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quinta-feira, 7 de julho de 2022

"S. Gonçalo d’Amarante" - Poema de Luís Augusto Palmeirim


Duarte Pimentel (Artista plástico português, 1934-2012), Amarante, aguarela



S. Gonçalo d’Amarante 


S. Gonçalo d’Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casais as moças?
Que mal vos fizeram elas!

Sejam as velhas beatas
Vos rezem com santidade
São de mais, há-as de sobra
Na vossa santa irmandade.

Rezar-vos-ei, ó meu santo,
Três padres-nossos cantados.
Se por cada um me deres
Três esbeltos namorados.

Irei descalça ouvir missa
No dia do vosso nome
Se eu alcançar boa paga
Deste amor que me consome.

Nem todas as velhas juntas
Levarão tantos bentinhos
Como encobertos nesta alma
Levarei ternos carinhos.

S. Gonçalo d’Amarante
Brincalhão e galhofeiro,
Fazei-vos antes das moças
Devoto casamenteiro.

Que eu vos prometo por todas,
(Casando a nosso contento)
Muita crença na virtude,
Muita fé no casamento.

Promessas que fazem moças,
Têm tal condão e verdade,
Que o santo deixou as velhas,
Pelas moças… por bondade…

E a datar desta promessa,
Feita ao bom de S. Gonçalo,
Não há uma só donzela
Que possa deixar de amá-lo.

Que a todas o bom do santo
Deu alma pra seis amores,
A qual deles o mais falso,
Em seus dons e seus favores!

S. Gonçalo d’Amarante
Um dos meus três namorados
Irá rezar-vos por mim
Os padres-nossos cantados.

E só se dirá, mentindo,
Dum santo tão galhofeiro,
Que inda é, como era dantes,
Das velhas casamenteiro! 
 
in Poesias, 1ª edição, Imprensa Nacional, 1851.
 
 
 Luís Augusto Palmeirim
 

 
Luís Augusto Palmeirim
 
Poeta pertencente à geração ultrarromântica, de nome completo Luís Augusto Xavier Palmeirim, nascido a 9 de agosto de 1825, em Lisboa, e falecido a 4 de dezembro de 1893, na mesma cidade. Foi também deputado, jornalista, dramaturgo, crítico e tradutor. 
Proveniente de uma família de militares de alta patente, frequentou o Colégio Militar e tomou parte na rebelião da Maria da Fonte, entre 1846 e 1847, ao serviço da Junta do Porto, contra a ditadura de Costa Cabral. Foi censor do Teatro D. Maria II desde 1853 e diretor do Conservatório de Lisboa desde 1878 até à sua morte, para além de membro da Academia Real das Ciências e da Sociedade Escolástico-Filomática. 
Distinguiu-se como poeta, cultivando uma poesia popular de inspiração folclórica e temática cívica, influenciada pelo poeta francês Béranger. Para a popularidade dos seus versos - Lopes de Mendonça classificou-o "o mais popular dos nossos poetas modernos" -, frequentemente cantados nas ruas, recitados nos salões e nos teatros, muito contribuiu, para além do uso das rimas fáceis e dos metros tradicionais, a sua faceta real de "poeta-soldado", "poeta da liberdade", que se funde com a sua própria arte poética, por vezes explícita em fragmentos metatextuais da obra, onde proclama a "verdade" dos seus cantos, a "divina" missão da poesia, voltada para "Deus", a "pátria amada" e as "cem mil tradições que nos revela do seu passado". 
Participou na revista coimbrã O Trovador, deixando colaboração em vários outros periódicos como O Panorama, Revista Universal Lisbonense, Arquivo Pitoresco, Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, A Revolução de setembro e O Ocidente
Das suas obras, destacam-se a coleção Poesias (1851; quatro edições até 1864) e o interessante livro de memórias Os Excêntricos do meu Tempo. (Daqui)
 
