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sexta-feira, 17 de abril de 2026

"A si próprio" - Poema de Giacomo Leopardi (2 traduções)



Laurits Andersen Ring (Danish painter, 1854–1933), "Sønnen Ole kigger ud af vinduet"
(Ole Looking out of the Window)
, 1930, Randers Kunstmuseum.



A si próprio


Repousarás agora para sempre,
Ó meu cansado coração. Está morta a suprema
Ilusão, que julguei eterna. Morta. Bem sinto
Que das minhas caras ilusões
Não a esperança, mas o desejo é extinto.
Repousa para sempre. Demasiado
Palpitaste. De nada valem
Teus movimentos, nem de suspiros é digna
A terra. Amargor e tédio
A vida, nada mais; o mundo é lama.
Sossega, enfim. Desespera
Pela última vez. À nossa espécie o destino
Mais não deu que o morrer. Despreza-te, a partir de agora,
A ti, à natureza, ao mau
Poder, que, oculto, para nosso comum dano governa,
E à infinita vaidade de tudo.


Giacomo Leopardi, in "Cantos".
Apresentação, seleção, tradução e notas de Albano Martins,
Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.



Laurits Andersen Ring, "Ved det Gamle Hus" (At the Old House), 1919-22.



A si mesmo


Repousa para sempre,
exausto coração. Morto é o engano extremo
que eu supusera eterno. É morto. E sinto
que em nós de enganos caros
a mais da esperança, o desejar é extinto.
Repousa. Já bastante
hás palpitado. Coisa alguma vale
o teu bater, nem de saudade é digna
a terra. Tédio amargo
a vida, e nada mais; e lama é o mundo.
Quieto, pois. Desperta
por uma última vez. À raça humana o fado
não deu mais que o morrer. Ora despreza
a natureza, o triste
brutal poder que contra nós impera,
e o infinito vácuo do que existe.


Giacomo Leopardi
(1798-1837),
in Antologia: "Poesia de 26 Séculos",
Tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena,
Fora do Texto, Coimbra, 1993.



Laurits Andersen Ring, "Den syge mand" (The sick man), 1902,
Den Hirschsprungske Samling



A Se Stesso
(Original)


Or poserai per sempre,
Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,
Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,
In noi di cari inganni,
Non che la speme, il desiderio è spento.
Posa per sempre. Assai
Palpitasti. Non val cosa nessuna
I moti tuoi, né di sospiri è degna
La terra. Amaro e noia La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.
T’acqueta omai. Dispera
L’ultima volta. Al gener nostro il fato
Non donò che il morire. Omai disprezza
Te, la natura, il brutto
Poter che, ascoso, a comun danno impera,
E l’infinita vanità del tutto.

1835

Giacomo Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti,
Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.
 


Laurits Andersen Ring, "På kirkegården i Fløng" (Churchyard at Fløng, Zealand), 1904,
Statens Museum for Kunst.


"Ter fé é ser mais humano, no sentido mais verdadeiro."

"To have faith is to be human, in the highest, truest, sense."


Wilfred Cantwell Smith,
in "Faith and belief: the difference between them",  pág. 138,
Oneworld Publications, 1998 (347 páginas).
 
 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

"O Infinito" - Poema de Giacomo Leopardi (3 traduções)



Léo Gausson (1860 - 1944), Les arbres au bord du chemin à Lagny, 1893,
Huile sur carton  



O Infinito 


Cara me foi sempre esta erma colina
E esta sebe, que por diversos lados
O extremo do horizonte veda ao meu olhar.
Mas, sentado e olhando, intermináveis
Espaços para além dela, e sobre-humanos
Silêncios, e sossego profundíssimo
No pensamento imagino; então por pouco
O coração se não sobressalta. E, quando o vento
Nas folhas ouço sussurrar, aquele
Infinito silêncio a esta voz
Vou comparando: e lembro-me do eterno,
E das mortas estações, e da que agora passa
E vive, do seu rumor. Assim no meio
Desta imensidade o pensamento se me afoga:
E naufragar me é doce neste mar. 
 
Tradução de Albano Martins,
em Giacomo Leopardi, Cantos, Apresentação, seleção e notas.
 Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.
 
