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quarta-feira, 10 de abril de 2024

"Não cultives a fraqueza" - Poema de Francisco Miguel Duarte


Jakub Schikaneder (Bohemian painter, 1855–1924), The Sad Way, 1886-87.



Não cultives a fraqueza


Vive o fraco na fraqueza
o bom na sua bondade
vive o firme na firmeza
lutando por liberdade.

Não cultives a fraqueza,
procura sempre ser forte,
que o homem que tem firmeza
não se rende nem à morte.

Educa a tua vontade
faz-te firme: em decisões,
que não terá liberdade
quem não fizer revoluções.

Se queres o mundo melhor
vem cá pôr a tua pedra,
quem da luta fica fora
neste jogo nunca medra.


Francisco Miguel Duarte

(1907–1988)
 

Jakub Schikaneder, The Last Journey, c. 1880 
 
 
 
Revolução

 
Presume-se que o termo revolução foi importado da Astronomia, a qual assim designa a descrição de uma órbita completa de um corpo celeste. O uso do termo viria a conferir o seu significado atual, que radica na conversão da Revolução Francesa como revolução por antonomásia. Assim, a partir deste modelo de revolução, temos uma primeira definição desta como mudança radical de ideias. Revolutio é o étimo latino de revolução, embora sem o significado atual. Usava-se para designar a sucessiva passagem de um corpo de um estado a outro, ou então a "volta de algo" (re + volvere). Revolutio é a substantivação do adjetivo revolutus, particípio passado de revolvo, revolver, revolutum. Voltar de novo, dar voltas, mas também voltar ao mesmo: no plano das ideias esta última significação não tem sentido, pois perde o valor histórico que o uso do termo conferiu. Ou seja, "voltar ao mesmo" não é revolução.

Como se viu, o termo, no seu sentido atual, baseia-se na Revolução Francesa de 1789, caracterizada por uma mudança radical no plano das ideias, a qual arrastou profundas alterações nas formas de vida e no quadro das relações humanas. Da "fraternidade", que confirma a "igualdade" - elementos de mudança dessa revolução - chegou-se às palavras-chave de uma outra revolução paradigmática, a socialista: luta de classes, valor do trabalho, entre outras.

A revolução ganhou assim um cunho essencialmente político-ideológico, tornando-se, pela via marxista, o elemento-chave para a transformação do curso da história e como motor do processo mudança na conceção do poder. Aqui, através da Revolução Russa, dita socialista, de outubro de 1917, a revolução ganhou contornos de violência, tornou-se génese de luta armada como forma de um grupo, maioritário ou formado por pequenos grupos revolucionários, mudar o rumo político de um país. A revolução passou a ter, a partir da Comuna de Paris (1870) e desta Revolução Russa de 1917 ou da de Cuba em 1959, um significado de transformação violenta. Uma revolta, acontecimento isolado e mais fugaz, pode redundar numa revolução de carácter político-militar (que será assim um conjunto de revoltas, em certa medida).

Mas o termo revolução tem também uma natureza pacífica, quando essencialmente relacionado com a ciência e a tecnologia, a cultura e o pensamento, ou mesmo com a própria sociedade. Nesta, por exemplo, recorde-se a revolução feminista ao longo da segunda metade do século XX, mas com raízes anteriores. Nas ciências e na tecnologia, as descobertas do século XIX, o racionalismo, o empirismo e a industrialização, a partir das conceções liberais que a própria Revolução Francesa desencadeou, agrupam-se num todo que é a chamada revolução científica e tecnológica. Esta não é tão rápida como as de natureza política ou militar, mas pelo seu pendor para a mudança de mentalidades, comportamentos e progressos científicos operados, poderá ser designada como uma revolução constituída por um conjunto de pequenas revoluções que são as descobertas ou as invenções, algo que opera mudanças. Como exemplos destas revoluções, recordemos a invenção da imprensa de caracteres móveis, por Gutenberg (anos 40 do século XV), a própria Revolução Industrial do século XIX ou a revolução informática na segunda metade de Novecentos.

Mais lentas são as revoluções/alterações no campo das mentalidades, já que envolve processos operativos de alteração com maiores resistências e processos de perenidade fortemente enraizados não só nos grupos como em cada indivíduo. O Renascimento ou a Reforma Católica, por exemplo, são "revoluções" culturais e mentais lentas, como também o foram a revolução sexual dos anos 60/70.


Revoluções 
(apenas o nome por que são conhecidas)
 
  • Liberais
1524-25   (Guerra) dos Camponeses
1642-1653   Primeira revolução inglesa (republicanismo)
1688-89   "Gloriosa" na Inglaterra (monarquia constitucional)
1776   Americana
1789   Francesa
1830   Revoluções de 1830 (Europa, anti-absolutistas)
1848   Revoluções de 1848 (Europa)
1905   Russa (Domingo Sangrento; Couraçado Potemkine)
1910 (-1920)   Mexicana (derrube de Porfírio Diaz)
1911   Chinesa ou de Xin Hai (derrube da dinastia Qing)
1918   Alemã (república de Weimar)
1954-62   Argelina
1968   maio '68
1974  25 de Abril de 1974 (dita dos "Cravos")
1979   Nicarágua
1998   Indonésia
2000   outubro (Sérvia, derrube de Slobodan Milosevic)

  • Socialistas
1919   Insurreição espartakista alemã (Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht)
1936   Espanhola

  • Antissoviéticas
1956   Húngara
1968   primavera de Praga
1988   "Cantante", estónia
1989   Revolução Checa de 1989

  • Marxistas-leninistas
1917   Russa (fevereiro, Menchevique – outubro, Bolchevique)
1920   Mongólia
1948   Coreia do Norte
1919, 1944 e 1949   Hungria
1949   China
1952   Bolívia
1954   Vietname do Norte
1958   Iraque
1959   Cubana
1964 e 1968   Congo
1966 (-1976)   Cultural Chinesa
1967   Iémen do Sul
1969   Líbia
1969  Somália
1972   Benim
1974   Etiópia
1974   Guiné-Bissau
1975   Camboja
1975   Vietname do Sul
1975   Laos
1975   Madagáscar
1975   Cabo Verde
1975   Moçambique
1975   Angola
1978   Afeganistão
1979   Granada
1979   Nicarágua
1983   Burkina Faso (Alto Volta)

  • Islâmicas
1979   Irão
1996   Taliban (Afeganistão) 
(daqui)
 

quinta-feira, 17 de março de 2022

"Guerra" - Poema de Natércia Freire


Silvestro Lega (Italian realist painter, 1826-1895), Sharpshooters Leading Prisoners, 1861
(Episodio della guerra del 1859 - Ritorno di bersaglieri italiani da una ricognizione), Florence
Oil on canvas, 57,5 x 95, National Gallery of Modern Art, Palazzo Pitti
 

 
Guerra


São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Via-os chegar, às tardes, comovidos,
nupciais e trementes
do enlace da Vida com os sentidos.

