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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"O Outono" - Poema de Olavo Bilac

 

Andrea Johnson (American artist, born 1954), 
'Bluebirds and Persimmons', 2014.


O Outono

IV

Coro das quatro estações:

Há tantos frutos nos ramos, 
De tantas formas e cores! 
Irmãs! Enquanto dançamos, 
Saíram frutos das flores! 

O outono:

Sou a sazão mais rica: 
A árvore frutifica 
Durante esta estação; 
No tempo da colheita, 
A gente satisfeita 
Saúda a Criação.

Concede a Natureza 
O prémio da riqueza 
Ao bom trabalhador, 
E enche, contente e ufana, 
De júbilo a choupana 
De cada lavrador.

Vede como do galho, 
Molhado inda de orvalho, 
Maduro o fruto cai… 
Interrompendo as danças, 
Aproveitai, crianças! 
Os frutos apanhai!

 Coro das quatro estações: 

Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!


Olavo Bilac,
Outono, da série Quatro Estações,
em Poesias Infantis, 1904.



Andrea Johnson
, "Mo on Windowsill", n.d.


"Há uma quietude de outono nas cores."

"Es gibt eine Stille des Herbstes bis in die Farben hinein."


Hugo von Hofmannsthal (Escritor austríaco, 1874
–1929),
'Buch der Freunde' (Livro dos Amigos) - p. 35,
Insel-Verlag, Leipzig, 1922.



sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Onde está o Gato? - Poema de Luísa Ducla Soares



Shawn Braley
(American illustrator, b. 1972), 'Magic carpet ride'
 

Onde está o Gato?


Os burros tocam viola.
Os ratos varrem a rua,
As meninas usam barba,
Eu vivo sempre na lua.

Os carapaus têm lã,
As galinhas têm espinhas,
As vacas coca-cola
E chocolates as vinhas.

Os gatos calçam sapatos,
Olha a trança das serpentes,
As moscas falam francês,
Os galos lavam os dentes.

As casas voam no ar,
As nuvens dormem no chão,
Os olhos fazem chichi
E crescem rosas na mão.

Miúdo que estás a ouvir-me,
Pois tens orelhas de rã,
Diz lá o que está errado
Ou faço queixa à mamã.


Luísa Ducla Soares, in Conto estrelas em ti;
17 poetas escrevem para a infância.



'Conto estrelas em ti' - 17 poetas escrevem para a infância.
Coordenação: José António Gomes; Ilustração: 
João Caetano 
Porto: Campo das Letras, 2000.

 

SINOPSE

Conto estrelas em ti
dezassete vozes,
dezassete modos
de escrever poesia
para crianças e jovens.

Autores: Albano Martins, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, António Mota, António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Francisco Duarte Mangas, João Pedro Mésseder, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Mário Castrim, Papiniano Carlos, Raul Malaquias Marques, Teresa Guedes, Vergílio Alberto Vieira e Violeta Figueiredo.
Coordenação: José António Gomes. 
 
 
 Ilustrações de Shawn Braley

Shawn Braley, 'Watchful'
 
 

Shawn Braley, 'Lean on me'
 
 

Shawn Braley, 'Best Friends'
 
 

Shawn Braley, 'Osmosi'
 
 

Shawn Braley, 'Thinking Outside the Box'


"A inteligência no gato é menosprezada."

"Intelligence in the cat is underrated."

Louis Wain,
in "The Quotable Feline"‎, de Jim Dratfield - Chronicle Books Llc, 1997.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

"Anatomia do gato" - Poema de Francisco Carvalho



Clement Burlison
(English painter, 1815–1899), 'White Cat', n.d.
Oil on canvas, 76.5 x 64 cm, private collection.


Anatomia do gato


À luz do recato
é o novelo de fios de lã de ovelha
com que Penélope teceu a túnica de Ulisses.
Seu fino olfato capta fragmentos
de aromas dos astros e orquídeas da insónia.
Parece uma brisa que veio dos campos de centeio.

O gato e sua pompa de arauto
cabem num sapato.
Os seus olhos de mercúrio enxergam
alfinetes no anonimato  
e a namorada que passeia no muro do sobressalto.
O gato tem sete vidas
sete maneiras de ser arguto.
Quando morre de velho, só lhe basta um minuto.


Francisco Carvalho (1927–2013),
'O Silêncio é uma Figura Geométrica', 2002. 
 
 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

"Os sete gatinhos" - Poema de Pedro Bandeira



Robert Braithwaite Martineau (English Victorian painter, 1826–1869),
'A Girl with a Cat', c. 1860



Os sete gatinhos


Bete tem sete gatinhos.
Um foi tomar leite, ficaram seis.
Bete tem seis gatinhos.
Um fugiu do cão, ficaram cinco.

Bete tem cinco gatinhos.
Um foi pegar o rato, ficaram quatro.
Bete tem quatro gatinhos.
Um foi comer mingau, ficaram três.

Bete tem três gatinhos.
Um foi ao cinema, ficaram dois.
Bete tem dois gatinhos.
Um foi tomar banho, ficou só um.

Bete tem um gatinho,
tem um gatinho só.
Bete vai dar carinho
pra ele o nome Filó.

Filó é fofo e dengoso,
gostoso de se agradar.
Nem adianta pedir,
esse ninguém vai levar!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno",
Editora Moderna

 ♥♥♥

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Como 'tratar' os gatos" - Poema de T. S. Eliot

 


Nancy Spielman
, 'Dog and Cat'


Como “tratar” os gatos


De tudo quanto é gato aqui já leste;
Por isso agora o meu conselho é este:
Não precisas de intérprete, ninguém,
Que diga o caráter que eles têm.
Aprendeste bastante e sabes, pois,
Que eles são parecidos com nós dois
E quantos outros mais que vêm a fio
Cada qual com seu tipo e seu feitio.
Pois alguns são sensatos, outros, loucos;
Muitos são maus, são bons uns poucos;
E assim como há piedosos, há perversos –
Mas todos cabem por igual em versos.
Viste-os tanto a brincar quanto em quizília,
E aprendeste seus nomes de família,
Seus hábitos, seus habitats, seus atos:
Mas
Afinal como se “tratam” Gatos?

Dou-te já na memória um bom puxão,
Dizendo-te que UM GATO NÃO É CÃO.

Os Cães fingem que gostam de baderna,
Mas latem só, ameaçando a perna;
Pois um Cão, visto em sua conjuntura,
É o que pode chamar-se uma alma pura.
Não falo dos Pekins e as raças raras
Que são exemplos de caninas taras.
O Cão comum e citadino, ao passo,
Inclina-se a bancar sempre o palhaço,
E em vez de demonstrar sinais de orgulho,
De sua dignidade sofre o esbulho.
Cai, com facilidade, na esparrela:
Basta levar tapinhas na barbela,
Cafuné no pescoço, erguer de pata,
Que fará zigue-zague e zaragata.
Faz parte dos palermas que não mordem
E acatam qualquer grito, qualquer ordem.

Devo, outra vez, lembrar-te deste facto:
Um cão é um cão, porém UM GATO É UM GATO.

Com os Gatos, dizem, que é regra bastante
Só lhes falares se te falam antes.
Quanto a mim, o princípio desacato
E acredito que sei tratar um gato,
Embora tenha em mente, na verdade,
Que ele ressente a familiaridade.
Em geral, eu me inclino com recato,
E digo: Como passa, SENHOR GATO?
Porém se é um desses gatos, meu vizinho,
Que encontro a três por dois pelo caminho,
É claro então que reformulo o trato
E digo simplesmente: PASSA, GATO!
(Ouvi dizer que o nome dele é Gomes,
Mas não cheguei ainda a dizer nomes.)
Antes que qualquer gato condescenda
Em tratar-te de amigo, uma oferenda
É necessária, qual sinal de aceite.
Algo assim como um bom prato de leite.
Daí então podes partir e, às vezes,
Dar-lhe caviar e bifes hamburgueses,
Ora um naco de carne, ora peixe em jornal,
Que ele sempre tem seu gosto pessoal.
(Conheço um gato que, se está com febre,
Em vez de canja quer passar a lebre,
E quando acaba ainda lambe as dobras
Das unhas para aproveitar as sobras.)
Um gato é alguém que adquiriu direito
De esperar essas mostras de respeito.
E assim, embora um longo tempo tome,
Um dia poderás chamar-lhe um NOME.

É pão pão, queijo queijo (mas no prato):
Assim é que se deve “tratar” Gato.


