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quarta-feira, 14 de agosto de 2024

"Árvore" - Poema de Mia Couto


Henri Biva (French artist, 1848–1929), Forest in the spring, oil on canvas, 73 x 60 cm.



Árvore


Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias
luz e mel em boca alheia.

Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e da madeira e seiva
se fez o meu corpo.

Agora,
chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras. 


Mia Couto
, in "Vagas e Lumes"



Henri Biva, Étang en Ile de France, oil on canvas, 54 x 65 cm.
 

"Quem voa depois da morte? É a folha da árvore."

Mia Couto, in "O Último Voo do Flamingo" 
 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Amar-te é vir de longe" - Poema de Pedro Tamen


Thomas Hovenden (Irish artist and teacher who spent much of his life in the United States,
1840 - 1895), What O’Clock Is It?, 1878. 



Amar-te é vir de longe


Amar-te é vir de longe, 
descer o rio verde atrás de ti, 
abrir os braços longos desde os sete 
anos sob a latada ao pé do largo, 
guardar o cheiro a figos vistos lá, 
a olho nu, ao pé, ao pé de ti, 
parar a beber água numa fonte, 
um acaso perdido no caminho 
onde os vimes me roçam a memória 
e te anunciam mãos e te perfazem; 
como se o sino à hora de tocar 
já fosse o tempo todo badalado, 
e a tua boca se abrisse atrás do tojo, 
e abaixo dos calções as pernas nuas 
se rasgassem só para o pequeno sangue, 
tal o pequeno preço que me pedes. 
Atrás da curva estavas, és, serias, 
nos muros de granito, nas amoras. 
Amar-te era lembrança e profecias, 
uma porta já feita para abrir, 
e encontrar o lar ou música lavada 
onde, se nasces, vives, duras, moras 
— meu nome exato e pão 
no chão das alegrias. 


 in 'Escrito de Memória'

segunda-feira, 4 de abril de 2016

"Igual-Desigual" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Thomas Hovenden (Irish artist and teacher who spent much of his life in the United States,
1840 - 1895), Chloe and Sam, 1882, Amon Carter Museum of American Art.




Igual-Desigual


Eu desconfiava: 
todas as histórias em quadrinho são iguais. 
Todos os filmes norte-americanos são iguais. 
Todos os filmes de todos os países são iguais. 
Todos os best-sellers são iguais 
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são 
iguais. 
Todos os partidos políticos 
são iguais. 
Todas as mulheres que andam na moda 
são iguais. 
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais 
e todos, todos 
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais. 

Todas as guerras do mundo são iguais. 
Todas as fomes são iguais. 
Todos os amores, iguais iguais iguais. 
Iguais todos os rompimentos. 
A morte é igualíssima. 
Todas as criações da natureza são iguais. 
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais. 
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. 

Ninguém é igual a ninguém. 
Todo o ser humano é um estranho 
ímpar. 


in 'A Paixão Medida'