Estiveram no meu colo, sonolentos.
Contei-lhes muitas lendas e poemas.
Às vezes, perguntavam por algemas.
Respondia-lhes: mar, astros e ventos.

Alguns, os mais ousados, os mais loucos,
desejavam a luta, o caos, a guerra.
Outros sonhavam e acordavam roucos
de gritar contra os muros que há na Terra.

São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Nove meses de esperança, lua a lua.
Grandes barcos os levam, lentamente... 
in 'Liberta em Pedra', 1964
 



Guerra Austro-Franco-Sarda


Tem as suas origens nas ambições da casa de Saboia; esta pretendia estender a sua influência na Itália, no desejo de os radicais italianos anularem os Estados da Igreja e na aceitação, por parte de Napoleão III, das "nacionalidades europeias", o seu desejo de obter Nice e a Saboia para a França, deixando a esta casa italiana a possibilidade de tomar a Lombardia. Os historiadores veem nesta ação uma demonstração da ambição política da Condessa de Castiglione (que era amante de Cavour, Primeiro-Ministro da Saboia).
A guerra terá envolvido cerca de 120 000 Franceses, que desembarcaram em Génova, 40 000 Sardos e 180 000 Austríacos (vindo este contingente a ascender aos 270 000 efetivos).
A guerra travou-se entre maio de 1859 e julho do mesmo ano. O primeiro registo bélico ocorreu a 20 de maio, na batalha de Montebello, onde Forey bateu o general austríaco Stadion. Em Palestro, a 30 do mesmo mês, as tropas de Vítor Emanuel II e do Coronel Chabron tomaram, à baioneta, as baterias austríacas de Gyulay. Este mesmo cabo de guerra será batido em Magenta (4 de junho) por Napoleão III e Mac-Mahon. No dia 8, Napoleão e Vítor Emanuel entraram em Milão
No dia 24 desse mês ocorreu o maior confronto desta guerra, a batalha de Solferino, na qual Napoleão III bateu Francisco José I da Áustria. Neste sangrento combate os Austríacos perderam 22 000 homens contra 17 000 baixas entre Sardos e Franceses. A guerra estava decidida. No dia 17 de junho foi assinado o armistício de Villafranca. A 10 de novembro, pelo Tratado de Zurique, acordou-se a paz: a França recebia a Lombardia, entregue depois ao Piemonte e a Áustria conservava Veneza. (daqui)
 
 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

"Morte no Interrogatório" - Poema de Egito Gonçalves



Vasily Vereshchagin (Russian, 1842-1904), Spy, 1878-1879
 


Morte no Interrogatório 


Às três da madrugada eu dormia sem sonhos
Minha mulher dormia a meu lado.
Eu tinha uma das mãos pousada sobre a sua coxa
Um luar de outono brilhava sobre as ruas
um ar agreste preparava as noites para o inverno

Às três da madrugada os companheiros
dormiam quase todos.
Um deles, porém regressava, fatigado,
de um trabalho noturno
Era a hora dos fogos-fátuos sobre as campas;
a hora em que os exilados buscam o sono em comprimidos.

Às três da madrugada sua mulher ainda velava.
Embrulhada num xaile tinha um livro entre as mãos;
insone, acendera a luz havia meia hora.
Na sala o interrogatório atravessava o tempo;
lâmpadas de mil vátios tornavam a vida irrespirável.

Às três da madrugada o coração fraquejou
e os dois comissários ficaram perante um homem morto
e dois cinzeiros com trinta pontas de cigarros. 

 
 
 
 

Segunda Guerra Mundial

 
A Segunda Guerra Mundial foi gerada a partir dos erros e imperfeições do Tratado de Versalhes, pelos efeitos nocivos da crise de 1929 e pelo conflito ideológico em torno das rivalidades entre o fascismo, por um lado, e os regimes democratas e o comunismo por outro. Neste conflito à escala do mundo, foram utilizados meios de destruição nunca vistos, como a bomba atómica, numa verdadeira guerra total que teve graves repercussões a vários níveis.

Na Primeira Guerra Mundial as responsabilidades do conflito bélico foram mais ou menos repartidas pelos seus intervenientes, enquanto que na Segunda Guerra Mundial a responsabilidade é indubitavelmente atribuída às ambições imperialistas germânicas e japonesas. Com o desfecho da Grande Guerra, a Alemanha ficara numa posição bastante difícil, agravada pela imposição de ter de pagar as "reparações" da guerra e por sofrer diretamente os efeitos da crise de 1929.

Este panorama crítico facilitou a adesão dos alemães ao programa político de Adolf Hitler. Este era um líder político carismático que exigia a revisão do Tratado de Versalhes, e tinha pretensões para além dos conceitos pangermanistas. Hitler construiu um discurso, sedutor para muitos alemães, assente na proclamação da superioridade da raça ariana e num sentimento profundamente racista, voltado, sobretudo, contra a população judaica.

A superioridade da raça e o antissemitismo eram justificados pelo direito que a Alemanha reclamava de "alargar o seu espaço vital" ("Lebensraum"), à custa de territórios de povos considerados inferiores da Europa Central e Oriental.

O Japão partilhava com a Alemanha esta ideologia imperialista. Desde a década de 30, o país encontrava-se sob a dominação do partido militar e procurava obter mercados para a sua produção em crescendo e facilidades comerciais. Além disso, pretendia igualmente alargar a sua rede de influências no Pacífico e na Ásia Oriental. Entre 1931 e 1932 anexou a Manchúria, e em 1937 ocupou-se da conquista da China, vindo a ameaçar as posições inglesas (Singapura, Malásia, Índia,.. .) e americanas no Pacífico.

A Alemanha de Hitler, a Itália fascista e o império nipónico, apresentavam neste período regimes políticos com algumas afinidades. Em comum, tinham as preocupações militaristas e, sobretudo, a antipatia relativamente às potências saídas vencedoras na luta pela hegemonia dos oceanos.

A criação do eixo Berlim-Roma, a 1 de novembro de 1936, resultou das sanções impostas à Itália pela comunidade internacional, na sequência da Guerra da Etiópia de 1935. Àquela aliança veio a aderir, pouco depois, o Japão.

A Guerra Civil Espanhola, em 1936-1939, foi um dos "palcos" de ensaio da II Guerra Mundial (a par da Áustria, da Manchúria e, em menor grau, da Etiópia). Neste conflito, a Inglaterra, a França e a URSS mostraram-se mais inclinadas para a defesa da fação governamental republicana, enquanto a Alemanha e a Itália estavam claramente ao lado da fação nacionalista do general Franco, a quem concederam apoio militar, através do qual puderam testar as armas e experimentar táticas de guerra.

O líder alemão procurava absorver territórios por tradição germânicos (como a região dos Sudetas, na Checoslováquia), ao passo que o Ocidente Europeu, sobretudo a Inglaterra, estava como que "adormecido" e confiante numa política de concessões que mais não fez do que fortalecer a confiança da Alemanha.