T. S. Eliot (1888–1965), 'Os gatos'
Tradução de Ivo Barroso



Nancy Spielman, Down Under


"Se eu prefiro os gatos aos cães é porque não existem gatos policiais."

Jean Cocteau 

[Jean Cocteau, escritor francês e personalidade multifacetada da vida cultural francesa, nascido em 1889 e falecido em 1963, abordou sucessivamente o futurismo, o surrealismo e o cubismo. Transpôs para o romance (Thomas l'imposteur, 1923) e para o teatro (Les Parents terribles, 1938) a sua arte poética, tendo ainda ilustrado algumas das suas obras. Enquanto músico, ator e cineasta, realizou La Belle et la Bête (A Bela e o Monstro, 1946), protagonizado pelo notável ator Jean Marais, Orphée (1950) e Le Testament d'Orphée (1960).] (daqui)
 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

"O gato da ilha de Man" - Poema de Charles Bukowski



Jacobus van Looy
(Dutch painter and writer, 1855–1930),
"White Cat in an open window", 1895. Oil on canvas, 126.4 x 75 cm.
Frans Hals Museum
, Haarlem, Netherlands.
 
[This painting by Van Looy of his own cat is remarkably light, lending it a summery feel. The sunlight is reflected off the cat’s chest. Van Looy usually painted in quite dark colors, but here he uses light tones and wide, smooth brushstrokes. Van Looy never completed this piece. For this reason, the layout has remained sketchy and the painting lacks a coat of varnish. This impressionistic technique was common among many contemporaries, such as Isaac Israels and George Hendrik Breitner. Van Looy, however, preferred paintings which were somewhat more complete. The reason why he never completed this painting is unknown.] (daqui)


O gato da ilha de Man

Será que erramos de novo?
rimos menos e menos,
ficamos mais tristemente sãos.
Tudo o que queremos
a ausência dos outros.
Até mesmo a música clássica favorita
foi ouvida demais e
todos os bons livros foram
lidos...

Há uma porta de vidro
deslizante
e lá fora
um gato branco da ilha de Man
está sentado com um olho vesgo
sua língua saindo por um
canto para fora da boca.
Me inclino
e abro a porta
e ele vem correndo para dentro
as pernas da frente correndo
em uma direção,
e as traseiras
em outra.

Ele dá a volta no
quarto com um ângulo doentio
para onde estou sentado
sobe com as garras pelas minhas pernas
meu peito
põe as patas dianteiras
como se fossem braços
sobre meus ombros
enfia seu focinho
no meu nariz
e olha para mim
tão bem quanto pode.
também perplexo,
eu olho para ele.

Uma noite melhor agora,
meu velho,
um momento melhor,
um jeito melhor agora
presos juntos
desse jeito
aqui.

Sou capaz
de sorrir de novo
quando de repente
o gato da ilha de Man
salta longe
dispersando pela
saída acarpetada
caçando alguma coisa que agora
nenhum de nós
consegue ver.


Charles Bukowski
, "The pleasures of the damned";
in "Vida desalmada" - Florianópolis: Spectro, 2006.
Tradução Fabio Soares e Gerciana Espíndola. 


quarta-feira, 29 de julho de 2026

"Gatos noturnos" - Poema de Pablo Neruda

 


Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832
–1918),
'A Silver Tabby on a chair'. Oil on canvas, 54.6 x 43.8 cm.



Gatos noturnos


Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
nos olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.

Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.

A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.

E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.

Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.

Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.


Pablo Neruda (1904–1973),
 in 'O coração amarelo'.
Trad. de Olga Savary


quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Gato" - Poema de Ivan Junqueira

 

Christian Skredsvig
(Norwegian painter and writer, 1854–1924), "Idyll", 1888,
Lillehammer Art Museum.



Gato


Vai e vem. O passo
deixa no soalho,
menos que um traço,
um fio escasso
de ócio e borralho.

Clara é a pupila
onde não chove
e que, tranquila,
no ermo cintila,
mas não se move

A pose é exata
a de uma esfinge
da cauda à pata,
nada o arrebata
ou mesmo o atinge.

Aguça o dente,
as unhas lima:
brinca, pressente
– e, de repente,
o pulo em cima.

A voz é como
sussurro de onda;
infla-lhe o pomo,
túmido gomo
que se arredonda.

Lúdico e astuto,
eis sua sorte:
alheio a tudo,
olha sem susto
o tempo e a morte.


Ivan Junqueira (1934–2014),
in "O Grifo", 1987.


domingo, 12 de julho de 2026

"Gata Angorá" - Poema de J. G. de Araújo Jorge



Arthur Heyer
(German-Hungarian painter, 1872
–1931),
 "Angora Cat on Chair",  n.d.
 
 
Gata Angorá


Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira o seu corpo de pelúcia, – e risca
um estranho bordado ao centro da almofada...

Mal eu chego, ela vem... (nunca a encontrei arisca)
– sempre esse ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo chão deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, e ela vem... lânguida, preguiçosa,
roçar pelos meus pés a pelúcia, de prata,
como a implorar carícias, tímida e medrosa...

E tem tal expressão, e um tal jeito qualquer,
– que às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher! 


J. G. de Araújo Jorge
(1914
–1987),
in "Amo!", 1938.
 
 
Arthur Heyer, "In Joyful Anticipation", n.d.
 
 

Arthur Heyer, "Angora cat and kitten with a beetle", n.d.
 


Arthur Heyer, "Young Angora Cat",
n.d., oil on canvas, 40 × 50 cm.


Elegia

Não é exclusivo do escritor o entendimento e o amor pelos gatos. Recordo, por exemplo, quanto Chopin amava o gato que acorria à sua companhia, mal o pressentia a dedilhar o piano. Adoçando-lhe as horas convulsivas com a companheira George Sand, o gato não era apenas para o compositor o lenitivo mas também uma compensação e alguma vez, quem sabe, o colaborador de algum som que o gato oferecia ao compositor, ao passar ao longo do piano.

Por mim, que até então não conhecera o convívio com qualquer gato, posso dizer que o meu amor e respeito mantidos pelo Jeremias não me inspiraram apenas o livrinho “Memórias do Senhor Jeremias o Gato das Botas Brancas” mas um amor e uma saudade que as lágrimas não extinguem. Dizem-me que os gatos têm uma alma e eu acredito, tão grande e sensível era o meu diálogo com o Jeremias que aspiro a encontrá-lo um dia, junto de quantos mais amei e já partiram, enlutando a minha solidão de desespero e dor. Sonho com ele e acordo com a sensação de que está a meu lado e me abraça, tocando-me o rosto com o focinhito frio e húmido, como que a querer minorar a minha dor e a minha solidão, em vão varridas pelas muitas lágrimas solitárias de saudade que me ficou quando a sua ausência levou o pouco que me restara da longa vida vivida.

Manuela Azevedo (Jornalista e escritora portuguesa, 1911–2017) (daqui)
 
 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

"O testamento do gato" - Poema de Luísa Ducla Soares



Regina Shadhan, 'Cat on laptop computer', n.d.


O testamento do gato 


Ai, se um dia eu morrer
não quero ser enterrado,
hei de ficar ao solinho,
em cima do meu telhado.

Levem-me três carapaus
e um pratito de leite.
Comer sempre bons petiscos
é o meu grande deleite.

Convidem três gatas pretas
com unhas bem afiadas,
Pois mesmo depois de morto
preciso de namoradas.

Ai, se eu um dia morrer
não me façam despedidas,
eu volto sempre de novo
que um gato tem sete vidas.


Luísa Ducla Soares,
in 'A Cavalo no Tempo', 2003




'A cavalo no tempo' de Luísa Ducla Soares;
Ilustração de Abigail Ascenso. Porto Editora -
Edição/reimpressão: 01-2015.


SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 5.° ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

A passo, a trote ou a galope, todos nós viajamos a cavalo no tempo e nessa viagem descobrimos o mundo, desvendamos os outros, revelamo-nos. Abrimos os olhos para os desacertos do mundo: a guerra, a violência, a solidão. Tomamos consciência da evolução da Humanidade através dos tempos. Com nonsense, sensibilidade e sentido crítico, Luísa Ducla Soares faz-nos pensar e cavalgar no ritmo dos seus poemas.
A coleção Educação Literária reúne obras de leitura obrigatória e recomendada no Ensino Básico e Ensino Secundário e referenciadas no Plano Nacional de Leitura. (daqui)
 

  
Regina Shadhan, 'Three black cats playing with a mouse', n.d.
Acrylic on canvas, 20X20cm.
 

domingo, 28 de junho de 2026

"Retrato" - Poema de Millôr Fernandes



Edward Thomson Davis
(British painter, 1833–1867),
'Sunday Afternoon', 1853.


