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segunda-feira, 20 de julho de 2020

"A Canção do Delirante Aengus" - Poema de William Butler Yeats



Edmund Leighton (English painter, 1852–1922), 'My fair Lady', 1904



A Canção do Delirante Aengus


Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.

Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.

Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.


William Butler Yeats,
The Wind Among The Reeds, 1899. 
Tradução de Izabella Drumond



The Song of Wandering Aengus. Words by W.B.Yeats. Spoken by Michael Gambon


The Song of Wandering Aengus 


I went out to the hazel wood,
Because a fire was in my head,
And cut and peeled a hazel wand,
And hooked a berry to a thread;
And when white moths were on the wing,
And moth-like stars were flickering out,
I dropped the berry in a stream
And caught a little silver trout.

When I had laid it on the floor
I went to blow the fire a-flame,
But something rustled on the floor,
And someone called me by my name:
It had become a glimmering girl
With apple blossom in her hair
Who called me by my name and ran
And faded through the brightening air.

Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands,
I will find out where she has gone,
And kiss her lips and take her hands;
And walk among long dappled grass,
And pluck till time and times are done,
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun.

sábado, 24 de agosto de 2019

"Aurora" - Poema de Adolfo Casais Monteiro



Ivan Shishkin (Russian Realist painter and draughtsman, 1832–1898),
Rain in an Oak Forest, 1891


Aurora


A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.


Adolfo Casais Monteiro
,
in 'Voo Sem Pássaro Dentro'



Ivan Shishkin, Walking through the forest, 1869


"O jardim é uma natureza organizada pelo homem e para o homem."
 
Roberto Burle Marx


Ivan Shishkin, Walk in the Forest, 1870


"Um jardim faz-se de luz e sons - as plantas são coadjuvantes."
 
Roberto Burle Marx


Ivan Shishkin, Wood in the evening, 1868-1869


"Onde havia peixes, há mercúrio. Onde havia florestas, há cinzas." 
 
Roberto Burle Marx


Ivan Shishkin, Woodland, 1889


"Gostaria que os que viessem depois de mim pudessem, pelo menos, ver alguma coisa que ainda lembrasse o país fabuloso que é o Brasil do ponto de vista botânico, dono da flora mais rica do Globo." 
 
Roberto Burle Marx

Roberto Burle Marx (São Paulo, 4 de agosto de 1909 – Rio de Janeiro, 4 de junho de 1994) foi um paisagista, arquiteto, desenhista, pintor, gravador, litógrafo, escultor, tapeceiro, ceramista, designer de jóias e decorador.

Durante a infância viveu no Rio de Janeiro. Foi com a família para a Alemanha, em 1928. Em Berlim, estudou canto e integrou-se na vida cultural da cidade, frequentando teatros, óperas, museus e galerias de arte. Entrou em contato com as obras de Vincent van Gogh (1853-1890), Pablo Picasso (1881-1973) e Paul Klee (1879-1940). Em 1929, frequentou o ateliê de pintura de Degner Klemn. Nos jardins e museus botânicos de Dahlen, em Berlim, entusiasmou-se ao encontrar exemplares da flora brasileira.

De volta ao Brasil, fez curso de pintura e arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), Rio de Janeiro, entre 1930 e 1934, onde foi aluno de Leo Putz (1869-1940), Augusto Bracet (1881-1960) e Celso Antônio (1896-1984). Em 1932, realizou seu primeiro projeto de jardim para a residência da família Schwartz, no Rio de Janeiro, a convite do arquiteto Lucio Costa (1902-1998), que realizou o projeto de arquitetura com Gregori Warchavchik (1896-1972).

Entre 1934 e 1937, ocupou o cargo de diretor de parques e jardins do Recife, Pernambuco, onde passou a residir. Nesse período, foi com frequência ao Rio de Janeiro e teve aulas com Candido Portinari (1903-1962) e com o escritor Mário de Andrade (1893-1945), no Instituto de Arte da Universidade do Distrito Federal. Em 1937, retornou ao Rio de Janeiro e trabalhou como assistente de Candido Portinari.