 
São Gonçalo de Amarante, séc. XVII, por António André (fl. 1612-1654),
 
 
São Gonçalo de Amarante

 
S. Gonçalo tem honras de Padroeiro de Amarante e a sua memória é festejada em duas ocasiões no ano: a 10 de janeiro data do seu falecimento e no primeiro fim de semana de junho, com as grandiosas festas da cidade.
Oriundo da nobre família dos Pereira, Gonçalo nasceu no Paço de Arriconha, freguesia do Divino Salvador de Tagilde – Vizela, por volta de 1187 e herda de seus pais a nobreza no sangue e a grandeza na Fé.
É educado nos bons princípios cristãos e, quando atinge a mocidade, opta pela vida eclesiástica, estudando as primeiras letras, crê-se, no mosteiro beneditino de Santa Maria de Pombeiro de Ribavizela, Felgueiras, prosseguido estudos no Paço Arcebispal de Braga, onde viria a ser ordenado sacerdote. Foi-lhe confiada a paróquia de S. Paio de Vizela, tornando-se, em data incerta, cónego de Santa Maria da Oliveira (Colegiada de Guimarães).
Não satisfeito com a vida paroquial e ardendo no desejo de conhecer os lugares mais Santos do Cristianismo, decide encetar uma longa peregrinação a Roma, para estar junto dos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, seguindo, depois, para a Palestina.
Após catorze anos, Gonçalo regressa à sua paróquia de S. Paio de Vizela que, durante a sua ausência, fora dirigida por um sobrinho que, o não reconhecendo, o expulsa de casa. Desiludido com a vida opulenta e faustosa do seu substituto e deparando-se com o desrespeito aos ensinamentos e à humildade cristã, decide abandonar a vida paroquial e opta por um modus vivendi mais contemplativo, eremítico e evangelizador. Embevecido neste espírito, toma o hábito da Ordem de S. Domingos.
Foi através desta nova forma de vida que chegou ao vale do Tâmega. Deparando-se com uma ermida arruinada dedicada a Nossa Senhora da Assunção, localizada num local ermo, junto ao rio e nas imediações de uma ponte devoluta, aí se instala e recupera o velho templo.
Calcorreando as povoações do vale do Tâmega e da Serra do Marão, Frei Gonçalo, acompanhado por um irmão espiritual, frei Lourenço Mendes, evangeliza e abençoa uniões matrimoniais, apoia e protege os mais desfavorecidos e realiza alguns prodígios, que lhe vão conferindo aura de santidade. No decorrer destas ações pastorais, depara-se com as dificuldades e com o perigo que os seus fiéis corriam ao aventurarem-se a atravessar o rio, principalmente nas alturas em que este se apresentava mais caudaloso e, na falta de alternativas, decide empreender, ele próprio, o restauro ou a reedificação da velha ponte romana, nos idos de 1250.
Para a sua reconstrução terá contado com a participação de todos, desde os mais abastados que contribuíram com alguns numerários e matéria-prima e os mais pobres que, com o seu esforço, executaram a obra. Consta que o arquiteto fora o próprio santo. A ponte medieval haveria de perdurar até ao dia 10 de fevereiro de 1763, altura em que sucumbe face à turbulência das águas do Tâmega, durante uma cheia, desmoronando-se por completo, tendo apenas sobrevivido o cruzeiro biface de Nossa Senhora da Ponte.
Após a construção da ponte e do restabelecimento do tráfego, o frade dominicano continuou com a sua vida de pregador até ao dia da sua morte, ocorrida a 10 de janeiro de 1259.
A partir de então, muitos foram aqueles que acorreram ao seu túmulo, instalado na mesma ermida onde residiu para, junto aos seus restos mortais, pedirem ou agradecerem a sua intercessão.
Em 1540, D. João III manda construir, no lugar da velha ermida medieval, um convento que entrega aos frades pregadores de S. Domingos, Ordem à qual o Santo estava vinculado.
No dia 16 de setembro de 1561, Gonçalo de Amarante é beatificado pelo papa Pio IV e, algum tempo depois, já no reinado de D. Filipe I de Portugal (II de Espanha), inicia-se o seu processo de canonização, que acaba por ficar sem efeito.
O Papa Clemente X, em 1671, estende o ofício da sua festa litúrgica a toda a Ordem Dominicana, que é celebrada no dia do seu falecimento, a 10 de Janeiro.
Daí para cá o seu culto jamais parou de se difundir e propagar em Portugal e nos países lusófonos, destacando-se o Brasil, onde várias localidades o têm por padroeiro. (Daqui)


 São Gonçalo de Amarante. Estátua em madeira (século XVI) com a 
famosa corda, à entrada da sacristia da Igreja de São Gonçalo.
 

Em Portugal, existe dois santos casamenteiros. Um com o seu trono em Lisboa que é Santo António, e outro situado a norte, São Gonçalo de Amarante. Para não haver concorrência desleal entre os dois, Santo António encarrega-se das moças, enquanto S. Gonçalo trata das velhas. É esta a crença popular, mas não é só por esse motivo que a igreja de São Gonçalo é local de paragem obrigatória.
São Gonçalo não é santo. Para a Igreja Católica é considerado beato, Beato Gonçalo de Amarante. Mas para a população é santo e a devoção por ele não é menor, seja qual for a denominação utilizada. O seu túmulo, onde se acredita estar o seu corpo sepultado, pode ser visitado na capela-mor do mosteiro.
São Gonçalo é considerado o “casamenteiro das velhas”, o que parece não agradar às mais jovens que não querem esperar, e terá sido por isso que nasceu a famosa quadra popular de Amarante:

S. Gonçalo de Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casas as novas?
Que mal te fizeram elas?


São Gonçalo divide, assim, com Santo António a tarefa de casamenteiro, sem conflitos, já que um casa as jovens e outro as mais velhas. Se Santo António não ouvir as preces das mais jovens e a idade avançar, será ao São Gonçalo que deverão recorrer. Na igreja, ainda existe a estátua de São Gonçalo, do século XVI, em que existe a famosa corda de São Gonçalo. A corda rodeia a cintura da estátua e, segundo crença popular, “as encalhadas” deveriam puxar a corda três vezes, para pedir um casamento ao santo. No entanto, de forma a preservar a estátua, esta foi colocada num local alto com a recomendação de que não se puxe a corda, uma vez que poderia colocar em risco a imagem.

Oração de casamento para São Gonçalo:

“São Gonçalo do Amarante, 
Casamenteiro que sois, 
Primeiro casais a mim; 
As outras casais depois.

São Gonçalo ajudai-me, 
De joelhos lhe imploro, 
Fazei com que eu case logo, 
Com aquele que adoro.”
 

terça-feira, 15 de abril de 2014

"Contra a Morte e o Amor não há quem tenha valia" - Poema de Gil Vicente



Sir Lawrence Alma-Tadema, Primavera, 1894, óleo sobre tela, 179,2 x 80,3 cm,
J. Paul Getty Museum, Los Angeles. (Retrata o festival de Cerealia numa rua romana.)
 

Contra a Morte e o Amor 
não há quem tenha valia


 Era ainda o mês de abril, 
de maio antes um dia, 
quando lírios e rosas 
mostram mais sua alegria; 
pela noite mais serena 
que fazer o céu podia, 
quando Flérida, a formosa 
infanta, já se partia, 
ela na horta do pai 
para as árvores dizia:

“Ficai, adeus, minhas flores, 
em que glória ver soía. 
Vou-me a terras estrangeiras, 
a que ventura me guia. 
Se meu pai me for buscar, 
que grande bem me queria, 
digam-lhe que amor me leva, 
e que eu sem culpa o seguia; 
que tanto por mim porfiava 
que venceu sua porfia. 
Triste, não sei aonde vou, 
e a mim ninguém o dizia!” 

Eis que fala Dom Duardos:

“Não choreis, minha alegria, 
que nos reinos de Inglaterra 
mais claras águas havia, 
e mais formosos jardins, 
e vossos, senhora, um dia: 
tereis trezentas donzelas 
de alta genealogia, 
de prata são os palácios 
para vossa senhoria; 
de esmeraldas e jacintos, 
de ouro fino da Turquia, 
com letreiros esmaltados 
que minha vida à porfia 
vão contando, e as vivas cores 
que vós me destes no dia 
em que com Primaleão 
fortemente combatia: 
senhora, vós me matastes, 
que eu a ele não temia.” 

Os seus prantos consolava 
Flérida, que tudo ouvia; 
foram-se então às galeras 
que Dom Duardos havia: 
por cinquenta se contavam, 
todas vão em companhia. 
Ao som de seus doces remos 
a princesa se adormia 
nos braços de Dom Duardos, 
que bem já lhe pertencia. 
Saibam quantos são nascidos 
que sentença eu lhes diria: 
que contra a morte e o amor 
não há quem tenha valia.


Gil Vicente, in 'Antologia Poética'


Gil Vicente
  Estátua de Gil Vicente no Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa.


Não há dados exatos quanto à data e local do nascimento de Gil Vicente. Contudo, e de acordo com Jacinto Prado Coelho, in Dicionário de Literatura, parece ter nascido em Guimarães por volta de 1465. Por outro lado, também não há dados absolutos que possam confirmar a teoria de alguns estudiosos que defendem que este Gil Vicente, "poeta dramático", seja o ourives da rainha D. Leonor, autor da célebre e riquíssima custódia de Belém. A coincidência do nome e a contemporaneidade de ambos apontam, todavia, para esta possibilidade.
Embora desde sempre tenham existido tentativas no sentido de atribuir a este autor uma grande cultura, não está comprovado que este tenha frequentado a universidade e aprendido o latim do Renascimento. Porém, pode afirmar-se que era detentor de um espírito conhecedor, dominando bem, enquanto católico e músico, a poesia litúrgica latina. Também o conhecimento do castelhano lhe franqueou as portas da cultura religiosa e profana.
A transmissão da sua obra confrontou-se com dificuldades várias. Inicialmente, os seus autos eram divulgados à medida que iam sendo escritos, em folhas soltas. Na verdade, Gil Vicente iniciou o trabalho de compilação das suas obras completas, mas, antes de morrer, apenas foi capaz de reunir algumas das folhas e manuscritos e de redigir a dedicatória ao rei D. João III. Assim, esta compilação só foi concluída e impressa, em 1561-1562, pelo seu filho Luís Vicente, já não conseguindo escapar à "mão inquisitorial" estabelecida em Portugal em 1536, ano provável da morte do autor. Na verdade, o Index de 1551 refere já sete autos vicentinos que ou foram totalmente censurados ou autorizados depois de expurgados. Em 1561-1562, quando Luís Vicente edita as obras completas de seu pai, a censura do Tribunal do Santo Ofício parece ter sido um pouco mais branda e o Index de 1564 não refere nenhuma obra vicentina. Segundo Jacinto Prado Coelho, in obra citada, "é difícil não reconhecer a influência da Rainha D. Catarina, de quem Paula Vicente, filha do poeta, era 'moça de câmara'",considerando assim que aquela terá influenciado a alteração de critérios de censura subjacente à elaboração do Index de 1564.
Apesar da alegada influência real, esta compilação de 1561-1562 parece, contudo, dever muito à autenticidade, conforme podemos concluir pela comparação feita com a única folha volante do tempo de Gil Vicente, hoje conservada. Este estudo comparativo, infelizmente, permite aferir a mutilação da obra vicentina, pois o próprio filho do poeta parece ter confessado que se lhe arrogou a missão de "purar" os textos que recolhera, fazendo cedências imperdoáveis à censura. Aliás, esta benevolência inquisitorial foi "sol de pouca dura", como provam os graves atentados feitos à obra, no Index de 1581.
Considerado o "pai" do teatro português, Gil Vicente já tivera contacto, em Portugal, com representações litúrgicas, por altura do Natal e da Páscoa, e com algum repertório cómico de "feição improvisada e não literária", como os aristocráticos e cortesãos, considerados como as primeiras manifestações teatrais em Portugal.
Autor de uma obra variada, que ele próprio divide em comédias, farsas e moralidades, Gil Vicente não teve apenas preocupações de realização literária. De facto, e de acordo com J. P. Coelho, in História de Literatura, na sua obra "palpita de modo espantosamente vivo a sociedade portuguesa do primeiro terço do século XVI, com as suas classes, os seus vícios, os seus impulsos intelectuais e religiosos", a qual critica através da sátira, partindo da máxima latina ridendo castigat mores.
A sua crítica é profundamente mordaz, apresentando clérigos sem vocação, escudeiros parasitas e ociosos, fidalgos corruptos e vaidosos, profissões liberais que assentam na exploração das camadas populares, alcoviteiras que atuam sem escrúpulos para defenderem os seus interesses, e até o povo humilde que, passivamente, se deixa explorar pelos cobradores e frades. Não criando personagens que correspondam a indivíduos específicos, o teatro vicentino cria antes personagens que caracteriza como tipos sociais e "que funcionam apenas como símbolo de uma classe ou de um grupo social ou profissional". Na verdade, o que mais lhe interessa são os casos sociais que melhor lhe permitem fazer a sátira de costumes.

