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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Como 'tratar' os gatos" - Poema de T. S. Eliot

 


Nancy Spielman
, 'Dog and Cat'


Como “tratar” os gatos


De tudo quanto é gato aqui já leste;
Por isso agora o meu conselho é este:
Não precisas de intérprete, ninguém,
Que diga o caráter que eles têm.
Aprendeste bastante e sabes, pois,
Que eles são parecidos com nós dois
E quantos outros mais que vêm a fio
Cada qual com seu tipo e seu feitio.
Pois alguns são sensatos, outros, loucos;
Muitos são maus, são bons uns poucos;
E assim como há piedosos, há perversos –
Mas todos cabem por igual em versos.
Viste-os tanto a brincar quanto em quizília,
E aprendeste seus nomes de família,
Seus hábitos, seus habitats, seus atos:
Mas
Afinal como se “tratam” Gatos?

Dou-te já na memória um bom puxão,
Dizendo-te que UM GATO NÃO É CÃO.

Os Cães fingem que gostam de baderna,
Mas latem só, ameaçando a perna;
Pois um Cão, visto em sua conjuntura,
É o que pode chamar-se uma alma pura.
Não falo dos Pekins e as raças raras
Que são exemplos de caninas taras.
O Cão comum e citadino, ao passo,
Inclina-se a bancar sempre o palhaço,
E em vez de demonstrar sinais de orgulho,
De sua dignidade sofre o esbulho.
Cai, com facilidade, na esparrela:
Basta levar tapinhas na barbela,
Cafuné no pescoço, erguer de pata,
Que fará zigue-zague e zaragata.
Faz parte dos palermas que não mordem
E acatam qualquer grito, qualquer ordem.

Devo, outra vez, lembrar-te deste facto:
Um cão é um cão, porém UM GATO É UM GATO.

Com os Gatos, dizem, que é regra bastante
Só lhes falares se te falam antes.
Quanto a mim, o princípio desacato
E acredito que sei tratar um gato,
Embora tenha em mente, na verdade,
Que ele ressente a familiaridade.
Em geral, eu me inclino com recato,
E digo: Como passa, SENHOR GATO?
Porém se é um desses gatos, meu vizinho,
Que encontro a três por dois pelo caminho,
É claro então que reformulo o trato
E digo simplesmente: PASSA, GATO!
(Ouvi dizer que o nome dele é Gomes,
Mas não cheguei ainda a dizer nomes.)
Antes que qualquer gato condescenda
Em tratar-te de amigo, uma oferenda
É necessária, qual sinal de aceite.
Algo assim como um bom prato de leite.
Daí então podes partir e, às vezes,
Dar-lhe caviar e bifes hamburgueses,
Ora um naco de carne, ora peixe em jornal,
Que ele sempre tem seu gosto pessoal.
(Conheço um gato que, se está com febre,
Em vez de canja quer passar a lebre,
E quando acaba ainda lambe as dobras
Das unhas para aproveitar as sobras.)
Um gato é alguém que adquiriu direito
De esperar essas mostras de respeito.
E assim, embora um longo tempo tome,
Um dia poderás chamar-lhe um NOME.

É pão pão, queijo queijo (mas no prato):
Assim é que se deve “tratar” Gato.


T. S. Eliot (1888–1965), 'Os gatos'
Tradução de Ivo Barroso



Nancy Spielman, Down Under


"Se eu prefiro os gatos aos cães é porque não existem gatos policiais."

Jean Cocteau 

[Jean Cocteau, escritor francês e personalidade multifacetada da vida cultural francesa, nascido em 1889 e falecido em 1963, abordou sucessivamente o futurismo, o surrealismo e o cubismo. Transpôs para o romance (Thomas l'imposteur, 1923) e para o teatro (Les Parents terribles, 1938) a sua arte poética, tendo ainda ilustrado algumas das suas obras. Enquanto músico, ator e cineasta, realizou La Belle et la Bête (A Bela e o Monstro, 1946), protagonizado pelo notável ator Jean Marais, Orphée (1950) e Le Testament d'Orphée (1960).] (daqui)
 

domingo, 1 de junho de 2014

"Retrato de Mulher Triste" - Poema de Cecília Meireles



Walter Westley Russell
(British painter and art teacher, 1867–1949),
Isabella, 1934



Retrato de Mulher Triste


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas joias.
E olha para o lado, imóvel. 

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude. 

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.” 


Cecília Meireles
, 
in 'Poemas (1942–1959)'



Walter Westley Russell, The Amber Beads, 1926



"A arte existe no instante em que o artista se afasta da natureza."

Jean Cocteau
[Poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, ator, e encenador de teatro francês, 1889–1963]


sábado, 10 de maio de 2014

"Exausto" - Poema de Adélia Prado



Dod Procter (English artist, 1892–1972), The Orchard, 1934



Exausto


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


Adélia Prado, in 'Bagagem'
 


Dod Procter, Self-Portrait  

Dod Procter, nascida Doris Margaret Shaw (1890–1972) foi uma artista inglesa e esposa do artista Ernest Procter. Dod Procter e seu marido frequentaram escolas de arte na Inglaterra e em Paris em conjunto, onde ambos foram influenciados pelos movimentos de arte: Impressionismo e Pós-impressionismo.  
 


Dod Procter, Early Morning, 1927 



Dod Procter, Kitchen at Myrtle Cottage, c.1930
–5



Dod Procter, Autumn Flowers, 1946



Dod Procter, The Pearl Necklace, ca. 1932–1941 



"Os sonhos são a literatura do sono."


Jean Cocteau



A portrait of Cocteau by Federico de Madrazo y Ochoa,
c. 1910–1912, oil on canvas, 73 x 46.5 cm.
 

