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sábado, 12 de julho de 2025

"A Escola é" - Poema de Paulo Freire



Harold Mathews Brett
(American illustrator and painter, 1880–1955),
Portrait of Virginia Crocheron Gildersleeve (1877–1965),
Dean of 
Barnard College in New York City, 1946.


A Escola é 


Escola é...
o lugar onde se faz amigos
não se trata só de prédios, salas, quadros,
programas, horários, conceitos...
Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente,
O coordenador é gente, o professor é gente
o aluno é gente,
cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
na medida em que cada um
se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de ‘ilha cercada de gente por todos os lados’.
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir
que não tem amizade a ninguém
nada de ser como o tijolo que forma a parede,
indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade,
é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se ‘amarrar nela’!
Ora, é lógico...
numa escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se,
ser feliz.
 
s.d.

Paulo Freire
 
 
Paulo Freire (daqui)
 
 
Paulo Freire foi um pedagogo brasileiro nascido em 1921 e falecido em 1997. Em 1964, iniciou um método de alfabetização de adultos nas regiões pobres do nordeste brasileiro.
O seu projeto-piloto foi extinto nesse ano devido ao golpe militar, tendo como primeira consequência a prisão de Freire e mais tarde o seu exílio no Chile e na Suíça.
O pedagogo era visto pelos militares como um agente ao serviço do comunismo. Enquanto exilado, consolidou o seu prestígio internacional em matéria de alfabetização de adultos, tendo sido distinguido por várias universidades e visto o seu método aplicado em vários países. Especialmente apreciado foi o seu livro Pedagogia do Oprimido (1970), em que defendia que educar não é transmitir conhecimentos mas trocar experiências.
Regressado ao Brasil após 15 anos, ocupou o cargo de secretário da Educação da cidade de S. Paulo. (daqui)


segunda-feira, 29 de junho de 2020

"As cem linguagens da criança" - Poema de Loris Malaguzzi


Jean-Paul Louis Martin des Amoignes (1858–1925), Dans la salle de classe, 1886



As cem linguagens da criança


A criança é feita de cem.
A criança tem cem mãos
cem pensamentos
cem modos de pensar
de jogar e de falar.
Cem, sempre cem
modos de escutar
de maravilhar e de amar.
Cem alegrias
para cantar e compreender.
Cem mundos
para descobrir.
Cem mundos
para inventar.
Cem mundos
para sonhar.
A criança tem
cem linguagens
(e depois cem, cem, cem)
mas roubaram-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo.
Dizem-lhe:
de pensar sem as mãos
de fazer sem a cabeça
de escutar e de não falar
de compreender sem alegrias
de amar e de maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe:
de descobrir um mundo que já existe
e de cem roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:
que o jogo e o trabalho
a realidade e a fantasia
a ciência e a imaginação
o céu e a terra
a razão e o sonho
são coisas
que não estão juntas.
Dizem-lhe enfim:
que as cem não existem.
A criança diz:
Ao contrário, as cem existem.


Loris Malaguzzi
(1920-1994)
As Cem Linguagens da Criança

Loris Malaguzzi, professor italiano que criou a abordagem educativa mais conhecida como Reggio Emilia e defensor da pedagogia da escuta, ele a relacionava ao debate acerca da linguagem oral e escrita, mas também ao estudo do cérebro e às ideias sobre os processos de aprendizagem (“aprender fazendo” de John Dewey). Reggio Emilia é uma pequena província considerada colaborativa, cuja Educação Infantil foi considerada a melhor do mundo em 2013, e difunde largamente a ideia das Cem Linguagens. Para o educador, não só o que a criança pensa é válido, mas válidas são também as múltiplas linguagens da infância e a forma como as crianças pesquisam, produzem sentido e conhecimento.

domingo, 2 de junho de 2019

"A Escola Portuguesa" - Poema de Guerra Junqueiro


Simon Glücklich (1863-1943), The Homework, 1893 



A Escola Portuguesa 


Eis as crianças vermelhas
Na sua hedionda prisão:
Doirado enxame de abelhas!
O mestre-escola é o zangão.

