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domingo, 11 de abril de 2021

"O Nascimento" - Poema de Casimiro de Brito


Erich Heckel, House in Dangast (The White House), 1908


O Nascimento

 
Nasces no instante em que tomo
consciência de estar só

Nasces no deserto das minhas mãos
no espaço que separa as coisas
umas das outras nasces renasces
no mar que se visita ó sabor do sol
de olhos abertos

Nasces no instante em que tomo
nas mãos o peso da morte o peso
deste pobre movimento que nos vem
do centro da terra ó vinho ó repouso
 infinito
 

Casimiro de Brito
,
in Mesa do Amor, 1970


Erich Heckel, Park landscape, 1910


"Transformar o mundo não posso, mas talvez possa transformar o mundo à minha volta." 
 in A arte da respiração, 1988 
 
 
 
Erich Heckel, Self-Portrait, 1919

[Erich Heckel (1883—1970) foi um pintor e ilustrador alemão e membro fundador do grupo expressionista Die Brücke ("A Ponte"), que existiu de 1905 até 1913.]
 

Die Brücke

Die Brücke (A Ponte) é uma associação artística formada em 1905, em Dresden, que marca o início da arte moderna na Alemanha. Fundada por Ernst-Ludwig Kirchner, Karl Schmidt-Rottluff, Fritz Bleyl e Erich Heckel (que na altura eram ainda estudantes), aos quais se juntaram mais tarde, entre outros, os artistas Emil Nolde e Max Pechstein. Artistas de outros países, como o austríaco Oscar Kokoshka, estiveram também ligados a este movimento embora não o integrassem.

O Die Brücke pretendia promover o interesse pela arte avançada, rejeitando a tradição académica e naturalista, o impressionismo berlinense e a Arte Nova. Tal como o seu nome indica, pretendia constituir uma ponte para o desenvolvimento da arte na sua relação com a vida moderna, para o que procurou atrair todos os artistas com interesses vanguardistas. Sofreu influência direta do movimento fauvista, da obra dos pintores franceses Vincent Van Gogh e Paul Gauguin e também de Munch, de Ensor e de Roualt.

Durante um primeiro período (1905-1911), este movimento esteve sedeado em Dresden e as suas reuniões efetuavam-se no atelier de Kirchner. Esta fase foi marcada pela precariedade dos meios materiais mas, ao mesmo tempo, por um clima de forte motivação e de intensidade criativa. Desde 1905, o grupo organizou exposições, entre as quais se destacam as grandes exposições de 1906 e de 1910. Embora não existisse um programa ou uma orientação estética única, verifica-se a existência de alguns pontos comuns entre o trabalhos dos vários artistas, como a tentativa de transposição para a pintura, de forma direta e primitiva (através de um cromatismo violento), de todo um conjunto de emoções e de sentimentos determinados pela realidade social, política e religiosa da altura.
 
Em 1910 o grupo instalou-se em Berlim, cidade que se transforma no centro da vida artística na Alemanha. Neste período torna-se mais evidente a influência do Cubismo e do Futurismo. Em 1913, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o movimento dissolveu-se oficialmente.
(Daqui)

 
Erich Heckel, Aus Moritzburg, 1910
 

Ontem caminhei
Nos campos de chuva; hoje
chove dentro de mim. 
(Haicai / Haikai) 
 
 

domingo, 4 de abril de 2021

"Se" - Poema de Alice Ruiz


August Macke (1887–1914), Ballet russo, 1912, Kunsthalle, Bremen 


Se


se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
 in "Navalhanaliga", 1980


August Macke, The artist's wife in blue hat, 1909 
 
 
 procurando a lua
encontro o sol
mas já de partida  
 
 (Haicai / Haiku)
 
