terça-feira, 18 de junho de 2019

"Gato num apartamento vazio" - Poema de Wislawa Szymborska



Patrick William Adam (Scottish painter, c. 1852/4–1929),
'Orange and Blue, the Library at Ardilea', 1911.


Gato num apartamento vazio


Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.

Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.

Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.

Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direção a ele
como que contrariado,
devarinho, com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios.
 Pelo menos ao princípio.
Patrick William Adam, 'The library at Tyninghame', 1925


"O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba receber." - Artur da Távola

Sem comentários: