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terça-feira, 6 de abril de 2021

"Poema da minha idade" - Anilda Leão


Edouard John Mentha (Switzerland, 1858 – 1915), Déjeuner sur la terrasse 



Poema da minha idade

 
Eu carrego dentro de mim,
o peso de uma idade morta,
de uma idade sem definições e sem porquês.
Na minha face extinta,
marcada pelo tempo,
eu trago impressos os instantes envelhecidos,
os momentos mortos,
das coisas belas que me deslumbraram na vida.
Eu trago no meu corpo já sem formas,
vestígios da minha adolescência perdida,
Quando eu era dona dos caminhos,
soberana do tempo e dos astros.
Nos meus olhos já sem brilho,
se reflete o cansaço das viagens longas,
de roteiros intermináveis
e sem pouso certo.
E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho,
vão marcando os dias, as horas, os minutos,
dos momentos que vivi no meu passado,
dentro da minha infância longínqua,
quando eu sabia conversar com as estrelas...
 
em "Chão de pedras", 1961


quinta-feira, 1 de abril de 2021

"Súplica" - Poema de Anilda Leão


Franz von Stuck, Self-portrait of the painter and his wife in the studio, 1902 


Súplica

 
Deixe que eu passe as minhas mãos
pelo teu rosto fatigado,
afugentando para longe
tuas longas noites de vigília.
Deixa que eu mergulhe os meus olhos
dentro dos teus olhos tristes,
para que fique dentro deles,
um pouco de luz, um pouco de alegria.
Deixa que eu acaricie os teus cabelos,
trazendo novamente para eles
o negrume das noites que se perderam.
Deixa que eu beije enternecida
as rugas prematuras do teu rosto,
para que esqueças o que sofreste na vida,
Deixa que eu te ame querido,
para que não sofras nunca mais!
 
em "Chão de pedras", 1961
 

 
Franz von Stuck, Self-portrait, 1905


Goze.
Quem sabe essa
é a última dose?
 
 (Haicai / Haikai)
 

segunda-feira, 22 de março de 2021

"À procura da infância" - Poema de Anilda Leão


Zinaida Serebriakova (Russian, 1884-1967), The House of Cards, 1919, óleo sobre tela, 
65 x 75.5 cm, The Russian Museum, St. Petersburg, Russia
 
 

À procura da infância


Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei no meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes 
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingénua das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.
 

 em "Chão de pedras", 1961
 
 
Zinaida Serebriakova, Lunchtime, 1914, óleo sobre tela, 88.5 x 107 cm,
The Tretyakov Gallery, Moscow, Russia
 
 
 Infância

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
Chamava-se "Agora".
 
(Haicai / Haikai)


 
Zinaida Serebriakova, Self-Portrait, 1946, óleo sobre papel,
65.5 x 47.3 cm, The Russian Museum, St. Petersburg, Russia


Passado cativo...
Melancólico trinado.
Gaiola dourada. 

Fanny Luiza Dupré 
(Haicai / Haikai)


segunda-feira, 12 de março de 2018

"Poema da hora exata" - Anilda Leão


William Glackens (American realist painter, 1870 - 1938), Family Group, 1911



Poema da hora exata


Há de soar para nós, uma hora exata
uma hora feita de silêncios,
onde jamais serão permitidas
as interrogações e os porquês.
Há de cair, numa hora que há de vir,
sobre as nossas almas fatigadas,
esta paz interior, esta calmaria suave,
que não encontraremos nunca dentro do mundo.
Por entre as brumas do desconhecido,
nós abriremos os olhos extáticos,
como se saíssemos de um sonho
e entrássemos na realidade,
numa vida onde todos se entendam,
onde sejamos verdadeiramente irmãos.
Dentro do silêncio da Morte,
é que encontraremos a paz desejada,
numa hora para nós imprevisível,
quando as sombras da noite
caírem sobre as nossas figuras inúteis.


Anilda Leão, em "Chão de pedras",
 Maceió: Caetés, 1961.