quarta-feira, 24 de agosto de 2022

"Aqui Portugal" - Poema de Almada Negreiros


Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961),
"Trecho de Lisboa com Tejo", guache sobre papel, 26 x 23 cm  


Aqui Portugal


Aqui Portugal
Bicesse
O Fim-do-Mundo mais perto de
Lisboa a da boa flordelis
e
Entre a Serra da Lua (Sintra)
As grutas e necrópole daqueles
Que nascidos em Creta
Passaram em Homero
Em Cristo
E a vista de Roma
Saíram do Mediterrâneo
E aqui ficaram e passaram
Trazendo consigo para toda a parte
A civilização da Liberdade individual
Do Homem.

Almada Negreiros 


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

"Poema da minha esperança" - Sebastião da Gama


Jules Migonney (French painter and engraver, 1876-1929), Portrait of the painter, Jean Puy 
(French Fauvist artist, 1876-1960), 1910


Poema da minha esperança 


Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...

Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)

Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.) 


Sebastião da Gama
, in Serra-Mãe (1945)
 
 

Sebastião da Gama


Sebastião da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, 10 de abril de 1924 — Lisboa, 7 de fevereiro de 1952), licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, exerceu a função de professor do ensino técnico. Morreu com 27 anos, vítima de uma tuberculose que se declarara desde criança.
 
Colaborador de Távola Redonda (50-54), estreou-se em volume em 1945 com Serra-Mãe, exercendo para os que procuravam, como David Mourão-Ferreira ou António Manuel Couto Viana, no fim da década de 40 e início da década de 50, um exemplo de superação da oposição entre necessidade de empenhamento versus liberdade de criação em que se debatia a poesia, marcada ainda pela polémica entre presencistas e neorrealistas. Em carta a David Mourão-Ferreira, em 1946, defende que "a arte é a vida, nos seus matizes múltiplos, posta em beleza, não a política, não a religião, não a moral postas em beleza; que o artista verdadeiro apenas responde às vozes que chamam dentro de si - o que não quer dizer que essas vozes não tenham sido caldeadas em muitas vozes exteriores." (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - 20 Poetas Contemporâneos, 1980, p. 232).
 
Poeta marcado pela consciência de que a sua vida seria efémera, a poesia de Sebastião da Gama descreve uma lúcida aprendizagem da morte, não como desistência e desalento, mas como confiança na vida ("Foi necessário ter perdido tudo/ para chegar à perfeição enorme/ de não poder perder a confiança" in Itinerário Paralelo), manifestada na exaltação da Natureza e de Deus
Herdeiro de Régio na expressão da inquietação religiosa, resolve o maniqueísmo do fundador da Presença, num apaziguamento que nasce da entrega do sujeito poético a uma Natureza que é, na tradição franciscana, um "sinal da Beleza de Deus incarnada nas coisas" (Belchior, pref. a Gama, 1983, p. 26). (Daqui)
 


O primeiro livro publicado por Sebastião da Gama, Serra-Mãe, reúne uma série de composições que tendem para a regularidade métrica, inspiradas pela permanência no Portinho da Arrábida, local propiciador do recolhimento poético e da celebração mística da Natureza. O próprio título sugere, como chave de leitura, a fusão do humano com a Natureza, a fraternidade de todos os seres franciscanamente abrigados pela Natureza-mãe, e aponta a serra como regaço maternal onde o poeta se refugia para recobrar tranquilidade e confiança. A par dessa linha de leitura composta pela exaltação da religiosidade da Natureza, desenvolvem-se composições onde a temática da morte iminente é sentida não sob o signo da desesperança, mas como o desfecho precoce de uma vida plenamente vivida ("Que a Morte, quando vier,/ não venha matar um morto./ Quero morrer em pujança./ Quero que todos lamentem / a ceifa de uma esperança", de "Cortina"; "De minha vida não sei/ senão que sou feliz", de "Claridade"). Reformulando a tradição lírica de Régio e de Sá-Carneiro, esta obra inaugural acolhe ainda poemas marcados pelo diálogo com Deus, onde a inquietação religiosa exprime, por vezes, a revolta e o pânico de perder a dádiva da presença divina ("não me roubes a Tua Mão, Senhor," de "Oração de Todas as Horas") e versos que reformulam, sobretudo na secção "Presença" de Serra-Mãe, o tema modernista de desdobramento do sujeito poético, num conflito entre o eu que se evade, confundido com a vida da massa vulgar e distraída, e o eu imbuído do sentimento de cumprir uma missão ideal. (Daqui)


"Recanto de Praia" por António Carvalho da Silva (Silva Porto). Um retrato da praia do Portinho da Arrábida.
 

"Aqui estou novamente na Arrábida, a firmar as forças e cheio de confiança, de serenidade, de sonho. Cabo da Boa Esperança!"