 [“O Infinito”, de Giacomo Leopardi, foi o poema mais traduzido em Portugal e no Brasil.  Neste breve canto, o poeta exprime o palpitar da imensidade, imaginada como um oceano misterioso onde a alma pensante encontra repouso e onde o tempo se traduz no espaço e este naquele. Trata-se de um fragmento de pura poesia, mais fácil de ser sentida do que explicada. (Daqui)


 
Léo Gausson, Le chemin creux à Gouvernes, 1892,  Huile sur toile
 
 
O Infinito

 
Sempre cara me foi esta erma altura
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído... Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar.
 
Tradução de Jorge de Sena, 
em Poesia de 26 Séculos, Antologia, prefácio e notas.
Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 
Léo Gausson, Le village dans la verdure, 1892, Huile sur carton
 
 
O Infinito

 
A mim sempre foi cara esta colina
deserta e a sebe que de tantos lados
exclui o olhar do último horizonte.
Mas sentado e mirando, intermináveis
espaços longe dela e sobre-humanos
silêncios, e quietude a mais profunda,
eu no pensar me finjo; onde por pouco
não se apavora o coração. E o vento
ouço nas plantas como rufla, e aquele
infinito silêncio a esta voz
vou comparando: e me recordo o eterno,
e as mortas estações, e esta presente
e viva, e o seu rumor. É assim que nesta
imensidade afogo o pensamento:
e o meu naufrágio é doce neste mar.
 
Tradução Haroldo de Campos, 
em "A Arte no Horizonte do Provável e outros Ensaios."
Haroldo de Campos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977, p. 192. 

 

Léo Gausson, Les arbres du quai de la Gourdine à Lagny, 1885,
 Huile sur papier / Papier marouflé sur toile
 
 
 
L’Infinito
(poema original)

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l’eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Cosi tra questa
Immensita s’annega il pensier mio:
E il naufragar m’è dolce in questo mare.
 
(1819) 
 
Giacomo Leopardi,
Transcrito de Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti, 
Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.

 
  Giacomo Leopardi (22 anos), retratado por S. Ferrazzi, c. 1820

Giacomo Leopardi nasceu em 1798 na vila de Recanati, nas Marcas, território então pertencente aos Estados Pontifícios. Foi o primeiro dos sete filhos do conde Monaldo, homem de ideais reacionários, arruinado após as invasões napoleónicas, e da marquesa Adelaide Antici, católica fervorosa e governanta da casa. Giacomo, à semelhança dos irmãos Carlo e Paolina, foi educado na «escola doméstica» do pai, ao cuidado dos jesuítas Torres e Sanchini, que lhe forneceram uma sólida formação nos domínios das línguas clássicas, da teologia, da filosofia, e ainda importantes rudimentos na área das ciências. 

Tendo à sua disposição a riquíssima biblioteca paterna, aos dez anos, Giacomo torna-se «senhor dos seus estudos», redigindo os seus primeiros textos em poesia e em prosa, tanto em italiano como em latim, entre os quais se destacam La morte di Ettore, o Inno a Nettuno, as Odae Adespotae e a Storia dell’Astronomia. Ao mesmo tempo, dedica-se à tradução dos clássicos antigos – como a Batracomiomachia, a Ars poetica de Horácio, os idílios de Mosco, as obras de Marco Cornélio Frontão, o segundo livro da Eneida e o poemeto Moretum de Virgílio – e à filologia grega e latina.

Em 1817 entra em contacto com o escritor Pietro Giordani, seu primeiro amigo e admirador. Começa também a trabalhar nos primeiros apontamentos do conjunto que, após publicação póstuma (1898-1900), virá a ser conhecido como Zibaldone (Pensieri di varia filosofia e di bella letteratura), obra que irá ocupar o poeta até 1832. Entre 1817 e 1821, compõe o importante Discorso di un italiano intorno alla poesia romantica (inédito até 1906), e redige os primeiros «idílios», entre os quais Il primo amore e L’infinito, e algumas canções de matriz «civil», como All’Italia, Sopra il monumento di Dante e Ad Angelo Mai. Estes últimos poemas confluirão posteriormente no volume das dez Canzoni (Bolonha: Nobili, 1824). 
 
