas, sistema que gradualmente foi sendo substituído por métodos mecânicos.

Na época das vindimas são organizadas nas diferentes terras ou regiões onde existe esta atividade as chamadas Festas das Vindimas, uma tradição histórica que atrai imensos turistas, como acontece, por exemplo, na região do Douro, a mais antiga região demarcada de vinho do mundo. (daqui)
 
 
Damião Martins, Vindima, s.d.
 

Provérbios do Mês de Setembro
 
  • Trinta dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro; de vinte e oito, só há um, e os mais têm trinta e um.
  • Em Setembro, ardem os montes e secam as fontes.
  • Em Setembro, planta, colhe e cava que é mês para tudo.
  • Setembro a comer e a colher.
  • Setembro molhado, figo estragado.
  • Setembro ou seca as fontes ou leva as pontes.
  • Agosto, debulhar, Setembro, vindimar.
  • Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor.
  • Arranja bom Setembro, com a burra fico eu.
  • Chuvas verdadeiras, em Setembro as primeiras.
  • Em Setembro palha no palheiro e meninas ao candeeiro.
  • Em Setembro ramo curto, vindima longa.
  • Em Setembro secam as fontes e as chuvas lavam as pontes.
  • Em Setembro semeia o teu pão.
  • No pó semeia, que Setembro to pagará.
  • Se em Setembro a cigarra cantar, não compres trigo para guardar.
  • Setembro cara de poucos amigos, cara de figos.
  • Setembro é o Maio do Outono.
  • Setembro que enche o celeiro dá triunfo ao rendeiro.
  • Agosto tem a culpa, e Setembro leva a fruta.
  • Nuvens em Setembro: chuva em Novembro e neve em Dezembro.
  • Agosto madura, Setembro vindima.
  • Em Setembro tem Deus a mesa posta.
  • Para vindimar deixa o Setembro acabar.
  • Vindima molhada, pipa depressa despejada.
  • Agosto arder, Setembro beber.
  • Em Agosto secam os montes e em Setembro as fontes.

domingo, 24 de março de 2024

"Nú: Estudo em Comoção" - Poema de Ana Luísa Amaral


Mary Beth McKenzie (American painter, b. 1946), "Marcsi (window)", 1999. 
Oil on canvas, 48 X 40 inches, Private collection.
 

Nú: Estudo em Comoção

 
Em que meditas tu
quando olhas para mim dessa maneira,
deitada no sofá
diagonal ao espaço onde me sento,
fingindo eu não te olhar?

Em que pensa o teu corpo
elástico, alongado,
pronto a vir ter comigo
se eu pedir?

As orelhas contidas em recanto,
as patas recuadas,
o que vês tu agora no branco dos teus olhos:
lua em quarto-crescente,
um prado claro?

E quando dormes, como noutras horas,
que sonhos te viajam:
a mãe, a caça, a mão macia, o salto
muito perfeito
e alto, muito esguio?

Onde: a noite sem frio
que nos abrigará
um dia
e que há de ser
(só pode ser)
igual?


Ana Luísa Amaral
, What's in a name, 
 Assírio & Alvim, 2017
 
 
Mary Beth McKenzie, "Marcsi, Zsuzsa and Pip", 1991. Oil on canvas, 43 X 50 inches.
Collection of the Artist (marybethmckenzie.com)
 
 
Mary Beth McKenzie,"Zsuzsa asleep (cat)", 1995. Oil on canvas, 29 X 36 inches.
Private Collection


"Vida é vida - seja de um gato, ou de um cão ou de um homem. Não há diferença entre um gato e um homem. A ideia de diferença é a conceção humana para a vantagem do homem."

"Life is life - whether in a cat, or dog or man. There is no difference there between a cat or a man. The idea of difference is a human conception for man's own advantage."
 
 Publisher peaceCENTER, 2007, - 156 páginas.
 

domingo, 10 de março de 2024

"Cantiga" - Poema de Manuel Bandeira


Inês Dourado (Pintora portuguesa, n. 1958), Ericeira, Portugal, 2019,
Aguarela sobre papel. 
 


Cantiga


Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.


Manuel Bandeira
, 
 
 

Inês Dourado, Carvoeiro Beach VII (Algarve, Portugal), 2020,
Óleo sobre Tela, 60x70x2 cm.

 
 
Poema do Beco
 
 
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
– O que eu vejo é o beco.
 

 Manuel Bandeira, 
 
 
Inês Dourado, Aldeia de Benagil (Lagoa, Algarve, Portugal), 2022,
Óleo sobre tela, 38 x 55 cm.
 

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes.
O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


Bernardo Soares (Heterónimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego, fragmento 451, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 11ª ed.
 

sexta-feira, 8 de março de 2024

"Cantiga de Amor" - Poema de Manuel Bandeira



Charmaine Olivia
 (Contemporary artist, born in Southern California, 1988),
 Marilyn Monroe (American actress, model and singer, 1926–1962).


Cantiga de Amor 


Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci)
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basileia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!


