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domingo, 11 de junho de 2023

"O Castelo de Guimarães" - Poema de José Leite de Vasconcelos


César Augusto Abbott (Pintor português, 1910-1977),  Vista do Castelo de Guimarães
 
 
[César Augusto Abbott, filho do artista Tomás Abbott Costa, nasceu no Porto a 3 de Agosto de 1910. Desde os 6 meses viveu em Pedrouços, afeiçoando-se assim, desde cedo, aos processos de viver e de sentir e aos modos de estar das gentes da Maia. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde teve como mestres Acácio Lino e José de Brito, e bem assim a Escola de Mestre Joaquim Lopes, no Salão Silva Porto. 
 Realizou a sua primeira Exposição aos 12 anos, no Salão da Santa Casa da Misericórdia, juntamente com o seu pai. Depois, sucessivamente, expôs por dezenas de vezes nos mais diversos salões: Sociedade Nacional de Belas Artes, Ateneu Comercial do Porto, Comissão Municipal de Turismo de Matosinhos, etc. Destacou-se pelos inúmeros trabalhos realizados em aguarela e pelas ilustrações que fez para postais, livros infantis e jogos. Na coleção de livros “A forminha” podem ser vistas alguns dos seus trabalhos, assim como em jogos da antiga distribuidora de brinquedos Majora. Faz parte do Clube Português de Aguarelistas e está representado, entre outros, nos seguintes museus: Museu Nacional Soares dos Reis, Museu Nacional de Lisboa, Museu Municipal de Coimbra, Museu de Vouzela, Museu do Marco de Canavezes, Fórum da Maia, Comissão Municipal de Turismo de Matosinhos, Governo civil e Câmara Municipal de Viseu, etc. Muitas dezenas de trabalhos seus estão dispersos por diversas coleções particulares do nosso país e do estrangeiro. César Abbott, faleceu a 2 de Junho de 1977 em Pedrouços (daqui)]
 

O Castelo de Guimarães 

(Ao Il.mo. e Ex.mo sr. Conde de Margaride)

Que foste tu, e que és, pobre castelo em ruínas?
Dantes eras o rei destas verdes campinas;
Desses velhos torreões e partidas ameias,
Hoje cobertas de hera, hoje de opróbrios cheias,
Ostentaram outrora os seus brios guerreiros
Junto do conde Henrique, os valentes besteiros;
Aí campeou também, impávido, brilhante
Como um sol alumiando esse tempo distante
Como nuvem de luz, nobre escudo real:
E as trombetas da guerra, em hino triunfal
Levantaram febris este heroico pregão:
“—Combate aos infiéis! Sangue! Destruição!”
E logo, como um mar colérico, endiabrado,
Vinham de toda a parte os servos do condado,
E em volta os barões poderosos, cruéis,
Marchavam por aí, de encontro aos infiéis!
E tu, sereno e rude, atlético, impassível,
Assistias então a uma peleja horrível,
Vendo de um lado e de outro as setas pelo ar,
As lanças dos peões além relampejar,
E o cavaleiro erguendo a espada para os céus…
Que foste tu e que és? Quais são os louros teus?

Das janelas onde hoje a hera seca se enleia,
Como uma secular, fortíssima cadeia,
Olharam muita vez para os largos horizontes,
Coroados de azul, recortados de montes,
E para a solidão das várzeas afastadas,
Pelo claro luar das noites consteladas,
Que é como que um sorriso ideal da Natureza,
—Olharam muita vez Trastâmara e Teresa,
Nessa união e amor das almas primitivas,
Límpidas como a lua e como a chama vivas.

Daí também outrora Afonso sonharia,
Seus sonhos, onde presa a alma lhe fugia
Por terras de infiéis, por castelos de Espanha,
A correr, a correr após de glória estranha...
Daí ele compôs a epopeia sagrada
Da Independência, — e o eco eterno dessa toada
Longínqua, sim, mas bela, escuta-se ainda agora
Em nossos corações, qual música sonora.
Daí lançou-se a um reino uma base feliz,
E acendeu-se o farol, guia deste país
Na conquista do mar buscando um reino novo,
E em tudo isso que faz que seja grande um povo!

Quantas vezes, ó noite, o teu manto lutuoso
Não surpreendeu o sonho a este rei glorioso?

