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sábado, 3 de fevereiro de 2024

"Poema à Janela" - Cruzeiro Seixas



Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020), "Finalidade sem fim", 2004.

 

Poema à Janela

 
Tentemos ainda a inocência.

Gritem os de cima
destes raios negros
tensos no espaço
que somos realmente uns ladrões
tão ricos de pobreza
como os pássaros.

Eu digo que roubei o amor
como roubo agora
todas as riquezas dos outros
e também todas as misérias,
agora a minha própria insónia.

Guardo tudo dentro de mim
a sete chaves
e o meu esqueleto
é feito de todos os objetos
roubados.
 

Cruzeiro Seixas, Obra poética, 
 Edições Quasi
 
 
Cruzeiro Seixas, Personagem estudando o cometa Halley, 1957.
Grafite e tinta da China sobre papel. 
 

Noturno
 

Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua. 
 
 
Guilherme de Almeida,
Haicai do Brasil. Org. de Adriana Calcanhotto.
Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

"Quando o homem atinge" - Poema de Cruzeiro Seixas


Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020),  
"Tu e Eu em Tamanho Natural", 2007
 
 
 
Quando o homem atinge

 
Quando o homem atinge
aproximadamente a sua medida
rebentam as lágrimas nas mais altas serranias
e assim nasce
algures um povo
um espelho de prata
na vastidão de um leito.

Uma espécie de descoberta
inútil
mas que sempre será celebrada
como uma imensa revoada de pombos.

Nada a fazer
o palhaço
está caído entre os seus símbolos
a gritar para além do vidro
à chuva
sobre a evidência da terra empapada.

Um homem
um fruto
ou melhor
um minúsculo som
engaiolado na janela
aberta
na tua carne fremente.
 
 
Cruzeiro Seixas, Obra poética, 
 Edições Quasi
 

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

"Logo que te deixo" - Poema de Cruzeiro Seixas


Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020), "A fábrica dos Espelhos", 2009.


 
Logo que te deixo
 

Logo que te deixo
há um rio que corre ao teu lado veemente
e da outra margem
os diabos com as suas lanternas
falam da infância submersa
no além.

Daqui até à linha do horizonte
as marés embalam maternalmente os mortos
e o seu canto
arrasta as góticas catedrais até ao mar
onde flutuam e vão
com cornos de ouro
e hélices que espadanam mil diamantes.

Por toda a parte há sonhos
a empurrar outros sonhos
para o abismo.

A magia do espelho quebrado
é uma longuíssima viagem
sem regresso. 


Cruzeiro Seixas, Obra poética
Edições Quasi
 

domingo, 5 de março de 2023

"Távola" - Poema de Luís Adriano Carlos


Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), Abstraction in green and black, 1946



Távola


Teu carro parado
nada tem a ver com as pirâmides
nem com o percurso das aves. Não
conhece o monumento
dos séculos, a ilustração
das capas dos filósofos ou
dos cavaleiros prediletos
de um rei transparente. A sombra
da tua voz não fala dos poetas
crucificados nos próprios versos
nem da arquitetura
de uma humanidade exilada.
A mala do teu carro
leva palavras vazias. Não tem
lugar para os pássaros.


Luís Adriano Carlos
,
Poesia digital - 7 poetas dos anos 80,
Campo das Letras,  2002
 
 
Jimmy Ernst, Paysage, 1942
 


Artes

"Somos pessoas racionais, animais racionais, se bem que a nossa animalidade seja discutível. Porém, os artistas não criam em função da razão ou do bom senso. Criam em função de um estímulo de qualquer coisa, que os ofusca e interroga. E, se tem uma tradução imagética, essa tradução é a primeira manifestação de arte propriamente dita. A essência da arte é a mimesis. Estamos cercados de objetos e tentamos perceber de que é que eles nos falam. Com exceção da música, as artes são imitativas e nasceram de uma cópia da própria natureza." 

Eduardo Lourenço, in Expresso, 2017 (daqui)
 
 
Jimmy Ernst, Biological Discovery, 1944


"Nunca sabemos o que verdadeiramente nos move. Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos."