O final da década de 1930 arca a integração de sua obra paisagística à arquitetura moderna, época em que o artista experimenta formas orgânicas e sinuosas na elaboração de seus projetos. Sua paixão por plantas remonta à juventude, quando se interessa por botânica e jardinagem, mas é em 1949 que Roberto Burle Marx organiza uma grande coleção, quando adquire um sítio de 800.000 m², em Campo Grande, Rio de Janeiro.

Em companhia de botânicos, realiza inúmeras viagens por diversas regiões do país, para coletar e catalogar exemplares de plantas, reproduzindo em sua obra a diversidade fitogeográfica brasileira.

Principais Obras
: Jardins do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, Paisagismo do Eixo Monumental em Brasília, Parque Ibirapuera, em São Paulo. (daqui)

Ivan Shishkin: A collection of 352 paintings (HD) 




Ivan Ivanovitch Shishkin (Ielabuga, 25 de janeiro de 1832 – São Petersburgo, 20 de março de 1898) foi um pintor paisagista russo associado ao movimento dos Itinerantes e marido da pintora Olga lagoda-shishkina. 

Shishkin nasceu em Ielabuga, no atual Tartaristão, e graduou-se em Cazã. Estudou na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou por quatro anos e na Academia Imperial de Artes entre 1856 e 1860, quando graduou-se, recebendo uma pensão imperial para que continuasse seus estudos na Europa. Cinco anos mais tarde, Shishkin tornou-se membro da Academia Imperial de São Petersburgo e foi professor de pintura entre 1873 e 1898. Simultaneamente, Shishkin liderou o programa educacional de pintura paisagística. 

Shishkin viveu, por alguns anos, na Suíça e Alemanha, graças à pensão recebida pela academia. Ao retornar para a capital russa, ele tornaria-se membro do Círculo dos Itinerantes e da Sociedade dos Aquarelistas da Rússia. Participou de mostras em Moscou (1882), Nijni Novgorod (1896), Paris (1867 e 1878) e Viena (1873). O método de Shishkin foi baseado em estudos analíticos da natureza. Ele tornou-se famoso por suas paisagens de florestas, além de ter sido um desenhista além de seu tempo.

Os trabalhos de Shishkin foram principalmente inspirados nas paisagens de sua dacha nos subúrbios do sul de São Petersburgo. Seus trabalhos são de notável detalhamento poético das estações do ano, florestas, natureza selvagem, fauna e flora.

Shishkin morreu em 1898, em São Petersburgo, enquanto desenvolvia uma nova pintura. (daqui)
 
„Toda a forma de vida é uma manifestação de Deus e está sob os nossos cuidados. Proteja o que é seu - sua fauna sua flora. As plantas e os animais embelezam a terra. São úteis ao homem e representam a riqueza da Pátria. Nunca se deve mutilar, destruir ou deixar que destruam estes bens. Vamos amar nossos animais domésticos. Vamos dar aos selvagens a paz que eles têm direito. Permitamos que enfeitem nossas florestas. Vamos amar os pássaros puros e belos, cantando nas ramagens, voando alegres no espaço ilimitado, como verdadeiros símbolos de liberdade!“ — Francisco de Assis

Referência: https://citacoes.in/autores/francisco-de-assis/

domingo, 17 de agosto de 2014

"O Poeta em Lisboa" - Poema de António José Forte



Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, Grupo escultórico "Milagre da Bilha",
peça moldada e modelada em barro branco e vermelho, 1912.
Fábrica Bordalo Pinheiro - Museu da Cerâmica


O Poeta em Lisboa


Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.


António José Forte, in Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder


A pintura pertence ao Museu do Chiado de Lisboa. 


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (Lisboa, 20 de Julho de 1867 - Caldas da Rainha, 8 de Setembro de 1920) foi um ilustrador, ceramista, caricaturista, bem como criador de banda desenhada e de cartazes.

Era filho de Rafael Bordalo Pinheiro e sua esposa, Elvira Ferreira de Almeida, e sobrinho de Columbano Bordalo Pinheiro.


Caricatura de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro


Iniciou a sua atividade de ilustrador numa publicação de seu pai, Pontos nos ii (1885-1891). Para além desta, também trabalhou nas revistas O António Maria (1879-1885;1891-1898), A Paródia (1900-1907), que dirigiu após a morte do pai, Ilustração Portugueza (1903-1923), Atlântida: mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil (1915-1920), Miau! (1916) e O Gafanhoto. 