Castelo! tu hoje és como um espectro, erguido
Nos abismos do tempo! O fantasma dorido!
Depósito fiel das lendas medievais,
Da fama dos barões, das vitórias feudais!
Coluna que se esvai ao vil sopro dos anos!
Baluarte talvez de sombrios tiranos!
Masmorra onde mais tarde a virtude penou
Sob os pés de um algoz!
Quem foi que te apagou?
Quem dessas triunfais ameias há riscado
O espírito que um dia as havia animado?
Que vã Filosofia ocultou tua glória,
Ó castelo esquecido e só vivo na História?

Ah! a Ideia é mais dura e firme que o granito!
Mais viril que o obelisco, onde o teu nome escrito
Campearia altivo, em sublime ovação!

Nada pode fugir à lei da Evolução.

Por isso a hera te envolve e uma nuvem pesada
Paira por sobre ti, muralha abandonada;
E tu és boje como um velho sem ventura,
Que tem um passo no ar e outro na sepultura! 
 

J. Leite de Vasconcelos
,
in Jornal Vimaranense 'Religião e Pátria', 
13 de Setembro de 1879 (daqui)
 


José Leite de Vasconcelos

Filólogo e um dos principais precursores da etnologia portuguesa, José Leite de Vasconcelos nasceu em 1858, na freguesia de Ucanha (Tarouca). Apesar de ter revelado desde muito cedo uma especial vocação para o estudo dos costumes e hábitos dos povos, Leite de Vasconcelos começou por estudar medicina, tendo-se formado na Faculdade do Porto em 1886. No entanto, dois anos mais tarde, depois de ter exercido funções de subdelegado de saúde, médico municipal e presidente da Junta Escolar no Cadaval, decide abandonar a carreira médica e dedicar-se prioritariamente ao estudo das suas ciências prediletas: Linguística, Arqueologia e Etnologia.

Em 1888 instala-se Lisboa onde começa por trabalhar como professor no Liceu Central. Nesse mesmo ano entra para a Biblioteca Nacional e uns meses mais tarde ocupa o cargo de Conservador, cargo esse que exerce até 1911. Entretanto, prossegue os seus estudos em Paris, tirando um curso de Filologia Românica (1889-1901). 
Em 1893, cria e dirige o Museu Etnográfico e no ano seguinte lança as revistas O Arqueólogo Português (1884) e Revista Lusitana (1887). Paralelamente ensina Filologia Clássica, Filologia Românica, Arqueologia e Epigrafia na Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1929 afasta-se da direção do Museu que ajudara a criar, tornando-se seu diretor honorário. Morreu em 1941, com 83 anos de idade.

De formação positivista, profundamente marcado pelas ideias evolucionistas da época em que viveu, Leite de Vasconcelos contribui decisivamente para o desenvolvimento da Etnologia em Portugal, tendo publicado inúmeros trabalhos nesta área. Da sua vasta obra, destaca-se o seu monumental estudo "Etnografia Portuguesa", cujo primeiro volume foi publicado em 1933, e que representa um dos mais importantes trabalhos de investigação produzidos até hoje sobre a cultura e os costumes portugueses.

Algumas das obras mais importantes de Leite de Vasconcelos:
 1881, Romances Populares portugueses
1881, Estudo ethnográfico a propósito da ornamentação dos jugos e cangas dos bois de Entre-Douro e Minho
1882, Amuletos populares portugueses
1882, O Dialeto Mirandês
1882, Tradições Populares de Portugal
1884, Museu Etnográfico Português
1890, Poesia Amorosa do Povo Português
1902, Poesia e Etnografia
1910, Ensaios Etnográficos
1913, Religiões da Lusitânia
1933, Etnografia Portuguesa
1938, Opúsculos (daqui)
 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