Eduardo Lourenço (Professor e filósofo português, 1923–2020), in Público, 2017 (daqui)
 

domingo, 17 de julho de 2022

"A Estrela da Manhã" - Poema de Manuel Bandeira


Obra de Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020)
 


A Estrela da Manhã

 
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã 

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte
 
Digam que eu sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? 
Eu quero a estrela da manhã 

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário
 
Virgem mal sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
 
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
 
Depois comigo
 
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas 
[comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
 
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.


Manuel Bandeira, 
in 'Estrela da Manhã', 1936 
 

 
Capa do livro "Estrela da Manhã", 1936 
 
 

Análise do poema "Estrela da manhã"

 
O poema em análise abre o livro "Estrela da manhã" é homónimo do título da obra. Ele é composto de 31 versos livres, distribuídos em 10 estrofes. A estrofe inicial apresenta a ânsia do poeta em encontrar o que ele denomina “estrela da manhã”, solicitando para tanto a ajuda dos amigos e dos inimigos. A segunda estrofe confere um significado especial à estrela, pois ela desapareceu nua, talvez acompanhada por alguém. Ao associar o termo nua ao termo estrela, este ganha no sentido, indicando a encarnação do desejo do poeta aludindo a uma figura feminina.

Na terceira estrofe, o despojamento moral do eu lírico reforça a ideia de seu sofrimento em função da privação da companhia desejada: “Digam que sou um homem sem orgulho / um homem que aceita tudo/ que me importa?”

A quarta e quinta estrofes apresentam a passagem para um estado delirante, que se inicia por uma auto degradação e culmina em uma visão surrealista, isto é, em uma imagem que brota, diretamente, do inconsciente: “girafa de duas cabeças”.

A sexta e sétima estrofes revelam, pelo recurso da anáfora, isto é, da repetição do termo no início do verso, o dilaceramento do eu lírico em face ao desejo, pois ele aceita toda a degradação moral do objeto desejado. A repetição do verbo no imperativo “pecai” alude ao próprio desejo de pecar, o que pode ser observado na estrofe seguinte, composta de um único verso: “Depois comigo”. O isolamento do verso na estrofe intensifica a ideia de solidão. A sucessão dos verbos no imperativo pelo verso nominal, ou seja, o verso sem verbo, realça a intensidade do desejo e a condição solitária do eu lírico.

A abertura da penúltima estrofe apresenta um verso longo, sem vírgulas: “Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples”. A ausência de pontuação reforça a amplitude do desejo. Mafuás são feiras ou parques de diversões; novena é o período de nove dias dedicado a orações; cavalhadas é um folguedo, uma festa popular; a diversão (mafuás, cavalhadas) e a devoção (novena) fundem-se em uma mesma perspetiva, que é a busca da realização do desejo do poeta, e a imagem da mulher desejada torna-se simultaneamente sagrada e profana. O desejo é tão intenso que chega ao limiar da loucura “comerei terra” para, em seguida, converter-se em sublime ternura na construção de um discurso “e direi coisas de uma ternura tão simples” capaz de levar o objeto do seu desejo, no verso seguinte, à perda da consciência “Que tu desfalecerás”.

Na última estrofe, o eu lírico invoca o auxílio de todos em busca da “estrela da manhã”: “ Procurem por toda parte”. E a estrela parece assumir o significado do desejo amoroso atormentado, pois é desejada “Pura ou degradada até a última baixeza”.

O tema da frustração é uma constante na obra de Manuel Bandeira e aparece muitas vezes ligado à imagem da estrela. A estrela que o poeta pode apenas contemplar, sem jamais tocar, simboliza a impossibilidade da realização de uma vida desejada. Na abertura de Estrela da vida inteira, o poeta escreveu: “Estrela da vida inteira/ da vida inteira que poderia ter sido/ e que não foi./ Poesia, minha vida verdadeira.”