A Inglaterra e a França só despertaram para o problema alemão quando Praga foi ocupada pela Wehrmacht (um exército terrestre alemão). Nesta altura, a URSS tentou uma aproximação com a Alemanha (Pacto Germano-Soviético de 23 de agosto de 1939), pois considerava a capacidade de resistência ocidental pouco consistente. Este facto permitiu a Hitler avançar para a guerra, sem temer entrar em combate em duas frentes.

A 1 de setembro de 1939, a Wehrmacht avançava sobre a Polónia, e a 3 desse mês a Inglaterra, e depois a França, declaravam guerra ao III Reich.

Entre 1940 e 1941, a II Guerra Mundial entrou na sua primeira fase, denominada "Guerra Relâmpago" ("Blitzkrieg"), na qual a Alemanha dispunha de preciosas vantagens: uma forte unidade de comando, um líder carismático próximo do povo, uma já longa e eficiente propaganda, um exército bem apetrechado e bem treinado que lançou ataques relâmpago, a partir de tanques e da sua aviação. Esta "blitzkrieg" consistia no bombardeamento aéreo intensivo dos objetivos e no avanço rápido da infantaria, protegido pelas eficazes e velozes divisões blindadas - "Panzer".
 
A França não tinha capacidade de resposta a um ataque deste tipo, uma vez que não conhecia uma unidade política; estava ainda presa a táticas antigas e não dispunha de um exército e de uma aviação tão poderosas como os alemães. Como reflexo desta obsolência tático-militar refira-se o facto de Paris basear a defesa numa estática e ultrapassada linha defensiva concebida para um conflito como o da I Guerra Mundial: a "linha Maginot".

No espaço do mês de setembro de 1939, a Polónia foi invadida e dividida entre a Alemanha e a União Soviética, sem que a França tivesse tido sequer hipótese de reagir. Entretanto, a URSS atacava a Finlândia, que se revelaria um "osso duro de roer" e inconquistável. Agora as atenções da guerra estavam voltadas para a Escandinávia.

Os alemães ocuparam de seguida a Dinamarca (num só dia!), e atacaram a Noruega em abril de 1940, obrigando à retirada dos seus inimigos em junho de 1940. Fechavam assim o Atlântico Norte e o báltico aos ingleses e soviéticos, para além de acederem ao ferro nórdico, tão importante para a indústria de guerra.

A 14 desse mês, a cidade de Paris foi tomada pelas forças alemãs, e o governo de Pétain pediu o Armistício, assinado a 22 de junho, numa altura em que os alemães tinham já chegado à fronteira com a Espanha. Apenas a França meridional (à exceção da Aquitânia) ficou livre dos alemães. Na linha Maginot, nem sequer se chegou a disparar um tiro, pois os alemães contornaram-na através da invasão das neutrais Bélgica e Holanda, o que surpreendeu a França e indignou o mundo. A chamada "drôle de guerre" ("guerra de brincadeira") revelou-se extremamente amarga para os franceses.

A 10 de julho a Itália juntou-se à Alemanha, e a Inglaterra estava cada vez mais isolada, sobretudo depois da queda da França. No entanto, sob a forte liderança do Primeiro Ministro britânico Winston Churchill, erguia-se a resistência. Esta beneficiou de uma aparente derrota que consistiu na célebre e dramática retirada de Dunquerque, à primeira vista um desastre para os Aliados, mas que permitiu a reorganização das forças em solo britânico. Logo então se verificou a mobilização e apoio da nação inglesa; na retirada, a grande operação "Dínamo", foram utilizados todos os meios navais possíveis e os cidadãos ingleses participaram usando os seus barcos de recreio para evacuar as tropas.

Hitler não pode invadir a ilha, num primeiro momento, mas procurou continuar a desafiar a sua moral, através de constantes bombardeamentos.

Na "Batalha de Inglaterra", travada entre agosto e novembro de 1940, muitas cidades inglesas, sobretudo as do sul, foram destruídas mas, apesar disso, a Luftwaffe (a força aérea alemã) fracassou no seu intento. Os ingleses contavam com a sua superioridade marítima, e no verão desse ano foram abastecidos com material de guerra vindo da América do Norte. Além disso socorreram-se de um novo invento militar extremamente eficaz e ainda não possuído pelos alemães: o radar, que surpreendeu Hitler e os seus generais.

Na Líbia os italianos lutavam com os ingleses enquanto as potências do Eixo se ocupavam da reorganização da Europa segundo as suas conveniências políticas. Mussolini queria mais protagonismo do que o que lhe era concedido, e por essa razão decidiu atacar a Grécia em 28 de outubro de 1940; só que, tanto na Grécia como na Líbia, teve de pedir auxílio aos alemães.

Ao mesmo tempo que o Afrikakorps do general Rommel chegava a África, em fevereiro de 1941, a Jugoslávia era invadida pelas divisões blindadas de von Kleist; pouco depois, as de List invadiram a Grécia e Creta. Nestas operações manifestou-se, mais uma vez, a capacidade inventiva da máquina de guerra alemã: falamos da intervenção das tropas aerotransportadas, que já tinham tido imenso sucesso e efeito surpresa na Holanda e Dinamarca. Com a II Guerra Mundial e pela primeira vez na história dos conflitos bélicos, eram utilizados paraquedistas.

Entre 1941 e 1942 o Eixo avançou; todavia, os planos de Hitler foram alterados. A Guerra Relâmpago não lhe dera a conquista da Inglaterra e as relações com a URSS, entretanto, tinham-se destabilizado, a ponto da Alemanha invadir o seu ex- "aliado", na "Operação Barbaroxa", iniciada em junho de 1941, atrasada por dois meses devido a problemas nos Balcãs.

O sucesso inicial pertenceu às forças hitlerianas, que em setembro de 1941 cercaram Leninegrado (atual S. Petersburgo) e tomaram Kiev a 19 de setembro. O general von Block saiu vitorioso nas batalhas do cerco de Minsk e em Bialystock, e, seguidamente, nas de Viazma-Briansk. Em outubro, chegava às portas de Moscovo.

A Wehrmacht, exausta e esgotada, retirou-se então para retemperar as suas forças, mas quando retomou as operações foi surpreendida pelo rigoroso inverno russo. Esta campanha revelou-se um extremo fracasso para os até aí sempre vitoriosos exércitos alemães. A ação do célebre "general inverno" e a resistência das tropas soviéticas, foram decisivas para a derrota nazi a leste. Os exércitos alemães, profundamente desgastados e dizimados, foram obrigados a retirar.

A primeira grande derrota de Hitler ecoou por toda a Europa, onde crescia o sentimento de revolta das populações contra o invasor e a esperança renascia. Criava-se, entre os alemães, principalmente os militares, o terrível espetro negativo da "Frente Russa", um castigo para muitos soldados que levavam apenas "bilhete de ida"-

Em 1941 a Inglaterra era favorecida por uma lei norte-americana votada pelo congresso, a lei de empréstimo-arrendamento, que permitiu o envio de material para a Europa, imediatamente colocado ao serviço da Inglaterra; nesse mesmo ano, os americanos aprovavam um plano de auxílio à URSS. A 14 de setembro de 1941, num navio de guerra no Atlântico, foi assinada a Carta do Atlântico, entre a Inglaterra e os Estados Unidos da América, um documento onde eram propostos os objetivos da guerra e do pós-guerra por parte dos Aliados.

Nesta fase dos acontecimentos o presidente norte-americano, Roosevelt, não tinha o apoio da opinião pública americana, que era contra a entrada do seu país na guerra. No entanto, esta posição mudou radicalmente com o ataque japonês a Pearl Harbor, que fez entrar os EUA na II Guerra Mundial (7 de dezembro de 1941); a 11 de dezembro, a Itália e a Alemanha declararam guerra aos Estados Unidos, numa altura em que a URSS adotava uma posição de neutralidade no conflito do Extremo Oriente.

Nesta área, o Japão já tinha tomado o Sudoeste Asiático e ameaçava a Austrália. A ofensiva apenas foi contrariada pela batalha de Midway (ilhas a norte do Hawai), em junho de 1942, em que os americanos vencem e travam o avanço nipónico, mudando o curso da guerra do Pacífico. Com estes acontecimentos terminava, segundo os especialistas, a fase vitoriosa do Eixo. A partir de então, a guerra entrava naquilo a que vulgarmente se designa "o equilíbrio de forças", um período que a longo prazo se revelará decisivo no percurso do conflito.

O ano de 1942 foi um bom ano para o Eixo. Em julho de 1942 a Wehrmacht lançou uma nova ofensiva, conquistou a Criméia, chegou ao Cáucaso (região petrolífera) e ao Volga (minas de carvão e ferro abundantes), enquanto o Afrikakorps se aproximava do Cairo. Começava a crescer o prestígio do comandante Erwin Rommel, encarado por todos (alemães e adversários aliados) como um superdotado e protegido pela sorte. A tal ponto que o comando Aliado publicou diversas ordens de serviço onde se referia, expressamente, que aquele a quem chamavam "a raposa do deserto", era um militar como outro qualquer e passível de ser derrotado - como viria a suceder.

O Reich estava a interferir no Médio Oriente, instigando a revolta das populações árabes contra os ingleses e, juntamente com o Irão, atacava a Índia britânica, também fustigada pelos japoneses, que dominavam a leste, a colónia inglesa de Burma (hoje Myanmar ou Birmânia). Mas estas vitórias quase se podem considerar o "canto do cisne" do avanço das forças totalitárias.

Nesta altura a batalha também evoluia no Atlântico para um conflito naval que se travava mesmo antes da entrada oficial dos Estados Unidos na guerra. A ação dos submarinos do Almirante Doenitz, (no fim da guerra, por uns dias, ainda sucedeu a Hitler), os terríveis "U-Boat" (U2) foi avassaladora, afundando milhões de toneladas, entre navios de guerra e de transporte.

Mais uma vez a tenacidade da resistência aliada, reforçada com a entrada dos americanos no conflito e o desenvolvimento de novas armas (como as cargas de profundidade) e táticas navais, foi decisiva para os aliados levarem a melhor. A "limpeza" dos mares, até aí infestados de submarinos germânicos, foi decisiva para a manutenção e intensificação de linhas de abastecimento entre a Europa (mais propriamente entre as ilhas britânicas e as bases americanas dos Açores) e a América do Norte.

O "raid" japonês a Pearl Harbor desorganizou momentaneamente a máquina bélica norte-americana. Contudo, os EUA recuperaram bem com uma rápida readaptação da indústria de guerra, a qual prontamente recompensou as perdas sofridas. Este país assumiu a partir de então o papel de "arsenal" das potências aliadas.

O Exército Vermelho continuava a lutar, ao mesmo tempo que os aliados passavam ao contra-ataque bombardeando as cidades ocupadas numa Europa dominada pela Alemanha. Esta nação era forte mas revelava fragilidades: a carência de matérias-primas e de mão de obra eram as mais evidentes. Para as resolver, os nazis aplicaram uma política repressiva nos países ocupados, explorando os seus reclusos e obrigando à deportação de milhares de pessoas para diversos campos-de-trabalho. Contudo, o objetivo não era apenas este. Os nazis praticaram uma politica racista, perseguindo ciganos e sobretudo judeus, em especial no leste da Europa. Os vários milhões de pessoas deportadas não foram levadas para campos-de-trabalho; foram conduzidas para os tristemente célebres campos de morte - Auschwitz, Dachau, Treblinka, entre outros - onde foram pura e simplesmente exterminadas.

Do outono de 1942 a 1945, a vitória passou a estar ao alcance dos Aliados. Terminara a fase do equilíbrio de forças e contenção no avanço territorial germânico e iniciava-se a última etapa do conflito: o avanço aliado. A 23 de outubro de 1942 o general Montgomery iniciou uma contra ofensiva britânica no Egito, perseguindo as forças italianas e germânicas que se refugiaram na Tunísia. Depois de El Alamein, "Monty" dominava o Norte de África. Para além do génio militar deste general bem como do seu congénere norte-americano Patton, que derrotou os italo-alemães na batalha de Kesserling, o VII exército aliado beneficiou do desgaste do material alemão e do corte no envio de reforços por parte de Berlim. Rommell, entretanto, é enviado para a França, onde terá a seu cargo a supervisão da defesa da barreira atlântica alemã ("a muralha do Atlântico") contra a eminente invasão aliada.

Em novembro, as tropas anglo-americanas desembarcaram no Norte de África francês, de onde partiu o ataque de Itália. No final de 1942, o Exército Vermelho lançou uma operação ofensiva no Volga, onde as forças germânicas comandadas por Von Paulus resistiram até ao limite das suas forças, vindo a capitular a 2 de fevereiro de 1943. Neste contra-ataque soviético, deu-se a célebre batalha de Estalinegrado (hoje Volvogrado, S. Petersburgo), confronto decisivo e tristemente emblemático da II Guerra Mundial. De 25 de agosto de 1942 a 2 de fevereiro de 1943, os alemães ocupantes (depois da ofensiva sobre o Cáucaso) sofreram um duro cerco dos soviéticos, perante o qual capitulam, deixando um rasto de cerca de 300 000 soldados seus mortos. Rebentava um verdadeiro escândalo e mau-estar entre os comandos alemães: pela primeira vez, um general alemão, von Paulus, aceitava render-se ao inimigo. Hitler chamar-lhe-ia "traidor". O cerco a Estalinegrado foi mesmo considerado um dos episódios mais dramáticos da guerra. A população soviética, abandonada à sua sorte, sofreu horrores nunca vistos. Conta-se que, para sobreviver, muitos soldados foram levados a alimentar-se com carne humana, dos familiares que pereceram vítimas das balas alemãs, do frio e da subnutrição ou mesmo de soldados.

Nesse ano o Eixo perdia em todas as frentes. No Pacífico, os americanos conquistam Guadalcanal, e estavam a preparar uma grande ofensiva. Entre o inverno e a primavera, o Exército Vermelho prosseguiu a sua marcha, recuperou Rostov em fevereiro de 1943, Kharkov em agosto; Donetsk e Kuban em setembro, Smolensk a 25 de setembro e Kiev a 6 de novembro.

A 24 de julho, Mussolini tinha caído nas mãos dos seus inimigos, na sequência do desembarque dos Aliados na Sicília a 10 de julho de 1943, enquanto a Alemanha persistia em resistir. Mussolini fora preso pelo rei, mas de seguida foi libertado pelas SS, enquanto a Itália continental era ocupada pela Wehrmacht.

A 9 de setembro de 1943, os Aliados desembarcaram em Itália, em Anzio, onde encontraram uma forte resistência. Só a 4 de junho de 1944 conseguiram tomar a cidade de Roma depois de conquistarem o reduto nazi de Monte Cassino, cerco que também ficou célebre tal foi a destruição e mortandade atingidas. Na tomada de Itália, os franceses entraram de novo em grande força no conflito com um contingente das F.F.L. (Forças Francesas Livres).

Após o encontro entre os líderes das potências aliadas, o presidente norte-americano F. D. Roosevelt, o primeiro Ministro britânico Winston Churchill e o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (P.C.U.S.) José Estaline, efetuado na Conferência de Teerão (Irão) entre novembro e dezembro de 1943, os ingleses e americanos prepararam uma ofensiva militar decisiva para o desfecho deste conflito - o desembarque na Normandia. Esta operação, de nome de código Overlord, dirigida sob o alto comando do general Dwight Eisenhower, foi preparada ao longo de meio ano.

A Alemanha tentava aguentar a situação militar e manter o moral, mas a guerra começava a escapar do seu controlo. Na primavera de 1944, os russos desenvolveram uma nova grande ofensiva no vale do Dniepre. Tomaram Odessa, a Criméia e Sebastopol, invadindo depois a Roménia e a Bulgária.

Entre 1944 e 1945, a guerra entrou numa fase que conduziria à derrota total das forças tripartidas do Eixo. A 6 de junho de 1944 (dia D, ou J, de jour para os franceses), as forças conjuntas inglesas e americanas desembarcaram na costa da Normandia, onde se instalaram, para depois penetrarem na linha defensiva alemã de Avranches a 30 de julho, que exploraram bem, até à entrada em Paris a 25 de agosto, passando depois para o Somme, Aisne e Marne. O segundo desembarque das forças aliadas, desta feita franco-americano, efetuou-se na Provença a 15 de agosto, permitindo a libertação de Toulon e de Marselha (na França Livre, mas dominada pelos nazis), duas importantes bases navais. À medida que se desenrolavam estes acontecimentos, ações de guerrilha (da Resistência e dos "Maquisards") tentavam destabilizar as forças germânicas, na retaguarda.

Era, por assim dizer, o prolongamento de uma das facetas mais heroicas da guerra: a da resistência nos países ocupados. O grande episódio desta "guerra da noite" desenrolara-se por toda a França onde o "maquis" (designação de um género arbustivo típico do sul de França, onde se localizavam os redutos dos resistentes "maquisards") protagonizou a chamada "batalha do rail", desorganizando e sabotando o sistema de transporte e abastecimento das tropas alemãs, através de comboios, bem como fornecendo informações vitais aos comandos aliados. Entre os mártires desta "guerra", citem-se, entre tantos, os nomes de heróis como Jean Moulin ou o historiador Marc Bloch.

Mas este movimento não se resumiu à França. Em todos os países houve quem não receasse perder a vida pela liberdade pegando em armas contra o invasor e, neste processo, destacaram-se os militantes dos partidos de esquerda. A título de exemplo veja-se o caso da Jugoslávia, cuja resistência ficou, quase em exclusivo, a dever-se aos guerrilheiros do general croata Tito (Jozip Broz). A Wehrmacht entretanto retirava-se para as fronteiras alemãs, mas Hitler depositava as suas esperanças na utilização de uma nova arma: as bombas V1 e V2, usadas em 1944 no bombardeamento das cidades inglesas, a partir de bases na Noruega e na ilha de Helgolândia.

Depois de alguns sucessos na contraofensiva das Ardenas, os alemães foram travados pelos norte-americanos. Na região renano-alsaciana, os franceses ocupavam Estrasburgo em setembro, mas só acabaram com a bolsa de resistência alemã de Colmar em fevereiro de 1945.

A frente oriental parecia estar estável, mas o Exército Vermelho preparava a sua última grande ofensiva, concretizada a partir de 12 de janeiro de 1945, quando tomou Varsóvia, Cracóvia, Lodz e, em fevereiro, Budapeste e Poznan.

A partir de fevereiro de 1945, a guerra chegava ao interior das fronteiras da Alemanha. Os alemães, estupefactos, foram batidos pelos russos em Torgau, ponto de encontro das duas frentes aliadas, no Elba, a 25 de abril de 1945. Em Berlim, uma cidade cercada, Hitler foi informado da morte de Mussolini, enforcado em Milão por resistentes italianos a 28 de abril. Nesta altura, o líder nazi havia-se refugiado num "bunker" na capital do Reich. A guerra estava perdida. Passados dois dias Hitler pôs termo à sua vida, juntamente com a sua companheira Eva Braun (casados oficialmente havia poucos dias); e o novo governo foi formado pelo almirante Doenitz, que pediu o final das hostilidades. O cadáver de Hitler nunca foi descoberto, provavelmente por se ter transformado em cinzas depois de cremado pelos seus esbirros. Já Goebbels, ministro da Propaganda, sua mulher e oito filhos, que se tinham suicidado, foram queimados, mas os corpos ainda foram encontrados reconhecíveis.

A 2 de maio, Berlim era oficialmente tomada pelos soviéticos, no mesmo dia em que as tropas alemãs eram derrotadas definitivamente na Itália. A capitulação dos alemães foi assinada a 8 de maio. Em conformidade com as determinações acordadas na Conferência de Ialta de fevereiro de 1945, a Alemanha foi então dividida em zonas de ocupação.

No Pacífico, a Guerra ainda não tinha terminado. Os americanos tinham desembarcado nas Filipinas em setembro de 1944, tomaram Manila em fevereiro do ano seguinte e destruíram a quase totalidade da frota japonesa na batalha naval de Okinawa em 6 e 7 de abril de 1945, às "portas" do Japão. No arquipélago filipino, como também na China, os Japoneses criaram campos prisionais medonhos que não ficam atrás dos dos nazis em requintes de crueldade.

A guerra aqui parecia continuar porque o Japão ocupava ainda a Indonésia, a Indochina, uma parte da China e algumas ilhas no mar Amarelo e da China Meridional. Para pôr um ponto final nesta situação, o presidente americano mandou lançar duas bombas atómicas sobre o Japão, uma em Hiroxima a 6 de agosto de 1945, e uma segunda em Nagasáqui a 9 de agosto do mesmo ano (um saldo imediato de mais de 120 000 mortos). Estes dois atos levaram à capitulação dos japoneses, assinada a 14 de setembro de 1945, no couraçado americano Missouri, estacionado na Baía de Tóquio. Do lado americano, estava o general Douglas McCarthur, o comandante-chefe das forças aliadas no Pacífico e que havia coordenado a guerra nesta zona desde a invasão japonesa das Filipinas no início de 1942.