"Saudade" - Texto de José Luís Peixoto



Saudade


Em momentos como agora, lembro-me de ti com muita força, com detalhes. Saber que existes neste mesmo instante, lá longe, inunda-me. 
Sinto a tua falta. Sei que se começasse agora a enumerar as tuas qualidades, haveria de me perder em alguma, enlevado, antes de conseguir dizê-las todas. Ou talvez não seja possível esgotá-las. Foi precisa esta distância para reconhecer aquilo que, aqui, me parece tão evidente. 
No entanto, há horas em que não estou a pensar em ti. Nesse tempo, ocupo-me de assuntos que estão à distância do braço, basta levantar o nariz para olhá-los de frente. Ainda assim, mesmo então, sei que este é um mundo em que existes. Por baixo de tudo, quase sempre sem palavras, há essa certeza. Seria insuportável um mundo em que não existisses. 
Os lugares onde fui criança, onde cresci, ou mais tarde, onde a minha vida se decidiu, existem agora, lá longe, indiferentes talvez aos pensamentos que aqui desenvolvo sobre eles. Ao imaginá-los, com a devida diferença horária, deambulo por eles sem corpo, sou apenas olhos, alma, ignorado pelas paredes, pelas ruas, que prosseguem a sua existência sem mim. 
Portugal, eu sei que uma parte da falta que sinto de ti é falta de mim próprio. Às vezes, misturo-me contigo na minha cabeça. Como um enorme espaço vazio, como um fantasma invisível, a ausência daquele que fui passeia-se em ti, Portugal. Como um eco que só eu sou capaz de ouvir, as tais paredes e as tais ruas ainda guardam a imagem daquele que fui, das ilusões que tinha, todas essas idades irrecuperáveis. Velhos que conheci novos passam a coxear por esses lugares e não me distinguem nas suas lembranças, crianças que não tinham nascido passam a correr por esses lugares e não me distinguem na sua imaginação. 
Mas também sei, Portugal, que uma parte enorme da falta que sinto de ti é falta desse teu corpo subjetivo, desse teu ar, do teu porte, da tua presença física. Às vezes, nos lugares por onde passo, quando me lembro de ti como agora, quando me enches os olhos, parece que te vejo em toda a parte. Os sentidos enganam-me. Começa a parecer-me, por exemplo, que as pessoas lá ao fundo estão a falar em português. À distância de lhes distinguir o entusiasmo vago, mas sem lhe identificar a estrutura, sem divisão silábica rigorosa, parece-me que estão a falar em português, aproximo-me esperançado e, de repente, percebo que não e, por instantes, tudo em mim é injustificado: a minha postura, a minha posição, o meu posto. Foi precisa esta distância para reconhecer o privilégio, tão evidente, de estar rodeado de pessoas a falarem a mesma língua que eu. 
Mas haveria muito mais, Portugal. És família profunda, és terra. És toda a história e todo o futuro, não exagero, és caminho. Como disse, não vou aqui enumerar tudo o que te distingue aos meus olhos. Sinto a tua falta, mas não chego a lugares onde não estejas. Levo-te comigo, Portugal. Estás agarrado à minha pele, à minha voz, a tudo o que sou capaz de pensar, sentir e ser. É através de ti, Portugal, que entendo o mundo inteiro. 

José Luís Peixoto, in 'Up' (Revista)
 


 
Castelo de Guimarães
 
 
Intimamente ligado à fundação do Condado Portucalense e às lutas da independência de Portugal, o Castelo de Guimarães localiza-se no topo rochoso da sagrada colina desta cidade minhota, sobranceiro ao Campo de S. Mamede. 
 
No século X, época em que as guerras da Reconquista atingiam o seu auge no Norte da Península, a condessa Mumadona Dias procedeu à construção de um castelo para defesa do seu mosteiro e da indefesa população das terras de Vimaranes.

Com a fundação do Condado Portucalense, D. Henrique e D. Teresa elegeram como sua residência o castelo da cidade-berço, melhorando e ampliando o seu perímetro defensivo - podendo datar deste período inicial do século XII a sua Torre de Menagem. Nos séculos seguintes, D. Dinis e D. João I iriam deixar a marca dos seus reinados na volumetria desta fortaleza medieval.

De grande simplicidade geométrica, mas produzindo um belo efeito estético, a planta do castelo desenha, aproximadamente, um escudo facetado. Quatro robustas torres marcam os sólidos panos desta muralha aparelhada. As portas da cerca são ladeadas por volumosos torreões defensivos, mais expressivos no portal principal ocidental e na porta da traição, virada a Oriente. Um forte adarve, com lanços de escada nas zonas das torres, percorre a parte superior das muralhas, apresentando estas coroamento de muro com ameias pentagonais e de recorte pontiagudo.