Em Estrela da manhã, a imagem da estrela está relacionada ao desejo amoroso, mas ao desejo amoroso frustrado. O poeta procura pela estrela, porém não consegue encontrá-la e nem tocá-la. (Daqui)
 

Cruzeiro Seixas, A noite sem fim, 1977. Têmpera e tinta da china sobre papel, 43 x 30,5 cm
 

O dia lega
à noite, em testamento,
a lua.

Albano Martins
(Haicai / Haikai / Haiku)



domingo, 3 de julho de 2022

"Ao entardecer debruçado pela janela" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


Mário Cesariny (Poeta e pintor surrealista português, 1923- 2006), Sem título, 1983


Ao entardecer debruçado pela janela

III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente.
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

s.d. 

Alberto Caeiro,
O Guardador de Rebanhos. In Poemas de Alberto Caeiro - Fernando Pessoa.
(Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 25.




Mário Cesariny, Relógio, 1994


Homenagem a Cesário Verde


Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas.

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!


Mário Cesariny,
Pena capital, 1957

 

Mário Cesariny, Este é o meu testamento de Poeta, 1994


Nós, poetas, na nossa mocidade começamos com alegria,
mas daí passamos finalmente ao desalento e à loucura.

William Wordsworth
,
in Resolution and Independence -
Poems, in Two Volumes (1807) 

 

 


Resolution and Independence


There was a roaring in the wind all night;
The rain came heavily and fell in floods;
But now the sun is rising calm and bright;
The birds are singing in the distant woods;
Over his own sweet voice the Stock-dove broods;
The Jay makes answer as the Magpie chatters;
And all the air is filled with pleasant noise of waters.

All things that love the sun are out of doors;
The sky rejoices in the morning's birth;
The grass is bright with rain-drops;—on the moors
The hare is running races in her mirth;
And with her feet she from the plashy earth
Raises a mist, that, glittering in the sun,
Runs with her all the way, wherever she doth run.

I was a Traveller then upon the moor;
I saw the hare that raced about with joy;
I heard the woods and distant waters roar;
Or heard them not, as happy as a boy:
The pleasant season did my heart employ:
My old remembrances went from me wholly;
And all the ways of men, so vain and melancholy.

But, as it sometimes chanceth, from the might
Of joys in minds that can no further go,
As high as we have mounted in delight
In our dejection do we sink as low;
To me that morning did it happen so;
And fears and fancies thick upon me came;
Dim sadness—and blind thoughts, I knew not, nor could name.

I heard the sky-lark warbling in the sky;
And I bethought me of the playful hare:
Even such a happy Child of earth am I;
Even as these blissful creatures do I fare;
Far from the world I walk, and from all care;
But there may come another day to me—
Solitude, pain of heart, distress, and poverty.

My whole life I have lived in pleasant thought,
As if life's business were a summer mood;
As if all needful things would come unsought
To genial faith, still rich in genial good;
But how can He expect that others should
Build for him, sow for him, and at his call
Love him, who for himself will take no heed at all?

I thought of Chatterton, the marvellous Boy,
The sleepless Soul that perished in his pride;
Of Him who walked in glory and in joy
Following his plough, along the mountain-side:
By our own spirits are we deified:
We Poets in our youth begin in gladness;
But thereof come in the end despondency and madness.

Now, whether it were by peculiar grace,
A leading from above, a something given,
Yet it befell that, in this lonely place,
When I with these untoward thoughts had striven,
Beside a pool bare to the eye of heaven
I saw a Man before me unawares:
The oldest man he seemed that ever wore grey hairs.

As a huge stone is sometimes seen to lie
Couched on the bald top of an eminence;
Wonder to all who do the same espy,
By what means it could thither come, and whence;
So that it seems a thing endued with sense:
Like a sea-beast crawled forth, that on a shelf
Of rock or sand reposeth, there to sun itself;

Such seemed this Man, not all alive nor dead,
Nor all asleep—in his extreme old age:
His body was bent double, feet and head
Coming together in life's pilgrimage;
As if some dire constraint of pain, or rage
Of sickness felt by him in times long past,
A more than human weight upon his frame had cast.

