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sexta-feira, 12 de maio de 2017

"O Caracol e a Lesma" - Poema de Francisco Joaquim Bingre


Ilustração de H. Morin, diversos moluscos pulmonados,1893 

Uma versão artística, mas cientificamente incorreta de vários caracóis terrestres europeus e lesmas (uma espécie aqui não é um pulmonata), suas plantas de alimentos e fungos, e um besouro  que come moluscos (parte inferior direita). (daqui)


O Caracol e a Lesma
(Fábula)


Um caracol retorcido
Com a lesma era casado:
Que negra vida com ela
Não padecia o coitado!

Ele dormia na casca,
Ela pegada à parede;
Um aranhão lhe chupava
A reima, se tinha sede.

Nestes encontros noturnos
Gozavam prazeres mornos:
Ao enroscado marido
Nasceram dois lindos cornos.

Ele escondia-os no búzio,
Envergonhado do sol.
Quantos não conheço eu,
Com frontes de caracol?!


volume V, poema 711, ed. de Vanda Anastácio, 
Lello Editores, 2003.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Fogo" - Poema de Francisco Joaquim Bingre



Paula Rego (Pintora luso-britânica, n. 1935), 'The Firemen of Alijo', 1966



Fogo


Faísca luminar da etérea chama
Que acendes nossa máquina vivente,
Que fazes nossa vista refulgente
Com elétrico gás, com subtil flama:

A nossa construção por ti se inflama;
Por ti, o nosso sangue gira quente;
Por ti, as fibras tem vigor potente,
Teu vivo ardor por elas se derrama. 

Tu, Fogo animador, nos vigorizas,
E à maneira de um voltejante rio,
Por todo o nosso corpo te deslizas.

O homem, só por ti tem força e brio
Mas, se tu o teu giro finalizas,
Quando a chama se apaga, ele cai frio.


Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

"A Fúria mais Fatal e mais Medonha" - Poema de Francisco Joaquim Bingre



Edvard Munch (Norwegian painter, 1863–1944), "Jealousy", 1895


A Fúria mais Fatal e mais Medonha


Das Fúrias infernais foi sempre a Inveja 
No mundo a mais fatal e a mais medonha, 
Pois faz dos bens dos outros a peçonha 
Com que a si mesma se envenena e peja. 

Com ira e com furor, raivosa, arqueja, 
Com vinganças, traições, com ódios sonha. 
Onde quer que se encoste e os olhos ponha, 
Tragar as ditas dos mortais deseja. 

Mãe dos males fatais à Sociedade, 
Vidas, honras destrói, cismas fomenta, 
Nutrindo na alma as serpes da Maldade. 

O próprio coração que come a alenta, 
Vive afogada em ondas de ansiedade, 
Da frenética raiva se alimenta.


Francisco Joaquim Bingre (1763–1856),
in 'Sonetos' 
 

domingo, 24 de maio de 2015

"Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito" - Poema de Francisco Joaquim Bingre


Gaspar van Wittel (1656-1736), Veduta of Castel Sant'Angelo from the South, 1690



Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito

 
  Nenhum mortal no mundo satisfeito
Com sua Sorte está, nunca é contente,
Pois de mil desatinos enche a mente
Sem que possa gozar um bem perfeito.

O soldado deseja o canto estreito
Da cela do ermitão, com ânsia ardente:
Este, da guerra, o estrépito fremente
Deseja, sem razão, ao ócio afeito.

O rico, redobrados bens deseja;
O pobre, de quimeras se sustenta;
No coração humano reina a Inveja.

Pobre, rico, fidalgo se alimenta
De insaciáveis desejos que lhe peja
Sua Sorte fatal, que os não contenta.


Francisco Joaquim Bingre
 (1763-1856),
 in 'Sonetos'


Caspar Van Wittel, Piazza Navona, Roma, 1669


"A sorte de ter talento não basta; é preciso, também, ter talento para a sorte."

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

"O Tempo Gastador de Mil Idades" - Soneto de Francisco Joaquim Bingre


Gerrit Adriaenszoon Berckheyde (1638 - 1698), The new City Hall of Amsterdam, 1673



O Tempo Gastador de Mil Idades

 
O Tempo gastador de mil idades,
Que na décima esfera vive e mora,
Não descansa co'a Fúria tragadora,
De exercitar, feroz, suas crueldades.

Ele destrói as ínclitas cidades,
As egípcias pirâmides devora:
Sua dentada fouce assoladora,
Rompe forças viris, destrói beldades.

O bronze, o ouro, o rígido diamante,
A sua mão pesada amolga e gasta
Levando tudo ao nada, em giro errante.

Como trovão feroz rugindo arrasta,
Quanto cobre na Terra o sol radiante,
Só da Virtude com temor se afasta.


(1763-1856), 
in 'Sonetos' 


Johannes Lingelbach (1622–1674), The Stadhuis under construction, 1656


"Depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo: o momento em que falo já está longe de mim."

(Nicolas Boileau-Despréaux)

domingo, 7 de dezembro de 2014

"Inverno" - Poema de Francisco Joaquim Bingre


 


Inverno


Já na quarta estação final da vida 
Estou, do triste Inverno rigoroso. 
Fustigado do tempo borrascoso, 
Com a saraiva das asas sacudida. 

Gelada tenho a fronte encanecida, 
O sangue frio, pálido e soroso. 
Compresso está o físico nervoso 
E a máquina de todo enfraquecida. 

Nesta quadra da fúnebre tristeza, 
Que alegria terei na sombra escura, 
Se enlutada se vê a Natureza? 

Só, com os frutos da má agricultura, 
Vago triste no espaço da incerteza 
De que a Morte me dê melhor ventura. 






"A sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios,
 mas sim mais prudentes."