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segunda-feira, 24 de março de 2025

"Soneto do amor total" - Poema de Vinicius de Moraes


Franc-Lamy
(Peintre et graveur français, 1855 - 1919), Venice, 1911.



Soneto do amor total


Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Moraes
,
in 'O Operário em Construção'

segunda-feira, 17 de março de 2025

"Ver-te. Tocar-te" - Poema de Hilda Hilst


 
Pierre-Auguste Renoir (French artist, 1841–1919), Lovers (Henriette Henriot 
 and Franc-Lamy), 1875, National Gallery Prague.


Ver-te. Tocar-te


Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.


Hilda Hilst, in 'Do Desejo', 1992


Henriette Henriot, c. 1876 by Pierre-Auguste Renoir


Desejo 


Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.


Hilda Hilst, in 'Do Desejo', 1992