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quarta-feira, 29 de julho de 2026

"Gatos noturnos" - Poema de Pablo Neruda

 


Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832
1918),
'A Silver Tabby on a chair'. Oil on canvas, 54.6 x 43.8 cm.



Gatos noturnos


Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
nos olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.

Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.

A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.

E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.

Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.

Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.


Pablo Neruda (1904–1973),
 in 'O coração amarelo'.
Trad. de Olga Savary


quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Gato" - Poema de Ivan Junqueira

 

Christian Skredsvig
(Norwegian painter and writer, 1854–1924), "Idyll", 1888,
Lillehammer Art Museum.



Gato


Vai e vem. O passo
deixa no soalho,
menos que um traço,
um fio escasso
de ócio e borralho.

Clara é a pupila
onde não chove
e que, tranquila,
no ermo cintila,
mas não se move

A pose é exata
a de uma esfinge
da cauda à pata,
nada o arrebata
ou mesmo o atinge.

Aguça o dente,
as unhas lima:
brinca, pressente
– e, de repente,
o pulo em cima.

A voz é como
sussurro de onda;
infla-lhe o pomo,
túmido gomo
que se arredonda.

Lúdico e astuto,
eis sua sorte:
alheio a tudo,
olha sem susto
o tempo e a morte.


Ivan Junqueira (1934–2014),
in "O Grifo", 1987.


domingo, 12 de julho de 2026

"Gata Angorá" - Poema de J. G. de Araújo Jorge



Arthur Heyer
(German-Hungarian painter, 1872
1931),
 "Angora Cat on Chair",  n.d.
 
 
Gata Angorá


Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira o seu corpo de pelúcia, – e risca
um estranho bordado ao centro da almofada...

Mal eu chego, ela vem... (nunca a encontrei arisca)
– sempre esse ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo chão deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, e ela vem... lânguida, preguiçosa,
roçar pelos meus pés a pelúcia, de prata,
como a implorar carícias, tímida e medrosa...

E tem tal expressão, e um tal jeito qualquer,
– que às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher! 


J. G. de Araújo Jorge
(1914
1987),
in "Amo!", 1938.
 
 
Arthur Heyer, "In Joyful Anticipation", n.d.
 
 

Arthur Heyer, "Angora cat and kitten with a beetle", n.d.
 


Arthur Heyer"Young Angora Cat",
n.d., oil on canvas, 40 × 50 cm.


Elegia

Não é exclusivo do escritor o entendimento e o amor pelos gatos. Recordo, por exemplo, quanto Chopin amava o gato que acorria à sua companhia, mal o pressentia a dedilhar o piano. Adoçando-lhe as horas convulsivas com a companheira George Sand, o gato não era apenas para o compositor o lenitivo mas também uma compensação e alguma vez, quem sabe, o colaborador de algum som que o gato oferecia ao compositor, ao passar ao longo do piano.

Por mim, que até então não conhecera o convívio com qualquer gato, posso dizer que o meu amor e respeito mantidos pelo Jeremias não me inspiraram apenas o livrinho “Memórias do Senhor Jeremias o Gato das Botas Brancas” mas um amor e uma saudade que as lágrimas não extinguem. Dizem-me que os gatos têm uma alma e eu acredito, tão grande e sensível era o meu diálogo com o Jeremias que aspiro a encontrá-lo um dia, junto de quantos mais amei e já partiram, enlutando a minha solidão de desespero e dor. Sonho com ele e acordo com a sensação de que está a meu lado e me abraça, tocando-me o rosto com o focinhito frio e húmido, como que a querer minorar a minha dor e a minha solidão, em vão varridas pelas muitas lágrimas solitárias de saudade que me ficou quando a sua ausência levou o pouco que me restara da longa vida vivida.

Manuela Azevedo (Jornalista e escritora portuguesa, 1911–2017) (daqui)
 
 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

"O testamento do gato" - Poema de Luísa Ducla Soares



Regina Shadhan, 'Cat on laptop computer', n.d.


O testamento do gato 


Ai, se um dia eu morrer
não quero ser enterrado,
hei de ficar ao solinho,
em cima do meu telhado.

Levem-me três carapaus
e um pratito de leite.
Comer sempre bons petiscos
é o meu grande deleite.

Convidem três gatas pretas
com unhas bem afiadas,
Pois mesmo depois de morto
preciso de namoradas.