Caricatura de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro


Foi presidente do Grupo de Humoristas Portugueses e professor na Escola Industrial Rodrigues Sampaio e na Escola Industrial Fonseca Benevides.



Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920), ilustração para a capa da revista A Parodia,
 número 5, 1.º ano, de 11 de Fevereiro de 1903.


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920), ilustração para a contracapa da revista A Parodia,
 número 5, 1.º ano, de 11 de Fevereiro de 1903.


Colaborou com o pai na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Após a morte dele (em 1905) sucedeu-lhe na gestão da fábrica, abandonando a atividade de ilustrador e dedicando-se em exclusivo à cerâmica. Em 1908 fundou uma nova fábrica, inicialmente denominada de "São Rafael" e mais tarde denominada Fábrica Rafael Bordalo Pinheiro. É característica da sua produção a aliança entre os modelos tradicionais e as tendências da corrente Arte Nova.

Foi retratado em 1884 num óleo sobre madeira da autoria de seu tio, Columbano Bordalo Pinheiro

Tem no Museu Militar de Lisboa alguns painéis de azulejos representando cenas do golpe de estado do 1º de Dezembro de 1640 e o mesmo período da Restauração.


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro

quarta-feira, 2 de julho de 2014

"A minha bicicleta" - Poema de Fernando Miguel Bernardes


Luiz Cavalli, Sky Bike, 2011, 30x30cm


A minha bicicleta


A minha bicicleta
só tem dois pedais
mas se monto nela
não tem dois, tem mais!

A minha bicicleta
tem um guiador
quando monto nela...
...sou aviador!

No jardim onde ando
não vejo um canteiro...
sou aviador,
vejo o mundo inteiro

Voo mesmo a sério!...

Por cima das árvores
(não toco no chão!)
voo mesmo a sério
vou de avião...

A minha bicicleta
também tem selim
mas eu nem me sento,
gosto mais assim:

Pedalo em pé
dá mais rapidez
a minha bicicleta
é o que tu vês:

É um avião,
pois eu não te digo?!

Da próxima vez...

Da próxima vez
Levo-te comigo?


Fernando Miguel Bernardes 




Fernando Miguel Bernardes nasceu em Gândara dos Olivais, Leiria. Frequentou as Universidades de Coimbra e Clássica de Lisboa.
Como engenheiro geógrafo, e bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, fez uma pós-graduação em Cálculo Científico. 
Docente do ensino superior, foi também técnico superior de Sistemas Informáticos, e diretor de departamento na Função Pública, na área da Cultura. 
Cofundador da Organização dos Trabalhadores Científicos, é sócio ativo de instituições científicas e culturais como a Sociedade de Geografia de Lisboa, com incidência na secção de Física Matemática e Cartografia, ou a Associação Portuguesa de Escritores, de cuja Direção é membro efetivo. 
Integra e coordena habitualmente júris de prémios literários de âmbito nacional e internacional. Antes do 25 de Abril, assumindo na prática posições coerentes com a sua ideologia, foi várias vezes preso, julgado e condenado, tendo cumprido as sucessivas penas em cadeias políticas de Coimbra, Porto, Lisboa e Caxias. Mais tarde, foi-lhe reconhecido, pela Assembleia da República, o "mérito excecional da contribuição dada à defesa da Liberdade e da Democracia". 
Como seguimento da publicação dos seus livros para a infância e juventude, vem visitando escolas do Ensino Básico por todo o País, para, com as crianças, os pais e os professores, ler e comentar e dramatizar alguns dos seus textos, previamente explorados nas respetivas turmas.


As Bicicletas na arte de Luiz Cavalli


"Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor."

Estados Unidos, 1817 - 1862
Escritor/Autor/Ensaísta/Poeta/Naturalista


Danny MacAskill - "Way Back Home"


"Cada pôr do sol que vejo me inspira o desejo de partir para um oeste tão distante e belo quanto aquele onde o sol sumiu."



segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Escola" - Poema de Nuno Júdice



Su Blackwell (English artist, b. 1975), 'Hope' ('Esperança'), 2009. 
Escultura em papel (www.sublackwell.co.uk)



Escola


O que significa o rio, 
a pedra, os lábios da terra 
que murmuram, de manhã, 
o acordar da respiração? 

