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domingo, 9 de dezembro de 2018

"H" - Poema de António Maria Lisboa


Henry Mosler (American artist, 1841-1920), 'The Quadroon Girl'1878
Cincinnati Art Museum



H

 Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos. 
in "Ossóptico e Outros Poemas"


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"Sonetos do Regresso" - Poemas de Carlos de Oliveira


Henry Mosler (American artist, 1841-1920), The Lost Cause, 1869



Sonetos do Regresso

I

Volto contigo à terra da ilusão, 
mas o lar de meus pais levou-o o vento 
e se levou a pedra dos umbrais 
o resto é esquecimento: 
procurar o amor neste deserto 
onde tudo me ensina a viver só 
e a água do teu nome se desfaz 
em sílabas de pó 
é procurar a morte apenas, 
o perfume daquelas 
longínquas açucenas 
abertas sobre o mundo como estrelas: 
despenhar no meu sono de criança 
inutilmente a chuva da lembrança. 

II 

Acordar, acender 
o rápido lampejo 
na água escusa onde rola submersa 
como o lodo no Tejo 
a vida informe, peso dúbio 
desse cardume denso ou leve 
que nasce em mim para morrer 
no mar da noite breve; 
dormir o pobre sono 
dos barbitúricos piedosos 
e acordar, acender 
os tojos caudalosos 
nesta areia lunar 
ou, charcos, nunca mais voltar.


in 'Cantata'


Ana Moura - Tens os olhos de Deus


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"Sofro, Lídia, do medo do destino" - Poema de Ricardo Reis


Henry Mosler (American artist, 1841-1920), Just Moved



Sofro, Lídia, do medo do destino


Sofro, Lídia, do medo do destino. 
A leve pedra que um momento ergue 
As lisas rodas do meu carro, aterra 
Meu coração. 

Tudo quanto me ameace de mudar-me 
Para melhor que seja, odeio e fujo. 
Deixem-me os deuses minha vida sempre 
Sem renovar 

Meus dias, mas que um passe e outro passe 
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo 
Para a velhice como um dia entra 
No anoitecer. 


Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


Pintura de Henry Mosler



A perfeita liberdade de espírito


Um espírito que toma consciência da discordância que sempre existe entre o que afirma e o que é verdadeiramente não pode mais desfazer-se de uma espécie de dúvida filosófica. Somos livres na medida em que conservamos um pensamento de fundo. Em todos os casos, a perfeita liberdade de espírito consiste num ato pelo qual ele compreende a absoluta impossibilidade em que está de encontrar a certeza na experiência. 

Jules Lagneau, in 'Curso Sobre o Juízo'

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"Conta e Tempo" - Poema de Frei António das Chagas


George Bernard O'Neill (Irish genre painter, 1828-1917), New Year's Day, 1889

 

Conta e Tempo


Deus pede estrita conta de meu tempo. 
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta. 
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta 
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? 

Para dar minha conta feita a tempo, 
O tempo me foi dado, e não fiz conta, 
Não quis, sobrando tempo, fazer conta, 
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo. 

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta, 
Não gasteis vosso tempo em passatempo. 
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta! 

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo, 
Quando o tempo chegar, de prestar conta 
Chorarão, como eu, o não ter tempo... 


Frei António das Chagas, in 'Antologia Poética' 
 

Henry Mosler (1841-1920), New Year's Morning, 1888


"Não te felicites pelo dia de amanhã, pois não sabes o que o hoje vai gerar."

(Textos Bíblicos, Provérbios 27,3)


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Falavam-me de Amor" - Poema de Natália Correia


Henry Mosler (American artist, 1841-1920), Christmas Morning, 1916



Falavam-me de Amor


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas, 

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado. 


O Dilúvio e a Pomba 
Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979


Henry MoslerThe Chimney Corner, 1893


"Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente." 



domingo, 2 de outubro de 2011

"Ao desconcerto do Mundo" - Poema de Luís de Camões


Henry Mosler (American artist, 1841-1920), Le Retour, 1879


Ao desconcerto do Mundo


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.
 
Henry Mosler, The Last Sacraments


"Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência."