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quinta-feira, 9 de abril de 2026

"Noticia ao entardecer" - Poema de Gabino Alejandro Carriedo

 

 
Louise Catherine Breslau (German-born Swiss painter, 1856–1927),
"Portrait of Ernst Josephson(Swedish painter and poet, 1851–1906), 1886.


Noticia ao entardecer 


Devia ter-te escrito há tempos uma carta
dizendo entre outras coisas: “na província chove,
minha irmã foi para freira,
eu perdi o emprego”.
Possivelmente responderias com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Lamento isso da tua irmã
mas alegro-me com a chuva
que é boa para as colheitas”.
Há tempos, amigo, devia ter-te escrito
para te contar coisas de importância:
por exemplo que estou bastante só
depois daquele amor;
por exemplo que durmo muitas horas
para me esquecer de que existo;
por exemplo que estou bastante triste
mas que em algum país haverá eleições
antes do mês de Janeiro.
Terias respondido com a tua letra:
“Não me agrada o teu estado” ou “é preciso
que sacudas o tédio”.
Terias respondido com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Eu conheci um senhor que estava morto…”
Ter-me-ias dito que não importa nada,
não importa estar triste ou solitário
se na província chove,
se as colheitas foram boas este Verão
haverá por aí dinheiro em abundância.
Dir-me-ias: “Amigo, o que importa
é ter vontade; quem quer pode”.
(Eu conheci um senhor que estava morto…)
O tal senhor que estava morto, estava
somente um pouco ferido. Disseram-no
os jornais. Até recordo a data.
Ressuscitou, é certo, mas estava
somente um pouco ferido.
Em troca sinto-me destruído, descentrado;
não tenho remédio; passeio,
vou à taverna e escrevo
cartas que nunca saem de Madrid.
Não falo com ninguém, nunca pergunto
como acabou a festa.
Diz-me se ainda é possível escrever cartas.
Diz-me se ainda é possível estar mais morto.


Gabino-Alejandro Carriedo (1923-1981),
in Antologia: "Poesia Espanhola do Após-Guerra"
(Seleção e Tradução de Egito Gonçalves),
Portugália Editora - Lisboa.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

"Conheci-te" - Poema de José Agostinho Baptista



Ernst Josephson (Swedish painter and poet, 1851–1906),
Smile, c. 1890, Private collection.


Conheci-te


Conheci-te
quando eras apenas o viajante sem nome
a rapariga admirável de veracruz.

Devagar
toquei a tua fronte escura — te acuerdas?
o rosto, a nuca húmida, os ombros,

descendo
descendo sempre
até ao cálido refúgio, ao centro
onde me perdi.

Revejo-te na solidão de uma pátria febril,
nestas mãos de peregrino da meia idade,
no furor do meu sangue estrangeiro,
na inteligível voz de uma alma devastada.

Amei-te quanto pude
sobre a terra dos antepassados,
sob o olhar ferido da águia azteca,
sobrevoando
o tempo alto e azul,
atenta sobretudo à loucura de jeremias,
o homem que sou.

Tudo aconteceu assim,
invariavelmente na planície sufocante e na pura
neve dos sonhos,
na penumbra das tardes do Pacífico e no Golfo
onde renunciámos à paixão e à vida.

Conheci-te
quando eras apenas o viajante sem nome
a rapariga admirável de veracruz. 


José Agostinho Baptista, in "Biografia",
Assírio & Alvim, 2000.