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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

"Primeira tarde" - Poema de Arthur Rimbaud


Albert Lynch, A young beauty



Primeira tarde


Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.

Quase desnuda, na cadeira,
Cruzavas as mãos, e os pequeninos
Pés esfregava na madeira
Do chão, libertos finos, finos.

— Eu via pálido, indeciso,
Um raiozinho em seu gazeio
Borboletear em seu sorriso
— Mosca na rosa — e no seu seio.

— Beijei-lhe então os tornozelos.
Deu ela um riso inatural
Que se esfolhou em ritornelos,
Um belo riso de cristal.

Depressa, os pés na camisola
Logo escondeu: "Queres parar!"
Primeira audácia que se implora
E o riso finge castigar!

Sinto-lhe os olhos palpitantes
Sob os meus lábios. Sem demora,
Num de seus gestos petulantes,
Volta a cabeça: "Ora, esta agora!..."

"Escuta aqui que vou dizer-te..."
Mas eu lhe aplico junto ao seio
Um beijo enorme, que a diverte
Fazendo-a rir agora em cheio...

— Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.


Arthur Rimbaud

Trad. Ivo Barroso

sábado, 30 de junho de 2012

"As iluminações" - Poema de Arthur Rimbaud


Pintura de Henri Fantin-Latour



Saldo


Vende-se o que os Judeus não venderam, 
o que nem a nobreza nem o crime provaram, 
o que o amor maldito 
e a honestidade infernal das massas ignoram; 
o que nem a ciência nem o tempo reconhecem; 
as vozes restauradas, 
o despertar fraterno 
de todas as energias corais e orquestrais 
e suas aplicações instantâneas; 
ocasião única de libertar os nossos sentidos! 

Vende-se Corpos sem preço, 
de qualquer raça, 
de qualquer mundo, 
de qualquer sexo, 
de qualquer descendência! 
Riquezas brotando a cada passo! 

Saldo de diamantes sem controlo! 

Vende-se anarquia para as massas; 
satisfação irreprimível
para amadores superiores; 
morte atroz para os fiéis e os amantes! 

Vende-se casas e migrações, 
desportos, magias e confortos perfeitos, 
e o ruído, 
o movimento e o futuro que eles fazem! 

Vende-se aplicações de cálculo 
e saltos inauditos de harmonia. 
Achados e termos sem suspeita, 
entrega imediata, 
impulso insensato e infinito 
aos esplendores invisíveis, 
às delícias insensíveis, — 
e seus segredos enlouquecedores 
para cada vício 
e uma alegria assustadora para a multidão.

Vende-se Corpos, vozes, 
a inquestionável opulência imensa, 
que nunca será vendida. 
Os vendedores têm muitos estoques
para liquidar! 
Os viajantes não precisam ter pressa
para entregar as encomendas!


Arthur Rimbaud, "As iluminações"



Henri Jean Fantin-Latour, "Roses and Nasturtiums" 



"AS ILUMINAÇÕES"


Um dos livros que marcam de maneira mais contundente a modernidade são as Iluminações, de Arthur Rimbaud. Dentre os poemas que o constituem, estão alguns que representam, de maneira paradigmática, a tempestade de desafogo e de fantasia que, segundo Hugo Friedrich, desarticulará o formalismo ainda fortemente presente na poesia do final do século XIX. Tal processo indicia uma mudança de perspectiva com relação aos modos de representação lírica da realidade, evidenciando que a linguagem não é uma simples repetição mimética do real visível.
Para isso, uma das técnicas mais utilizadas por Rimbaud, nesta obra, é a da fusão de imagens - num processo ao mesmo tempo metafórico e metonímico. O poema Marinha é um bom exemplo dela. Eis a sua tradução do original francês:


Marinha 


Carros de prata e cobre -
Proas de aço e prata -
Golpeiam a espuma, -
Erguem touceiras de sarças.
As correntes da charneca,
E os sulcos imensos do refluxo,
Correm circularmente para o leste,
Para os pilares da floresta,
Para os fustes do dique,
Cujo ângulo é batido por turbilhões de luz.