A II Guerra Mundial fez cerca de sessenta milhões de mortos, metade dos quais civis. Para além da destruição de vidas humanas e da destruição massiva de quase todas as estruturas produtivas europeias, este conflito mundial provocou a derrocada dos valores da civilização ocidental, questionados por esta onda de violência sem precedentes. Era muito difícil superar este terrível clima de terror, que culminou com a utilização da mais destruidora de todas as armas, a bomba atómica, ainda hoje polémica, e conheceu o horror dos horrores com a "Solução Final" nazi que foi o Holocausto (Shoah, entre os judeus).

Com o final da guerra a tragédia não acabou; havia aproximadamente 20 milhões de deslocados, que levantavam questões de repatriamento; a economia da Europa estava arrasada; e os países de Leste dominados pelas forças hitlerianas passaram a estar sob o domínio de regimes totalitários de esquerda, centrados na URSS de Estaline, um líder brutal também.

O Mundo estava agora dividido entre dois fortes polos de influência, os Estados Unidos e a União Soviética. Os povos colonizados começavam a reivindicar a sua libertação e a Alemanha deixava de ser um estado coeso, dando lugar a duas nações: a República Federal da Alemanha (Ocidental) e a República Democrática Alemã (leste). (Daqui)
 
 

segunda-feira, 29 de março de 2021

"Sentimento do Mundo" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Claus Bergen
(German, 1885 – 1964), ‘Der Kommandant’ (‘The Commander’), 1918
National Maritime Museum, Greenwich, London. 

[A portrait of a German U-boat Commander of World War One standing on the after deck of a U-boat, facing towards the horizon. This large painting was the result of official war work undertaken by Claus Bergen when he was aboard ‘U-53’ crossing the Atlantic to Newport and back in a stormy voyage of many weeks. ‘The Commander’ is Captain-Lieutenant Hans Rose. The painting has tried to capture the emotions through the unusual composition: the role of a commander was beset with many perils, the threat of death was ever present, and the painting aims to evoke the vigilance and silence necessary in enemy infested seas, as well as the isolation of command itself. (Daqui)


Sentimento do mundo

 
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer 
mais noite que a noite. 
do livro 'Sentimento do Mundo, 1940
 
 


Sentimento do Mundo
 
Por Fernando Marcílio

Os livros que Carlos Drummond de Andrade publicou nos anos 30 trazem muitos poemas escritos por ele ao longo da década anterior. Nesses textos, a influência modernista é bastante perceptível, tanto na opção pela liberdade formal dos versos livres e brancos, quanto na preferência temática pelo cotidiano e pela vida urbana. 

Sentimento do Mundo, livro de 1940, traz poemas escritos ao longo da segunda metade da década anterior. Ali, evidencia-se a assimilação sólida da influência modernista, à qual o poeta confere um tom pessoal, que aparece, por exemplo, nas referências ao universo rural que permeia as memórias poéticas do escritor.

Apesar de Drummond ter iniciado sua carreira já em um elevado patamar de qualidade, é notável como em Sentimento do Mundo se percebe o início de sua maturidade artística. Na década seguinte, anos 50, ele refinaria ainda mais a expressividade lírica, confirmando uma dicção poética particular no conjunto dos poetas modernistas.

Essa personalidade própria é indicada no interesse pelas questões sociais. É verdade que esse tema sempre foi explorado pelos modernistas, desde a primeira geração. O que ocorre com Drummond diz respeito à maior transparência do posicionamento político. No caso do poeta mineiro, seus textos tendem a expressar com clareza cada vez maior sua postura marxista. Na obra posterior, A Rosa do Povo, a posição ideológica de Drummond ganharia ainda mais evidência.

A acentuação da temática social no livro de 1940 é mais do que justificável pelo contexto de produção dos poemas: a Europa vivia o clima que culminaria com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o Brasil assistia à insistência de Vargas em apegar-se ao poder, que o conduziria ao golpe do Estado Novo – oficialização da ditadura. Tais fatores determinam uma tensão política à qual dificilmente o poeta poderia ficar alheio.

No entanto, Drummond não deixa de se questionar a respeito das potencialidades efetivas da poesia política. Esse questionamento confere uma interessante oscilação a sua arte: de um lado, temos a reafirmação da necessidade de uma reação à opressão e, de outro, a manifestação de fatalismo diante das dificuldades dessa reação.

Contexto

Sobre o autor
O primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia, de 1930, inaugurava uma carreira que renovaria a literatura brasileira por décadas. Ao longo dos anos 30, Drummond fez de sua arte um espaço de reflexão sobre os acontecimentos de seu tempo – o governo Vargas e a proximidade da guerra europeia. E seria assim para o resto de sua vida poética: a busca do lugar do Ser no mundo que o rodeia.

Importância do livro
Uma das tarefas da geração de poetas que publicou seus primeiros livros a partir dos anos 30 foi a de consolidar as conquistas modernistas inauguradas em 1922. Assim, os versos livres e brancos e a linguagem coloquial já não causam surpresa em Sentimento do Mundo. A novidade fica por conta do tratamento temático. Sem se deixar levar pela poesia panfletária, Drummond preferiu o caminho mais árduo da exposição das tensões que essas questões colocavam aos intelectuais de seu tempo.

Período histórico
A década de 1930 possui dois polos de tensão muito claros. No plano internacional, os acontecimentos que teriam como desdobramento a Segunda Guerra, a partir de 1939. No Brasil, a acomodação de Vargas no poder, consolidada com a decretação do golpe do Estado Novo em 1937.

Análise

“Mundo mundo vasto mundo / mais vasto é o meu coração” – esses versos pertencem ao “Poema de sete faces”, publicado em Alguma Poesia, de 1930, o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade. Os primeiros versos de “Mundo grande”, poema de Sentimento do Mundo, publicado dez anos depois, parecem ser uma resposta a eles: “Não, meu coração não é maior que o mundo. / É muito menor”. Entre um e outro trecho, há todo um trabalho de pesquisa interior, em que duas tendências fortes da poesia do escritor são colocadas em confronto: de um lado, a persistência do intimismo e da subjetividade; de outro, a imposição dos fatos históricos, que exigiam uma arte comprometida, engajada, que respondesse adequadamente às questões que o tempo colocava diante dos intelectuais. 

Depois das inovações de linguagem promovidas pelos modernistas de 1922, era preciso revolucionar a própria sociedade, o “mundo caduco” que dava sinais cada vez mais claros de esquizofrenia.

Os versos livres e brancos e o coloquialismo da linguagem, marcas características da literatura modernista, estão presentes no livro, heranças claras de Mário de Andrade e Manuel Bandeira (este último homenageado em um poema do livro). Ao lado delas, nota-se a convivência pacífica entre imagens simples e outras, mais herméticas, de teor surrealista.