Jean Maurice Eugène Clément Cocteau (Maisons-Lafitte, 5 de julho de 1889 — Milly-la-Forêt, 11 de outubro de 1963) foi um poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, ator, e encenador de teatro francês.

Em conjunto com outros Surrealistas da sua geração (Jean Anouilh e René Char, por exemplo), Cocteau conseguiu conjugar com mestria os novos e velhos códigos verbais, linguagem de encenação e tecnologias do modernismo para criar um paradoxo: um avant-garde clássico. O seu círculo de associados, amigos e amantes incluiu Jean Marais, Henri Bernstein, Édith Piaf e Raymond Radiguet.

Jean Cocteau foi um dos mais talentosos artistas do século XX. Atuou ativamente em diversos movimentos artísticos, nomeadamente o conhecido Groupe des Six (grupo dos seis) cujo núcleo era Georges Auric (1899–1983), Louis Durey (1888–1979), Arthur Honegger (1892–1955), Darius Milhaud (1892–1974), Francis Poulenc (1899–1963), Germaine Tailleferre (1892–1983). Além destes, outros também tomaram parte, como Erik Satie e Jean Wiéner.
 
As suas peças foram levadas aos palcos dos Grandes Teatros, nos Boulevards da época parisiense em que ele viveu e que ajudou a definir e criar. A sua abordagem versátil e nada convencional e a sua enorme produtividade trouxeram-lhe fama internacional. 
Em 1940, Le Bel Indifférent, a peça de teatro que Cocteau escreveu para Édith Piaf, teve um tremendo sucesso. Trabalhou também com Pablo Picasso em diversos projetos e fez amizade com inúmeros artistas europeus. 

Cocteau realizou sete filmes e enquanto argumentista foi narrador em mais alguns. Todos ricos em simbolismos e imagens surreais. Os filmes que na sua maioria foram escritos e realizados por ele mesmo, foram particularmente importantes para a introdução do Surrealismo no Cinema francês, e influenciaram até um certo grau, o futuro género Nouvelle Vague. Os seus filmes mais conhecidos são Les Parents terribles (1948), La Belle et la Bête, (1946) e Orpheus (1949).
 
Cocteau lutou contra o seu vício de ópio por toda a sua vida adulta e foi abertamente gay, embora tenha tido breves e complexos romances com várias mulheres, para além de Natalie Paley. Publicou um considerável número de ensaios criticando a homofobia.

Em 1955, Cocteau foi eleito membro da Académie française e da Académie royale de Belgique. Foi agraciado com o grau de comandante da Legião de Honra (França), membro da Academia Mallarmé, da Academia alemã (Berlim), da Academia americana Mark Twain, presidente honorário do Festival de Cinema de Cannes e da Associação de Amizade França-Hungria, e presidente da Academia de Jazz e da Academia do Disco. 

Jean Cocteau é considerado um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. A frase "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez" é muitas vezes atribuída a Jean Cocteau. Contudo, outros a atribuem à Mark Twain: "They did not know it was impossible, so they did it!" (daqui)
 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

"Frémito do meu corpo a procurar-te" - Poema de Florbela Espanca



Marta Dahlig (Polish digital painter, b. 1985), 'Umbrella Sky' 
(Arte Digital Surrealista) 


Frémito do meu corpo a procurar-te 


Frémito do meu corpo a procurar-te, 
Febre das minhas mãos na tua pele 
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, 
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te, 

Olhos buscando os teus por toda a parte, 
Sede de beijos, amargor de fel, 
Estonteante fome, áspera e cruel, 
Que nada existe que a mitigue e a farte! 

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma 
Junto da minha, uma lagoa calma, 
A dizer-me, a cantar que não me amas... 

E o meu coração que tu não sentes, 
Vai boiando ao acaso das correntes, 
Esquife negro sobre um mar de chamas... 


in "A Mensageira das Violetas"


Marta Dahlig (Polish digital painter, b. 1985), 'Moths'


“Um belo livro é aquele que semeia em abundância os pontos de interrogação.”
 
Jean Cocteau 


Jean Cocteau, 1923 


Jean Maurice Eugene Clement Cocteau nasceu no dia 5 de julho de 1889, numa família abastada de Paris. O seu pai, advogado e pintor amador, suicidou-se quando Jean tinha apenas 9 anos, episódio que o marcou profundamente.
Apesar de ter sido um aluno medíocre e de não ter terminado o liceu, Cocteau publicou o seu primeiro livro de poemas aos 19 anos, "A Lâmpada de Aladino".
No ano de 1915, Cocteau conhece Pablo Picasso, de quem se torna amigo e com quem chega a trabalhar, por exemplo, no ballet "Parade", escrito por Cocteau, com cenários de Picasso e produzido pelo mestre russo Diaghilev.
Jean Cocteau tornou-se um escritor reconhecido, sendo o autor de peças de teatro como "A Voz Humana" (1930), da ópera "Orphée" (1926) e de romances como "Les Enfants Terribles" (1929).
A carreira de Cocteau estendeu-se também ao cinema, datando o seu primeiro filme, "O Sangue de um Poeta", da década de 30. 
Manteve uma vida ativa até 1953, altura em que a doença o obrigou a abrandar o ritmo. Desde esse momento até à sua morte, Cocteau fez experiências e trabalhos em variadas artes gráficas, nomeadamente frescos. Morreu de um ataque cardíaco aos 74 anos de idade, no dia 11 de outubro de 1963, na sua casa de Milly-la-Forêt, depois de saber da morte da sua amiga Edith Piaf.
 

Eric Clapton - Wonderful Tonight