 
Alice Ruiz
 
Poeta e haikaista, Alice Ruiz nasceu em Curitiba, PR, em 22 de janeiro de 1946. Começou a escrever contos com 9 anos de idade, e versos aos 16. Aos 26 anos publicou pela primeira vez seus poemas em revistas e jornais culturais. Lançou seu primeiro livro aos 34 anos. Alice publicou, até agora, 21 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil
Compõe letras desde os 26 anos - tem diversas canções gravadas por parceiros e intérpretes. Lançou, em 2005, seu primeiro CD, o Paralelas, em parceria com Alzira Espíndola, pela Duncan Discos, com as participações especialíssimas de Zélia Duncan e Arnaldo Antunes.
Antes da publicação de seu primeiro livro, Navalhanaliga, em dezembro de 1980, já havia escrito textos feministas, no início dos anos 1970 e editado algumas revistas, além de textos publicitários e roteiros de histórias em quadrinhos. Alguns de seus primeiros poemas foram publicados somente em 1984, quando lançou Pelos Pêlos pela Brasiliense. Já ganhou vários prémios, incluindo o Jabuti de Poesia, de 1989, pelo livro Vice Versos e o Jabuti de Poesia, de 2009, pelo livro Dois em Um.
Já participou do projeto Arte Postal, pela Arte Pau Brasil; da Exposição Transcriar - Poemas em Vídeo Texto, no III Encontro de Semiótica, em 1985, SP; do Poesia em Out-Door, Arte na Rua II, SP, em 1984; Poesia em Out-Door, 100 anos da Av. Paulista, em 1991; da XVII Bienal, arte em Vídeo Texto e também integrou o júri de 8 encontros nacionais de haikai, em São Paulo.
Tem poemas traduzidos e publicados em antologias nos Estados Unidos, Bélgica, México, Argentina, Espanha e Irlanda, tendo sido também convidada como palestrante na Bienal de Lenguas da América no México e na Europalia Brasil em Bruxelas.
As aulas de haikai são uma experiência única para quem já fez - Alice convence a gente que no fundo de cada um existe um poeta louco para despertar, e descobrimos surpresos que sim, é possível!
 
Carô Murgel, Historiadora (Daqui)
 
 
 August Macke, Tightrope walker, 1913 
 
 
August Macke, Tightrope walker, 1914
  Kunstmuseum Bonn 


"Só o amor e a arte tornam a existência tolerável."

William Somerset Maugham, A Servidão Humana
 
 
W. Somerset Maugham photographed
 by Carl Van Vechten in 1934
 
Escritor e dramaturgo inglês, de nome completo William Somerset Maugham, nasceu em 1874, em Paris, na França, filho de pais ingleses, e faleceu em 1965, em Inglaterra.
O pai trabalhava na embaixada inglesa em Paris e até aos dez anos William Somerset Maugham viveu em França, tendo o francês como primeira língua. Aos dez anos ficou órfão e foi enviado para Inglaterra para viver com um tio.

Estudou Medicina em Londres e tornou-se médico aos 23 anos, embora tenha abandonado esta atividade quando começou a fazer sucesso como escritor.
No mesmo ano em que se licenciou, lançou também o seu primeiro romance, Liza of Lambeth, sobre mulheres grávidas. A Man of Honour, em 1903, foi a sua primeira peça de teatro a chegar aos palcos.
Em 1907, obteve o primeiro sucesso como autor de peças de teatro com Lady Frederick e, logo no ano seguinte, quatro das suas peças estiveram em cena simultaneamente na zona do West End, em Londres. Nessa década e na seguinte escreveu mais algumas peças, algumas delas comédias, que se tornaram bastante populares, permitindo ao autor viver da escrita.

Em 1915, editou o romance Of Human Bondage, um dos poucos que ao longo da sua carreira conseguiu convencer os críticos, tal como viria a acontecer, em 1944, com The Razor's Edge (O Fio da Navalha).
Somerset Maugham lançou, em 1919, o romance The Moon and Sixpence, onde conta a história do pintor Paul Gauguin, que fez bastante sucesso junto do público, embora não tivesse convencido a crítica literária da época. O mesmo se passou em 1930 com Cakes and Ale. Entretanto, em 1921, havia lançado o livro de contos Treambling of a Leaf, onde constava Rain, que viria a ser uma das suas histórias mais apreciadas. Aliás, William Somerset Maugham viria a destacar-se também como contista.

Na autobiografia que lançou em 1938, The Summing Up, referiu que a crítica o via sempre como um escritor de segundo plano. Mais tarde, referiu que só pretendia contar histórias de uma forma simples e acessível e lamentou que isso não fosse considerado positivo pelos meios intelectuais.