A composição dos poemas do livro coincide com a transferência de Drummond para o Rio de Janeiro, na condição de funcionário público federal. Sua poesia ganha em amplitude, seu olhar parece lançar-se sobre o mundo (“Mundo grande”). No entanto, a marca da terra natal não o abandona (“Confidência do itabirano”), e sua mineiridade continua a aflorar com toda a força (“Canção da moça-fantasma de Belo Horizonte”).

O vilão era o estado opressor – responsável tanto por ditaduras espalhadas pelo mundo, da Alemanha ao Japão, da Itália a Espanha, de Portugal ao Brasil, quanto pela miséria a que estava relegada a maior parte da população do planeta. A vitória sobre ele dependia da ação efetiva dos oprimidos. Embora se sinta assim, o poeta acredita que o movimento transformador venha, de fato, dos trabalhadores, mas seu diálogo com eles é cheio de tensão e de dificuldade de compreensão (“O operário no mar”). A distância social é sentida com dor e angústia (“Privilégio do mar”) e expressa, por vezes, com a acidez da ironia (“Os inocentes do Leblon”).

No entanto, é preciso vencer essa distância. O poeta se lança a essa tarefa, buscando alargar seus horizontes de comunicação (“Mãos dadas” e “Os ombros suportam o mundo”). Tem consciência dos riscos (“Congresso Internacional do Medo”), mas teme, acima de tudo, os efeitos da alienação, isto é, a sensação de distanciamento do mundo (“Poema da necessidade” e “Madrigal lúgubre”).

Ainda fragmentado, o poeta se vê lançado à participação e atormentado pelo risco da alienação. A resposta que oferece ao leitor evita as soluções fáceis e apresenta sem pudor suas dúvidas (“Noturno à janela do apartamento”). Resulta dessa opção um livro tenso, mas carregado de humanidade. (Daqui).

Fernando Marcílio - Mestre em Teoria Literária pela Unicamp


Claus Bergen, German battleships passing Heligoland, 1916
 
 
Primeira Guerra Mundial 

 
Em junho de 1914, o assassinato do príncipe herdeiro do trono austro-húngaro em Sarajevo forneceu o pretexto para um conflito que rapidamente iria tomar uma dimensão mundial inesperada (o número de países envolvidos iria ser de cerca de trinta, sendo mobilizados aproximadamente cinquenta milhões de homens em todas as frentes); mas as motivações profundas e reais do conflito ultrapassam largamente esse acontecimento, pois se filiam na competição entre as grandes potências que entre si rivalizavam pelo controle de fontes de matérias-primas e mercados e sobretudo pela alteração do mapa colonial, bem como na corrida aos armamentos em que estas se empenhavam.

Os contendores irão organizar-se em dois grandes blocos: de um lado a aliança entre a Alemanha e o Império Austro-Húngaro e do outro uma coligação em que sobressaem a Inglaterra e a França a oeste e a Rússia a leste. Os Estados Unidos, tal como Portugal, não participarão de início no conflito.

Numa primeira fase, que corresponde aproximadamente ao ano de 1914, a iniciativa pertence quase por inteiro aos exércitos alemães e seus aliados, travando-se uma guerra de movimento em duas frentes, na França e na frente russa (as mais importantes), bem como noutras regiões do globo, como a África e a Ásia. Segue-se uma guerra de trincheiras, em que as frentes se imobilizam com grandes perdas em homens e material, sem que qualquer dos contendores obtenha qualquer vantagem; faz aí o seu aparecimento o emprego de gases tóxicos como arma de combate. Ao mesmo tempo, a guerra submarina conduzida pela Alemanha causava perdas volumosas em tonelagem de navios, homens e bens, levantando dificuldades nas comunicações entre a Europa e a América.

Em 1917 a situação começará a alterar-se, quer com a entrada em cena de novos meios, como os tanques e a aviação, quer com a chegada ao teatro de operações europeu das forças americanas ou a substituição de comandantes por outros com nova visão da guerra e das táticas e estratégias mais adequadas; lançam-se, de um lado e de outro, grandes ofensivas, que causam profundas alterações no desenho da frente, acabando por colocar as tropas alemãs na defensiva e levando por fim à sua derrota.
 
É verdade que a Alemanha adquire ainda algum fôlego quando a revolução estala na Rússia e o governo bolchevista, chefiado por Lenine, prontamente assina a paz sem condições, assim anulando a frente leste, mas essa circunstância não será suficiente para evitar a derrocada. O armistício que põe fim à guerra é assinado em 11 de novembro de 1918.

A opinião pública manifestara-se de certo modo favorável à guerra no seu início, havendo uma sensação generalizada de que se trataria de um conflito breve e insignificante e predominando, nos adversários da Alemanha, a convicção de que se lutava pelos grandes valores da Humanidade contra a barbárie teutónica e a convicção otimista de que o conflito traria a paz ao mundo (o Presidente americano Wilson proclamaria que se tratava de uma "guerra para acabar com todas as guerras"). Este otimismo seria destruído pelo prolongar dos combates e pela divulgação dos sofrimentos, quer dos combatentes quer das populações civis (o número de mortos ascenderia a perto de nove milhões só entre os contendores mais importantes), o que reforçou os movimentos pacifistas e desencadeou greves de conteúdo político.

Após o conflito, e sob a influência determinante de Wilson, seria constituída a Sociedade das Nações, que pretendia ser um fórum vocacionado para arbitrar conflitos entre os estados e impedir de futuro a repetição das guerras. (Daqui)


Consequências da Primeira Guerra Mundial
 
 
 As consequências imediatas da Primeira Guerra Mundial foram evidentemente as baixas humanas. O conflito fez mais de 8 milhões de mortos (1,9 milhões na Alemanha, 1,7 milhões na Rússia, 1,4 milhões na França, 1 milhão na Áustria-Hungria e 760 mil na Inglaterra), 20 milhões de feridos e 6 milhões de inválidos. Traduziu-se igualmente em grandes perdas económicas e em enormes gastos com o esforço de guerra, lançando muitos Estados em sérias crises. A Europa passou por um período de dependência económica e também de instabilidade política, perdendo a sua posição de hegemonia que ocupava no panorama mundial.

Em termos económicos, a Europa ficou completamente desorganizada, com graves problemas no setor agrícola e industrial. Os grandes beneficiários desta situação foram os EUA e o Japão. No caso do Japão, o país pode beneficiar do afastamento dos tradicionais concorrentes europeus, o que permitiu o estímulo e a diversificação da sua indústria. Os EUA lucraram também, pois viram as suas reservas de ouro duplicar, ficando nas suas mãos cerca de metade do ouro disponível a nível mundial. Este poderio económico vai permitir ao país substituir a pouco e pouco a preponderância financeira dos europeus, em particular na América do Sul. Segundo o tratado de Versalhes (28 de junho de 1919), a Alemanha era considerada a grande responsável pela guerra, tendo que pagar 22 milhões de marcos/ouro como reparação dos danos às populações civis. Este dinheiro foi repartido na sua maior fatia pela França (52%) e pela Grã-Bretanha (22%).