O que significa a medida 
das margens, a cor que 
desaparece das folhas no 
lodo de um charco? 

O dourado dos ramos na 
estação seca, as gotas 
de água na ponta dos 
cabelos, os muros de hera? 

A linha envolve os objetos 
com a nitidez abstrata 
dos dedos; traça o sentido 
que a memória não guardou; 

e um fio de versos e verbos 
canta, no fundo do pátio, 
no coro de arbustos que 
o vento confunde com crianças. 

A chave das coisas está 
no equívoco da idade, 
na sombria abóbada dos meses, 
no rosto cego das nuvens. 


Nuno Júdice
, 
in "Meditação sobre Ruínas" 
 


Su Blackwell (English artist, b. 1975), 2008 


The Book Sculptures of Su Blackwell

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A arte de Ben Heine: "Pencil Vs Camera"


Ben Heine 

Ben Heine (nascido em 12 de junho de 1983 em Abidjan, Costa do Marfim) é um pintor, ilustrador, retratista, caricaturista e fotógrafo belga. Estudou escultura, artes gráficas (em que trabalhou durante 8 anos), e também é formado em jornalismo. 


A arte de Ben Heine 

"Pencil Vs Camera"

Ben Heine encontrou um caminho totalmente diferente daquele a que estamos habituados para alterar a realidade da fotografia. De forma inovadora, ele altera as imagens com simples desenhos feitos a lápis em folhas brancas.


"Pencil Vs Camera"

De forma quase artesanal, Heine muda e complementa as suas fotografias com a grafite dos lápis, criando uma nova realidade, imaginada por si. O trabalho Pencil vs Camera é, por isso, o resultado da junção das suas duas paixões: a fotografia e o desenho.


"Pencil Vs Camera"

Com 27 anos, estudou jornalismo, e aí descobriu a importância da escrita e do lápis, mas também o impacto de uma fotografia. Depois de dez anos a tirar fotografias e a desenhar, Pencil Vs Camera pareceu-lhe o próximo passo na sua carreira artística.


"Pencil Vs Camera"

A ideia de juntar as duas técnicas surgiu-lhe no início de 2010, enquanto via televisão ao mesmo tempo que escrevia uma carta. Ao reler o texto, antes de pôr a carta no envelope, reparou na transparência do papel, que lhe permitia ver as imagens que passavam atrás, na televisão. Apercebeu-se rapidamente que poderia fazer algo similar, juntando duas ações diferentes e aí começou a trabalhar na sua ideia. O primeiro trabalho desta série surgiu no mesmo dia. Juntou duas cadeiras e uma pequena mesa no jardim para o cenário e começou a desenhar no papel a imagem que via à sua frente. Depois, foi só tirar uma fotografia com o enquadramento correto.


"Pencil Vs Camera"
 

De acordo com Ben Heine, a fotografia e ilustração sempre andaram juntas em sua vida e a ideia do projeto é representar 1/4 da imagem com um desenho de traços simples, porém realista, dando uma continuidade diferente à cena original. 
Com uma criatividade além do normal os resultados são surpreendentes, fascinantes e divertidos. 


"Pencil Vs Camera"
 

"Pencil Vs Camera"
 

"Pencil Vs Camera"
 

"Pencil Vs Camera"
 

"Pencil Vs Camera"
 
 
"Pencil Vs Camera"


"Eu sempre vejo os bons aspetos no progresso humano. Eu, pessoalmente, não acho que há lados ruins em tecnologias, desde que elas sejam usadas ​​de forma criativa e construtiva para ajudar os artistas a aumentar as suas habilidades. Inovações significativas em arte gráfica são muito importantes e não acontecem com tanta frequência. Quero dizer, ter boas ideias é impressionante, mas expressá-las com formas totalmente novas de arte é ainda mais interessante, na minha opinião. Eu não tenho nenhuma declaração específica sobre a minha arte, eu só dou a minha própria direção o tempo todo, e eu acredito que novas mídias também nos dão a oportunidade de explorar universos de fantasia desconhecidos e desenvolver um estilo distinto. Na série Pencil Vs Câmera por exemplo, eu queria demonstrar que é possível combinar o desenho e a fotografia de uma forma imaginativa harmoniosa e atraente. Eu só inventei esta técnica que me permite expressar mensagens mais poderosas com as ferramentas que eu uso mais." - Ben Heine