Sebastião da Gama, in Diário (p. 360) (daqui)
 
 
 Retrato fotográfico de  Silva Porto por Arthur Benarus (1861-1926).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves
 

 Silva Porto
(Porto, 1850 - Lisboa, 1893)

A Natureza é a maior fonte de inspiração deste pintor de paisagens vivas, cujos quadros cedo causam sensação. Silva Porto compõe imagens do mundo rural, com uma luz e cor quase fotográficas. Ramalho Ortigão chamou-lhe "o Garrett da pintura portuguesa."

Estudou muito para ser o grande pintor que foi, reconhecido e aclamado “Divino Mestre” pelos companheiros, os melhores valores da nova geração da segunda metade do século XIX que, com ele na liderança, fundaram o Grupo do Leão, uma tertúlia de artistas e intelectuais  imortalizada no célebre quadro de Columbano Bordalo Pinheiro. O Grupo, que mais tarde deu lugar ao Grémio Artístico, mobilizava-se para divulgar a pintura do Naturalismo em Portugal. Várias exposições foram então organizadas, na primeira, em 1881, Silva Porto apresenta-se com mais de 20 óleos inspirados na natureza.

De personalidade reservada, este pintor nascido no Porto em 1850, aventura-se na sua formação. Depois de completar o curso na Academia Portuense de Belas-Artes, é bolseiro em Paris, estuda com os consagrados Yvon, Cabanel, Beauverie e Groseillez. Neste período conhece a Escola de Brabizon de Pintura ao Ar Livre onde, sob a orientação do mestre Daubigny, experimenta a pintura de paisagens no local, influência que ficará para sempre. Os trabalhos que produz são expostos no “Salon” e na Exposição Universal com aplausos da crítica. Completa a aprendizagem artística em Itália, onde pintou típicas figuras femininas como “Fiandeira Napolitana”. A seguir, viaja pela Europa para conhecer de perto as obras de grandes paisagistas.

Quando regressa a Portugal, com menos de 30 anos, Silva Porto já não é um desconhecido. Os quadros de grande riqueza cromática que fora enviando para a pátria, tinham sido recebidos com entusiasmo. É então convidado para reger a cadeira de Pintura de Paisagem na Academia de Belas-Artes de Lisboa. Porém, a consagração do jovem artista será inquestionável no dia em que o rei D. Fernando lhe compra o quadro “A Charneca de Belas” por 300 reis. Foi na Exposição da Sociedade Promotora de Belas-Artes, uma das muitas em que participa com medalhas de ouro e prata e valorosas distinções.

A pintura de Silva Porto é muito portuguesa, exaltante das terras e dos costumes, em cores generosas e luminosas. “A condução do rebanho”, “A salmeja”, “Seara”, “Ceifeiras”, são apenas alguns títulos de uma extensa lista, acervo de vários museus nacionais. O pintor, que escolheu ter o nome da sua terra natal no apelido, foi o pintor de todo um país. (Daqui)

 

sábado, 20 de agosto de 2022

"O pão de cada dia" - Poema de Thiago de Mello


(The Blessing of the Wheats in Artois), 1857, Musée d'Orsay
 


O pão de cada dia


Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção
construída no trabalho.
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.

Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece,
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.


Editora Global 

  

 
'Faz escuro mas eu canto', livro de poemas de Thiago de Mello publicado em 1965, é sempre lembrado por seu autor como seu livro mais querido. Faz Escuro mas Eu Canto resgata os contornos verdadeiros das coisas e das almas - o amor ferido, as cantigas de roda, o açude, a fome, os sem-terra, entre outros. Em sua obra, Thiago de Mello inspira coragem e esperança de dias melhores.
Com a instalação da ditadura militar no Brasil em 1964, os ventos para Thiago não foram nada favoráveis. Na ocasião em que esteve preso, deparou-se com um de seus versos escritos na cela: “Faz escuro mas eu canto/ Porque a manhã vai chegar”. Era o sinal de que sua luta incessante pelo respeito à vida humana encontrava eco e precisava ser levada adiante.
A presente edição de Faz escuro mas eu canto traz carinhoso depoimento de Pablo Neruda, de quem o poeta se tornaria amigo e com quem compartilharia momentos de alegria e de tensão durante o período em que esteve exilado no Chile. 
Escritos num momento em que o Brasil atravessava tempos sombrios, os poemas do livro são tingidos por um sopro renovador que encanta e acalenta o coração inquieto da humanidade. (Daqui)
 
In: Faz escuro mas eu canto, 1999, Bertrand Brasil, 17ª edição.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=189276 © Luso-Poemas
In: Faz escuro mas eu canto, 1999, Bertrand Brasil, 17ª edição.


Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=189276 © Luso-Poemas

domingo, 7 de agosto de 2022

"Crepúsculo" - Poema de Martins Fontes


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), Midsummer's Eve, 1904
 
 
 
Crepúsculo


Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um langor de mística esperança
E de doçura triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
O coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança
Entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando,
Da recôndita paz das horas esquecidas,
Vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando...

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
Melancolicamente, o coração pulsando,
Plange o réquiem de amor das ilusões perdidas.


Martins Fontes
(18841937), in Verão, 1917
 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

"Ando pelas ruas desta incerta cidade" - Poema de Graça Pires

 
Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961),  
As escadinhas, c. 1934, óleo sobre tela, 73 x 60 cm

 
 
 Ando pelas ruas desta incerta cidade
 
 
Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio. 
 

Graça Pires
,
in 'Uma claridade que cega'
 
 
Francisco Smith ou Francis Smith, Alfama - Lisboa, 1920


[Esta obra emblemática da pintura de Francis Smith e da coleção que o CAM possui do pintor, representa Alfama, um dos bairros populares de  Lisboa
Quando Francis Smith realizou a sua primeira exposição individual em Paris, na Galerie Dewambez, em 1914, as suas preferências apareceram claramente definidas, tanto no plano da técnica como no da escolha dos temas, onde desde logo predominaram as cenas da vida portuguesa.
Para a historiografia de arte francesa, o carácter sentimental e a estrutura arquitetónica das paisagens citadinas de Smith revelam as suas origens portuguesas. Do ponto de vista da historiografia de arte portuguesa, será interessante sublinhar que esta orgânica casa vermelha, em que Smith concentra as suas recordações dos bairros populares, precede a uniformização a amarelo da cidade decretada pela câmara de Lisboa nos anos 1930, com o intuito de pôr “ordem” na sua policromia. Semelhante decisão provocaria a repulsa dos pintores, expressa por Abel Manta em resposta a um inquérito conduzido por Artur Portela na década de 1940 (Rui Mário Gonçalves, catálogo da exposição O Imaginário da Cidade de Lisboa, 1985): «Aquela fina grisaille de madre-pérola, onde sobretudo os brancos eram de uma riqueza de tentar Cézannes, Renoirs, Friezes e Utrillos, levou-as o diabo». (Daqui)]


 
Fotografia de Francis Smith, in Periódico Portugal,
nº 6, Nov-Dez, 1937, p3 (daqui)
 

Francisco Smith
foi um pintor português nascido em 1881, em Lisboa. Estava destinado a seguir a carreira militar, já que o seu pai e o seu avô eram oficiais da Marinha. No entanto, as suas aptidões para o desenho foram detetadas pelos seus primeiros mestres, José Ribeiro Júnior e Constantino Fernandes. Estes aconselharam o pai de Francis Smith a deixá-lo ir aperfeiçoar-se em Paris. Nesta cidade vem a conhecer Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Amadeo de Souza-Cardoso, entre outros artistas, depressa se integrando na vida de Montparnasse, acabando mesmo por casar, em 1911, com uma escultora francesa, Yvonne Mortier. Em 1907 o pai de Francis Smith recebe uma carta assinada por muitos artistas portugueses que viviam em Paris, testemunhando o mérito do seu filho. Convencido, o pai passou a oferecer uma pensão que permitiu a Francis Smith dedicar-se inteiramente à sua arte sem grandes preocupações de ordem económica.
Naturalizou-se francês mas permaneceu sentimentalmente muito ligado a Portugal e à família, tornando-se um pintor de recordações da terra em que nasceu. Paisagens, recantos de cidades, cenas populares. No meio das mais diversas pessoas representadas, ou nalgum recanto, aparece com muita frequência, de quadro para quadro, uma figura humana, de fato preto e camisa branca, chapéu inclinado: é a representação do pai do pintor, em homenagem comovida a quem oportunamente o auxiliou.
Com pequenos traços enovelados, com que forma por vezes texturas rendilhadas, surgem desenhos de pedras, de folhagens, de pessoas em suave vibração. A cor é pura, entre o impressionismo e o fauvismo, aproximando-se das conceções de Bonnard. Na sua obra não existe rigidez de contornos mas sim o gosto pelos planos de cor rebatidos, pela utilização de pequenas pinceladas, não para efeitos impressionísticos de luz, mas para tornar mais apetecível o contacto com a matéria, desse modo animada. O lirismo de Francis Smith emana naturalmente da sua bonomia, como homem delicado, discreto, amigo dos seus amigos. Nunca nas suas pinturas se representam dramas, mas ambientes moderadamente festivos, uma vida quotidiana feita de doçura e serenidade. 
Francis Smith morreu em Paris em 1961, cidade onde se formou a Association des Amis de Francis Smith, em 1962, que lhe organizou uma exposição retrospetiva da sua obra no Musée Galliéra (1963) e todos os anos atribui um Prémio Smith. (Daqui)