Mas mais significativa que os reveses económicos foi a reconstrução política da Europa, "plasmada" em vários tratados de paz assinados após a Guerra, reunidos sob o nome de Tratados de Versalhes, cuja ineficácia ficaria provada em menos de duas décadas. As negociações de paz reuniram 32 Estados, entre vencedores e vencidos, orientados sob os princípios idealistas do presidente americano Woodrow Wilson (1913-1921). Daqui resultaram problemas políticos que seriam posteriormente o rastilho para uma guerra ainda mais letal do que a que findava. Os problemas-chave latentes eram o direito de nacionalidade das minorias assimiladas pelos Impérios Austríaco, Russo e Otomano; a repartição dos territórios coloniais, não europeus; a vexação sofrida pela Alemanha (desmilitarizada, perdendo territórios e pagando indemnizações pesadas); e o fracasso da Sociedade das Nações (SDN), incapaz de fazer respeitar os acordos e manter a paz.

O mapa geopolítico da Europa foi então redefinido sobre os escombros da guerra. A Alemanha foi forçada a evacuar a Alsácia-Lorena, pertencente à França, e a margem esquerda do Reno (Renânia). A região do Sarre ficará sob o controlo da SDN, reservando ao território o direito de optar em relação ao país que desejasse integrar (a França ou a Alemanha). A Posnânia (na Polónia) e uma parte da Prússia (território alemão no báltico oriental) são dadas à Polónia, ainda que o acesso ao Báltico fosse assegurado por um "corredor" de 80 km, separando-se a Alemanha da Prússia oriental. O território do Norte de Schleswig foi também anexado à Dinamarca, após plebiscito entre a população (1920).

A Europa central e balcânica foi totalmente reorganizada a partir do desmembramento do Império Austro-Húngaro. A Hungria viu-se, todavia, amputada de parte do seu território pelo tratado de Saint-Germain-en-Laye (10 de setembro de 1919), perdendo ainda outras regiões através do disposto no tratado de Trianon (4 de junho de 1920). Segundo o tratado de Neuilly (novembro de 1919), a Bulgária foi forçada a ceder a Trácia à Grécia e a Macedónia à Sérvia. A Turquia teve também que abandonar as suas possessões árabes e a Terra Santa, o que correspondia a quatro quintos do seu império (tratado de Sèvres, 10 de agosto de 1920). Relativamente à Polónia, o tratado de Versalhes pouco precisou no que diz respeito à sua fronteira oriental com a Rússia. O desmembramento do Império dos Habsburgos (Áustria-Hungria) vai beneficiar a então recente república checoslovaca, a Roménia e a Sérvia, cujo Estado ficava com a posse da Eslovénia, a Croácia (com a Dalmácia).

Aos impérios históricos, formados sob o princípio da legitimidade, sucediam-se os novos países criados sob o princípio da nacionalidade, face à eclosão de diversos movimentos nacionalistas. Húngaros, polacos, checos e eslovacos e povos da ex-Jugoslávia proclamam a sua autonomia logo em 1918 no fim da guerra, enquanto se ouvem também os protestos de albaneses, arménios e gregos orientais (da Turquia). Ao mesmo tempo, os países que perderam com o alinhamento das fronteiras, como a Hungria e a Alemanha, mostravam o seu descontentamento aderindo a ideais como os saídos da terceira Internacional comunista ou mesmo a outros de expressão mais extremista, de direita nacionalista.

A Europa dividiu-se politicamente. A vitória dos Aliados era entendida como a vitória da democracia face aos impérios autocráticos. O garante desta nova ordem seria a SDN, instituída pelo tratado de Versalhes. A Sociedade tinha uma dupla função: por um lado, garantia a paz e a segurança internacional, e por outro devia desenvolver a cooperação entre as nações, encarando o espírito universal do parlamentarismo. Contudo, porque baseada em equívocos, a sua ação irá revelar-se insuficiente para evitar o deflagrar de um novo conflito.
(Daqui)
 
 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

"Lembranças de Morrer" - Poema de Álvares de Azevedo


Silvestro Lega (Italian realist painter, 1826-1895), Giuseppe Mazzini Dying, 1873
 
 

Lembranças de Morrer


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde o fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas …
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta destes flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar dos teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo …
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos.
Deixai a lua pratear-me a lousa!


 

 
 Giuseppe Mazzini (1805-1872), fundador 
do movimento Jovem Itália.
 
 
Giuseppe Mazzini (Génova, 22 de junho de 1805 — Pisa, 10 de março de 1872) foi um político, maçom e revolucionário da unificação italiana

A Jovem Itália foi uma associação política, fundada em Marselha em julho de 1831 por Giuseppe Mazzini, cujo programa foi publicado num periódico ao qual foi dado o mesmo nome. Seu objetivo era transformar a Itália numa república democrática unitária, mediante a promoção de uma revolução geral nos Estados reacionários italianos e nas terras ocupadas pelo Império Austríaco. 

Mazzini, antigo membro da carbonária italiana fundou a Jovem Itália, ao constatar a ineficácia prática daquela sociedade secreta para seus objetivos políticos. Suas palavras de ordem eram: direito dos homens, progresso, igualdade jurídica e fraternidade. A sociedade organizou células revolucionárias em toda a Península Itálica.

Aqueles que faziam parte dessa associação usavam como pseudónimo o nome de personagens da Idade Média italiana. Nos anos de 1833 e 1834, durante o período de processos no Piemonte e o fracasso da expedição a Saboia, nas quais vários de seus membros foram presos e executados pela polícia do Reino da Sardenha, a associação desapareceu por quatro anos, reaparecendo somente em 1838 na Inglaterra.

Outras revoluções promovidas na Sicília, Abruzzi, Toscana, Reino Lombardo-Vêneto, Romagna (1841 e 1845), Bolonha (1843) também falharam.

Dez anos depois do reaparecimento, em 5 de maio de 1848, a associação foi definitivamente abandonada por Mazzini que fundou, em seu lugar, a Associação Nacional Italiana. A Jovem Itália começou, em seguida, a fazer parte de uma outra associação política mazziniana, a Jovem Europa, juntamente a outras associações similares como a Jovem Alemanha, a Jovem Polónia e a Jovem França.

Também teve curta duração da República Romana de 1848-1849, a qual foi esmagada por um exército francês chamado a ajudar o papa Pio IX (que inicialmente era citado por Mazzini como o mais provável paladino de uma unificação liberal da Itália).

Os movimentos de Mazzini foram basicamente destruídos depois de uma última revolta fracassada contra o Império Austríaco em Milão em 1853, destruindo a esperança de uma Itália democrática em favor da reacionária monarquia dos Saboia, que conseguiu a unificação nacional alguns anos depois.

Entre os membros da Jovem Itália, figuravam Giuseppe Garibaldi e Luigi Rossetti. (daqui)