Somerset Maugham trabalhou também como espião para os serviços secretos britânicos quando, em 1917, disfarçado de jornalista, acompanhou a Revolução Russa. Contudo, devido à sua saúde débil, depressa regressou a Inglaterra. Desta experiência resultou o romance de espionagem Ashenden; Or The British Agent.
(Daqui)

 
 August Macke, Vegetable fields, 1911, Kunstmuseum Bonn  


"A Arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade."
 
 

quarta-feira, 31 de março de 2021

"Crepuscular" - Soneto de Raul de Leoni


Gabriele Münter, Breakfast of the Birds, 1934, óleo sobre madeira, 45,7 x 55,2 cm
National Museum of Women in the Arts, Washington, D.C.
 

Crepuscular

 
Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingénua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...


Raul de Leoni
in Luz Mediterrânea
 
 
 Raul de Leoni

Poeta brasileiro, Raul de Leoni Ramos, nascido a 30 de outubro de 1895, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e falecido a 21 de novembro de 1926, em Itaipava, também no Rio de Janeiro, movimentou-se entre as áreas do neoparnasianismo e, principalmente, do simbolismo.

Em 1916, concluiu o bacharelato em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro. Entretanto, já era colaborador, desde 1914, das revistas Fon-Fon! e Para Todos, e, mais tarde, colaborou no Jornal do Brasil, Jornal do Commercio, O Jornal e O Dia.
 
Raul de Leoni trabalhou também no corpo diplomático brasileiro e, em 1918, esteve destacado em Montevideu, no Uruguai, depois de ter recusado colocação idêntica no Vaticano. Antes, nesse mesmo ano, tinha sido nomeado secretário da Legação do Brasil em Cuba, mas nunca chegou a tomar posse do cargo. Permaneceu apenas três meses em Montevideu e quando regressou foi eleito deputado à Assembleia Fluminense.

Em 1919, lançou o seu primeiro livro de poesia, Ode a Um Poeta Morto, uma homenagem a Olavo Bilac, que foi sucedido, três anos mais tarde, por Luz Mediterrânea.

Raul de Leoni nunca se associou abertamente a nenhuma escola literária, o que levou a que acabasse por ter uma carreira poética algo discreta em vida, apesar do seu talento ser reconhecido. Em finais do século XX, a sua obra, apesar de pequena, era alvo de aprofundados estudos e cativava inúmeros leitores.

O poeta destacou-se ainda como desportista tendo ganho diversas provas de natação e remo em representação do clube Icaraí.

Doente dos pulmões, Raul de Leoni isolou-se em 1923 dos amigos e família, deixou o trabalho de inspetor numa companhia de seguros e foi viver para Itaipava, onde acabou por morrer.
Raul de Leoni faleceu a 21 de novembro de 1926 e apenas cerca de 35 anos mais tarde foi editada uma antologia de poemas seus, intitulada Trechos Escolhidos. (daqui)

Gabriele Münter, Self-Portrait, 1909


Passado

 
Esse olhar ferido,
tão contra a flor que ele encontra
no livro já lido!

(Haicai / Haikai) 


segunda-feira, 29 de março de 2021

"Poética" - Poema de Manuel Bandeira


Emil Nolde, At the Café, 1911 

 

Poética

 
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
 
 
in 'Libertinagem, 1930'
 
'Poética' é um poema de Manuel Bandeira lido na Semana de Arte Moderna de 1922, que expõe os princípios estéticos básicos que impulsionaram a primeira revolta pela liberdade formal da poesia do modernismo brasileiro, juntamente com 'Os Sapos'. (Daqui)



Emil Nolde, Excited People, 1913


Probleminhas terrenos:
Quem vive mais
Morre menos?
 
 (Haicai / Haikai)
 
 

Emil Nolde, Autumn Sea VII, 1910 


Eis o meu mal
A vida para mim
Já não é vital.
 
 (Haicai / Haikai)
 

quarta-feira, 17 de março de 2021

"O Festim" - Poema de Américo Cortez Pinto


Karl Schmidt-Rottluff, Houses at night, 1912


O Festim

 
Uns atrás de outros, impertinentes,
(Que estranho mundo de fantasmas tão diferentes!)
Ei-los que surgem aos encontrões
No perturbado Mundo Interior...
Uns a puxar por mim aos repelões,
Outros suaves e alicientes
Com falsos gestos de amor...