Em duros bancos de pinho
Senta-se a turba sonora
Dos corpos feitos de arminho,
Das almas feitas d'aurora.

Soletram versos e prosas
Horríveis; contudo, ao lê-las
Daquelas bocas de rosas
Saem murmúrios de estrela.

Contemplam de quando em quando,
E com inveja, Senhor!
As andorinhas passando
Do azul no livre esplendor.

Oh, que existência doirada
Lá cima, no azul, na glória,
Sem cartilhas, sem tabuada,
Sem mestre e sem palmatória!

E como os dias são longos
Nestas prisões sepulcrais!
Abrem a boca os ditongos,
E as cifras tristes dão ais!

Desgraçadas toutinegras,
Que insuportáveis martírios!
João Félix com as unhas negras,
Mostrando as vogais aos lírios!

Como querem que despontem
Os frutos na escola aldeã,
Se o nome do mestre é — Ontem
E o do discípulo — Amanhã!

Como é que há de na campina
Surgir o trigal maduro,
Se é o Passado quem ensina
O b a ba ao Futuro!

Entregar a um tarimbeiro
Um coração infantil!
Fazer o calvo Janeiro
Preceptor do loiro Abril!

Barbaridade irrisória,
Estúpido despotismo!
Meter uma palmatória
Nas mãos dum anacronismo!

A palmatória, o açoite,
A estupidez decretada!
A lei incumbindo a Noite
Da educação da Alvoradal

Gravai na vossa lembrança
E meditai com horror,
Que o homem sai da criança
Como o fruto sai da flor.

Da pequenina semente,
Que a escola régia destrói,
Pode fazer-se igualmente
Ou o assassino ou o herói.

Desta escola a uma prisão
Vai um caminho agoireiro:
A escola produz o grão
De que a enxovia é o celeiro.

Deixai ver o Sol doirado
À infância, eis o que eu vos peço.
Esta escola é um atentado,
Um roubo feito ao progresso.

Vamos, arrancai a infância
Da lama deste paul;
Rasgai no muro Ignorância
Trezentas portas de azul!

O professor asinino,
Segundo entre nós ele é,
Dum anjo extrai um cretino,
Dum cretino um chimpanzé.

Empunhando as rijas férulas
Vós esmagais e partis
As crianças — essas pérolas
Na escola — esse almofariz.

Isto escolas!... que índecência
Escolas, esta farsada!
São açougues de inocência,
São talhos d'anjos, mais nada. 


Guerra Junqueiro
(1850-1923),
in 'A Musa em Férias'

'A Musa em Férias' de 1879, é um volume de poesias de Guerra Junqueiro, subintitulado Idílios e Sátiras. No poema inicial, "A Musa", o autor aponta por antonomásia os atributos da sua poesia: é "reta como a justiça", "detesta os velhos pedantes, / ama o justo, o belo e o nu"; "vai neste caminho escuro / lutando, cantando e rindo, / senta-se junto ao Futuro". Nestes versos resumem-se as orientações temáticas das composições, distribuídas por três partes - "As crianças", "À sombra das árvores", "Combates" -, que aduzem à componente de crítica social uma forte intenção progressista. (daqui)
(Este poema de Guerra Junqueiro,´A Escola Portuguesa',  é um retrato da Escola do seu tempo.)

terça-feira, 21 de março de 2017

"Que Aborrecido!" - Poema de António Nobre



Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 1831–1910),
Schoolboy, 1881
 

Que Aborrecido!


Meus dias de rapaz, de adolescente, 
Abrem a boca a bocejar sombrios: 
Deslizam vagarosos, como os rios, 
Sucedem-se uns aos outros, igualmente. 

