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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

"Preparativos de Viagem" - Poema de Nuno Júdice

 


Vilhelm Hammershøi (Danish painter, 1864–1916),
'Double portrait of the artist and his wife seen through a mirror', 1911.

Preparativos de Viagem


Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá
vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao
dicionário e tiro as palavras que me servirão
de passaporte: o equador, uma linha
de horizonte, a altitude e a latitude,
um lugar de passageiro insistente. Dizem-me
que não preciso de mais nada; mas continuo
a encher a mala. Um pôr-do-sol para que
a noite não caia tão depressa, o toque dos teus
cabelos para que a minha mão os não esqueça,
e aquele pássaro num jardim que nasceu
nas traseiras da casa, e canta sem saber
porquê. E outras coisas que poderiam
parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase
indecisa a meio da noite, a constelação
dos teus olhos quando os abres, e algumas
folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência
me vem ditar. E se me disserem que tenho
excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,
e ficarei só com a tua imagem, a estrela
de um sorriso triste, e o eco melancólico
de um adeus.


Nuno Júdice, in "Navegação de Acaso"
Publicações Dom Quixote 
 

domingo, 31 de março de 2024

"Deus" - Poema de Nuno Júdice



Deus


À noite, há um ponto do corredor
em que um brilho ocasional faz lembrar
um pirilampo. Inclino-me para o apanhar
– e a sombra apaga-o. Então,
levanto-me: já sem a preocupação
de saber o que é esse brilho, ou
do que é reflexo.
Ali, no entanto, ficou
uma inquietação; e muito tempo depois,
sem me dar conta do motivo autêntico,
ainda me volto no corredor, procurando a luz
que já não existe.


Nuno Júdice
, in "Meditação sobre Ruínas", 1995 


Vilhelm Hammershøi, Interior, Strandgade 30, 1901



"Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada."


 "Every word is like an unnecessary stain on silence and nothingness."
 
Samuel Beckett
- citado em "Close-up‎" - Página 52,
 John Gruen - Viking Press, 1968 - 206 páginas.


quinta-feira, 8 de junho de 2023

"Tu estás aqui " - Poema de Ruy Belo


Tu estás aqui


Estás aqui comigo à sombra do sol.
Escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspeto do que sou.

Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto, como que me veste de um pijama
que uso para ser também, isto, este bicho de hábitos,
manias, segredos defeitos, quase todos desfeitos.

Quando depois lá fora na vida profissional ou social, só sou um nome e sabem o que sei,
o que faço, ou então sou eu que julgo que o sabem,
e sou amável, seleciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que, afinal, posso ser isso, talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa,
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior a manifestação
desta dor neste braço que afeta tudo o que faço, bem entendido o que faço com este braço.

Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto, aqui é a casa de banho,
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer. 

Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala.
Sou só estas salas, estas paredes, esta profunda vergonha de o ser
e não ser apenas a outra coisa, essa coisa que sou na estrada
onde não estou à sombra do sol.
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso diante dos dias. 

Que ninguém conheça este meu nome, este meu verdadeiro nome
depois, talvez, encoberto noutro nome embora no mesmo nome
este nome de terra de dor de paredes este nome doméstico.
Afinal fui isto nada mais do que isto as outras coisas que fiz
fi-las para não ser isto ou dissimular isto a que somente não chamo merda,
porque ao nascer me deram outro nome que não merda,
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir
umas coisas das outras coisas.

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto pena até mesmo de dizer
que sou só isto como se fosse também outra coisa uma coisa para além disto que não isto.
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo.
É das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos,
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos,
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam
certas palavras como a palavra paz. 

Deixa-te estar aqui e perdoa que o tempo
te fique na face na forma de rugas.
Perdoa pagares tão alto preço por estar aqui.
Perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui.
Prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente.

Deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.


Ruy Belo
, in 'Toda a Terra';
in 'Todos os Poemas',
Assírio & Alvim, 2000


Ruy Belo - "Tu estás aqui"
 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Memórias das Infâncias" - Poema de Adília Lopes


