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terça-feira, 16 de junho de 2026

"Ao rimar dor com pensamento" - Poema de Helga Moreira



Ethel Pennewill Brown Leach (American painter, printmaker, and illustrator, 1878–1959),
'A Student in Paris', 1913. Collection of Amelie A. Sloan. 



Ao rimar dor com pensamento 

 
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afeto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto. 

Um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina. 

Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige

em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo. 


Helga Moreira, in 'Tumulto', 2003
 
 

Ethel Pennewil Brown Leach, 'She leaned forward and gazed anxiously
 at the reflection which confronted her', 1911.
 

Um espelho 


Um espelho
não é
uma janela

Um espelho
não é
um quadro

Quem espreita
por meus olhos
no espelho
sou eu

E eu
sou eu
Não há enigmas.


Adília Lopes (1960−2024),

in 'Le Vitrail la Nuit'.
Lisboa: &etc, 2006.
 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

"Sempre acontece sempre" - Poema de Helga Moreira


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Renée et le chat', 1920.


Sempre acontece sempre


Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema
que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte
apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor
alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


Helga Moreira



 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Reading in bed' ('Lectura en la cama'), 1935.
 

"A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados
que se podem cometer contra o espírito."

Hermann Hesse (1877–1962),
 in 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'

quarta-feira, 13 de maio de 2026

"Hoje é o dia de todos os deuses" - Poema de Helga Moreira


 
François Flameng (French painter, 1856–1923), 'Allegory of Painting'
('Allégorie de la peinture')
, c. 1875, Private collection.


Hoje é o dia de todos os deuses


Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é o dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo. 

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho género ou identificação bastante

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco. 
 
in 'Agora que falamos de morrer', 2006.
 

quinta-feira, 10 de março de 2016

"Anoitece em inferno a minha casa" - Poema Helga Moreira



Delphin Enjolras (French painter, 1857-1945), 'La Toilette', s.d.
 

Anoitece em inferno a minha casa


Anoitece em inferno a minha casa.
Fico com este começo de verso
a serenar a exaltação de não dizer nada.
Deixem-me com este sorriso a morrer
por uma sílaba mais real onde um verso
me sossegue
com unhas de lama e sangue,
como garras. 

Anoitece em inferno a minha casa.
Fica a certeza de não ter fim o que
de inutilidades se basta,
ou apenas o instante em que,
por um verso, eu fui
à outra parte da casa. 


Helga Moreira,
in "Os Dias Todos Assim", 1996. 



Delphin Enjolras, 'After Tea', s.d.


À pergunta habitual: ''Por que é que escreve?'',
 a resposta do poeta será sempre a mais curta:
 ''Para viver melhor.''

(Pseudónimo de Alexis Leger)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"Tenho a vida feita num novelo" - Poema de Helga Moreira


Silva Porto (Pintor português, 1850-1893), 'Moinho do Estevão, Alcochete', 1887. 


Tenho a vida feita num novelo


Tenho a vida feita num novelo,
não pertenço a lado nenhum,
não tenho
país ou terra, nenhuma raiz,
nem escolhas ou nome,
nada a dizer, nada a calar,

nem harmonias ou crenças
nem desígnios.

Uma linha apenas
num mar de mós
sem moinhos.


Helga Moreira
,
'Os dias todos assim, & etc.', 1996, pág. 85.


Silva Porto, 'Cancela de Serreleis, Minho', 1891, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves.
 

Música de Portugal

Portugal é internacionalmente conhecido pela sua tradição folclórica, em grande medida assente no Fado e nos estilos musicais dele derivados. Sendo este o género musical que melhor caracteriza o espírito português e que está diretamente relacionado e é consequência da sua história e raízes culturais, tem-se observado uma recente expansão em diversos estilos musicais, como o rock ou o hip-hop. 
A história da música portuguesa no século XX (principalmente a segunda metade), pode ser divida no período que antecede a revolução de 25 de Abril e pós-revolução.

Durante o Estado Novo, a música portuguesa era muito influenciada pelo concurso televisivo da RTP, Festival RTP da Canção, a que se caracterizou por Nacional-cançonetismo, devido à clara influência do Estado nos temas abordados. Simone de Oliveira é um dos muitos nomes.
No lado oposto, desenvolveu-se a música de intervenção, com o intuito de criticar o Estado Novo e chamar a atenção do povo. Sérgio Godinho, José Mário Branco e Zeca Afonso são três de muitos músicos que ficaram conhecidos.
No entanto, já desde o final da década de 1950 que se fazia Rock em Portugal. Joaquim Costa, Os Babies (de José Cid), Os Conchas e Daniel Bacelar são alguns dos pioneiros.
Na década seguinte, anos de surf e yé-yé, o Conjunto Mistério, Victor Gomes e os Gatos Negros, Os Titãs são alguns dos nomes que, juntamente com o Conjunto Académico João Paulo, Os Ekos, Quinteto Académico, Jets, os Sheiks e os Chinchilas marcaram essa década.
A entrar na década de 1970, a semelhança da música de intervenção o rock também fica mais politizado como se pode ouvir nos discos dos Quarteto 1111, Steamer's, Filarmónica Fraude, Banda do Casaco, entre outros.


 
Amália Rodrigues — cantora portuguesa (1920–1999)
 
Se a Amália ainda é o nome mais conhecido na música portuguesa, na década de 1980 surgem bandas seminais para o enriquecimento da cultura musical portuguesa, como por exemplo os Heróis do Mar, os Sétima Legião, os GNR e os Madredeus. O Fado começa também a sua transformação e continua a evoluir muito também, no sentido de se tornar o Fado que conhecemos hoje, praticado por artistas como Camané ou Mariza.
Hoje em dia existem também bandas e/ou artistas musicais contemporâneos que dão contributos culturais muito significativos em todos os estilos e formas de música, do rock-canção, com os Ornatos Violeta, à canção pop, com os Clã, ao Black/Gothic/Folk/Heavy Metal, com os Moonspell, ao Hip-Hop falado em português, com Sam the Kid ou Valete, da fusão Rock–Hip-Hop, do qual são exemplo os Da Weasel, no Rock, Soul e Blues, dos quais os Wraygunn são um exemplo perfeito, ao Jazz e à música de dança, com os Buraka Som Sistema. A música tradicional mantém-se popular, embora tendo sido modernizada, especialmente na região de Trás-os-Montes.
Na década de 1990, embora já existisse música do género, é cunhado o termo Música Pimba, a partir de uma canção de Emanuel, para se referir a um tipo música ligeira com expressões de duplo sentido, muitas vezes sexuais, com Quim Barreiros um dos nomes mais conhecidos. (daqui)

Amália Rodrigues - "Estranha forma de vida" (1965)