Nunca desperto de manhã, contente. 
Pálido sempre com os lábios frios, 
Oro, desfiando os meus rosários pios... 
Fora melhor dormir, eternamente! 

Mas não ter eu aspirações vivazes, 
E não ter, como têm os mais rapazes, 
Olhos boiando em sol, lábio vermelho! 

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso: 
E não sei, sendo assim, enquanto moço, 
O que serei, então, depois de velho... 


António Nobre, in 'Só' 




"A escola foi para mim como um barco: me dava acesso a outros mundos. Contudo, aquele ensinamento não me totalizava. Ao contrário: mais eu aprendia, mais eu sufocava."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

"Os professores" - Crónica de José Luís Peixoto


Ilustração de Renato Alarcão para "Conto de Escola" de Machado de Assis, publicado na edição especial
 "Contos Brasileiros" da revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita



Os professores


O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objetos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos atualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efetiva. O trabalho dos professores é a generosidade.

Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais aos de ontem. O ato que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.

Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.

Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.

Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança.


Artigo de José Luís Peixoto, in revista Visão (Outubro, 2011)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"Diálogo" - Poema de Albano Martins


Os alunos atravessam uma ponte suspensa danificada, Lebak, Indonésia
 
 

Diálogo


Levarás 
pela mão 
o menino 
até ao rio. Dir-lhe-ás 
que a água é cega 
e surda. Muda, 
não. Que o digam 
os peixes, que em silêncio 
com ela sustentam 
seu diálogo 
líquido, de líquidas 
sílabas 
de submersas 
vogais. 


Albano Martins, 
in "Castália e Outros Poemas"


 Lebak, Indonésia


Os mais perigosos e bizarros caminhos do mundo para ir para a escola

  • Para deleite de alguns e desespero de outros, o novo ano letivo está prestes a começar para milhões de crianças em todo o mundo. Se para muitas crianças ir para a escola é uma banalidade para outros é um grande luxo.

Delhi, India


  • São muitas as crianças que todos os dias têm de percorrer caminhos bastante perigosos e bizarros, muitas vezes em transportes sobrelotados, para conseguirem chegar à escola e receber a educação que muitas outras crianças dão por garantida.

Sri Lanka

  • De acordo com a UNESCO, o progresso de ligação entre as crianças e as escolas abrandou nos últimos cinco anos, o que torna ainda mais difícil a muitas crianças deslocarem-se para os locais de aprendizagem, escreve o Bored Panda

Pili, China

  • Os caminhos perigosos que todos os dias têm de atravessar são um dos principais motivos para a grande taxa de abandono escolar nos países mais desfavorecidos ou nas regiões isoladas.

Gulu, China

  • A solução pode parecer simples: construam-se pontes e estradas, comprem-se autocarros e contratem-se motoristas. Contudo, a falta de dinheiro e os desastres naturais que frequentemente destroem as construções que permitem às crianças ir à escola tornam difícil o acesso à educação que muitos necessitam.

Zhang Jiawan Village, Southern China


"Tenho de procurar nas estrelas aquilo que me é negado na Terra."

 

Padang, Sumatra, Indonesia


"Qual é o sentido da nossa vida em especial, e qual o sentido da vida de todos os seres em geral? Saber responder a esta pergunta equivale a ser-se religioso. Hão-de perguntar: fará sentido pôr-se esta questão? Respondo: Quem considere a sua própria vida e a dos seus semelhantes como desprovida de sentido, não é somente infeliz, como ainda incapaz de viver."
Albert Einstein
 
Padang, Sumatra, Indonesia


"Dificuldades e obstáculos são fontes valiosas de saúde e força para qualquer sociedade."

Albert Einstein

Rio Negro, Colômbia


"Deus é a lei e o legislador do Universo."

Albert Einstein

Rio Negro, Colômbia


"O comportamento ético do homem deve basear-se eficazmente na compaixão, na educação e nos laços sociais, e não necessita de base religiosa. Triste seria a condição humana se os homens precisassem de ser refreados pelo temor do castigo ou pela esperança da recompensa depois da morte."