Manuel Bandeira (1886–1968), Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986 - p. 418-419.

 


Charmaine Olivia
, Secret Life of Marilyn Monroe, 2015.


Marilyn Monroe
 
 
Atriz norte-americana, e um dos grandes símbolos sexuais do cinema, nascida a 1 de junho de 1926, em Los Angeles, na Califórnia, e falecida a 5 de agosto de 1962, também na Califórnia. De seu nome verdadeiro Norma Jean Mortensen, viveu uma infância atribulada, com o pai a abandonar o lar e a mãe a sofrer problemas mentais. Educada num orfanato, casou-se aos 16 anos com um homem que lhe infligia maus tratos. Torna-se operária fabril e mais tarde modelo de pin-ups. 
Em 1946, é contratada pela 20th Century Fox como figurante, participando nessa condição em filmes como The Shocking Miss Pilgrim (1947), The Asphalt Jungle (Quando a Cidade Dorme, 1950), All About Eve (Eva, 1950) e Monkey Business (A Culpa Foi do Macaco, 1952). 
Foi Howard Hawks quem reparou no seu potencial, colocando-a como protagonista ao lado de Jane Russell na comédia Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Louras, 1953). O filme é um sucesso retumbante, elevando Monroe à categoria de «diva loura» e de símbolo sexual. 
Depois de filmar o western River of No Return (Rio Sem Regresso, 1954), teve um casamento mediático com a estrela do basebol Joe Di Maggio, ligação que durou 18 meses. 
Filmou pela primeira vez sob a orientação de Billy Wilder em The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado, 1956), um grande êxito a nível internacional. Apostada em consagrar-se como atriz dramática, decide matricular-se no Actors Studio, tornando-se colega de Montgomery Clift, de quem se torna grande amiga.
Em Nova Iorque, conhecerá o dramaturgo Arthur Miller com quem se casará em finais de 1956. Com o seu contrato reforçado, protagoniza a comédia Bus Stop (Paragem de Autocarro, 1956) e The Prince and the Showgirl (O Príncipe e a Corista, 1957), mas o último falharia nas bilheteiras. Quase simultaneamente, a sua vida pessoal torna-se muito instável: o seu casamento com Miller estava a passar por uma crise, obrigando a atriz a refugiar-se no álcool e nas drogas. Será Billy Wilder quem a convencerá a interpretar aquele que seria o papel mais célebre da sua carreira: o de Sugar Kane, uma intérprete musical que sonha em casar com um milionário na comédia Some Like It Hot (Quanto Mais Quente Melhor, 1959). Em seguida, contracenou com Yves Montand em Let's Make Love (Vamo-nos Amar, 1960).
Vítima de sucessivas depressões nervosas, a fragilidade da atriz começou a causar-lhe numerosos dissabores profissionais: durante as rodagens de The Misfits (Os Inadaptados, 1961), foram constantes as suas discussões com o realizador John Huston e Clark Gable, para além de numerosos atrasos. Paralelamente, circulavam boatos das suas ligações afetivas clandestinas com o presidente John Kennedy e com Robert Kennedy. 
No dia 5 de agosto de 1962, um mês depois de ter sido despedida por George Cukor das filmagens de Something's Got to Give (1962), a atriz foi encontrada inanimada na cama do seu apartamento. A autópsia revelou suicídio por ingestão de barbitúricos, mas a hipótese de crime ainda hoje é ventilada. (daqui)
 

quarta-feira, 6 de março de 2024

"Noites gélidas" - Poema de Cesário Verde



Bryce Cameron Liston
(American painter, b. 1965), A Winter's Tale.
 

Noites gélidas

Merina

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.


Cesário Verde
(1855 - 1886), Obra Completa,
Edição de Joel Serrão, Lisboa, Livros Horizonte, 1988, p. 122. 
 
 
Bryce Cameron Liston, Home Before Dark.
 

"Casaco é aquilo que a criança usa quando a mãe sente frio." 

Ambrose Bierce, citado em "Baby's First Year Journal:
A Day-To-Day Guide to Your Baby's Development ...‎
" - Página 168, 
A. Christine Harris - Chronicle Books, 1999.
 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

"Natal" - Poema de Mauro Mota

 

 
Mark Grantham (Canadian artist, b. 1966), Christmas Eve, 2021
 
 
Natal
 

Natal, antes e agora
imutável. Feliz
noite branca sem hora
no pátio da Matriz.

Natal: os mesmos sinos
de repiques iguais.
Brinquedos e meninos,
Natal de outros natais.

A Banda, vozes, passos
da multidão fiel.
Tudo nos seus espaços,
o mundo e o carrossel.

Tudo, menos o andejo
homem que se conclui.
Olho-me, e não me vejo,
não sei para onde fui.


Mauro Mota, in 'Itinerário'
 

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

"Eu poeta me confesso" - Poema de João Braz



Inês Dourado
(Pintora portuguesa, n. 1958), Lagos (Algarve, sul de Portugal), 2016.
Acrílico s/tela, 50 x 40 cm.
 