Himself he propped, limbs, body, and pale face,
Upon a long grey staff of shaven wood:
And, still as I drew near with gentle pace,
Upon the margin of that moorish flood
Motionless as a cloud the old Man stood,
That heareth not the loud winds when they call,
And moveth all together, if it move at all.

At length, himself unsettling, he the pond
Stirred with his staff, and fixedly did look
Upon the muddy water, which he conned,
As if he had been reading in a book:
And now a stranger's privilege I took;
And, drawing to his side, to him did say,
"This morning gives us promise of a glorious day."

A gentle answer did the old Man make,
In courteous speech which forth he slowly drew:
And him with further words I thus bespake,
"What occupation do you there pursue?
This is a lonesome place for one like you."
Ere he replied, a flash of mild surprise
Broke from the sable orbs of his yet-vivid eyes.

His words came feebly, from a feeble chest,
But each in solemn order followed each,
With something of a lofty utterance drest—
Choice word and measured phrase, above the reach
Of ordinary men; a stately speech;
Such as grave Livers do in Scotland use,
Religious men, who give to God and man their dues.

He told, that to these waters he had come
To gather leeches, being old and poor:
Employment hazardous and wearisome!
And he had many hardships to endure:
From pond to pond he roamed, from moor to moor;
Housing, with God's good help, by choice or chance;
And in this way he gained an honest maintenance.

The old Man still stood talking by my side;
But now his voice to me was like a stream
Scarce heard; nor word from word could I divide;
And the whole body of the Man did seem
Like one whom I had met with in a dream;
Or like a man from some far region sent,
To give me human strength, by apt admonishment.

My former thoughts returned: the fear that kills;
And hope that is unwilling to be fed;
Cold, pain, and labour, and all fleshly ills;
And mighty Poets in their misery dead.
—Perplexed, and longing to be comforted,
My question eagerly did I renew,
"How is it that you live, and what is it you do?"

He with a smile did then his words repeat;
And said that, gathering leeches, far and wide
He travelled; stirring thus about his feet
The waters of the pools where they abide.
"Once I could meet with them on every side;
But they have dwindled long by slow decay;
Yet still I persevere, and find them where I may."

While he was talking thus, the lonely place,
The old Man's shape, and speech—all troubled me:
In my mind's eye I seemed to see him pace
About the weary moors continually,
Wandering about alone and silently.
While I these thoughts within myself pursued,
He, having made a pause, the same discourse renewed.

And soon with this he other matter blended,
Cheerfully uttered, with demeanour kind,
But stately in the main; and, when he ended,
I could have laughed myself to scorn to find
In that decrepit Man so firm a mind.
"God," said I, "be my help and stay secure;
I'll think of the Leech-gatherer on the lonely moor!"

 William Wordsworth
(Daqui)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

"Guerra & Paz" - Poema de Gil de Carvalho



Max Ernst, The Fireside Angel  (The Triumph of Surrealism) / L’ange du foyer
(Le triomphe du surréalisme), 1937.
Oil on canvas, 114 cm x 146 cm.
Private collection

 
[Max Ernst, pintor e escultor alemão, nascido em 1891 e falecido em 1976, foi um dos defensores da irracionalidade na arte. Esteve associado à corrente dadaísta. Dentro desta orientação estética, levou a cabo várias experiências técnicas, como a colagem e a foto-montagem. Foi também um dos criadores do Surrealismo.] (daqui)


Guerra
& Paz



Pedidos sacrifícios, as imagens
Foram trazidas na maré, enxutas.
Treme a escada torpe, e o cão ladra -
São os antepassados, fixos,
Na água das janelas.
Que podemos fazer, o fumo
Entra nas casas é preciso
Uma porta que nos leve ao mar.