Albert Einstein

Gulu, China


"Feliz aquele que atravessou a vida ajudando o seu semelhante, que não conheceu o medo e se manteve alheio à agressividade e ao ressentimento! É dessa madeira que são esculpidas as figuras ideais, que consolam a Humanidade nas situações de sofrimento que ela própria criou."


Albert Einstein

Gulu, China


"Tudo quanto o espírito inventivo do homem criou nos últimos cem anos, poderia assegurar-nos uma vida despreocupada e feliz se o progresso em matéria de organização tivesse caminhado a par do progresso técnico. Mas, assim, tudo quanto se conseguiu à custa de muito esforço, lembra, nas mãos da nossa geração, uma lâmina de barbear na mão duma criança de três anos. A aquisição de maravilhosos meios de produção não nos trouxe a liberdade, mas sim a preocupação e a fome."

Albert Einstein

Cilangkap Village, Indonesia

"Só quando se suprimir a guerra, se conseguirá também realizar a educação da juventude no espírito de conciliação, de alegre afirmação da vida e de amor para com todos os seres vivos. Nem é de desejar que, precisamente os moços mais valorosos, sejam entregues à destruição, levada a cabo pela engrenagem, atrás da qual se erguem três potências formidáveis: a estupidez, o medo e a avidez."


Albert Einstein

A girl riding a bull to school, Myanmar


"O trabalho esforçado e a contemplação da natureza de Deus são os anjos que, conciliadores, fortificadores e, contudo, impiedosamente severos, me guiarão através do tumulto da vida."

Albert Einstein, Correspondência (1897), a um amigo 
 

Riau, Indonésia


"A comodidade de vida, o conforto, têm nos Estados Unidos um papel predominante. A eles se sacrifica o sossego, a despreocupação e a segurança. O Americano vive mais para um objectivo, para o futuro, que o Europeu. A vida é um evoluir constante e nunca um estado. Nesse sentido é menos parecido ainda com o Russo e o Asiático do que o Europeu."


Albert Einstein

The Root Bridge, India


"Aquilo que considero verdadeiramente valioso na engrenagem da Humanidade não é o Estado, mas sim o indivíduo criador e emotivo, a personalidade: só ela é capaz de criar aquilo que é nobre e sublime, enquanto o povo em si permanece embotado no pensar e frígido no sentir."

Albert Einstein

Zanskar, Indian Himalayas


"A interrupção do treino intelectual nos anos decisivos do desenvolvimento, deixa fácilmente, atrás de si, uma lacuna que dificilmente poderá ser depois preenchida."

Albert Einstein

Rizal Province, Philippines


"A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro."

Albert Einstein


Rizal Province, Philippines


"A vontade, dominada por uma firme convicção, é mais forte que a força material aparentemente invencível."

Albert Einstein


Rizal Province, Philippines


"Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe por provar o contrário."

 
Albert Einstein

Rizal Province, Philippines


"O ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação."

Albert Einstein

Beldanga, India

Fontes:
Green Savers
Bored Panda


sábado, 25 de janeiro de 2014

"As crianças têm direito a não gostar de todos os professores" - Crónica de Eduardo Sá





As crianças têm direito a não gostar de todos os professores


As crianças têm direito a não gostar de todos os professores. E têm direito a dar bolas amarelas ou vermelhas, por mau comportamento, a todos aqueles que não queiram ser mágicos, porque só esses dão colo e dão regras, instigam a curiosidade e acarinham as perguntas, brincam e contam histórias enquanto ensinam.

As crianças têm, também, direito a considerar os professores como alguém que, pela sua importância, fica para sempre, como o Norte, dentro de si: pelo modo como educam, pela forma como cuidam, pela bondade com que escutam, pela maneira como se comovem e pelo jeito como se riem com as trapalhadas de quem descobre.