Na parte norte da espessa muralha são visíveis as ruínas da antiga Alcáçova, residência do castelo, provavelmente do século XIV, que se divide em dois pisos, observando-se ainda as suas janelas exteriores e duas chaminés, de belo recorte e marcado sentido palaciano.

Uma ponte de madeira estabelece a ligação entre o adarve das muralhas e a volumosa e alta Torre de Menagem, implantada no interior do solo rochoso desta fortaleza medieval. De planta quadrangular, a Torre de Menagem é sólida e tem escassas aberturas marcando os vários andares, ligados internamente por escada de madeira e de pedra. Largo e contínuo adarve permite a circulação e a observação no topo da torre, sendo o seu coroamento realizado por ameias pentagonais pontiagudas.

D. Dinis procedeu ao amuralhamento de toda a zona inferior da povoação vimaranense, trabalho prosseguido por D. Fernando e derrubado, em parte, por D. João I. Esta muralha defensiva compreendia uma extensão de dois quilómetros, tendo ainda oito portas e igual número de torres. No século XIX, a maior parte da muralha foi desmontada e reaproveitada para outras obras públicas e particulares, escapando o castelo deste fatídico destino, por um escasso mas decisivo voto, numa eleição efetuada em 1836 no município vimaranense.

O castelo de Guimarães integra o designado Centro Histórico de Guimarães, reconhecido como Património Mundial pela UNESCO em 2001. (daqui)
 
 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"Havemos de ser outros amanhã" - Poema de Alice Vieira


Torre de Belém em Lisboa, iniciada em 1514 no reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), 
tendo como arquitecto Francisco de Arruda.


Havemos de ser outros amanhã


havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer

e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas

e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar

mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco 
que conseguimos salvar de todos os dilúvios 


Alice Vieira


Alice Vieira

Alice Vieira (Lisboa, 20 de março de 1943) é uma escritora e jornalista profissional portuguesa.
 
 
Dedicou-se desde cedo ao jornalismo, tendo trabalhado nos jornais Diário de Lisboa (onde, juntamente com o seu marido, o jornalista e escritor Mário Castrim, dirigiu o suplemento "Juvenil"), Diário Popular e Diário de Notícias e colaborou durante muitos anos com a revista "Activa" e o "Jornal de Notícias". Atualmente colabora na revista Audácia, dos Missionários Combonianos.
 
Trabalhou em vários programas de televisão para crianças e é considerada uma das mais importantes autoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.
 
As suas obras foram traduzidas para várias línguas, como o alemão, o búlgaro, o basco, o castelhano, o galego, o catalão, o francês, o húngaro, o holandês, o russo, o italiano, o chinês, o servo-croata. (Daqui)


Torre de Belém (Arquitetura manuelina) vista do Rio Tejo.


A Torre de Belém, um dos pontos turísticos mais famosos e visitados de Portugal. Sua construção foi iniciada em 1515 e terminou em 1519.
Classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1983, foi eleita como uma das Sete maravilhas de Portugal em 7 de julho de 2007.


Arquitetura manuelina


Estilo manuelino, por vezes também chamado de gótico português tardio ou flamejante, é um estilo decorativo, escultórico e de arte móvel que se desenvolveu no reinado de D. Manuel I e prosseguiu após a sua morte, ainda que já existisse desde o reinado de D. João II. É uma variação portuguesa do Gótico final, bem como da arte luso-mourisca ou arte mudéjar, marcada por uma sistematização de motivos iconográficos próprios, de grande porte, simbolizando o poder régio. Incorporou, mais tarde, ornamentações do Renascimento italiano. O termo "Manuelino" foi criado por Francisco Adolfo Varnhagen na sua Notícia Histórica e Descritiva do Mosteiro de Belém, de 1842. O Estilo desenvolveu-se numa época propícia da economia portuguesa e deixou marcas em todo o território nacional.

A característica dominante do Manuelino é a exuberância de formas e uma forte interpretação naturalista-simbólica de temas originais, eruditos ou tradicionais. A janela, tanto em edifícios religiosos como seculares, é um dos elementos arquitetónicos onde melhor se pode observar. Estes motivos aparecem em construções, pelourinhos, túmulos ou mesmo peças artísticas, como em ourivesaria, de que a Custódia de Belém é um exemplo.