Uns severos, irados,
Desvairados,
Outros grotescos, histriónicos...
E os mais trágicos de todos – quem diria! –
Os fantasmas irónicos
Da Alegria...

Insinuam-se gentis,
Com doces falas, música nos gestos,
Promessas de oiro, subtis,
E o riso
De quem traz dentro das mãos o Paraíso
E é só pedi-lo que é para nós também...

Ah! Como são amigos! Quem não há de
Abrir tranquilo a porta...
Sentá-los à sua mesa!
Beber o vinho ácido às canecas
E entorná-lo perfumado
Com manchas de rubim sobre as toalhas!...
E olhar as nódoas sobre o linho,
A sorrir,
Sem saber distinguir
Se é sangue ou vinho!

Quebrar as taças e julgar que o ruído
Das lágrimas cortantes das estilhas
São risos claros de cristal...

E coroar a fronte no banquete
Com as coroas de rosas que nos dão,
Sem perceber que as rosas caem, ficam espinhos...
E à saída
Acompanhá-los pelas ruas, a cantar,
E deixar-se arrastar
Indefeso e sozinho,
Como se fosse, ao cabo do caminho,
Ali mesmo o Céu aberto...

E agradecer-lhes iludido
Ao vê-los construir para nosso bem
As fantásticas miragens do Deserto...

E ao acordar, ver-se perdido,
No árido isolamento
Do intérmino areal...

A miragem desfeita como um fumo!...
E para o regresso ao lar,
Um céu sem Sol nem Estrela Polar...
Uma bússola doida!...
E um chão de areia, sem rumo!...

E partir, e sofrer,
E ao cabo, enfim,
Chegar
Exausto, ao lar...
E não ver mais que os restos do festim...

O pão alvo, espezinhado...
A golpear-nos as mãos, taças partidas...
As bilhas entornadas no sobrado...
Cinzas no chão! Lume apagado...
As flores emurchecidas...

O doce leite derramado e agre...
E em vez de mel:
– Favos de cera e fel
E o vinho nos cristais trocado por vinagre!

E através das janelas e dos vidros partidos
Da nossa alma,
Sentir numa agonia,
A sacudir-nos, a risada dos fantasmas
Cruel e fria.

Américo Cortez Pinto
(1896-1979)
In “A Alma e o Deserto”
Portugália Editora

Américo Cortez Pinto (1896-1979), fervoroso nacionalista e espírito religioso, formou-se em Medicina, em Coimbra, e exerceu diversos cargos públicos, incluindo o de deputado, durante o Estado Novo. É autor de numerosos trabalhos de caráter médico-social, de investigação histórica, de intervenção cívica e doutrinária, de que se salientam, entre outros, os seguintes títulos: O Ensino da Língua Portuguesa (1936), O Valor da Vontade na História Nacional (1938), Da Famosa Arte da Imprimissão (1948), A Presença da Virgem na Literatura Portuguesa (1953), «Talent de Bien Faire». A Divisa do Infante e a Criação do Estado da Índia (1955), Raízes Históricas, Humanísticas e Científicas da Unidade do Mundo Português (1965), Diónisos, Poeta e Rei (1982). 
 
Como poeta, distinguiu-se, em 1941, ao receber o prémio Antero de Quental, atribuído ao seu livro A Alma e o Deserto, onde, ao contrário de anteriores publicações, se revela vagamente prossecussor  do movimento modernista. Com efeito, desde o neo-romântico Lágrimas e Sorrisos (1912), repudiado pelo autor, até ao Poema da Tentação – Nova Teoria da Humildade (1922), em que a estética neo-romântica surge associada à ascese cristã, raramente Cortez Pinto se liberta da sua herança finissecular.
O último livro referido foi oferecido a Pessoa, com uma dedicatória, em Junho de 1922. Desconhecendo-se qualquer relação de amizade entre os dois, é provável que o conhecimento se devesse ao conhecido comum, o pintor Lino António, autor da capa do livro de Cortez Pinto, e colaborador do nº 1 de Athena, com cinco quadros. (Daqui)
 
 

Karl Schmidt-Rottluff, Self-portrait with cigar, 1919 


Cigarro

Olho a noite pela
vidraça. Um beijo, que passa,
acende uma estrela. 
 