Gil Vicente. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-04-15].


Sir Lawrence Alma-Tadema
  Lawrence Alma-Tadema, Self-Portrait, 1896, Uffizi Gallery


Sir Lawrence Alma-Tadema, Silver Favourites, 1903


Sir Lawrence Alma-Tadema, Unconscious Rivals, 1893
 
 
Sir Lawrence Alma-Tadema, As rosas de Heliogábalo (The Roses of Heliogabalus),1888


As Rosas de Heliogábalo (The Roses of Heliogabalus) é uma pintura de Sir Lawrence Alma-Tadema (Dronrijp, 8 de janeiro de 1836 - Wiesbaden, 26 de junho de 1912), um artista holandês que viveu na Inglaterra e que foi um dos mais proeminentes pintores e desenhistas do neoclassicismo europeu
A obra foi baseada num episódio inventado retirado da Historia Augusta, onde o imperador romano Heliogábalo (204-222) é retratado assistindo a uma tentativa de sufocar seus convidados com uma enorme quantidade de pétalas de rosa que caíam de um teto falso durante um jantar. No primeiro plano da pintura, o destaque são os convidados reclinados, cobertos com pétalas. Ao fundo, Heliogábalo é visível com um manto e uma coroa de ouro, junto com sua mãe Julia Soemia. Atrás deles, há um tocador de flauta (tíbia) e uma estátua de Dionísio.
Em suas notas em Historia Augusta, Thayer diz que "Nero fez o mesmo (Suetônio, Nero, xxxi), e um teto falso similar é descrito na casa de Trimalchio no Satíricon, lx."
A tela mede 214 cm por 132 cm. (daqui)


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

"A esmola do pobre" - Poema de Júlio Dinis


Monumento a Júlio Dinis, no Porto, sua cidade natal.


[O Monumento é constituído por busto em bronze, da autoria do Mestre João da Silva (1880 – 1960), que assenta sobre plinto em granito. O conjunto é complementado com elegante figura feminina que presta homenagem através de deposição de grinalda de flores junto ao busto do poeta. O conjunto resultou de uma homenagem da Faculdade de Medicina do Porto e oferta do monumento à Câmara Municipal da mesma cidade. Foi inaugurado em 1 de Junho de 1926.]




A esmola do pobre 


Nos toscos degraus da porta
De igreja rústica e antiga,
Velha trémula e mendiga
Implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam
À distância, na alameda;
Uma trajada de seda,
Da outra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre,
Ambas loiras e formosas,
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.

A rica, ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga – e ao regaço
Uma esmola lhe lançou.
Ela recebe-a; e a criança,
Que a socorre compassiva,
Em prece fervente e viva,
Aos anjos encomendou.

De um ligeiro sentimento
De vaidade possuída,
À criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
- «O prazer de dar esmolas
A ti e aos teus não é dado;
Pobre como és, coitado,
Aos pobres o que hás de dar?»

Então a criança pobre,
Sem más sombras de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E após, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se, ajoelha,
E a magra mão lhe beijou.

E a mendiga alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança,
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção!
É assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola;
Nem só da mão sai a esmola,
Sai também do coração.


