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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

"Um dia não muito perto não muito longe" - Poema de Ruy Belo


Patrick William Adam (Scottish painter, 1854 - 1929), The Yellow Bed, 1917



Um dia não muito perto não muito longe


Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada para te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei de estar morto?
 
 
Patrick William Adam,  Afternoon Light


"No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade." 
 

Patrick William Adam, Interior looking through to morning room 


"Eu nunca penso no futuro. Ele não tarda em chegar."
 
(Albert Einstein)
 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"Claridade" - Poema de Deborah Brennand



Patrick William Adam (British, 1854–1929), Wooded Landscape
under Snow (
also known as Under Heavy Sow)



Claridade


Afortunados são os bosques
onde sem bridas
a luz campeia
entre as folhagens
suas crinas douradas

Tão leve se lustra a água
na medida exata
que os rebanhos bebem
junto às raposas
sem temor selvagem.

Por que só a mim discrimina a claridade?


Deborah Brennand, em "Claridade".
Recife: Edições Bagaço, 1996.



Patrick William Adam, Winter Roslyn


Renga da noite


Noite cheia
lua minguante
meu quarto crescente


Alice Ruiz
(Renga
)



quarta-feira, 5 de agosto de 2020

"Lugar do Sol" - Poema de Eugénio de Andrade


Patrick William Adam, The Breakfast Table, 1922



Lugar do Sol


Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar – agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: “Não sujes
a toalha”; “Não comes a maçã”?
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.


Eugénio de Andrade



Patrick William Adam, The Morning Room, 1916



Eu gosto da paisagem 


"Eu gosto da paisagem. Mas amo-a duma maneira casta, comovida, sem poder macular a sua intimidade em descrições a vintém por palavra. Chego a uma terra e não resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o pão. E quando anoitece volto, como agora, cheio do enigma que fez cada região do seu feitio, tal e qual como pôs nas costas do dromedário aquela incrível marreca, e no pescoço do leão aquela fantástica juba."

Miguel Torga, in "Diário, 1942"


quinta-feira, 2 de julho de 2020

"Às portas do sol" - Poema de Eugénio de Andrade


Patrick William Adam, The Young Caddy
(also known as The Young Brother)



Às portas do sol


A casa é térrea, prolonga a eira,
o olival. Desde cedo
conheceste o sal
dos olhos às portas do sol.
Rastejar, em menino,
pela terra apura o ouvido:
nenhum rumor de ave
ou pulsação de sapo se perdia.
Também ouvias
de vaga em vaga o silêncio,
cada sílaba crescer para o trigo.


Eugénio de Andrade
Ofício de Paciência, 1994

quinta-feira, 11 de junho de 2020

"Sem cabimento" - Poema de Viviane Mosé



Patrick William Adam, Venezia, la Salute e la Punta della Dogana, 1889



Sem cabimento


Queria escrever todas as plantas e pessoas, todos os rios
Os muros, as cores, os homens.
As senhoras de idade, as caixas do correio, os espanhóis.
Os olhos e as ruas, os tamanhos e larguras, as alturas.
As pernas, os falos, os pêlos, os pulsos.

Queria escrever o ritmo das pedras, das estradas calçadas.
Das margaridas. Escrever o que manda e o que obedece.
O que cresce e o que padece de amparo. O que afunda,
O que eclode. Escrever o que não sabe e o que não cabe
Em lugar nenhum.

E viver a escrita das coisas. Não as coisas
Que não me cabem. Coisas e pessoas não me cabem
E sem cabimento me atravessam.
Pessoas passam depressa demais entre meus poros. E vão.
Eu tenho uma imagem presa na garganta.
Ser gente me arranha. Quero voltar a ser palavra.


Viviane Mosé, em "Pensamento Chão".
Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2000
 


terça-feira, 9 de junho de 2020

"Canto de Outono" - Poema de Ruy Belo


  Ernest De Nagy (Hungarian-American, 1881-1952), Autumn Woods and Stream.


Canto de Outono 


Os rouxinóis inexoráveis da primavera
trazidos até nós por certa curta carta
em que canto da noite cantarão agora
que já os frágeis frios vindimam?
E os lilases crudelíssimos de junho
inalteráveis como o céu das férias grandes
talvez desdobradas sobre a adolescência
de que nos valerão perante a insinuante música do outono?
E a mãe que o filho suga a ruga
que mãos estenderá sobre estes rostos
onde poisaram patas implacáveis dias?
E quando o vento verga os choupos do princípio
e despe os ramos dos plátanos familiares
faltará muito que nos cubram provisoriamente
as folhas fatigadas das desoladas árvores?
Já sobe a nossos pés o cedro do silêncio
Promete-nos o sol que sobre os nosso rostos
hão de na primavera ondular os trigos.


Ruy Belo,"Obra Poética de Ruy Belo"
Vol. 2, pág. 14 | Editorial Presença Lda., 1981 


 
Patrick William Adam, Treescape with Shepherd, 1898


Outono

 A verde folhagem
Dia a dia desbotando...
É chegado o outono!

domingo, 7 de junho de 2020

"Uma sombra" - Poema de Manuel António Pina



Patrick William Adam, The Studio of FCB Cadell, 1912



Uma sombra


Ouves os meus passos nas escadas?
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.

Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.

Não foi o caminho de casa que perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?

Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é esse ausente?


Manuel António Pina

Todas as Palavras – Poesia Reunida,
Assírio&Alvim (Porto Editora), 3.ª ed., 2013


Patrick William Adam, Studio Gleams


Retrato Antigo



Quem é essa que
me olha de tão longe
com olhos que foram meus?

Helena Kolody

quarta-feira, 3 de junho de 2020

"Muriel" - Poema de Ruy Belo


Patrick William Adam, Lady in an Italian Garden



Muriel


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido.


Ruy Belo


sábado, 23 de maio de 2020

"Declaração de amor" - Poema de Deborah Brennand



Patrick William Adam, Tulips, Marsh Marigolds, Irises, and Lupins in a Vase
 


Declaração de amor


Ontem disseste
sisudo, como todo saber
— Esta flor é da família das violáceas
o nome correto é — violeta tricolor.

Eu disse — é amor perfeito...

Amarelo e roxo
salpicado de negror
severamente reclamando
gotas de terra nas folhas.

Pensei — será isto perfeito?

 em "Poesia reunida", 2007


terça-feira, 19 de maio de 2020

"O Canto da Chávena de Chá" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


Patrick William Adam, The breakfast room, Ardilea, 1912



O Canto da Chávena de Chá


Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão



Patrick William Adam, The Study, Ardilea, North Berwick, 1917



Flecha de sol


A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.


Helena Kolody
(Haicai)


domingo, 17 de maio de 2020

"Passagem" - Poema de Manuel António Pina


Patrick William Adam On the Quai des Célestins, 1910



Passagem


Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós
como diremos ainda margens e diremos rios?


Manuel António Pina
 ed. Assírio & Alvim



sábado, 10 de agosto de 2019

"Ausente" - Poema de Marguerite Yourcenar


Patrick William Adam (1854-1929), 'The Dinner Table, Ardilea',  Scotland, 1911
 


Ausente


Ausente,
a tua figura aumenta
a ponto de encher
o universo.

Passas
ao estado fluido
que é o dos fantasmas.

Presente,
ela condensa-se;
atinges as concentrações
dos metais
mais pesados,
do irídio,
do mercúrio.

Morro
com esse peso
quando ele me cai
no coração.


  Tradução de Maria da Graça Morais Sarmento


Patrick William Adam, The White Flower Stand


Às vezes


Às vezes, soluço por mim,
como se pranteia alguém
que há muito deixou de existir.


Helena Kolody
(Haicai) 

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

"Ode Marcial" - Poema de Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa)


Patrick Adam, War, 1915



Ode Marcial


Inúmero rio sem água — só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!

Helahoho! helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,

Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.

Helahoho! helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.

Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.

E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.

Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.

Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.

Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o.
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.

Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?

Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!

s.d.

Heterónimo de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 304.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

"Maomé e a Montanha" - Poema de Rosa Alice Branco

Patrick William Adam, Lady Sewing, Date unknown



Maomé e a Montanha


Guardo o mais absoluto segredo
das pedras que rolam no fundo dos leitos
embora nada saiba,
nada ouse saber.
Vou pelo olhar até ao rio,
o rio vem a mim
e ambos caminhamos deslumbrados
para fora de nós.

O cantar da água
corre nos meus olhos exatamente como corre
a manhã
até que o sol a prumo
faz de mim o desenho do rio
que vejo,
o mapa das veias
onde o corpo nasce de novo.

À vinda procuro a minha sombra.
O coração que me há de trazer de volta
demora-se no rio
como se nele corresse
uma sede de olhar.