Ben Heine em Lisboa, 2012 - Samsung Experience


Ben Heine

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Arte Surrealista


René Magritte, Invenção Coletiva, 1934


O Surrealismo


O Surrealismo foi um movimento artístico e literário nascido em Paris na década de 1920, inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o modernismo no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais. Reúne artistas anteriormente ligados ao Dadaísmo ganhando dimensão mundial. Fortemente influenciado pelas teorias psicanalíticas do psicólogo Sigmund Freud (1856-1939), o surrealismo enfatiza o papel do inconsciente na atividade criativa. Um dos seus objetivos foi produzir uma arte que, segundo o movimento, estava sendo destruída pelo racionalismo. O poeta e crítico André Breton (1896-1966) é o principal líder e mentor deste movimento. 
A palavra surrealismo supõe-se ter sido criada em 1917 pelo poeta Guillaume Apollinaire (1886-1918), jovem artista ligado ao Cubismo, e autor da peça teatral As Mamas de Tirésias (1917), considerada uma precursora do movimento. 
Um dos principais manifestos do movimento é o Manifesto Surrealista de 1924. Além de Breton, seus representantes mais conhecidos são Antonin Artaud no teatro, Luis Buñuel no cinema e Max Ernst, René Magritte e Salvador Dalí no campo das artes plásticas.


 Joan Miró, O Carnaval de Arlequim


O Manifesto Surrealista foi lançado em Paris, em 1924, por André Breton (1896-1970), um ex-participante do Dadaísmo, que rompera com Tristan Tzara. É importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras, ou seja, foi criado sobre as cinzas da Primeira Guerra e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. Entretanto, suas origens estão mais próximas do Expressionismo e da sondagem do mundo interior, em busca do homem primitivo, da liberação do inconsciente, da valorização do sonho, etc.
O Surrealismo conhece uma ruptura interna quando  André Breton faz uma opção pela arte revolucionária, influenciado que estava pelo marxismo. Muitos dos seguidores do movimento não admitiam o engajamento da arte, criando assim uma divisão entre os surrealistas comunistas e os não comunistas.


Salvador Dali, Lugubrious Game


Vida e obra dos 3 principais artistas do surrealismo


1. Salvador Dalí
Salvador Dalí

Salvador Dalí - é, sem dúvida, o mais conhecido dos artistas surrealistas. Estudou em Barcelona e depois em Madri, na Academia de San Fernando. Nessa época teve oportunidade de conhecer Lorca e Buñuel. Suas primeiras obras são influenciadas pelo cubismo de Gris e pela pintura metafísica de Giorgio De Chirico. Finalmente aderiu ao surrealismo, junto com seu amigo Luis Buñuel, cineasta. Em 1924 o pintor foi expulso da Academia e começou a se interessar pela psicanálise de Freud, de grande importância ao longo de toda a sua obra. Sua primeira viagem a Paris em 1927 foi fundamental para sua carreira. Fez amizade com Picasso e Breton e entusiasmou-se com a obra de Tanguy e o maneirista Arcimboldo. O filme O Cão Andaluz, que fez com Buñuel, data de 1929. Ele criou o conceito de “paranóia critica“ para referir-se à atitude de quem recusa a lógica que rege a vida comum das pessoas. Segundo ele, é preciso “contribuir para o total descrédito da realidade”.
No final dos anos 30 foi várias vezes para a Itália a fim de estudar os grandes mestres. Instalou seu ateliê em Roma, embora continuasse viajando. Depois de conhecer em Londres Sigmund Freud, fez uma viagem para a América, onde publicou sua biografia A Vida Secreta de Salvador Dali (1942). Ao voltar, estabeleceu-se definitivamente em Port Lligat com Gala, sua mulher, ex-mulher do poeta e amigo Paul Éluard.
Desde 1970 até sua morte dedicou-se ao desenho e à construção de seu museu. Além da pintura ele desenvolveu esculturas e desenho de jóias e móveis.