Júlio Dinis


 

Escritor português, Júlio Dinis é o pseudónimo literário mais conhecido de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, entre os vários que o autor adotou ao longo da sua carreira literária.
Nasceu a 14 de novembro de 1839, no Porto, e morreu a 12 de setembro de 1871, na mesma cidade. Licenciou-se em Medicina, mas dedicou-se sobretudo à literatura, podendo ser considerado como um escritor de transição, situado entre o fim do Romantismo e o início do Realismo. 
É autor de poesias, peças de teatro, textos de teorização literária, mas destaca-se sobretudo como romancista, deixando em pouco mais de trinta e dois anos de vida uma produção original e inovadora, que contribuiu grandemente para a criação do romance moderno em Portugal.
Órfão de mãe aos seis anos, estudou na Academia Politécnica a partir de 1853, onde se relacionou com o poeta portuense Soares de Passos, e ingressou na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, em 1855, ano em que dois irmãos seus morrem, vítimas da tuberculose. Por essa altura, entrou para um grupo de teatro, o "Cenáculo", e escreveu as suas primeiras peças de teatro, que viriam a ser postumamente reunidas nos três volumes do Teatro Inédito, em 1946-1947. 
Em 1860, ano da morte de Soares de Passos, abandonou o "Cenáculo" e estreou-se na revista "A Grinalda" com poesias românticas que viriam a fazer parte das Poesias (1870). 
Em 1861, concluiu o curso de Medicina. Nos dois anos seguintes, publicou em folhetim no Jornal do Porto alguns dos contos que seriam postumamente compilados em Serões da Província, assinando ora Júlio Dinis, ora Diana de Aveleda. 
Em 1863, passou uma temporada em casa de familiares, em Ovar, para se tratar da tuberculose, declarada um ano antes. Aí, descobre os encantos da vida rural, que estará presente em grande parte das suas obras - Júlio Dinis foi principalmente um escritor de espaços, oferecendo-nos quadros onde revela uma preocupação pela veracidade nas descrições das aldeias, dos ambientes e caracteres, e na evolução da intriga. 
Em 1865, ingressou na Escola Médico-Cirúrgica, onde se formara, como demonstrador. 
O seu primeiro romance, As Pupilas do Senhor Reitor, é publicado em folhetins no Jornal do Porto, em 1866, e em volume um ano depois. Seguem-se-lhe, em 1868, Uma Família Inglesa (retrato da vida citadina, dando especial relevo à pequena burguesia nascente) e A Morgadinha dos Canaviais, no mesmo ano em que As Pupilas do Senhor Reitor, adaptadas ao teatro, são representadas no Teatro da Trindade.
Em 1869, parte para a Madeira, em busca de uma melhoria do seu estado de saúde, regressando, um ano depois, ao Porto, onde publica os Serões da Província. No mesmo ano, concluiu o seu quarto romance, Os Fidalgos da Casa Mourisca, cujas provas tipográficas já não acabará de rever. 
Em 1871, no mesmo ano em que as Pupilas do Senhor Reitor são representadas no Rio de Janeiro, assinalando já a celebridade do escritor além fronteiras, morre prematuramente, vítima da tuberculose.
Em 1874, surge o volume póstumo das Poesias e, em 1910, a compilação de textos narrativos e teóricos Inéditos e Esparsos.
Júlio Dinis - cujo conhecimento da língua e da cultura inglesas (a sua mãe era de ascendência irlandesa) lhe possibilitou a leitura de novelistas como Jane Austen, Richardson, Thackeray e Dickens, cujas obras são marcadas pelo realismo psicológico - deixou uma produção romanesca eivada de componentes realistas e românticos. Assim, se a sua conceção do romance, exposta em Inéditos e Esparsos, baseada na lentidão da narrativa, na averiguação da verdade, no tratamento de temas familiares e quotidianos, o aproxima da estética realista, a idealização do campo, da mulher, da família, a tendência para a solução harmoniosa dos conflitos, o pendor moralizador dos desfechos das intrigas, o otimismo do seu ideal social, em que felicidade amorosa e harmonização social são indissociáveis, têm ressonâncias românticas. 

Júlio Dinis. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-09-26].


Pedro Abrunhosa - "Toma Conta de Mim" [2013]
Música e Letra - Pedro Abrunhosa