Ai, se eu um dia morrer
não me façam despedidas,
eu volto sempre de novo
que um gato tem sete vidas.


Luísa Ducla Soares,
in 'A Cavalo no Tempo', 2003




'A cavalo no tempo' de Luísa Ducla Soares;
Ilustração de Abigail Ascenso. Porto Editora -
Edição/reimpressão: 01-2015.


SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 5.° ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

A passo, a trote ou a galope, todos nós viajamos a cavalo no tempo e nessa viagem descobrimos o mundo, desvendamos os outros, revelamo-nos. Abrimos os olhos para os desacertos do mundo: a guerra, a violência, a solidão. Tomamos consciência da evolução da Humanidade através dos tempos. Com nonsense, sensibilidade e sentido crítico, Luísa Ducla Soares faz-nos pensar e cavalgar no ritmo dos seus poemas.
A coleção Educação Literária reúne obras de leitura obrigatória e recomendada no Ensino Básico e Ensino Secundário e referenciadas no Plano Nacional de Leitura. (daqui)
 

  
Regina Shadhan, 'Three black cats playing with a mouse', n.d.
Acrylic on canvas, 20X20cm.
 

domingo, 28 de junho de 2026

"Retrato" - Poema de Millôr Fernandes



Edward Thomson Davis
(British painter, 1833–1867),
'Sunday Afternoon', 1853.


Retrato


Comendo em cantos
Desconfiado
Quente e lustroso
Curvo e sedoso
Esgar de boca
Rasgado grito
Quando assustado
Bigode hirto
Andar felino
E feminino
Olhar que acende
A luz que apaga
A ronroneira
Quando ressona
O encolhimento
Antes do salto
Filosofia
Do dia a dia
Falso abandono
Ante seu dono
Um ódio eterno
A seu inimigo
Expressão mística
De um Egito antigo
Olhos de outrora
Se entramos tarde
Da madrugada
Se é dia claro
Ou é luz morna
Quando entardece
Tem infantil
Uma pata esquerda
Que rola a bola
Que rola o rolo
Que furta o bolo.
Esse o retrato
De um bicho esquivo
Chamado gato.

27-07-1962

Millôr Fernandes (1923–2012),
in 'Essa cara não me é estranha e outros poemas'.
1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

"Theo" - Poema de Manuel António Pina

 


Bruno Liljefors (Swedish artist, 1860–1939), "Rapp and Johan", 1886.
Private collection
 

Theo


Às vezes o gato fitava
com estranheza
o que de nós (um excesso)
se interpunha entre nós e o gato,
a nossa presença.


Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos",
Assírio & Alvim, 1994.




André Letria (Ilustrador português, n. 1973), 
"Incentivo à Leitura"


Aos Esses

Um dia, o Manuel António Pina disse-me: Se tivermos um gato deitado no tapete não temos uma história; mas se tivermos um gato deitado no tapete do cão, sim, temos uma história. O que varia é a tensão, e os livros dão-se bem com ela, é precisamente isso que lhes insufla vida. Os gatos brincam com as suas presas, vêm aos esses quando os chamamos, enfim, rodeiam as coisas antes de as sentenciarem, não correm para o destino, fazem durar a viagem, como num jogo. Isso é o miolo de qualquer história. Se temos uma personagem que tem um desejo e simplesmente o concretiza, não temos nada. Para contarmos uma história, temos de dar as voltas necessárias até chegarmos ao destino, não podemos chegar lá diretamente, sem tensão, dificuldades, gozo, embelezamentos, obstáculos. Temos de escrever como os gatos caminham quando os chamamos.

Não sei se os gatos gostam de escritores, mas são duas espécies claramente aparentadas: por trabalharem sós, pela contemplação e observação. Quando um escritor levanta a cabeça do teclado para meditar sobre uma personagem, quando para para tentar encontrar a palavra justa, quando olha pela janela para tentar desfazer um nó do enredo, tem um comportamento felino. Um gato poderá encontrar, nesse tipo de gestos, uma espécie de identificação. Sim, dirá o gato, também olho para o infinito, semicerro os olhos, paro, demoro-me numa quietude melancólica. É até estranho, dirá o gato, que este homem sentado na secretária não ronrone. 

Afonso Cruz (Artista multidisciplinar português, n. 1971) (daqui)
   

terça-feira, 9 de junho de 2026

"Poesia entediada entre o cão e o gato" - Poema de Millôr Fernandes


 
Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859–1923), 'Who Goes There?', n.d.
 