Salvador Dalí, As faces da guerra
 

Salvador Dalí, A Girafa


Salvador Dalí, A Metamorfose


Salvador Dalí, O Corpo


Salvador Dalí, Mae West (1934-35)


Salvador Dalí, Telefone lagosta, 1936


 2. Joan Miró 
Joan Miró, retrato


Joan Miró - Joan Miró i Ferrà (Barcelona, 20 de abril de 1893 — Palma de Maiorca, 25 de dezembro de 1983) foi um importante escultor e pintor surrealista catalão. 
Iniciou sua formação como pintor na escola de La Lonja, em Barcelona. Em 1912 entrou para a escola de arte de Francisco Gali, onde conheceu a obra dos impressionistas e fauvistas franceses. Nessa época, fez amizade com Picabia e pouco depois com Picasso e seus amigos cubistas, em cujo grupo militou durante algum tempo. Em 1919, depois de completar os seus estudos, visitou Paris, onde entrou em contacto com as tendências modernistas como os fauvismo e dadaísmo. 
 Em 1920 Miró instalou-se em Paris (embora no verão voltasse para Montroig), onde se formara um grupo de amigos pintores, entre os quais estavam Masson, Leiris, Artaud e Lial. Dois anos depois adquiriu forma La masía, obra fundamental em seu desenvolvimento estilístico posterior e na qual Miró demonstrou uma grande precisão gráfica.
No início dos anos 20, conheceu o fundador do movimento em que trabalharia toda a vida, André Breton, entre outros artistas surrealistas A partir daí sua pintura mudou radicalmente. Breton falava dela como o máximo do surrealismo e se permitiu destacar o artista como um dos grandes génios solitários do século XX e da história da arte. A pintura O Carnaval de Arlequim, 1924-25, e Maternidade, 1924, inauguraram uma linguagem cujos símbolos remetem a uma fantasia naïf, sem as profundezas das questões psicanalistas surrealistas. A famosa magia de Miró manifesta -se nessas telas de traços nítidos e formas sinceras na aparência, mas difíceis de serem elucidadas, embora se apresentem de forma amistosa ao observador. Participou na primeira exposição surrealista em 1925. 
Em 1928, viajou para a Holanda, tendo pintado as duas obras Interiores holandeses I e Interiores holandeses II. Em 1937, trabalhou em pinturas-mural e, anos depois, em 1941, concebeu a sua mais conhecida e radiante obra: Números e constelações em amor com uma mulher. 
Mais tarde, em 1944, iniciou-se em cerâmica e escultura nas quais extravasou suas inquietações pictóricas. Em suas obras, principalmente nas esculturas, utiliza materiais surpreendentes, como a sucata. 
No fim da sua vida reduziu os elementos de sua linguagem artística a pontos, linhas, alguns símbolos e reduziu a cor, passando a usar basicamente o branco e o preto, ficando esta ainda mais naïf.


Joan Miró, Bathing Woman, 1925
 

Joan Miró, Noitada Esnobe da Princesa
 

Joan Miró, Nocturne, 1940



Obras de Joan Miró - Música: Bond



 3. René Magritte
Cachimbo do artista com o passaporte do casal Magritte.


René François Ghislain Magritte, mais conhecido como René Magritte, nasceu na cidade de Lessines, na Bélgica, no dia 21 de novembro de 1898. Posteriormente ele se tornaria um dos mais significativos artistas plásticos do movimento surrealista belga, figurando junto ao pintor Paul Delvaux.
René Magritte era o filho mais novo do casal Léopold e Regina Magritte, e em 1912 perdeu a mãe, que neste ano se suicidou mergulhando no Rio Sambre, evento testemunhado pelo jovem Magritte. Mais tarde, em 1916, o artista é admitido na Académie Royale des Beaux-Arts, em Bruxelas, instituição na qual ele permanece por dois anos. Nesta ocasião o pintor passa a atuar como desenhista numa fábrica que produz papéis de parede, e tem seu primeiro encontro com Georgette Berger, sua esposa a partir de 1922.
Magritte trabalhou também como designer de cartazes e ofertas publicitárias até 1926, quando começou a se sobressair no movimento surrealista; neste período ele assina um acordo com a Galeria de Artes de Bruxelas. Desde então ele dedica-se de corpo e alma à pintura, e integra em seu currículo a criação de uma obra surrealista, Le jockey perdu, e um ano depois realiza sua primeira mostra de arte, a qual não é bem sucedida entre os críticos.