Os pés colam-se à margem.
Do outro lado as casas vão mudando
de expressão
mais lentamente do que a água corre.
O sol abraça-me pelas costas
e deixa-se escorregar como crianças
que riem,
que não distinguem a voz seca do tempo.

É noite à lareira da casa.
Os objetos acendem-se:
também eles mudam de rosto
como tudo o que é iluminado por amor.
Aproximo-me de longe,
venho do rio,
o rio vem de mim.


Rosa Alice Branco, in 'O Único Traço do Pincel'


domingo, 14 de julho de 2019

"Domingo no campo" - Poema de Nuno Júdice


Patrick William Adam, The Terrace, Varenna, 1933



Domingo no campo


Aos domingos, quando os sinos tocam
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.


Nuno Júdice


Patrick William Adam, Off to Church, Date unknown


Ressonância

 
Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

Helena Kolody
(Haicai)

quinta-feira, 4 de julho de 2019

"A Casa" - Poema de Mia Couto


Patrick William Adam, A lady in pink, 1899



A Casa


Confesso:
Quando a olhei
eu apenas queria,
em sua boca,
a água onde começa a vida.

E fui num murmúrio:
preciso do teu fogo
para não morrer.
Ela, então,
sussurrou o convite:
vem a minha casa.

No caminho,
porém,
recusou meu braço,
esfriou o meu alento.
E corrigiu-me assim o intento:
não te quero corpo,
nem quero o fogo do leito,
nem o frio do adeus.

Suave murmurou:
levo-te,
homem,
a minha casa
para aprenderes a ser mulher.
Que nenhum outro fim
a casa tem. 


Mia Couto, “Vagas e Lumes”
 Editorial Caminho.

terça-feira, 18 de junho de 2019

"Gato num apartamento vazio" - Poema de Wislawa Szymborska


Patrick William Adam, Orange And Blue, The Library At Ardilea, 1911


Gato num apartamento vazio


Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.

Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.

Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.

Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direção a ele
como que contrariado,
devarinho, com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios.
 Pelo menos ao princípio.
Patrick William Adam, The library at Tyninghame, 1925


"O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba receber." - Artur da Távola

sexta-feira, 14 de junho de 2019

"Correm turvas as águas deste rio" - Poema de Luís de Camões


Patrick William Adam, Notre Dame and the Seine, Private Collection



Correm turvas as águas deste rio


Correm turvas as águas deste rio
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio,
umas coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.


Luís de Camões
,
Sonetos


Patrick William Adam, Pont Neuf, near the Wine Market at the Edge of the Seine, Private Collection


Jornada

 
Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.


Helena Kolody
(Haicai) 

terça-feira, 11 de junho de 2019

"Primavera" - Poema de Augusto dos Anjos


Patrick William Adam, In the Garden, the Knoll, North Berwick, 1915
 

Primavera

A meu irmão Odilon dos Anjos


Primavera gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!


Augusto dos Anjos


Patrick William Adam, Tulips, Forgetmenots, 1928


Repuxo Iluminado

 
Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.


Helena Kolody
(Haicai) 
 
 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Ser poeta" - Poema de Newton Fernandes



Patrick William Adam ( Scottish artist, 1854-1929), A quiet corner, n.d.


Ser poeta


Ser poeta é ter em si o sol resplandecente
A aurora, o crepúsculo e a noite enluarada
A montanha, o mar, a chuva, a estrela cadente
E a tudo isso amar com a alma apaixonada

É viver cheio de fé e mil sonhos de esplendores
Cultivar a fantasia nas sementes da fria realidade
Ter o perfume do jasmim e as asas dos condores
No mundo ver belezas e de tudo ter saudade

É olhar para o horizonte e acreditar no infinito
Descrever lindas manhãs e também tardes sombrias
Embelecer esses contrastes com seu estro, com seu grito

E quando se apaixona é um oceano imenso de ternura
Colocando sua musa em suas noites e seus dias
Em constante desejar… e exaltar – lhe a formosura.


Newton Fernandes


Patrick William Adam, Sunlit Garden, 1928


"A maioria de nossos males é obra nossa e os evitaríamos, quase todos, conservando uma forma de viver simples, uniforme e solitária que nos era prescrita pela natureza."

(Jean Jacques Rousseau)

[Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de Junho de 1712 — Ermenonville, 2 de Julho de 1778) foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo.]