 Poesia entediada entre o cão e o gato 


O cão é o melhor amigo
Do homem.
Já o gato
É apenas
O pior inimigo do rato.
O cão ladra
(Ou não ladra).
Mas o gato
Esse jamais se enquadra;
Ronrona, ressona, mia,
Vadia,
Mas, no geral,
Apenas desconfia.
Parece cão por uns momentos
Mas em geral
Nada exprime de seus sentimentos.
Prefira o cão
– É mais irmão. Prefiro o gato
– É mais barato.

9/11/1955 
 
Millôr Fernandes (19232012)
in "Essa cara não me é estranha e outros poemas".
 1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"O gato doente" - Poema de Stanisław Jachowicz


 
Marcel Marlier (Artista e ilustrador belga, 1930–2011), "Anita está doente"

["Anita está doente", conhecido no original belga como "Martine est malade", é o 26.° volume da famosa coleção de livros infantis criada pelo escritor Gilbert Delahaye e pelo ilustrador belga Marcel Marlier. Publicado originalmente em 1976, o livro conta a história de como a protagonista apanhou uma bronquite após brincar na neve sem se agasalhar devidamente.]   
                     

 O gato doente


O gato caiu doente e estava na cama,
Veio o doutor e fala: “Como é que se sente?”
O gato só a pata estende – “Muito doente...”
Tomou o pulso do seu paciente,
E canta-lhe coisas estranhas: – “Comeu o gato demais,
e não foram ratazanas, mas fiambre e banhas,
Muito mal...febre! Este é o efeito!
Ó, por muito tempo guardará o leito,
E nada vai comer, a papa e basta:
Guarda, ó Deus, linguiça, toucinho, nada dessa casta!”
– “E um ratinho, não pode? – pergunta o gato –
Ou algumas coxinhas de um pássaro?”
– “Guarda, ó Deus! Sanguessuga e fazemos regime!
O sucesso na cura depende desse descrime”.

E estava na cama, o pobre gato,
Sem comer nada, de longe cheirava um rato.
Foi todo ganância! Comeu em exagero;
Por isso teve um castigo severo.
Isso vos pode tocar, petizes meus,
De ganância, guarda, ó Deus!


Stanisław Jachowicz

(Educador polaco, poeta e autor de livros infantis, 1796–1857)
Tradução de Małgorzata Naumczuk
 
♥♥♥ 


Ilustrações de Marcel Marlier
 
Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye,
 "Anita e os gatinhos" ("Martine et le chaton vagabond"), 1994, nº 44.
 
Martine, anteriormente, em Portugal, Anita, de 1966 a 2015, é a personagem dos livros infantis criada por Gilbert Delahaye (escritor) e Marcel Marlier (ilustrador) em 1954. 
Em Portugal, começaram a circular em 1966, pela mão da Editorial Verbo. 
Em 2015, e já publicadas pela editora Zero a Oito, a Anita passou a usar o seu nome original: Martine.
Depois da sua criação, a série conheceu uma tiragem total de cerca de 85 milhões de exemplares num grande número de países.
 (daqui)


 
Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye,
"Anita escreve aos amigos" ("Martine est malade")


Marcel Marlier, ilustrador e pintor belga, mundialmente famoso por criar e ilustrar a icónica série de livros infantis "Martine" (conhecida em Portugal como "Anita"), em parceria com o escritor Gilbert Delahaye, nasceu a 18 de Novembro de 1930, em Herseaux, na Bélgica, perto da fronteira francesa e morreu a 18 janeiro de 2011 em Tournai.
Aos dezasseis anos, Marcel Marlier inscreve-se no Curso de Artes Decorativas na Escola de Saint-Luc de Tournai. Em Julho de 1951, termina os seus estudos com distinção. Voltará a Saint-Luc como professor a partir de 1953.
Ainda estudante é premiado pelo seu talento ao vencer um concurso de desenho organizado pelas edições La Procure de Namur, iniciando aí uma colaboração, que durará mais de 25 anos. Para esta editora, ilustra, entre outras coleções, os dois manuais escolares que mais marcaram uma geração de estudantes franceses: “Je lis avec Michel et Nicole” e “Je calcule avec Michel et Nicole”.
Desde cedo foi influenciado pelas artes – o seu pai era carpinteiro, e o avô um popular contador de histórias do bairro.
O primeiro livro que ficou encarregue de ilustrar foi o manual escolar Le livre unique de français da coleção Stella. 
Em 1951 integra a equipa da Casterman e ilustra algumas das obras dos grandes clássicos da literatura mundial: Alexandre Dumas, Pearl Buck, Condessa de Ségur ou Madame le Prince de Beaumont. 
Ilustra também a coleção infantil Farandole.
Em 1954 inicia a sua colaboração com Gilbert Delahaye criando o universo da Anita. Nada fazia antever que, passado mais de meio século, iria continuar a ilustrar essa coleção. A ideia partiu do diretor da Casterman que, ao ver o talento de Gilbert Delahaye para a literatura infantojuvenil, pediu-lhe que escrevesse a história de uma jovem menina.
Logo após Gilbert ter afirmado que aceitava iniciar o projeto, a Casterman contactou Marcel Marlier, que vivia na mesma cidade onde a editora é sediada (Tournai), para ser o ilustrador da história. Marcel aceitou e, assim que recebeu o texto do primeiro livro, elaborou as ilustrações dando, então, um rosto à menina no primeiro da série que foi publicado em 1954 – "Anita na Quinta", no original "Martine à la Ferme"
(daqui)
 