René Magritte (1926), O Jockey perdido

Uma marca significativa na obra de Magritte é sua suposta incoerência, tal como se apresenta na pintura Rape – palavra que, em português, significa ‘Estupro’; nela aparece um torso no lugar de um rosto.


René Magritte (1934), O Estupro, óleo sobre tela

Seu temperamento irrequieto se reflete em trabalhos como A Queda, no qual seus excêntricos homens caem do firmamento, trajando chapéu-coco e completamente tranquilos, um acontecimento que revela um pouco da existência humana. O artista exercitava o que se denomina de surrealismo realista ou ‘realismo mágico’. No início de sua carreira ele tentava reproduzir os trabalhos dos pintores vanguardistas, mas aos poucos se deu conta de sua ânsia por uma expressão mais poética e, neste momento, foi profundamente inspirado pela obra metafísica de Giorgio de Chirico.
Em 1927 Magritte foi para a capital francesa e passou a frequentar os meios surrealistas, quando conheceu André Breton, Paul Éluard e Marcel Duchamp, transformando-se em fiel companheiro dos poetas e do pintor francês. Ao concluir seu contrato com a Galerie la Centaure o artista voltou para Bruxelas e aí se demorou inclusive ao longo do período em que os alemães permaneceram nesta região.
Magritte conquista a oportunidade, em 1936, de expor sua obra em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Em 1965 ele volta novamente a mostrar seus trabalhos em uma mostra retrospectiva no Museu de Arte Moderna; e no ano de 1992 suas pinturas são apresentadas no Metropolitan Museum of Art.
Na década de 40 ele aventura-se em outros géneros, assimilando caracterísitcas impressionistas, mas estes trabalhos não são bem-sucedidos. O pintor morreu em 15 de agosto de 1967, vítima de câncer, e foi sepultado no Cemitério Schaarbeek, localizado em Bruxelas.


René Magritte (1927), O dorminhoco imprudente


René Magritte (1928), Os exercícios do acrobata, óleo sobre tela


René Magritte (1928), A máscara vazia
 

René Magritte (1934-35), A descoberta do fogo

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Os outros" - Poema de Casimiro de Brito


Waiting for Freud, 2006, by Christian Tagliavini


Os outros


Os outros que vivem comigo
Estão cheios de carências e têm medo
Do dia que vai nascer

Os outros que vivem comigo
Compram e vendem coisas ideias sentimentos
Como quem muda de pele todos os dias

Só eu estou tranquilo e não digo nada
Porque não estou numa festa num campo de batalha
E não preciso de sorrir a ninguém de morder
Ninguém de fazer sinais
Que me prendam aos outros

Os outros que vivem comigo
Correm de um lado para o outro agitam-se
E não encontram o caminho
Mas eu não corro para lado nenhum
Ouço a carne viva das águas o cerne
Que vem do fundo o caminho que nunca
Me abandona

Talvez eu seja ignorante
Talvez a minha mente seja como a mente
De um louco
Talvez eu seja apenas um espelho
Que nada recusa nem aprisiona
Mas os outros que vivem comigo
Estão cheios de carências e vão morrer
Porque não sabem que transportam em si
O vaso e a semente.