Gil de Carvalho

De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987


[Gil de Carvalho (1954, Lisboa) é um escritor, poeta, crítico literário, sinólogo, tradutor e autor de várias obras, incluindo “Uma Antologia de Poesia Chinesa”, publicada em 1989. O livro abarca vários séculos, começando com o Shijing (Livro dos Cantares), considerado o clássico da poesia chinesa, integrando ainda a colecção Chuci (Canções de Chu), datada de cerca de 300 a.C., e obras de poetas da Dinastia Tang, como Du Fu, Li Bai e Wang Wei, continuando até ao século XVIII.

“Os poemas foram transpostos a partir do original, mas com recurso – no meu caso indispensável – a pelo menos uma tradução em línguas ocidentais”, escreveu Gil de Carvalho numa introdução à obra. O autor lançou também em 2004 “Poemas Anónimos – Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos”.] (Daqui)

 

domingo, 9 de maio de 2021

"Homens do futuro" - Poema de José Gomes Ferreira


Salvador Dalí, Criança geopolítica observando o nascimento do Homem Novo, 1943
[Elaborada durante a Segunda Guerra Mundial, a pintura transmite a preocupação do artista com o futuro 
da humanidade diante da perspectiva sombria da época.] 
 


 Homens do futuro

 
Homens do futuro:

ouvi, ouvi este poeta ignorado
que cá de longe fechado numa gaveta
no suor do século vinte
rodeado de chamas e de trovões,
vai atirar para o mundo
versos duros e sonâmbulos como eu.
Versos afiados como dentes duma serra em mãos de injúria.
Versos agrestes como azorragues de nojo.
Versos rudes como machados de decepar.
Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo
— essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos
para adormecer os poetas.

Fora, fora do planeta,
tu, mulher lânguida
de braços verdes
e cantos de pássaros no coração!

Fora, fora as árvores inúteis
— ninfas paradas
para o cio dos faunos
escondidos no vento...

Fora, fora o céu
com nuvens onde não há chuva
mas cores para quadros de exposição!

Fora, fora os poentes
com sangue sem cadáveres
a iludiremos de campos de batalha suspensos!

Fora, fora as rosas vermelhas,
flâmulas de revolta para enterros na primavera
dos revolucionários mortos na cama!

Fora, fora as fontes
com água envenenada da solidão
para adormecer o desespero dos homens!

Fora, fora as heras nos muros
a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre
de pé!

Fora, fora os rios
a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!

Fora, fora as papoilas,
tão contentes de parecerem o rosto de sangue heróico dum
fantasma ferido!

Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites
a teima das nossas garras
curvas de futuro!

Fora! Fora! Fora! Fora!

Deixem-nos o planeta descarnado e áspero
para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.
Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos húmidos
nem mulheres de flores nas planícies estendidas.
Uma planeta feito de lágrimas e montes de sucata
com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.
E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!
E cavalos negros nas nuvens de fumo das fábricas!
E flores de punhos cerrados das multidões em alma!
E barracões, e vielas, e vícios, e escravos
a suarem um simulacro de vida
entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,
montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de cadáveres
e pedras!

Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulamos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
— terríveis, à espera, na sombra do chão
sujo da nossa morte.
 

 
 
José Gomes Ferreira
 
 
José Gomes Ferreira, poeta militante da palavra
 
Com as palavras, "espadas de papelão", construiu sonhos, utopias, futuros de liberdade. José Gomes Ferreira dizia-se "militante da poesia total", ofício de homem e poeta abraçados na missão de mudar o mundo. Histórias, memórias e versos confirmam o ideal.
 

José Gomes Ferreira (1900-1985) transportava em si a força dos que não desistem do sonho. Queria salvar o mundo, fazer desaparecer a pobreza, as injustiças, a violência, os dramas que mutilam vidas e vontades. A todo este “real quotidiano” fica atento desde muito cedo o futuro poeta, nascido em 1900 no Porto, na proletária rua das Musas (que recordará em algumas poesias). Do pai, republicano e maçon, herda o exemplo combativo contra o fascismo e as preocupações sociais. José irá ser um defensor de causas empenhado, fazendo das palavras a sua arma mais poderosa.