As crianças têm, ainda, o direito a ser reconhecidas pelo seu nome, por todos os professores, sejam quais forem as escolas que os seus pais entendam que elas devem frequentar. As crianças reconhecem que as escolas públicas e as escolas privadas são escolas, simplesmente, porque em todas elas é a diversidade dos professores que faz com que, pelo bem que eles representam, todas as crianças tenham de o usufruir. Por isso mesmo, manifestam preocupação por todos os professores que, contra a sua vontade, estão em escolas que rejeitam crianças pelo seu estatuto social ou económico, pelo seu credo ou pela sua cor, pelo sucesso ou o insucesso com que chegam, pelas médias de anos anteriores ou, até, pela configuração da sua família ou pelo seu sexo, porque as escolas são lugares plurais, que ensinam com bons exemplos, pelo modo como acolhem a pluralidade, como convivem com a diversidade e como nunca cedem à verdade. Não sendo assim, escolas amigas da exclusão são maus exemplos. E, por isso mesmo, não são boa escola nem para os professores nem para ninguém.

As crianças reconhecem que os professores lhes dão que pensar: e é por isso que os respeitam. Mesmo que, muitas vezes, haja professores que imaginem as coisas que se aprendem como produtos ultra-congelados – que não apuram a sensibilidade nem o paladar, que (mal se digerem) logo se repetem – diante dos quais só os sabichões e os sabidos (nunca as crianças que precisam de dar vários erros para aprenderem) parecem ter sucesso.

As crianças sabem, também, que os professores bonzinhos são pessoas generosas mas... desengonçadas: porque deixam que haja crianças que fazem greve de zelo aos trabalhos na aula; porque acham que são os pais que as devem ensinar acerca de tudo aquilo de que eles deixam sempre por falar na aula; e porque permitem que haja crianças que sejam, continuadamente, mal-educadas, que não estimam o bem precioso que a escola tem de ser para todos nós.

Mas é por tudo aquilo que os professores têm de precioso e de indispensável que as crianças não compreendem que eles sejam mal remunerados, desconsiderados e – às vezes, até – enxovalhados, porque quem luta pela paixão de dar a conhecer tem tanto de sábio como de aventureiro e, por isso mesmo, devia ser objeto de todos os cuidados. Porque é pela mão deles que o mundo pula e se transforma, se torna justo, se abre ao novo e à mudança, e liga curiosidade, com sensatez e com paixão.

E é por isso, também, que as crianças se preocupam com a imensa quantidade de professores que condescendam, por necessidade, com projetos educativos que, muitas vezes, são batoteiros. Onde há disciplinas de primeira e, outras, de “baixa categoria”, e onde as classificações têm de ter “pó de arroz” (porque as escolas acham que os pais estão sempre interessados em ter filhos com boas notas, mesmo que não aprendam), e onde os rankings, com um pouco de botox, mesmo que sejam mentirosos, não fazem mal a ninguém.

E preocupam-se, mais, porque muitos professores (a maioria, seguramente) têm de tolerar colegas que, sendo contra a avaliação dos professores, mal chegam à altura de avaliar os colegas, insinuam, ameaçam e retaliam. E porque muitas direções de escolas têm à sua frente pessoas carrancudas que – por espírito de missão, só pode ser – são a prova viva que quem não se afirma como autoridade, pela sabedoria e pelo sentido de justiça, não sabe escutar, não sabe ensinar nem sabe dirigir. E preocupam-se, ainda, com ministérios e com ministros que parecem não gostar dos professores. Que os imaginam rudimentares, e que os obrigam a estar na escola, mesmo que nelas não disponham de condições para trabalhar (como se um professor fosse um rebelde, mais ou menos incorrigível, diante do qual só o pulso firme do “antigo regime” parecesse educá-lo).