 

Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye,
"Anita muda de casa" ("Martine va déménager"), 1992
 
Gilbert Delahaye, escritor e poeta francês, nasceu a 19 de março de 1923, em Franqueville-Saint-Pierre e morreu a 6 de dezembro de 1997. 
Tornou-se conhecido por ser o criador de Anita, personagem de livros infantis que é um sucesso mundial. 
Gilbert Delahaye estudou em Tournai e, em 1944, foi trabalhar como tipógrafo para a editora Casterman, conhecida essencialmente pelas suas publicações de banda desenhada. 
A Casterman encarregou Delahaye de criar uma personagem jovem feminina que pudesse protagonizar uma série de livros ilustrados.
Assim surgiu, em 1953, Anita (Martine no original), com história de Delahaye e ilustrações de Marcel Marlier.
Os dois primeiros álbuns saíram em 1954 e tinham por título Martine à la Ferme (Anita na Quinta) e Martine en Voyage (Anita em Viagem). 
A partir daí e até à morte de Delahaye, esta dupla de autores lançou um álbum por ano da série Anita. 
Delahaye também se dedicou à poesia e em 1985 ganhou o prémio literário francês Prévert. 

A partir de 1997, quem passou a escrever as histórias de Anita foi Jean-Louis Marlier, filho do ilustrador Marcel Marlier que sentiu ser importante dar continuidade às aventuras
. (daqui)
  
 

Ilustração de Marcel Marlier e escrita de Gilbert Delahaye, 
"Anita muda de casa" ("Martine va déménager"), 1992


"Não há mais intrépido explorador do que um gatinho."


Champfleury
(Pseudónimo de Jules François Felix Fleury-Husson, crítico e romancista francês, 1821
1889) 
 
 

Ilustração de Marcel Marlier
 

domingo, 31 de maio de 2026

"Os Gatos da Tinturaria" - Poema de Cecília Meireles


 

Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 18721931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.


Os Gatos da Tinturaria


Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.


Cecília Meireles
 (19011964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.



Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.


Por que gostam os escritores de gatos? 

 
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos. 
Ou por que gostam os gatos dos escritores? 
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.


Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui) 
 

terça-feira, 26 de maio de 2026

"Gato" - Poema de Antonio Fernando de Franceschi


 
Tsuguharu Foujita
(Japanese-French painter, 1886–1968),
'Chat roux assis' (Sitting ginger cat), oil on canvas, 1930.
 

 Gato


rasante zoom à risca:
decifro um gato
sob as unhas do menino
prévio ao meu temor:
movo-me entre as raias
com cuidado
evito o negro
onde me perco:
não toco o tigrado dorso
nem o riso convexo
olho:
desdobro um tanto a memória
que rumina: mão infante
o pintou zebrino
em véspera de pulo:
angulo o quadro dos bigodes
que sobram sobre as tetas
pois é fêmea
e trívio
como qualquer gato
mas esse exato
moveu geleiras


Antonio Fernando de Franceschi

(Poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro, 1942–2021)



Tsugouharu Foujita, 'Autoportrait dans l'atelier', s.d.
 