Guilherme de Almeida,
(Haicai / Haikai)


terça-feira, 16 de março de 2021

"Signo" - Poema de Olga Savary



Emil Nolde, Young Couple, 1935


Signo

 
Há tanto tempo que me entendo tua,
exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.

Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada. 


Olga Savary
(1933-2020)
 
 
Emil Nolde, Self-Portrait, 1917
 
 
Emil Nolde (7 de Agosto de 1867 - 15 de Abril de 1956), de seu verdadeiro nome Emil Hansen, foi um dos mais importantes pintores expressionistas alemães.
Os seus quadros, tal como pretendia, chocavam o espectador, devido à vivacidade das cores, que contrastavam abusivamente umas com as outras, à deformação dos rostos das personagens retratadas, à distorção das perspetivas e ao excessivo uso de tinta.
A sua viagem à Nova Guiné, entre 1913 e 1914 fez com todos estes aspetos se avivassem ainda mais nas suas obras.
Sempre influenciado por pintores como Vincent van Gogh, Edvard Munch ou mesmo James Ensor, durante todo o seu percurso artístico pouco mudou de estilo.
Em 1941, os nazis, que imperavam na Alemanha, proibiram Nolde de pintar, pois consideravam que a sua pintura era mundana e imoral, podendo incitar certas revoltas. Anos mais tarde, depois com fim da Segunda Guerra Mundial e com a queda dos nazis, Emil Nolde voltou a pintar, tendo realizado um número incontável de aguarelas e pequenos óleos. (Daqui)

sexta-feira, 12 de março de 2021

"Sim, talvez tenham razão" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


Lucian Freud, The Painter's Room, 1944, óleo sobre tela, 62,2 x 76,2 cm, coleção particular 
 
 
 
Sim, talvez tenham razão


Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada. 

4-6-1922

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)
 
 
Lucian Freud, Man's Head, Self-portrait, 1963

 
Lucian Freud (Berlim, 8 de dezembro de 1922 - Londres, 20 de julho de 2011) foi um pintor nascido na Alemanha e naturalizado britânico em 1939.

O seu pai, Ernst, era o filho mais novo de Sigmund Freud. No ambiente de uma família judaica não praticante, rodeado pelo conforto burguês, Freud viveu uma infância calma livre para dar azo à sua imaginação. Passou a viver em Inglaterra desde 1933, quando a família fugiu à ascensão nazi, e naturalizou-se inglês em 1939. De 1938 a 1943 frequentou a Central School of Art, o Goldsmith's College, Londres e a East Anglian School of Painting and Drawing, Dedham, dirigida por Cedric Morris.

Alistou-se na Marinha Mercante durante a Segunda Guerra Mundial, mas foi ferido em 1942, dedicando-se a partir daí exclusivamente à pintura. Passou um ano a viajar pela França (Paris) e Grécia, mas a maior parte da sua vida e da sua carreira foi passada em Paddington, Londres, área cujas características sombrias se refletem em algumas das suas obras que representam interiores e paisagens urbanas. Durante os anos quarenta o seu interesse principal foi o desenho, especialmente a face, usando, ocasionalmente, um estilo deformado reminiscente de George Grosz.

Terminada a guerra e com os perturbantes anos da adolescência para trás, Freud iniciou uma busca pelo retrato ilusório retratando incessantemente a sua primeira mulher Kitty. Após o divórcio, continuou a mesma procura, pintando repetidamente a sua segunda mulher, Caroline, assim como vários amigos pintores. Os resultados eram sempre desconcertantes sugerindo a crise existencial que conduziu a obra de Freud durante este período. Exemplo disso é a obra intitulada Interior, Paddington (1951), que ganhou um prémio na Inglaterra.
 
Em 1956, chegou à conclusão que os seus retratos solitários necessitavam ser livres, começando, então, a explorar as técnicas expressionistas do chiaroscuro que irá iluminar as suas figuras de novas perspetivas. No entanto, a sua procura da figura livre só será plenamente conseguida na altura em que Freud começou a explorar o retrato do nu feminino, em 1966. O nu feminino permanece a forma mais poderosa e subversiva do seu trabalho e na qual Freud exerceu toda a sua criatividade. Sendo o sujeito, amigo, amante, parente ou um dos seus três filhos, Freud parece celebrar o corpo nu como um todo, coberto de vida e luz apenas descoberto na honestidade da carne feminina.