Nele o poeta provoca o estranhamento entre o título e a imagem inicial, pois em lugar de barcos o que aparece primeiro são os "Carros de prata e cobre" que, no entanto, também vão sendo novamente confundidos com a metonímia de navios, "proas de aço e prata", tornando assim o texto a união metafórica e tensiva de imagens opostas: barcos são carros. Essa fusão de imagens terrestres e marinhas do carro e do navio - pois ambos "Golpeiam a espuma" - gera então o obscurecimento da realidade visual e do sentido propostos pelo texto. Dessa maneira, sem abandonar os elementos naturais, a obra de Rimbaud estabelece, a tensão "entre mostrar e esconder o mundo visível".



As Flores e os Frutos de Henri Fantin-Latour
Henri Fantin-Latour, "Roses and Cherries" 


Henri Fantin-Latour, "Large Vase of Dahlias and Assorted Flowers"


Henri Fantin-Latour, "Basket of White Grapes and Peaches"


Henri Fantin-Latour, "Apples"


Henri Fantin-Latour, "Still Life with Flowers", 1881


Henri Fantin-Latour, "White Carnations"


Henri Fantin-Latour, "Basket of Flowers"


Henri Fantin-Latour, "Bowl of Roses"


Henri Fantin-Latour, "White Roses"


Henri Fantin-Latour, "Roses" 


Henri Fantin-Latour, "Spring Flowers"


Henri Fantin-Latour, "Gladiolas and roses"


Henri Fantin-Latour, "White and Pink Roses"



Friedrich Nietzsche escreveu uma coleção de aforismos sobre estética, onde deixou clara sua abordagem da Natureza. Neles, dizia: 

"Fecha teu olho corpóreo para que possas antes ver tua pintura com o olho do espírito. Então traz para a luz do dia o que viste na escuridão, para que a obra possa repercutir nos outros de fora para dentro".



"Flores" - Poema de Arthur Rimbaud


Pintura de Henri Fantin-Latour 



Flores


De um pequeno degrau dourado -, entre os cordões 
de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos verdes 
e os discos de cristal que enegrecem como bronze 
ao sol -, vejo a digital abrir-se sobre um tapete de filigranas 
de prata, de olhos e de cabeleiras. 

Peças de ouro amarelo espalhadas sobre a ágata, pilastras 
de mogno sustentando uma cúpula de esmeraldas, 
buquês de cetim branco e de finas varas de rubis 
rodeiam a rosa d'água. 

Como um deus de enormes olhos azuis e de formas 
de neve, o mar e o céu atraem aos terraços de mármore 
a multidão das rosas fortes e jovens. 


Arthur Rimbaud



Arthur Rimbaud, poeta francês 


Jean Nicolas Arthur Rimbaud (Charleville, 20 de outubro de 1854 - Marselha, 10 de novembro de 1891) foi um poeta francês. Produziu suas obras mais famosas quando ainda era adolescente sendo descrito por Victor Hugo, à época, como "um jovem Shakespeare". Aos 20 anos já havia desistido de escrever. Como parte do movimento decadente, Rimbaud influenciou a literatura, a música e a arte modernas. Era conhecido por sua fama de libertino e por uma alma inquieta, viajando de forma intensiva por três continentes antes de morrer de câncer aos 37 anos de idade.



À volta da mesa, por Henri Fantin-Latour, 1872,
 Rimbaud é o segundo à esquerda, tendo ao seu lado direito Paul Verlaine.



                      
Galeria de Henri Fantin-Latour
Henri Fantin-Latour, Autorretrato (1859)


Henri Fantin-Latour (Grenoble, 14 de Janeiro de 1836 - Orne, 25 de Outubro de 1904), foi um pintor francês da época do romantismo.



Henri Fantin-Latour, "The Reader" (Marie Fantin Latour, the Artist's Sister-1861)


Henri Fantin-Latour, "The Dubourg Family", 1878


Henri Fantin-Latour, "La Lecture"


Henri Fantin-Latour, Charlotte Dubourg, 1882


                                                     Henri Fantin-Latour,  Portrait of Sonia, 1890


Henri Fantin-Latour


Henri Fantin-Latour


Henri Fantin-Latour


Henri Fantin-Latour


Henri Fantin-Latour


Henri Fantin-Latour


Henri Fantin-Latour


"As palavras proferidas pelo coração não tem língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler."

José Saramago 


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