 Após um período em que se divide entre Bolonha e Milão, publica ainda os Versi (Bolonha: Stamperia delle Muse, 1826) e a primeira edição das Operette morali (Milão: Stella, 1827). Depois de um curto regresso a Recanati, muda-se para Pisa, e a seguir para Florença. Na cidade toscana publica a primeira edição dos Canti (a edição Piatti, em que se juntam algumas composições do volume das Canzoni, parte das que foram recolhidas nos Versi, e mais algumas do período «pisano-recanatese»), iniciando com o jovem Antonio Ranieri o «sodalício» que durará até à morte do poeta.
 
Com Ranieri, Leopardi parte, em setembro de 1833, para Nápoles, cidade onde, à exceção de alguns meses passados na localidade próxima de Torre del Greco, se fixará durante os últimos anos de vida. Datam deste período as novas edições das Operette morali (1834) e dos Canti (Starita, 1835), e ainda a redação do capítulo satírico I nuovi credenti e a organização definitiva do volume dos Pensieri, redigidos e coligidos, muito provavelmente, entre 1831 e 1835, embora tenham ficado inéditos durante a vida do autor.

Leopardi morreu a 14 de junho de 1837, em Nápoles, onde está sepultado. (Daqui)
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

"Ser criança" - Poema de Tatiana Belinky


Emile Claus (Belgian painter, 1849 –1924), The Little Sister, 1881 
 


Ser criança

 
Ser criança é dureza-
Todo mundo manda em mim-
Se pergunto o motivo,
Me respondem “porque sim”.

Isso é falta de respeito,
“Porque sim” não é resposta,
Atitude autoritária
Coisa que ninguém gosta!

Adulto deve explicar
Pra criança compreender
Esses “podes” e “não podes”,
Pra aceitar sem se ofender!

Criança exige carinho,
E sim! Consideração!
Criança é gente, é pessoa,
Não bicho de estimação!
 

Emile Claus, Children Eating Turnips, 1884, Private collection


"As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo."

(Giacomo Leopardi)


 Giacomo Leopardi (daqui) 


Escritor e filósofo italiano, Giacomo Leopardi nasceu a 29 de junho de 1798 em Recanati, nos então Estados da Igreja. O pai, um conde italiano excêntrico, sinistro e pálido, era tido com último homem a usar uma espada em Itália. Determinou que à criança só serviriam trajes negros, mostrando que a disciplina se deveria sobrepor aos enfeites de uma mãe, a quem entregou por sua vez o governo da casa.

Entregou o filho aos seis anos de idade aos ensinamentos de precetores que lhe ensinaram a mestria dos clássicos gregos e latinos. O pai, proprietário de uma biblioteca particular composta por cerca de vinte mil volumes, desafiava então o jovem Giacomo a fazer traduções, julgando ser este o melhor meio de o introduzir à erudição. Assim, aos dezasseis anos, já revelava autoridade suficiente para escrever um ensaio em que denunciava os erros dos autores clássicos. O seu primeiro livro, Saggio Sugli Errore Popolari Degli Antichi, embora escrito em 1815, permaneceu na posse do autor, e só veio a ser publicado nove anos após a sua morte.

Sabe-se que durante esta época Giacomo Leopardi foi vítima de um problema cerebrospinal e da cegueira progressiva de um olho. As suas deficiências físicas, provocadas ou por doença degenerativa, acidente, ou mazelas de duelo, fizeram com que se recatasse da companhia feminina.
Se os poemas que começou por escrever eram inflamados de patriotismo saudosista, queixumes com uma mão no peito e outra na testa, como All' Italia', publicado em 1819, a sua estadia em Roma por volta de 1823 aproximou-o dos círculos germânicos. 

Mudando-se para Bolonha em 1825, passou a trabalhar como professor particular, ao mesmo tempo que ia escrevendo obras que, embora continuando a manter a forma clássica, adotavam o conteúdo romântico alemão. Assim, Versi (1826) e Operette Morale (1827) refletem bem a transição no cunho do seu autor. Em 1830 partiu de Recanti para Florença mas, três anos depois optou definitivamente por Nápoles, onde escreveu Ginestra (1836).

Tido como o representante do Romantismo em Itália, Leopardi faleceu em Nápoles, vítima de um edema pulmonar, a 14 de junho de 1837. (Daqui)