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terça-feira, 1 de julho de 2025

"Foz do Tejo, um país" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Thomas Buttersworth (English seaman of the Napoleonic wars period who became a marine
painter, 1768–1842), Mouth of the Tagus (Foz do Tejo - Lisboa ), s.d.


Foz do Tejo, um país


O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.

São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as varinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós.
Glórias, misérias, que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma. 


Fiama Hasse Pais Brandão
, in "Obra Breve", 1991.



"Obra Breve" - Poesia Reunida de Fiama Hasse Pais Brandão
Edição/reimpressão: 04-2017
Editor: Assírio & Alvim


SINOPSE 

«Ninguém entra na hermética paisagem de Fiama como em casa. Nem sequer como quem se perde, entre pânico e delícia, na floresta de um enigma levando na mão as pedras brancas do herói de Grimm. A poesia de Fiama é tão clara e obscura como o mundo onde se descobre como olhar misteriosamente instruído pelo percurso que o solicita. Um mundo ao mesmo tempo anterior ao olhar e esperando por ele para ser decifrado. Esse mundo não é um cosmos pleonasticamente harmonioso, desde sempre votado à contemplação e a um óbvio sentido. É só um mundo escrito em hieróglifos, finito e inesgotável na sua minúcia. O poema não vem elucidar o mistério da realidade sem cessar bifurcante onde a atenção de Fiama desembarca como no mais desconhecido dos mundos: vem reconhecê-la. Um mundo anterior ao verbo que o descreve e convoca, que nunca foi nomeado fora da voz que no-lo diz. Melhor seria dizer, do poema que o cria pela sua própria respiração.» - Eduardo Lourenço, no prefácio a esta edição. (daqui)
 

 
Thomas Buttersworth, An English frigate and an armed naval cutter becalmed
in the 
Tagus off the Belém Tower.


"Pelo Tejo vai-se para o mundo."

Alberto Caeiro
, in "O Guardador de Rebanhos, Poema XX"
 

 
Thomas Buttersworth, HMS ‘Warrior’ off the mouth of the River Tagus, c. 1781–1842.
National Maritime Museum

sábado, 16 de maio de 2020

"Lisboa" - Poemas de Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen


Alfredo Roque Gameiro, Lisboa velha (aguarela)


Lisboa 


Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias? 
 in Até Amanhã, 1956



 
Alfredo Roque Gameiro, Casa no Largo do Menino Deus - Lisboa Velha, nº 71



Tejo 


Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada 
 in Obra Poética, 2011 


Alfredo Roque Gameiro, Barcos e figuras junto à margem do Rio Tejo, 1913



Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.


Álvaro de Campos
,
Heterónimo de Fernando Pessoa,
Excerto do poema «Lisbon Revisited (1923)
 
 

sábado, 3 de agosto de 2019

"Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Carlos Botelho (1899 - 1982), O Tejo e a ponte, 1968, Museu Calouste Gulbenkian



Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos


E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.

Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!


Adolfo Casais Monteiro,

in "Poesia Portuguesa contemporânea"
org. Carlos Nejar, 1982 




Carlos Botelho, O Tejo, 1967



Tejo


Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada 

1994

Sophia de Mello Breyner Andresen

in Obra Poética, 2011



Carlos Botelho, Entrada da Barra, 1964


"Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento."

„Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento.“ — José Saramago 1928 - 2008

Referência: https://citacoes.in/topicos/lisboa/
„Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento.“ — José Saramago 1928 - 2008

Referência: https://citacoes.in/topicos/lisboa/

sábado, 4 de agosto de 2012

"O Tejo" - Poema de Alberto Caeiro


Rio Tejo
 

O Tejo

 
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


 Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XX"
 (Heterónimo de Fernando Pessoa)


Rio Tejo

Rio Tejo


 A Ponte de Belver sobre o rio Tejo na Estrada Nacional 24
 unindo Belver a Gavião.


Rio Tejo a jusante das Portas de Ródão.


Rio Tejo - A Ponte de Portas de Ródão na Estrada Nacional 18,
em Portas de Ródão.


Rio Tejo e o castelo de Almourol, 
em Vila Nova da Barquinha.


Rio Tejo visto do Castelo de Almourol.


A Ponte Salgueiro Maia sobre o rio Tejo no IC 10, está situada
 junto ao vale de Santarém a jusante da cidade.


A Ponte Marechal Carmona também chamada Ponte de Vila 
Franca de Xira une Vila Franca de Xira a Porto Alto.


A Ponte D. Luís I também chamada Ponte de Santarém sobre o
rio Tejo na Estrada Nacional 114, une Santarém a Almeirim.


A Ponte João Joaquim Isidro dos Reis, conhecida popularmente como 
Ponte da Chamusca, sobre o rio Tejo na Estrada Nacional 243, 
une a Chamusca e a Golegã.


Rio Tejo, ponte Vasco da Gama


Rio Tejo, ponte Vasco da Gama


Rio Tejo-Vista do Parque das Nações, em Lisboa.


Ponte 25 de Abril, construída sobre o estuário do rio Tejo,
e liga Lisboa a Almada.

Ponte 25 de Abril vista do Cristo-Rei.
Ao fundo, pode-se ver Alcântara (Lisboa).

RioTejo - Estuário, Portugal


O Tejo é o rio mais extenso da Península Ibérica. A sua bacia hidrográfica é a terceira mais extensa na península, atrás do rio Douro e do rio Ebro. Nasce em Espanha - onde é conhecido como Tajo - a 1 593 m de altitude na Serra de Albarracín, e desagua no Oceano Atlântico, banhando Lisboa, após um percurso de cerca de 1 007 km. A sua bacia hidrográfica é de 80 600 km² (55 750 km² em Espanha e 24 850 km² em Portugal), sendo a segunda mais importante da Península Ibérica depois da do rio Ebro.
Da foz do Tejo partiram as naus e as caravelas dos descobrimentos portugueses. A onda que assolou Portugal no dia do terramoto de 1755 subiu o rio e inundou Lisboa e outras localidades na margem. 
Em Lisboa o rio Tejo é atravessado por duas pontes. A mais antiga é a Ponte 25 de Abril (inaugurada em 1966, então Ponte Salazar), uma das maiores pontes suspensas da Europa, e que liga a capital de Portugal a Almada. A outra é a Ponte Vasco da Gama, de cerca de 17 km de comprimento. Foi inaugurada em 1998 e liga Lisboa (Sacavém) a Alcochete e Montijo. O local mais largo deste rio chama-se Mar da Palha e fica entre a Lisboa, Vila Franca de Xira e Benavente
Junto a Vila Franca de Xira existe ainda a Ponte Marechal Carmona que liga as duas margens. Era muito utilizada, mas com a construção da Ponte Vasco da Gama perdeu tráfego. 
Existe à entrada da barra deste rio uma fortaleza (o forte de São Julião da Barra). 
Todos os anos no porto de Lisboa, atracam centenas de paquetes de luxo, principalmente na doca de Alcântara. No seu estuário existe uma reserva ecológica (Reserva Natural do Estuário do Tejo, com sede em Alcochete) onde nidificam várias espécies de avesO avistamento de golfinhos no Tejo é um sinal de que a água está menos poluída, o que contribui para o aumento da biodiversidade (seres vivos) que vivem no rio.


Flamingos na reserva  do rio Tejo, Portugal 


Golfinhos voltam ao rio Tejo


Rio Tejo menos poluído atrai os golfinhos


Golfinho no rio Tejo


"Se revelares os teus segredos ao vento, não o culpes por os revelar às árvores."

(Khalil Gibran)