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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

"Identidade" - Poema de Miguel Torga



Vladimir Kush (Russian-born American painter, jewelry designer
and sculptor, b. 1965), 'The Dark Side of the Moon'


Identidade


Matei a lua e o luar difuso. 
Quero os versos de ferro e de cimento. 
E em vez de rimas, uso 
As consonâncias que há no sofrimento. 

Universal e aberto, o meu instinto acode 
A todo o coração que se debate aflito. 
E luta como sabe e como pode: 
Dá beleza e sentido a cada grito. 

Mas como as inscrições nas penedias 
Têm maior duração, 
Gasto as horas e os dias 
A endurecer a forma da emoção. 


in 'Penas do Purgatório' 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

"Lágrimas Ocultas" - Poema de Florbela Espanca



Vladimir Kush (Russian-born American painter, jewelry designer
and sculptor, b. 1965), 'The Garden of Eden'
 

Lágrimas Ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras 
Em que ri e cantei, em que era querida, 
Parece-me que foi noutras esferas, 
Parece-me que foi numa outra vida ... 

E a minha triste boca dolorida, 
Que dantes tinha o rir das primaveras, 
Esbate as linhas graves e severas 
E cai num abandono de esquecida! 

E fico, pensativa, olhando o vago ... 
Toma a brandura plácida dum lago 
O meu rosto de monja de marfim ... 

E as lágrimas que choro, branca e calma, 
Ninguém as vê brotar dentro da alma! 
Ninguém as vê cair dentro de mim! 


Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"



Vladimir Kush, 'Pillow Book'  
 


Vladimir Kush, 'Red Purse
 


Vladimir Kush, 'Moonlight Sonata'
 

 
Vladimir Kush, 'Wardrobe' 



"A pintura é uma autodescoberta. Todo bom artista pinta o que ele é." 

Jackson Pollock

 [Pintor norte-americano e referência no movimento do expressionismo abstrato, 19121956] 


"Anoitecer" - Poema de Florbela Espanca



Vladimir Kush (Russian-born American painter, jewelry designer
and sculptor, b. 1965), 'Daisy Games'


Anoitecer


A luz desmaia num fulgor d'aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente... 
E eu, que não creio em nada, sou mais crente 
Do que em menina, um dia, o fui... outrora... 

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora 
Tenho bênçãos d'amor p'ra toda a gente! 
Como eu sou pequenina e tão dolente 
No amargo infinito desta hora! 

Horas tristes que são o meu rosário... 
Ó minha cruz de tão pesado lenho! 
Meu áspero e intérmino Calvário! 

E a esta hora tudo em mim revive: 
Saudades de saudades que não tenho... 
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive... 


Florbela Espanca
in "Livro de Sóror Saudade"
 
* * *

Obras de Vladimir Kush
Aforismos de Carlos Drummond de Andrade
 

Vladimir Kush, 'Star Target'


"O otimismo é um cheque em branco a ser preenchido pelo pessimista."


(Carlos Drummond de Andrade)


 
Vladimir Kush, 'Treasure Island'  



"O que seria do pobre vaga-lume, sem a escura noite?"

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Walnut of Eden'


"A inteligência superior vive em débito com os admiradores, que lhe exigem tudo."


(Carlos Drummond de Andrade) 



Vladimir Kush, 'Anticipation of a Night Shelter
'


"Não há felicidade que resista à continuação de tempos felizes."

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Black Horse' 


"Seria cómico, se não fosse trágico"

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Invitation to Lunch'


"É bom ler e é ótimo ter lido"


(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Keys'


"Somos humildes na esperança de um dia sermos poderosos."

(Carlos Drummond de Andrade) 



Vladimir Kush, 'Woodcutter'


"O sofrimento é repartido ao longo da vida e separado por blocos de esquecimento."

(Carlos Drummond de Andrade)


 
Vladimir Kush, 'African Sonata
'


"O verso é uma vitória sobre os limites da linguagem."


(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush,
'Gift for the Bride'


"O amor dinamita a ponte e manda o amante passar."


(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'The Voyager' 



"A vida é breve, a velhice é longa."

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Hardwood Software'


"O sonho é o pensamento em férias."

(Carlos Drummond de Andrade)


domingo, 1 de julho de 2012

"O Teu Olhar" - Poema de Florbela Espanca



Vladimir Kush (Russian-born American painter, jewelry designer
and sculptor, b. 1965), 'Ripples on the Ocean'


O Teu Olhar


Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!


Florbela Espanca,
in "A Mensageira das Violetas"


Vladimir Kush 

Vladimir Kush (Moscovo, 1965) é um pintor e escultor surrealista russo que se identifica com o "realismo de metamorfose" ou "fine art", com desenhos e pinturas que formam imagens "impossíveis", utilizando-se de truques de imagens e/ou elementos que se formam em outros. É considerado com um dos maiores artistas contemporâneos e em 2011 recebeu o prémio de melhor artista na categoria pintura, no Artistes du Monde, em Cannes. Atualmente vive em Los Angeles, Estados Unidos.



Vladimir Kush molding his sculpture 'Pros and Cons'
based on his painting of the same name, 2009
 


Vladimir Kush, 'Sisyphus’s shameless stone'
 


Vladimir Kush, 'Eye of the Needle'
 


Vladimir Kush, 'Flamenco Dancer'
 


Vladimir Kush, 'Heavy Prey'
 


Vladimir Kush, 'Heavenly Target'



Vladimir Kush, 'What the Fish was Silent About'



Vladimir Kush, 'Key to the Heart'
 

Vladimir Kush, 'Breakfast On The Lake'


“A escola de arte foi um mundo de novas inspirações. A classe que pertenci, tinha total liberdade artística. Aprendi muito sobre os famosos pintores renascentistas, impressionistas, pós-impressionistas e contemporâneos. Foi onde pintei meu primeiro quadro surreal.” -  Vladimir Kush


terça-feira, 10 de abril de 2012

"Se Tenho Medo" - Poema de John Keats



Vladimir Kush (Russian-born American painter, jewelry designer
and sculptor, b. 1965), 'Always Together'


Se Tenho Medo 


Se tenho medo de meus dias terminar
antes de a pena me aliviar o espírito, antes
de muito livro, em alta pilha, me encerrar
os grãos maduros como em silos transbordantes;
se vejo, nas feições da noite constelar,
enormes símbolos nublados de um romance
e penso que não viverei para copiar
as suas sombras com a mão maga de um relance;
quando sinto que nunca mais hei de te ver,
formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
do amor irrefletido! - então no litoral
do vasto mundo eu fico só, a meditar,
até ir Fama e Amor no nada naufragar. 


John Keats  (1795
1821)
Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos



Retrato de John Keats por William Hilton,
National Portrait Gallery, Londres



"Oh, se eu ao menos pudesse ter uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos."


John Keats, in 'Carta a Benjamin Bailey' 




 
Vladimir Kush, 'Fiery Dance'


"No mesmo templo do deleite
A velada Melancolia tem o seu santuário."



John Keats, in 'Ode on Melancholy'



Retrato de John Keats por Joseph Severn, 1819


"O prazer visita-nos muitas vezes; mas a mágoa agarra-se cruelmente a nós."

John Keats, in 'Endymion'