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domingo, 11 de novembro de 2018

"Lugares Comuns" - Poema de Ana Luísa Amaral



Valentín Thibon de Libian (Artista plástico argentino, 1889–1931),
'Mademoiselle Papillon', c. 1917


Lugares Comuns


Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também,
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mais adiante)

Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.

Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...

E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu

Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má, e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber

E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
Como quem diz: That’s it 

e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte as mesmas coisas são


Ana Luísa Amaral,
 in 'Coisas de Partir', 2001
 

sábado, 26 de novembro de 2016

"Joga todo o teu ser na breve ideia" - Poema de Vergílio Ferreira



Valentín Thibon de Libian (Artista plástico argentino, 1889–1931), 
'Carbonero del puerto', 1930


Joga todo o teu ser na breve ideia


Joga todo o teu ser na breve ideia
que incerta entre o corrente te procura
para lá do que banal te prende e enleia
e pelo destacá-la emerge pura.

Fazê-lo é dar-lhe já o que perdura.
Porque a banalidade que a medeia
como à pedra vulgar por entre a areia
esquece o que em tomá-la a rareia.

Ser homem é escolher o que o oriente
e ser-lhe o mais a margem que lhe mente.


Vergílio Ferreira
in 'Conta-Corrente I', 1980 
 


Valentín Thibon de Libian, "Mañana lluviosa"


"Uma boa frase é como uma boa anedota: dá brilho a quem a inventa e sobra ainda para quem a repete."

Vergílio Ferreira, 'Conta-Corrente V', 1987 


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"Balada para um Homem na Multidão" - Poema de Natália Correia



Valentín Thibon de Libian (Artista plástico argentino, 1889–1931),
'Agencia de colocaciones', 1920,  Juan B. Castagnino Fine Arts Museum.


Balada para um Homem na Multidão


Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no Japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.


Natália Correia (1923–1993)
in "O Vinho e a Lira", 1969




Valentín Thibon de Libian, 'El bodegon'


"O tempo não deseja ser feliz. Por isso nós o seguimos."

António Osório (n. 1933),
in 'Antologia Poética', Quetzal Editores, p.187

terça-feira, 18 de outubro de 2016

"Confissão" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Valentín Thibon de Libian (Artista plástico argentino, 1889–1931),
'En el café' ('El café de las midinettes'), c. 1919



Confissão


É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.


Carlos Drummond de Andrade (1902–1987),
in 'As Impurezas do Branco', 1973



Valentín Thibon de Libian, 'El ocaso', 1930
 

"Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo." – Carlos Drummond de Andrade