Eu poeta me confesso

l

Porque vim no Algarve à luz do dia,
Menino me criei perto do mar
E, com ele, aprendi a rebeldia
Das ondas altaneiras a lutar...

Não sei se nas artérias eu teria
Sangue de avós heroicos a pulsar,
Ou se era de Poetas que trazia
Uma herança de sonho em meu olhar...

O certo é que intentei, louco e audaz,
A conquista da vida ( era rapaz,
Tinha por mim a esperança...), e na memória

Vejo-me ainda, coração ao alto
Como um pendão real, ir ao assalto
Com a plena certeza da vitória!

ll

E, porque com o mar tinha aprendido
O modo de lutar, rude e constante,
Ante a vida me achei ora caído,
Ora dominador e arrogante.

Agora, em agonias de vencido;
Logo a erguer-me, altivo e triunfante,
À minha luta dei maior sentido:
Fui mais alto, e mais fundo, a cada instante!

Lição eterna que do mar nos vem,
Entendia-a depois, como ninguém,
Ao ver que me era inútil a batalha...

Onda que sobe e desce, a vida corre.
Um sonho, mal que nasce logo morre,
E nada muda o que o destino talha!

III

Mordi o pó, quebrada a minha lança,
E meu pendão real feito em pedaços!
Herói falhado, abandonou-me a esperança
Que em tempos idos me estendera os braços...

Meus olhos tão alegres em criança,
Tinham só amarguras e cansaços
Em vez do sonho que me fora herança
De avós remotos – Césares ou Tassos...

Qual mísero mendigo de longada
Batendo às portas, sem que deem nada
À mão que leva em súplica, estendida,

Olhei as minhas pobres mãos morenas,
E vi que nelas me ficara, apenas,
Um jeito de pedir esmola à vida...

IV

Com muros de renúncia edifiquei
Um castelo de sombra e soledade...
E nele emparedado, me tornei
Castelão do desgosto e da saudade...

Dos restos de mim próprio me fiz rei,
– Rei triste sem orgulho e sem vaidade;
E foi o esquecimento a minha lei,
E foi a solidão minha vontade.

Castelo sem janelas e sem portas,
Por ele entrava o vento a horas mortas,
Para me consolar, piedosamente;

Depois, com dó de mim, ia-se embora
Correr o mundo pela noite fora,
Gritando versos meus a toda a gente!...

V

Mas, certo dia, as tuas mãos, nas minhas,
Num milagre sem par, vieram pôr
A ternura suavíssima que tinhas
Guardada pra me dar, ó meu Amor!

Não quis saber quem eras, se provinhas
De algum reino d'aquém ou d'além dor,
Pois mal te vi adivinhei que vinhas
Na graça e com a bênção do Senhor.

Desde que tu vieste, e que te tenho
Junto de mim, o meu castelo estranho
Até deixou de ser triste e sombrio...

E o meu amigo vento, assobiando
Por esse mundo, agora anda cantando
Que eu já vivo outra vez, que já me rio!

VI

Da minha alma varri o desalento,
E já o seu poder é mais que humano!
– Asa que torna ao céu, em movimento,
Nau que afronta de novo o oceano!

A vida, agora, um redobrado alento
Me anima e leva a conquistá-la, ufano,
Elmo a brilhar ao sol, bandeira ao vento,
Como um antigo imperador romano!

Já no meu peito o orgulho se faz chama!
Sou algarvio, descendo da moirama,
Tenho o perfil trigueiro, a fronte nobre...

E tenho ainda um grande Amor! – o teu,
Esta riqueza que o Senhor me deu
Para que nunca mais eu fosse pobre!

VII

Eis-me tentando a íngreme escalada
Que o meu anseio de mais além procura!
Meus sonhos, pelo azul em revoada
São dispersões de mim buscando altura!

Sinto a alma liberta, arrebatada,
E flui da minha boca a voz mais pura
Num canto que desperta a madrugada,
E que rasga o pavor da noite escura!

Para além do real, sinto-me o verso
Que faltava ao poema do universo,
O acento final, o último grito...

Espírito sem forma e sem idade,
Sopro divino – sou Eternidade!
Clarão de Estrela – atinjo o Infinito!


João Braz,
"Esta riqueza que o Senhor me deu", 1953

 


Inês Dourado, Branco e Sol, Alvor (Algarve, sul de Portugal).
Aguarela sobre papel Fabriano de 300g/140lb, 34,7 x 55 cm.
 
[Inês Dourado é uma premiada pintora portuguesa contemporânea. Dourado usa acrílico, óleo, aguarela, caneta gel, têmpera para criar paisagens urbanas figurativas, em papel e tela.
Inês Dourado nasceu em 1958, em Portugal. É licenciada em História da Arte e mestre em História da Arte Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Dourado expôs suas obras em Portugal, Espanha e Argentina, e suas obras estão em coleções particulares na Alemanha, Espanha, Suíça, França, Brasil, China, Austrália e EUA.
(daqui)]