As crianças reconhecem que é preciso ser um bocadinho estranho para se ser professor. E escutar confissões, e abrir o coração como muitos tios e alguns pais jamais farão. E aconselhar. E recomendar. E, por um sorriso, ir à lua, e voltar. E tolerar alguns pais insolentes e mal-educados, daqueles que quanto mais omissos são mais exigem à escola aquilo que não dão. E conviverem com alguns colegas que culpam as famílias de tudo o que vai mal na escola, e se vingam nas crianças dum sistema que os alimenta sem merecerem. E com vários outros que acham que se as crianças são desatentas o problema é sempre da dosagem das gotas que as separa da sabedoria sintética e nunca daquilo que se passa na escola, daquilo com que se chega à escola ou daquilo que se espera dela.

As crianças reconhecem que um professor é o melhor amigo da insubmissão. Porque apesar de todos os maus tratos, percorrem quilómetros, todos os dias, atrás dum sonho. E pagam materiais didáticos porque os recursos das escolas são, vergonhosamente, escassos. E aceitam turmas cada vez maiores e tempos letivos que são inimigos da conversa. E horas de trabalho obscenas, a que não faltam tempos de reuniões que, dependendo dos humores de quem as marca, se prolongam e eternizam. E a ideia que as instalações escolares e os projetos educativos (que alguém concebeu num papel) fossem sempre mais importantes que a sabedoria e a humanidade dum professor. E fazem de conta que acham razoável que brincar e aprender nunca se casem na educação, e que acreditam que os alunos são tecnocratas, nunca artesãos, e que não precisam duma mestre – acutilante, arrojado e sensato – que lhe dê respostas a todos os porquês (que a escola raramente premeia e acarinha). E mais porquês, ainda.

As crianças admiram os professores! Como admiram poucas pessoas mais. E admiram a beleza com que eles as cativam, o engenho humano para o qual as despertam e as histórias que eles lhes trazem, e que sintetizam a sabedoria que a ciência e a técnica nunca conseguem abarcar. As crianças admiram os professores porque sabem que admiração supõe espanto e surpresa, supõe respeito e estima, supõe gratidão (por merecermos todas as interpelações que qualquer experiência de admiração traz ao nosso coração) e supõe, ainda, humildade (diante do reconhecimento de sermos pequeninos, ao pé de tudo aquilo que admiramos).

As crianças sabem que quem não admira não aprende. E não concilia humildade com orgulho, esperança com dor, e ambição com paciência. As crianças admiram os professores porque dão colo e dão regras, porque instigam a curiosidade e acarinham as perguntas, porque brincam e contam histórias enquanto ensinam, porque são amigos do espanto e da surpresa, da justiça e da bondade. E é por tudo isso que lembram a todos os pais, a todas as pessoas (e aos governantes, também) que, porventura, desconheçam o bem precioso que um professor pode ser, que quem não olha para cima, não admira, não cresce nem aprende. Acha-se a si própria o topo, porventura. Mas não é!

Escrito por Eduardo Sá, psicólogo português
Quarta, 22 Janeiro 2014
in Pais&Filhos


Eduardo Sá



Eduardo Sá

Psicólogo, psicoterapeuta e psicanalista, doutorado em Psicologia clínica pela Universidade de Coimbra. Seguiu a carreira de ensino, colaborando com várias instituições, tais como a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e o Instituto Superior de Psicologia Aplicada em Lisboa.
Divide o seu tempo ainda como responsável pela Consulta "Bebés e Crescidos" do Núcleo de Seguimento Infantil e Ação Familiar (NUSIAF) da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
É também um escritor conceituado, abordando temas que interessam à família e aos pais, em especial, tais como a educação e o desenvolvimento das crianças.
Entre as suas obras destacam-se: Psicologia dos Pais e do Brincar (1993), Manual de Instruções para uma Família (1999), Psicologia do Feto e do Bebé (2001) e ainda A Vida não se Aprende nos Livros (2002).

Eduardo Sá. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-01-25].