Os motivos mais frequentes da arquitetura manuelina são a esfera armilar, conferida como divisa por D. João II ao seu primo e cunhado, futuro rei D. Manuel I, mais tarde, interpretada como sinal de um desígnio divino para o reinado de D. Manuel, a Cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas: Corais, Algas, Alcachofras, Pinhas, animais vários e elementos fantásticos: Ouroboros, Sereias, gárgulas.

No seu conjunto, a arquitetura manuelina  pouco muda relativamente à estrutura formal do gótico alemão e plateresco. O alçado interior das igrejas mantém-se através da orientação este-oeste, da planta, dos sistemas de suporte e cobertura, do cálculo de proporções. As naves da mesma altura, influência das igrejas-salão alemãs, de cinco tramos, ausência de transepto e cabeceiras retangulares são as principais características diferenciais. Apesar de ser essencialmente ornamental, o Manuelino caracteriza-se também pela aplicação de determinadas fórmulas técnicas da altura, como as abóbadas com nervuras polinervadas a partir de mísulas.

Na componente civil destacam-se os palácios, como o Paço de D. Manuel, em Évora, e solares rurais, como o Solar de Sempre Noiva, em Arraiolos, todos de planta retangular.
Na tipologia militar é referência maior o baluarte do Restelo, a Torre de Belém. Um dos primeiros baluartes de artilharia do país, a quebrar a tradição das torres de menagem, a sua planta retangular sobrepõe-se a uma base poliédrica, que penetram Tejo adentro. A retangularidade da planta opõe-se à curvilínea da decoração esculpida. (Daqui)
 
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

"Foi para isso que os poetas foram feitos" - Poema de A. M. Pires Cabral


Foi para isso que os poetas foram feitos 


semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos


A. M. Pires Cabral


A. M. Pires Cabral 


António Manuel Pires Cabral mais conhecido por A. M. Pires Cabral nasceu na freguesia de Chacim, concelho de Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes, a 13 de agosto de 1941. 
 
Licenciou-se em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra. Foi professor do ensino secundário e atualmente é diretor do Grémio Literário de Vila Real. 
 
Tornou-se conhecido ao ganhar o Prémio Círculo de Leitores de 1983 com o romance Sancirilo (1983). É um escritor cuja matéria literária se centra essencialmente na ruralidade transmontana.
 
Obras: 
  • PoesiaAlgures a Nordeste (poesia, 1974); Solo Arável (poesia, 1976); Trirreme (poesia, 1978); Roleta em Constantim (poesia, 1981).  
  • TeatroO Saco de Nozes (teatro, 1982); Artes Marginais (antologia poética, Lisboa, 1998); Desta Água Beberei (poesia, Vila Real, 1999); O Livro dos Lugares e Outros Poemas (poesia, Mirandela, 2000); Como se Bosch tivesse enlouquecido (Mirandela, 2003); Douro: Pizzicato e Chula (Lisboa, 2004); Que comboio é este (Vila Real, 2005); Antes que o rio seque (poesia reunida, Lisboa, 2006); As têmporas da cinza (Lisboa, 2008); Arado (Lisboa, 2009). 
  •  Ficção Sancirilo (romance, 1983; 2.ª edição reescrita, Lisboa, 1996); O Diabo Veio ao Enterro (contos, 1985; 3.ª ed., 2010); Memórias de Caça (contos, 1987); O Homem que Vendeu a Cabeça (contos, 1987); Crónica da Casa Ardida (romance, 1992); Raquel e o Guerreiro (romance, 1995); Três Histórias Transmontanas (contos, 1998); Vilar Frio (novela, ilustrando o álbum de fotografias Portugal Terra Fria, de Georges Dussaud; Lisboa, 1997); Três Histórias Trasmontanas (contos, Vila Real, 1998); A Loba e o Rouxinol (romance, Lisboa, 2004); O Cónego (romance, Lisboa, 2007; Il Canonico, tradução italiana, Roma, 2009); O Porco de Erimanto e outras Fábulas (contos, Lisboa, 2010); Os Anjos Nus (contos, Lisboa, 2012). 
  • CrónicasOs Arredores do Paraíso (1991); Na Província Neva (crónicas de Natal, Vila Real, 1997).  
  • Literatura infantil Trocas e baldrocas ou Com a Natureza não se Brinca (Vila Nova de Gaia, 2007).    
  • Outras obrasO Diário de C* (Vila Real, 1995); Vila Real: Um Olhar Muito de Dentro (com fotografias de Albano da Costa Lobo, Vila Real, 2001); Douro Leituras (antologia, Régua, 2002). (Daqui)

terça-feira, 15 de maio de 2012

"Lisboa" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Cidade de  Lisboa, Portugal