Memórias das Infâncias 


Gostávamos muito de doce de framboesa 
e deram-nos um prato com mais doce de framboesa 
do que era costume 
mas 
a nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa 
para nosso bem 
porque estávamos doentes 
esconderam colheres do remédio 
que sabia mal 
o doce de framboesa não sabia à mesma coisa 
e tinha fiapos brancos 
isso aconteceu-nos uma vez e chegou 
nunca mais demos pulos por ir haver 
doce de framboesa à sobremesa 
nunca mais demos pulos nenhuns 
não podemos dizer 
como o remédio da nossa infância sabia mal! 
como era doce o doce de framboesa da nossa infância! 
ao descobrir a mistura 
do doce de framboesa com o remédio 
ficámos calados 
depois ouvimos falar da entropia 
aprendemos que não se separa de graça 
o doce de framboesa do remédio misturados 
é assim nos livros 
é assim nas infâncias 
e os livros são como as infâncias 
que são como as pombinhas da Catrina 
uma é minha 
outra é tua 
outra é de outra pessoa
'O Decote da Dama de Espadas', pag. 107,
Ed. Mariposa Azual, Lisboa 2001



Vilhelm Hammershøi, Interior with Woman at Piano, 1901.
Oil on canvas, 55,9 x 45,1 cm, Private Collection.


"A felicidade é quando nos esquecemos da infelicidade em que vivemos."

Afonso Cruz, in "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças"


sábado, 9 de abril de 2016

"Madrigal" - Poema de Soror Violante do Céu



Vilhelm Hammershøi (Danish painter, 1864–1916),
'Interior with woman sitting at a table', 1910


Madrigal


Enfim fenece o dia, 
Enfim chega da noite o triste espanto, 
E não chega desta alma o doce encanto 
Enfim fica triunfante a tirania, 
Vencido o sofrimento, 
Sem alívio meu mal, eu sem alento, 
A sorte sem piedade, 
Alegre a emulação, triste a vontade, 
O gosto fenecido, 
Eu infeliz enfim, Lauro esquecido... 
Quem viu mais dura sorte? 
Tantos males, amor, para uma morte? 
Não basta contra a vida 
Esta ausência cruel, esta partida? 

Não basta tanta dor? tanto receio? 
Tanto cuidado, ai triste, e tanto enleio? 
Não basta estar ausente, 
Para perder a vida infelizmente? 
Se não também, cruel, neste conflito 
Me negas o socorro de um escrito? 
Porque esta dor que a alma me penetra 
Não ache o maior bem na menor letra, 
Ai! bem fazes, amor, tira-me tudo! 
Não há alívio, não, não há escudo, 
Que a vida me defenda, 
Tudo me falte, enfim, tudo me ofenda, 
Tudo me tire a vida, 
Pois eu a não perdi na despedida. 


Violante do Céu, in 'Antologia Poética'



Vilhelm Hammershøi (Danish painter, 1864–1916), 'Interior', c. 1900.
Oil on canvas, 56 x 44,5 cm, Private Collection.


Sóror Violante do Céu
 
Sóror Violante do Céu era uma freira dominicana que na vida secular se chamava Violante Montesino. Professou no convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630.
Aos 17 anos, celebrizou-se ao compor uma comédia para ser representada durante a visita de Filipe II a Lisboa. Também se dedicou à música como instrumentista, tocando, como consta, harmoniosamente harpa. 
Todavia, foi sobretudo na poesia que se distinguiu, sendo hoje reconhecida como um dos expoentes máximos da lírica barroca em Portugal.
Conhecida pelos meios culturais da sua época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, cultivou a vertente conceptista do Barroco, que assentava, essencialmente na construção mental e na elegância da subtileza, exibindo um estilo muito mais intelectualizado do que o admitiria o preconceito sentimentalista feminino. Profundamente entrosada no espírito da Fénix Renascida, exibe nas suas composições uma dialética idealista que procura concretizar o impossível, transformar a morte na vida, a tristeza na alegria. 
Intelectualizou ainda escolasticamente alguns temas líricos, nos quais revela muitas vezes alguns acentos de sinceridade, como é o caso dos versos que dedica a um incógnito Silvano: 


Se apartada do corpo a doce vida, 
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte 
Se ausente da alma estou, que me dá vida? 

Não quero sem Silvano já ter vida, 
Pois tudo sem Silvano é viva morte, 
Já que se foi Silvano, venha a morte, 
Perca-se por Silvano a minha vida. 

Ah! Suspirado ausente, se esta morte 
Não te obriga querer vir dar-me vida, 
Como não ma vem dar a mesma morte? 

Mas se na alma consiste a própria vida, 
Bem sei que se me tarda tanto a morte, 
Que é porque sinta a morte de tal vida. 


Soror Violante do Céu (daqui)

sábado, 2 de abril de 2016

"O Sono" - Poema de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa



Vilhelm Hammershøi (Danish painter, 1864–1916),
'Young Man Reading', 1898



O Sono


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

28-8-1935

Álvaro de Campos,
in Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.
Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993)