Antes de começar a corrigir injustiças com metáforas, Gomes Ferreira convenceu-se que a sua vocação passava pelo Direito e empreendeu uma carreira diplomática na Noruega, curta, mas eficaz a comprovar o erro. Tem 30 anos quando regressa Lisboa com a certeza de que a única coisa que o interessa é, como tinha sido sempre, a literatura. Começa a escrever sobre cinema, colabora em várias publicações, é jornalista, tradutor. Depois, desafiado por amigos, começa a publicar o que há muito fechava em gavetas: poesia, ficção, contos, memórias.

Nesta viagem das palavras, que o afirmou como uma das vozes mais importantes do século XX português, José Gomes Ferreira deixou obras intemporais como “Lírio do Monte”“Aventuras Maravilhosas de João sem Medo”, “O Irreal Quotidiano”“O Mundo dos Outros”, “O Tempo Escandinavo”, ou “A Memória das Palavras”, entre outras. (Daqui)

sexta-feira, 12 de março de 2021

"Sim, talvez tenham razão" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


Lucian Freud, The Painter's Room, 1944, óleo sobre tela, 62,2 x 76,2 cm, coleção particular 
 
 
 
Sim, talvez tenham razão


Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada. 

4-6-1922

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)
 
 
Lucian Freud, Man's Head, Self-portrait, 1963

 
Lucian Freud (Berlim, 8 de dezembro de 1922 - Londres, 20 de julho de 2011) foi um pintor nascido na Alemanha e naturalizado britânico em 1939.

O seu pai, Ernst, era o filho mais novo de Sigmund Freud. No ambiente de uma família judaica não praticante, rodeado pelo conforto burguês, Freud viveu uma infância calma livre para dar azo à sua imaginação. Passou a viver em Inglaterra desde 1933, quando a família fugiu à ascensão nazi, e naturalizou-se inglês em 1939. De 1938 a 1943 frequentou a Central School of Art, o Goldsmith's College, Londres e a East Anglian School of Painting and Drawing, Dedham, dirigida por Cedric Morris.

Alistou-se na Marinha Mercante durante a Segunda Guerra Mundial, mas foi ferido em 1942, dedicando-se a partir daí exclusivamente à pintura. Passou um ano a viajar pela França (Paris) e Grécia, mas a maior parte da sua vida e da sua carreira foi passada em Paddington, Londres, área cujas características sombrias se refletem em algumas das suas obras que representam interiores e paisagens urbanas. Durante os anos quarenta o seu interesse principal foi o desenho, especialmente a face, usando, ocasionalmente, um estilo deformado reminiscente de George Grosz.

Terminada a guerra e com os perturbantes anos da adolescência para trás, Freud iniciou uma busca pelo retrato ilusório retratando incessantemente a sua primeira mulher Kitty. Após o divórcio, continuou a mesma procura, pintando repetidamente a sua segunda mulher, Caroline, assim como vários amigos pintores. Os resultados eram sempre desconcertantes sugerindo a crise existencial que conduziu a obra de Freud durante este período. Exemplo disso é a obra intitulada Interior, Paddington (1951), que ganhou um prémio na Inglaterra.
 
Em 1956, chegou à conclusão que os seus retratos solitários necessitavam ser livres, começando, então, a explorar as técnicas expressionistas do chiaroscuro que irá iluminar as suas figuras de novas perspetivas. No entanto, a sua procura da figura livre só será plenamente conseguida na altura em que Freud começou a explorar o retrato do nu feminino, em 1966. O nu feminino permanece a forma mais poderosa e subversiva do seu trabalho e na qual Freud exerceu toda a sua criatividade. Sendo o sujeito, amigo, amante, parente ou um dos seus três filhos, Freud parece celebrar o corpo nu como um todo, coberto de vida e luz apenas descoberto na honestidade da carne feminina.

Em 1977, Freud começou a dedicar-se ao nu masculino. Apesar das figuras vestidas ainda dominarem a maior parte do seu trabalho, Freud desenvolveu grande interesse pela forma masculina realista. A obra Man with Rat (1977) iniciou uma rigorosa investigação dos melhores meios de comunicar a realidade. Em vez de pintar o homem sem idade e congelado, Freud opta por representá-lo parado num dado momento, em quieto repouso. Esta captura do homem realista sugere uma necessidade para o observador de testemunhar a pessoa trabalhadora contemporânea, moderna, no seu próprio espaço, reclinado numa cama, ou num dos muitos sofás de Freud. O melhor amigo do homem, o cão, também aparece muitas vezes representado na mesma posição, acompanhando o sujeito. Não se pode falar sobre a pintura de Freud do nu masculino sem mencionar um dos seus sujeitos preferidos, o artista de performance Leigh Bowery. Os dois conheceram-se numa galeria londrina em 1990 e pouco tempo depois começou a pintá-lo. Bowery posou para Freud dezenas de vezes durante quase quatro anos, altura em que este morreu.

Lucian Freud realizou inúmeras exposições retrospetivas da sua obra em todo o Mundo. Assim como o seu patronímico é citado em quase todos os ensaios sobre crítica cultural, o trabalho de Lucian Freud gera uma grande quantidade de atenção e respeito. É considerado o grande e único pintor realista do século XX.
(Daqui)

Lucian Freud, Interior at Paddington, 1951
 

O Boémio

Cigarro apagado
no canto da boca, enquanto
passa o seu passado. 
 
Guilherme de Almeida
Haicai / Haikai
 
 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

"Identidade" - Poema de Miguel Torga


Vladimir Kush, The Dark Side of the Moon



Identidade


Matei a lua e o luar difuso. 
Quero os versos de ferro e de cimento. 
E em vez de rimas, uso 
As consonâncias que há no sofrimento. 

Universal e aberto, o meu instinto acode 
A todo o coração que se debate aflito. 
E luta como sabe e como pode: 
Dá beleza e sentido a cada grito. 

Mas como as inscrições nas penedias 
Têm maior duração, 
Gasto as horas e os dias 
A endurecer a forma da emoção. 


in 'Penas do Purgatório' 

sábado, 29 de agosto de 2015

"Na Floresta do alheamento" - Texto de Bernardo Soares (Heterónimo de Fernando Pessoa)


[Forest and Dove (1927) é um quadro do pintor surrealista, Max Ernst. Mostra uma cena nocturna de uma floresta com árvores bizarras e abstractas. No meio da floresta encontra-se a representação de uma pomba como feita por uma criança. Quer a floresta quer a pomba aparecem várias vezes nos trabalhos de Ernst. De acordo com uma análise da Tate Gallery, em Londres, a imagem da floresta representa a floresta que existia perto da casa de infância do autor, que lhe inspiraria um sentimento de encantamento e terror. A mesma análise indica que a pomba representa o autor. Este quadro tem uma textura e aparência tridimensional fortes. Isto é devido a uma técnica denominada grattage. Esta ténica foi inventada por Ernst e pelo pintor surrealista Joan Miró.] (Daqui)



Na Floresta do alheamento


        Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda...
        Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...
Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ...
E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...
A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver...
De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou actual, destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de nocturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo...
Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me estreita...
Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe...
Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus!
E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro.
As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!...
Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...
No nosso jardim havia flores de todas as belezas... — rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoilas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros, miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos...
Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas...
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem?...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena...
O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada — tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.
Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do Tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o saber que aquilo não era para nada.
Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...
Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais...
Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida. Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era húmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto...
Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa ideia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa ideia de haver a nossa vida...
Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro, nus.
Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...
E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa ideia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta misteriosa enquadra...
As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em sequência, orquestras de perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa... Sombras que eram relíquias de outroras felizes... Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!...
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas — de realidade que era, a ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...
Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar...
Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto...
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão ténues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos...
E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparámos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...
Zumbe uma mosca, incerta e mínima...
Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza sossobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece...
A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora...
Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos...
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos...
Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição...
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
  - 251.
"Fase decadentista", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986. (Daqui)