Em 1977, Freud começou a dedicar-se ao nu masculino. Apesar das figuras vestidas ainda dominarem a maior parte do seu trabalho, Freud desenvolveu grande interesse pela forma masculina realista. A obra Man with Rat (1977) iniciou uma rigorosa investigação dos melhores meios de comunicar a realidade. Em vez de pintar o homem sem idade e congelado, Freud opta por representá-lo parado num dado momento, em quieto repouso. Esta captura do homem realista sugere uma necessidade para o observador de testemunhar a pessoa trabalhadora contemporânea, moderna, no seu próprio espaço, reclinado numa cama, ou num dos muitos sofás de Freud. O melhor amigo do homem, o cão, também aparece muitas vezes representado na mesma posição, acompanhando o sujeito. Não se pode falar sobre a pintura de Freud do nu masculino sem mencionar um dos seus sujeitos preferidos, o artista de performance Leigh Bowery. Os dois conheceram-se numa galeria londrina em 1990 e pouco tempo depois começou a pintá-lo. Bowery posou para Freud dezenas de vezes durante quase quatro anos, altura em que este morreu.

Lucian Freud realizou inúmeras exposições retrospetivas da sua obra em todo o Mundo. Assim como o seu patronímico é citado em quase todos os ensaios sobre crítica cultural, o trabalho de Lucian Freud gera uma grande quantidade de atenção e respeito. É considerado o grande e único pintor realista do século XX.
(Daqui)

Lucian Freud, Interior at Paddington, 1951
 

O Boémio

Cigarro apagado
no canto da boca, enquanto
passa o seu passado. 
 
Guilherme de Almeida
Haicai / Haikai
 
 

sábado, 27 de junho de 2020

"Banhista" - Poema de Carlito Azevedo



Ernst Ludwig Kirchner
(German expressionist painter and printmaker, 1880–1938),
"Bathers", 1910, Städel Museum.


 Banhista


Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)


Carlito Azevedo, in As banhistas
Editora Imago, 1993

sábado, 20 de junho de 2020

"Cantiga de acordar mulher" - Poema de Geir Nuffer Campos



Ernst Ludwig Kirchner (German expressionist painter, 1880–1938),
Two Women, 1911–12/1922. Los Angeles County Museum of Art.



Cantiga de acordar mulher



Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida…
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
 
in 'Cantiga de Acordar Mulher', 1964.



Ernst Ludwig Kirchner, Head of the Painter
 (Self-portrait), 1925.


"A paixão quer que tudo seja eterno, mas a natureza impõe que tudo acabe."

(Denis Diderot)

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

"Magnificat" - Poema de Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa)


Ernst Ludwig Kirchner, "The Drinker (self-portrait)", 1914,
Germanisches Nationalmuseum



Magnificat


Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

7-11-1933

Álvaro de Campos,
Heterónimo de Fernando Pessoa,
Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993) - 298.


domingo, 24 de junho de 2018

"Consolo na praia" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Emil Nolde, Meer Bei Alsen (Sea Off Alsen), 1910


Consolo na praia


Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-se – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.


in A rosa do povo, 1945


Emil Nolde, Sunrise at the sea, 1927


"Nenhuma ilusão é mais corriqueira do que aquela que a nostalgia nos inspira na velhice."


domingo, 26 de novembro de 2017

"Prognóstico" - Poema de Ada Ciocci Curado




Prognóstico 


Poeta, 
creia, 
nem tudo está perdido, 
porque, 
felizmente, 
sobretudo o mais, 
o seu ideal, 
a muitos outros ainda comove, 
demove 
predomina.


In 'Acalanto'


August Macke
(Suor Angelica - 'Senza mamma',  de Giacomo Puccini, na voz de Maria Callas)


"É através dos outros que nos tornamos nós mesmos."


domingo, 12 de novembro de 2017

"Colhe o dia, porque és ele" - Poema de Ricardo Reis


Emil Nolde (German-Danish painter, 1867-1956), Summer Afternoon, 1903



Colhe o dia, porque és ele


Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

 28-8-1933

Odes de Ricardo ReisFernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
 Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 154.


Emil Nolde, Sommerwolken (Summer clouds), 1913, óleo sobre lienzo, 73 x 88 cm, 
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid


"Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul." - Clarice Lispector