Retrato


Comendo em cantos
Desconfiado
Quente e lustroso
Curvo e sedoso
Esgar de boca
Rasgado grito
Quando assustado
Bigode hirto
Andar felino
E feminino
Olhar que acende
A luz que apaga
A ronroneira
Quando ressona
O encolhimento
Antes do salto
Filosofia
Do dia a dia
Falso abandono
Ante seu dono
Um ódio eterno
A seu inimigo
Expressão mística
De um Egito antigo
Olhos de outrora
Se entramos tarde
Da madrugada
Se é dia claro
Ou é luz morna
Quando entardece
Tem infantil
Uma pata esquerda
Que rola a bola
Que rola o rolo
Que furta o bolo.
Esse o retrato
De um bicho esquivo
Chamado gato.

27-07-1962

Millôr Fernandes (1923–2012),
in 'Essa cara não me é estranha e outros poemas'.
1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

"Theo" - Poema de Manuel António Pina

 


Bruno Liljefors (Swedish artist, 1860–1939), "Rapp and Johan", 1886.
Private collection
 

Theo


Às vezes o gato fitava
com estranheza
o que de nós (um excesso)
se interpunha entre nós e o gato,
a nossa presença.


Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos",
Assírio & Alvim, 1994.




André Letria (Ilustrador português, n. 1973), 
"Incentivo à Leitura"


Aos Esses

Um dia, o Manuel António Pina disse-me: Se tivermos um gato deitado no tapete não temos uma história; mas se tivermos um gato deitado no tapete do cão, sim, temos uma história. O que varia é a tensão, e os livros dão-se bem com ela, é precisamente isso que lhes insufla vida. Os gatos brincam com as suas presas, vêm aos esses quando os chamamos, enfim, rodeiam as coisas antes de as sentenciarem, não correm para o destino, fazem durar a viagem, como num jogo. Isso é o miolo de qualquer história. Se temos uma personagem que tem um desejo e simplesmente o concretiza, não temos nada. Para contarmos uma história, temos de dar as voltas necessárias até chegarmos ao destino, não podemos chegar lá diretamente, sem tensão, dificuldades, gozo, embelezamentos, obstáculos. Temos de escrever como os gatos caminham quando os chamamos.

Não sei se os gatos gostam de escritores, mas são duas espécies claramente aparentadas: por trabalharem sós, pela contemplação e observação. Quando um escritor levanta a cabeça do teclado para meditar sobre uma personagem, quando para para tentar encontrar a palavra justa, quando olha pela janela para tentar desfazer um nó do enredo, tem um comportamento felino. Um gato poderá encontrar, nesse tipo de gestos, uma espécie de identificação. Sim, dirá o gato, também olho para o infinito, semicerro os olhos, paro, demoro-me numa quietude melancólica. É até estranho, dirá o gato, que este homem sentado na secretária não ronrone. 

Afonso Cruz (Artista multidisciplinar português, n. 1971) (daqui)
   

terça-feira, 9 de junho de 2026

"Poesia entediada entre o cão e o gato" - Poema de Millôr Fernandes


 
Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859–1923), 'Who Goes There?', n.d.
 

 Poesia entediada entre o cão e o gato 


O cão é o melhor amigo
Do homem.
Já o gato
É apenas
O pior inimigo do rato.
O cão ladra
(Ou não ladra).
Mas o gato
Esse jamais se enquadra;
Ronrona, ressona, mia,
Vadia,
Mas, no geral,
Apenas desconfia.
Parece cão por uns momentos
Mas em geral
Nada exprime de seus sentimentos.
Prefira o cão
– É mais irmão. Prefiro o gato
– É mais barato.

9/11/1955 
 
Millôr Fernandes (1923–2012), 
in "Essa cara não me é estranha e outros poemas".
 1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"O gato doente" - Poema de Stanisław Jachowicz


 
Marcel Marlier (Artista e ilustrador belga, 1930–2011), "Anita está doente"

["Anita está doente", conhecido no original belga como "Martine est malade", é o 26.° volume da famosa coleção de livros infantis criada pelo escritor Gilbert Delahaye e pelo ilustrador belga Marcel Marlier. Publicado originalmente em 1976, o livro conta a história de como a protagonista apanhou uma bronquite após brincar na neve sem se agasalhar devidamente.]   
                     

 O gato doente


O gato caiu doente e estava na cama,
Veio o doutor e fala: “Como é que se sente?”
O gato só a pata estende – “Muito doente...”
Tomou o pulso do seu paciente,
E canta-lhe coisas estranhas: – “Comeu o gato demais,
e não foram ratazanas, mas fiambre e banhas,
Muito mal...febre! Este é o efeito!
Ó, por muito tempo guardará o leito,
E nada vai comer, a papa e basta:
Guarda, ó Deus, linguiça, toucinho, nada dessa casta!”
– “E um ratinho, não pode? – pergunta o gato –
Ou algumas coxinhas de um pássaro?”
– “Guarda, ó Deus! Sanguessuga e fazemos regime!
O sucesso na cura depende desse descrime”.

E estava na cama, o pobre gato,
Sem comer nada, de longe cheirava um rato.
Foi todo ganância! Comeu em exagero;
Por isso teve um castigo severo.
Isso vos pode tocar, petizes meus,
De ganância, guarda, ó Deus!


Stanisław Jachowicz

(Educador polaco, poeta e autor de livros infantis, 1796–1857)
Tradução de Małgorzata Naumczuk
 
♥♥♥ 


Ilustrações de Marcel Marlier
 
Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye,
 "Anita e os gatinhos" ("Martine et le chaton vagabond"), 1994, nº 44.
 
Martine, anteriormente, em Portugal, Anita, de 1966 a 2015, é a personagem dos livros infantis criada por Gilbert Delahaye (escritor) e Marcel Marlier (ilustrador) em 1954. 
Em Portugal, começaram a circular em 1966, pela mão da Editorial Verbo. 
Em 2015, e já publicadas pela editora Zero a Oito, a Anita passou a usar o seu nome original: Martine.
Depois da sua criação, a série conheceu uma tiragem total de cerca de 85 milhões de exemplares num grande número de países.
 (daqui)


 
Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye,
"Anita escreve aos amigos" ("Martine est malade")


Marcel Marlier, ilustrador e pintor belga, mundialmente famoso por criar e ilustrar a icónica série de livros infantis "Martine" (conhecida em Portugal como "Anita"), em parceria com o escritor Gilbert Delahaye, nasceu a 18 de Novembro de 1930, em Herseaux, na Bélgica, perto da fronteira francesa e morreu a 18 janeiro de 2011 em Tournai.
Aos dezasseis anos, Marcel Marlier inscreve-se no Curso de Artes Decorativas na Escola de Saint-Luc de Tournai. Em Julho de 1951, termina os seus estudos com distinção. Voltará a Saint-Luc como professor a partir de 1953.
Ainda estudante é premiado pelo seu talento ao vencer um concurso de desenho organizado pelas edições La Procure de Namur, iniciando aí uma colaboração, que durará mais de 25 anos. Para esta editora, ilustra, entre outras coleções, os dois manuais escolares que mais marcaram uma geração de estudantes franceses: “Je lis avec Michel et Nicole” e “Je calcule avec Michel et Nicole”.
Desde cedo foi influenciado pelas artes – o seu pai era carpinteiro, e o avô um popular contador de histórias do bairro.
O primeiro livro que ficou encarregue de ilustrar foi o manual escolar Le livre unique de français da coleção Stella. 
Em 1951 integra a equipa da Casterman e ilustra algumas das obras dos grandes clássicos da literatura mundial: Alexandre Dumas, Pearl Buck, Condessa de Ségur ou Madame le Prince de Beaumont. 
Ilustra também a coleção infantil Farandole.
Em 1954 inicia a sua colaboração com Gilbert Delahaye criando o universo da Anita. Nada fazia antever que, passado mais de meio século, iria continuar a ilustrar essa coleção. A ideia partiu do diretor da Casterman que, ao ver o talento de Gilbert Delahaye para a literatura infantojuvenil, pediu-lhe que escrevesse a história de uma jovem menina.
Logo após Gilbert ter afirmado que aceitava iniciar o projeto, a Casterman contactou Marcel Marlier, que vivia na mesma cidade onde a editora é sediada (Tournai), para ser o ilustrador da história. Marcel aceitou e, assim que recebeu o texto do primeiro livro, elaborou as ilustrações dando, então, um rosto à menina no primeiro da série que foi publicado em 1954 – "Anita na Quinta", no original "Martine à la Ferme". 
(daqui)
 