Lisboa 


Digo: "Lisboa" 
Quando atravesso - vinda do sul - o rio 
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse 
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna 
Em seu longo luzir de azul e rio 
Em seu corpo amontoado de colinas - 
Vejo-a melhor porque a digo 
Tudo se mostra melhor porque digo 
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência 
Porque digo 
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser 
Com seus meandros de espanto insónia e lata 
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro 
Seu conivente sorrir de intriga e máscara 
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata 
Lisboa oscilando como uma grande barca 
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência 
Digo o nome da cidade 
- Digo para ver. 


 in Obra Poética, 2011


e um típico exemplo do estilo manuelino.


A Torre de Belém é um dos monumentos mais expressivos da cidade de Lisboa. Localiza-se na margem direita do rio Tejo, onde existiu outrora a praia de Belém. Inicialmente cercada pelas águas em todo o seu perímetro, progressivamente foi envolvida pela praia, até se incorporar hoje à terra firme. 
O monumento  destaca-se pelo nacionalismo implícito, visto que é todo rodeado por decorações do Brasão de armas de Portugal, incluindo inscrições de cruzes da Ordem de Cristo nas janelas de baluarte; tais características remetem principalmente à arquitetura típica de uma época em que o país era uma potência global (a do início da Idade Moderna).


Torre de Belém - Lisboa


Classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1983, foi eleita como uma das Sete maravilhas de Portugal em 7 de julho de 2007.
Originalmente sob a invocação de São Vicente de Saragoça, padroeiro da cidade de Lisboa, designada no século XVI pelo nome de Baluarte de São Vicente a par de Belém e por Baluarte do Restelo, esta fortificação integrava o plano defensivo da barra do rio Tejo projetado à época de João II de Portugal (1481-95), integrado na margem direita do rio pelo Baluarte de Cascais e, na esquerda, pelo Baluarte da Caparica
O cronista Garcia de Resende foi o autor do seu risco inicial, tendo registado: "E assim mandou fazer então a (...) torre e baluarte de Caparica, defronte de Belém, em que estava muita e grande artilharia; e tinha ordenado de fazer uma forte fortaleza onde ora está a formosa torre de Belém, que el-Rei D. Manuel, que santa glória haja, mandou fazer; para que a fortaleza de uma parte e a torre da outra tolhessem a entrada do rio. A qual fortaleza eu por seu mandado debuxei, e com ele ordenei a sua vontade; e tinha já dada a capitania dela [a] Álvaro da Cunha, seu estribeiro-mor, e pessoa de que muito confiava; e porque el-Rei João faleceu, não houve tempo para se fazer" (RESENDE, Garcia de. Crónica de D. João II, 1545.), 
A estrutura só viria a ser iniciada em 1514, sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), tendo como arquitecto Francisco de Arruda. Localizava-se sobre um afloramento rochoso nas águas do rio, fronteiro à antiga praia de Belém, e destinava-se a substituir a antiga nau artilhada, ancorada naquele trecho, de onde partiam as frotas para as Índias. As suas obras ficaram a cargo de Diogo Boitaca, que, à época, também dirigia as já adiantadas obras do vizinho Mosteiro dos Jerónimos
Concluída em 1520, foi seu primeiro alcaide Gaspar de Paiva, nomeado para a função no ano seguinte. 
Com a evolução dos meios de ataque e defesa, a estrutura foi, gradualmente, perdendo a sua função defensiva original. Ao longo dos séculos foi utilizada como registo aduaneiro, posto de sinalização telegráfico e farol. Os seus paióis foram utilizados como masmorras para presos políticos durante o reinado de Filipe II de Espanha (1580-1598), e, mais tarde, por João IV de Portugal (1640-1656). O Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, D. Sebastião de Matos de Noronha (1586-1641), por coligação à Espanha e fazendo frente a D. João IV, foi preso e mandado recluso para a Torre de Belém. 
Sofreu várias reformas ao longo dos séculos, principalmente a do século XVIII que privilegiou as ameias, o varandim do baluarte, o nicho da Virgem, voltado para o rio, e o claustrim
Classificada como Monumento Nacional por Decreto de 10 de Janeiro de 1907, é considerada como Património Mundial pela UNESCO desde 1983. Naquele mesmo ano integrou a XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura.