Léonard Tsuguharu Foujita (Tóquio, 27 de novembro de 1886 — Zurique, 29 de janeiro de 1968) foi um pintor modernista japonês que se naturalizou francês e converteu-se ao catolicismo. Nascido em Tóquio, ficou conhecido por aplicar técnicas japonesas em pinturas de estilo ocidental. Ele foi considerado "o mais importante artista japonês atuando no Ocidente durante o século 20".
Seu 'Livro dos Gatos' ('A Book of Cats'), publicado em Nova York por Covici Friede, 1930, com 20 desenhos gravados em chapa de Foujita, é um dos 500 livros raros mais vendidos no mercado e é classificado por negociantes de livros raros como "o livro sobre gatos mais popular e desejável já publicado."
 (daqui)
 

Musée des Beaux-Arts de Lyon.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Gato ao Crepúsculo" - Poema de Millôr Fernandes



Gertrude Abercrombie (American painter, 1909–1977), 'The Stroll', 1978,
Smithsonian American Art Museum.
 

Gato ao Crepúsculo
 
Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão


Gato manso, branco,
Vadia pela casa,
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado,
Feroz se o irritam,
Suficiente na caça à alimentação. 

Gato preto, pressago,
Surgindo inesperado
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite,
Enquanto no céu os aviões
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde,
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos
Enquanto, junto ao muro do quintal,
Os gatos todos vão ficando pardos.

14/6/1959

Millôr Fernandes
 (1923
2012)
in "Essa cara não me é estranha e outros poemas".
 1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

sábado, 16 de maio de 2026

"O pequeno persa" - Poema de Eugénio de Andrade

 


Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859–1923), 'The Little Writer', 1913.
 
 
  O pequeno persa


É um pequeno persa 
azul o gato deste poema. 
Como qualquer outro, o meu 
amor por esta alminha é materno: 
uma carícia minha lambe-lhe o pelo, 
outra põe-lhe o sol entre as patas 
ou uma flor à janela. 
Com garras e dentes e obstinação 
transforma em festa a minha vida. 
Quer-se dizer, o que me resta dela. 


Eugénio de Andrade (1923–2005),
in "O Outro Nome da Terra",
Porto: Limiar, 1988.


 Pinturas de Charles van den Eycken
(Gatos)

Charles van den Eycken, Four playful kittens, 1907.

 
 
Charles van den Eycken, A Cat with her Kittens, 1896.
 
 
 
Charles van den Eycken, Playtime, 1910.

 
 
Charles van den Eycken, A happy family, n.d.

 
 
Charles van den Eycken, Black and White Kitten, n.d.
 


Charles van den Eycken, Budding artists, 1907. 
 

 
Charles van den Eycken, Kittens at Play, n.d. 
 
 
 
Charles van den Eycken, The busybody, 1911.


Por que gostam os escritores de gatos?

Entre os escritores e os gatos há uma envolvente conivência mítica, uma enigmática ligação íntima, feitas de perdimentos e silêncios, fiapos de escuridade e de inexplicáveis solidões matizadas por súbitos luzimentos, numa entrançada trama de melancolias, que os escritores imaginam e recriam naquilo que escrevem.
E à sua beira os gatos fugazmente detetam. 
 
Por que gostam os gatos dos escritores?

Mas os gatos amam os escritores, sobretudo porque neles pressentem uma avidez equívoca e silenciosa que os convoca e fascina. Num logro de distanciamento iludidor que os desafia e ao mesmo tempo os deixa livres para tomarem gosto à própria independência, ora revolvida ora amodorrada.
No entanto, o que os gatos preferem nos escritores, é o cheiro liso, seco e tumultuado dos livros, com o seu travo acre e áspero a papel e às palavras inventadas, às rimas e aos versos, numa espécie de turvidade, onde os gatos gostam de se deixar adormecer, num jogo antigo e frágil.

Maria Teresa Horta (Escritora, jornalista, ativista e poetisa portuguesa, 1937–2025) (daqui)
 

terça-feira, 12 de maio de 2026

"O Gato e o Dicionário" - Poema de Cassiano Ricardo

 

 
Henri Rousseau
(French post-Impressionist painter in the Naïve
or Primitive manner, 1844-1910), 'Portrait of Pierre Loti', c. 1891.
Oil on canvas, 62 x 52 cm, Kunsthaus, Zurich.
 

O Gato e o Dicionário

... tigre em miniature.
(Maurice Rollinat)

Um gato se aproxima. Está com fome.
Abandonado ao deus-dará da rua.
Daqui a pouco, uma roda que significa o universo em seu eixo, o esmagará.
Sem que nenhuma estrela ou flor se mude do lugar onde está. 