 

Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye,
"Anita muda de casa" ("Martine va déménager"), 1992
 
Gilbert Delahaye, escritor e poeta francês, nasceu a 19 de março de 1923, em Franqueville-Saint-Pierre e morreu a 6 de dezembro de 1997. 
Tornou-se conhecido por ser o criador de Anita, personagem de livros infantis que é um sucesso mundial. 
Gilbert Delahaye estudou em Tournai e, em 1944, foi trabalhar como tipógrafo para a editora Casterman, conhecida essencialmente pelas suas publicações de banda desenhada. 
A Casterman encarregou Delahaye de criar uma personagem jovem feminina que pudesse protagonizar uma série de livros ilustrados.
Assim surgiu, em 1953, Anita (Martine no original), com história de Delahaye e ilustrações de Marcel Marlier.
Os dois primeiros álbuns saíram em 1954 e tinham por título Martine à la Ferme (Anita na Quinta) e Martine en Voyage (Anita em Viagem). 
A partir daí e até à morte de Delahaye, esta dupla de autores lançou um álbum por ano da série Anita. 
Delahaye também se dedicou à poesia e em 1985 ganhou o prémio literário francês Prévert. 

A partir de 1997, quem passou a escrever as histórias de Anita foi Jean-Louis Marlier, filho do ilustrador Marcel Marlier que sentiu ser importante dar continuidade às aventuras
. (daqui)
  
 

Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye, 
"Anita muda de casa" ("Martine va déménager"), 1992


"Não há mais intrépido explorador do que um gatinho."


Champfleury
(Pseudónimo de Jules François Felix Fleury-Husson, crítico e romancista francês, 1821
–1889) 
 
 

Ilustração de Marcel Marlier
 

domingo, 31 de maio de 2026

"Os Gatos da Tinturaria" - Poema de Cecília Meireles


 

Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 1872–1931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.


Os Gatos da Tinturaria


Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.


Cecília Meireles
 (1901–1964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.



Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.


Por que gostam os escritores de gatos? 

 
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos. 
Ou por que gostam os gatos dos escritores? 
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.


Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui) 
 

terça-feira, 26 de maio de 2026

"Gato" - Poema de Antonio Fernando de Franceschi


 
Tsuguharu Foujita
(Japanese-French painter, 1886–1968),
'Chat roux assis' (Sitting ginger cat), oil on canvas, 1930.
 

 Gato


rasante zoom à risca:
decifro um gato
sob as unhas do menino
prévio ao meu temor:
movo-me entre as raias
com cuidado
evito o negro
onde me perco:
não toco o tigrado dorso
nem o riso convexo
olho:
desdobro um tanto a memória
que rumina: mão infante
o pintou zebrino
em véspera de pulo:
angulo o quadro dos bigodes
que sobram sobre as tetas
pois é fêmea
e trívio
como qualquer gato
mas esse exato
moveu geleiras


Antonio Fernando de Franceschi

(Poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro, 1942–2021)



Tsugouharu Foujita, 'Autoportrait dans l'atelier', s.d.
 
Léonard Tsuguharu Foujita (Tóquio, 27 de novembro de 1886 — Zurique, 29 de janeiro de 1968) foi um pintor modernista japonês que se naturalizou francês e converteu-se ao catolicismo. Nascido em Tóquio, ficou conhecido por aplicar técnicas japonesas em pinturas de estilo ocidental. Ele foi considerado "o mais importante artista japonês atuando no Ocidente durante o século 20".
Seu 'Livro dos Gatos' ('A Book of Cats'), publicado em Nova York por Covici Friede, 1930, com 20 desenhos gravados em chapa de Foujita, é um dos 500 livros raros mais vendidos no mercado e é classificado por negociantes de livros raros como "o livro sobre gatos mais popular e desejável já publicado."
 (daqui)
 

Musée des Beaux-Arts de Lyon.