Casimiro de Brito


Casimiro de Brito


Casimiro Cavaco Correia de Brito é um poeta, romancista, contista e ensaísta português. 
Nasceu no  Algarve, em 1938, onde estudou (depois em Londres) e viveu até 1968. Depois de uns anos na Alemanha passou a viver em Lisboa. Teve várias profissões mas atualmente dedica-se exclusivamente à literatura. 
Começou a publicar em 1957 (Poemas da Solidão Imperfeita) e, desde então, publicou mais de 40 títulos. Dirigiu várias revistas literárias, entre elas "Cadernos do Meio-Dia" (com António Ramos Rosa), os Cadernos "Outubro/ Fevereiro/ Novembro" (com Gastão Cruz) e "Loreto 13" (órgão da Associação Portuguesa de Escritores). Atualmente é responsável pela colaboração portuguesa na revista internacional “Serta”. 
Esteve ligado ao movimento "Poesia 61", um dos mais importantes da poesia portuguesa do século XX. Ganhou vários prémios literários, entre eles o Prémio Internacional Versilia, de Viareggio, para a "Melhor obra completa de poesia", pela sua Ode & Ceia (1985), obra em que reuniu os seus primeiros dez livros de poesia. 
Colabora nas mais prestigiadas revistas de poesia e tem obras suas incluídas em mais de 150 antologias, publicadas em vários países. 
Participou em inúmeros recitais, festivais de poesia, congressos de escritores, conferências, um pouco por todo o mundo. 
Director dos festivais internacionais de poesia de Lisboa, Porto Santo (Madeira) e Faro. Foi vice-presidente da  Associação Portuguesa de Escritores,  presidente da Association Européenne pour la Promotion de la Poésie, de Lovaina e é presidente doa Assembleia Geral do  P.E.N. Clube Português. Obras suas foram gravadas para a Library of the Congress, de Washington. 
Foi agraciado pela Academia Brasileira de Filologia, do Rio de Janeiro, com a medalha Oskar Nobiling por serviços distintos no campo da literatura — entre outras distinções. É conselheiro da Associação Mundial de Haiku, de Tóquio. É “editor-in-chief” da Antologia mundial “Diversity” do PEN Internacional, sediada na Macedónia. 
A Académie Mondiale de Poésie (da Fundação Martin Luther King), galardoou-o em 2002 com o primeiro Prémio Internacional de Poesia Leopold Sédar Senghor, pela sua carreira literária. Ganhou o Prémio Europeu de Poesia Sibila Aleramo-Mario Luzi, com a sua antologia Libro delle Cadute, publicada em Itália em 2004. 
Tem traduzido poesia de várias línguas, sobretudo do japonês e foi traduzido para albanês, galego, espanhol, catalão, italiano, francês, corso, inglês, alemão, flamengo, holandês, sueco, polaco, esloveno, servo-croata, grego, romeno, búlgaro, húngaro, russo, árabe, hebreu, chinês e japonês. 
Em 2006, foi nomeado Embaixador Mundial da Paz, no âmbito da Embaixada Mundial da Paz, sediada em Genebra. 
Em 2008 foi-lhe atribuído o prémio POETEKA no Festival Internacional do mesmo nome, na Albânia, na qualidade de “Melhor poeta do Festival. Ainda em 2008 foi agraciado pela Presidência da República Portuguesa com a Ordem do Infante Dom Henrique.

Waiting for Freud, Debbie, by Christian Tagliavini, 2006 


Waiting for Freud, Kläe, by Christian Tagliavini, 2006


Obra de Christian Tagliavini

Christian Tagliavini, nascido em 1971, educado na Itália e na Suíça, onde atualmente vive e trabalha é um designer gráfico e fotógrafo. Sua fotografia explora assuntos e conceitos muitas vezes raros ou incomuns. Tagliavini visa criar não apenas retratos mas colisões emocionantes de circunstâncias. Da mesma forma, ele considera cada retrato como uma história em aberto que deve fazer exigências sobre o seu telespectador. Seu trabalho tem sido exibido em toda a Europa.


Video portrait of photographer Christian Tagliavini


Cromofobia, Birthday, 2007


Cromofobia, Mother's day, 2007


Cromofobia, Back home, 2007 


Cromofobia, Mrs Maggie, 2007


Cromofobia, Dad, 2007


O estilo renascentista em fotografias de Christian Tagliavini,  intituladas "1503".
(O número 1503 faz referência ao ano de nascimento de Agnolo di Cosimo.)
 
"1503, Lucrezia", 2010


"1503, Artemisia", 2010


"1503, Bartolomeo"


1503, Lady Clotilde


1503, Portrait of a man


1503, Portrait of a lady in green


1503, Portrait of a young man with plumed hat


1503, Portrait of young woman