Chamo-o para junto do meu corpo.
Aqueço-o com o meu sobretudo londrino.
Os seus olhos são verdes. São mais verdes
que os da mulher que o abandonou na rua
ao passar em seu carro, como uma sereia montada num peixe. 

E como (dada a minha condição pedestre)
jamais poderia eu possuir um tigre de Bengala,
farei, deste gato mosqueado,
o meu tigre, que se conservou criança,
para enfeite do mundo, só dos homens. 

Afinal, para a pequena floresta rotativa onde moro,
me basta este minúsculo tigre, ornamental. 

Não posso ter um quadro de Van Gogh,
tenho uma cópia.
Não posso ter dois pintarroxos no ar voando
tenho um, na mão.
(Que é a infância senão a alegria de ter uma coisa por outra?) 

Não tenho as coisas do bazar de Deus,
tenho um dicionário.
Não tenho a mulher que vi na última corrida do Jóquei,
tenho a sua fotografia. 

(O segredo da vida não está em a gente
se contentar com uma coisa por outra?)
Em meu dicionário de objetos achados,
o gato é o meu tigre.

(Ah, este gato me dará sempre a ilusão de eu ser menino,
aqui,
ou caçador de tigres, na África). 


Cassiano Ricardo
 (1895-1974), 
in 'A Difícil Manhã', 1960.
 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

"Gato" - Poema de Francisco Carvalho


 
Bruno Liljefors (Swedish artist, 1860–1939), "Jeppe" (Portrait of his cat), 1884.

Gato 
 
I

As retinas do gato 
dardejam no escuro 
da pele do rato

arauto das noites 
o gato passeia 
no dorso do muro

tenso como um arco 
o gato desenha 
os moldes do salto

crivado de fúrias 
salto que o liga 
à ponte do olfato.

II

Onde se esconde 
este sósia de conde?

Por onde passeia 
o dorso que se alteia?

Seu dorso de vaga 
que se acende e se apaga?

Quantas rotinas 
têm as suas retinas?

Quantos sóis de cobalto 
nas arcadas do salto?

Quando o seu faro pulsa 
sente o odor da Ursa?

Ou apenas preserva 
seu contorno na treva?

O gato não esconde 
o seu fulgor de conde.


Francisco Carvalho (1927-2013),
in "Raízes da Voz", 1996.



Bruno Liljefors, "Cat with European Green Woodpecker", 1890.
 

 
Bruno Liljefors"A Cat (Jeppe) and a Chaffinch", 1885.
 
 
Escritores e gatos

Os escritores, tal como os gatos, são criaturas solitárias, ciosas do seu espaço e da sua liberdade, que gostam de silêncio, de concentração e de companhia quanto baste. Os gatos não exigem demais de quem vive com eles nem reclamam atenção a toda a hora, e os escritores aceitam de bom grado essa situação, que os deixa à vontade e não lhes cria sentimentos de culpa quando estão ausentes.

Os gatos parecem pacíficos e domésticos, mas nunca cortaram realmente o elo com o mundo selvagem. Basta ver um gato assanhado para perceber de onde vêm as suas unhas em garra, as orelhas pontiagudas, os dentes afiados, a boca aberta bufando. Basta vê-los caçar para os descobrir como felinos, da estirpe do gato bravo, do tigre ou da pantera.

Os escritores também têm esse lado nunca domesticado nem domesticável. Por muito que se tente convertê-los às convenções, ao que se considera correto (politicamente ou não), eles encontram saídas e saltam para fora.Também eles são da estirpe dos felinos.

Tal como os gatos, também eles são sensuais, com todos os sentidos despertos para o mundo à sua volta. Dotados de olhos multifacetados, que veem longe e perto, na luz e na sombra. Ou no escuro.

Se for esse o caso, também eles sabem ser ternos, partilhar com o outro a sua pele macia, o calor do seu corpo.

E, tal como os gatos, também os escritores têm sete vidas. Quando enfrentam perigos e são atacados, empurrados para quedas de grande altura, usam todos os seus recursos de defesa (que são muitos) e sabem cair de pé.

(A quem se interessar por este tema e quiser saber mais, sugiro que leia o capítulo II do meu romance A Cidade de Ulisses).

Teolinda Gersão (Professora universitária e premiada escritora portuguesa, n. 1940) (daqui)