Torre de Belém - Lisboa


O monumento reflete influências islâmicas e orientais, que caracterizam o estilo manuelino e marca o fim da tradição medieval das torres de menagem, ensaiando um dos primeiros baluartes para artilharia no país. 
Parte da sua beleza reside na decoração exterior, adornada com cordas e nós esculpidas em pedra, galerias abertas, torres de vigia no estilo mourisco e ameias em forma de escudos decoradas com esferas armilares, a cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas, como um rinoceronte, alusivos às navegações. O interior gótico, por baixo do terraço, que serviu como armaria e prisão, é muito austero. 
A sua estrutura compõe-se de dois elementos principais: a torre e o baluarte. Nos ângulos do terraço da torre e do baluarte, sobressaem guaritas cilíndricas coroadas por cúpulas de gomos, ricamente decorada em cantaria de pedra. 
A torre quadrangular, de tradição medieval, eleva-se em cinco pavimentos acima do baluarte, a saber: 

Primeiro pavimento - Sala do Governador. 
Segundo pavimento - Sala dos Reis, com teto elíptico e fogão ornamentado com meias-esferas. 
Terceiro pavimento - Sala de Audiências 
Quarto pavimento - Capela 
Quinto pavimento - Terraço da torre 

A nave do baluarte poligonal, ventilada por um claustrim, abre 16 canhoneiras para tiro rasante de artilharia. O terrapleno, guarnecido por ameias, constitui uma segunda linha de fogo, nele se localizando o santuário de Nossa Senhora do Bom Sucesso com o Menino, também conhecida como a Virgem do Restelo. (Daqui)




FALAR / DIZER POESIA


Tenho para mim que ler poesia com a voz não pode ser nunca só conhecê-la e dá-la a conhecer.
Ler poesia é torná-la nossa, que a voz, tanto como os olhos, quer se queira quer não, é espelho da alma.
Ler poesia é como representar, é inventar quem fala, é reinventar um poeta e recriar o momento de escrever.
Por isso é importante escolher o que se lê, não ler qualquer coisa, amar o que se diz, decidir que palavras vão passar a fazer parte de nós e serão daí em diante também nossa memória e nos irão ajudar também a escrever e a ler novas palavras, a estar com os outros.

 Luís Miguel Cintra 


Luís Miguel Cintra


Luís Miguel Cintra
é um ator e encenador português nascido a 29 de abril de 1949, em Madrid, filho do linguista Luís Filipe Lindley Cintra.

Obteve o bacharelato em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Estreou-se num grupo de teatro amador, por ele fundado, em 1967. Com uma bolsa de estudo, frequentou a Escola de Teatro Bristol Old Vic entre 1971 e 1973, ano em que fundou, com Jorge Silva Melo, o Teatro da Cornucópia, onde se afirmou como ator e encenador em diversas peças, nomeadamente O Misantropo, Terror e Miséria do III Reich e Pequenos Burgueses.

No cinema, participou em filmes como Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1970), Silvestre (1982) e Recordações da Casa Amarela (1989), de João César Monteiro, A Pousada das Chagas (1971), A Ilha dos Amores (1983), Três Irmãos (1994) e The Dancer Upstairs (Em Clandestinidade, 2002) de John Malkovich. Foi presença regular nos filmes de Manoel de Oliveira, tendo participado em Le Soulier de Satin (O Sapato de Cetim, 1985), Os Canibais (1988), Non ou a Vã Glória de Mandar (1990), O Dia do Desespero (1992), Vale Abraão (1993), A Caixa (1994), O Convento (1995), A Carta (1999), Palavra e Utopia (2000) e Um Filme Falado (2003).

Em janeiro de 2005 foi distinguido, juntamente com o historiador António Hespanha, com o Prémio da Universidade de Coimbra, e, em dezembro desse mesmo ano, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa. (Daqui)