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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

"Vou gota a gota" - Poema de Armando Freitas Filho


Gustave Caillebotte (French painter, 1848–1894), Baigneurs, 1878.
Private collection
 


Vou gota a gota


Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de facto aconteceu:
se foi voo, queda ou mergulho.


Armando Freitas Filho, no livro "3 x 4", 
Nova Fronteira, de 1985. 
 

segunda-feira, 15 de julho de 2024

"A Origem do Mundo" - Poema de Nuno Júdice


Gustave Caillebotte (French painter, 1848–1894), Rising Road, 1881, Private Collection.


A Origem do Mundo


De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.


Nuno Júdice
, in "Meditação sobre Ruínas",
Quetzal Editores, 1994.

 

sábado, 3 de abril de 2021

"Estrangeiro" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez


Gustave Caillebotte (Pintor francês, 1848-1894), A Balcony, Boulevard Haussmann, 1880
 – óleo sobre tela – 67,9 x 61 cm – coleção particular
 

Estrangeiro

 
Sou estrangeiro em todos os lugares.
Inútil procurar-te, aldeia minha.
Subo de escada todos os andares,
com a fria espada a acutilar-me a espinha.
Não sou daqui nem sou de lá. Perdi-me
na indecisão de becos e de esquinas.
Como o pardal diante do gato, vi-me
apanhado por garras assassinas.
Os mapas pendurados nas paredes
riem de mim como insensíveis redes,
rasgando os peixes que não fogem mais.
Prenderam-me entre muros que abomino
e toda a noite entoam-me seu hino
de insultos, gritos e ódios triunfais.
 in 'Galope do Tempo'
 
 
Gustave Caillebotte, Interior, Woman at the Window, 1880 
– óleo sobre tela – coleção particular


Nós Dois

Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um voo.
"Sou céu!" disse o chão. 
 
(Haicai / Haikai)
 
 

terça-feira, 30 de março de 2021

"Meu sonho" - Poema de Jacinta Passos

 
Gustave Caillebotte, Villas à Trouville, 1884, Cleveland Museum of Art
 
 
Meu sonho


O meu sonho
mais risonho
é suave e pequenino
resumindo entretanto o meu destino.
É de cor azul escura
como o mar que longe chora.
É cor de infinito e de ânsia
cor do céu, cor do mar, cor de distância.
Tem a leve suavidade
da saudade,
e a cantante doçura
de um regato que murmura.
Macio e encantador
é carícia de pluma e perfume de flor.
O meu sonho
mais risonho,
é para mim cada momento
o motivo maior de doce encantamento.
 
Salvador BA, 6. out. 1937.

Jacinta Passos
em "A Tarde"
 
 
Gustave Caillebotte (Paris, 1848 - Gennevilliers, 1894),  L'Yerres, pluie, 1875, 
Indiana University Art Museum, Bloomington, Indiana


Chuva de Primavera

Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem. 

(Haicai / Haikai)


sábado, 20 de março de 2021

"O Poeta" - Poema de Raimundo Correia

 
Gustave Caillebotte, A Man on a Balcony, c. 1880, óleo sobre tela, 
116 x 97 cm, coleção particular


O poeta          

                                         A Alberto Oliveira

Poeta! É mister que o poeta, ele, em cuja linguagem
há torrentes lustrais e bálsamos fragrantes;
Ele que encanta, embora os cépticos o ultrajem,
As crianças, as mães, os tristes e os amantes;

Ele que erra na plaga, onde em flechas radiantes,
o sol do estro a surdir purpureja a paisagem,
E onde bailam cantando as estrofes cambiantes,
- Aves de voz de prata e irisada plumagem;

É mister que ele, o poeta, o cismador, o brando,
Ele que ri, também ruja de quando em quando,
Implacável, cruento, enraivecido, atroz!

Assim na selva em flor, esplêndida e ridente
E verde e silenciosa, atroa de repente
Um berro de animal carnívoro e feroz.

in 'Sinfonias' (1883)
 
 
 
Gustave Caillebotte, Dans un café, 1880, Musée des Beaux-Arts de Rouen


Poetas

 
Tive uma irmã gémea.
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvenzinha boémia.
 
Guilherme de Almeida,
(Haicai / Haikai)


sábado, 12 de julho de 2014

"Rosas Vermelhas" - Poema de Judith Teixeira


Gustave Caillebotte, Garden in Trouville, 1882



Rosas Vermelhas 


Que estranha fantasia! 
Comprei rosas encarnadas 
às molhadas 
dum vermelho estridente, 
tão rubras como a febre que eu trazia... 
- E vim deitá-las contente 
na minha cama vazia! 

Toda a noite me piquei 
nos seus agudos espinhos! 
E toda a noite as beijei 
em desalinhos... 

A janela toda aberta 
meu quarto encheu de luar... 
- Na roupa branca de linho, 
as rosas, 
são corações a sangrar... 

Morrem as rosas desfolhadas... 
Matei-as! 
Apertadas 
às mãos-cheias! 

Alvorada! 
Alvorada! 
Vem despertar-me! 
Vem acordar-me! 

Eu vou morrer... 
E não consigo desprender 
dos meus desejos, 
as rosas encarnadas, 
que morrem esfarrapadas, 
na fúria dos meus beijos! 


Judite Teixeira, in 'Decadência'




Gustave Caillebotte
(Vida e Obra)
 
Gustave Caillebotte, Autorretrato, 1892
Musée d'Orsay, Paris.


Gustave Caillebotte (Paris, 19 de Agosto de 1848 - Gennevilliers, 21 de Fevereiro de 1894) foi um pintor francês, membro e patrono de um grupo de artistas conhecido como impressionistas, colecionador de selos e engenheiro de iates.


A photograph of the Caillebotte family taken by Martial Caillebotte Jr.
 

Gustave Caillebotte era filho de uma família parisiense de classe alta. Seu pai, Martial Caillebotte (1799-1874), era herdeiro da indústria têxtil de propriedade da família. Além disso, era também juiz no Tribunal de Comércio de Seine.


Gustave Caillebotte, Martial Caillebotte Jr. Playing the Piano, c. 1876
 

Martial Caillebotte ficou viúvo duas vezes antes de casar-se com a mãe do pintor, Céleste Daufresne (1819-1878), que teve mais dois filhos após Gustave: René Caillebotte (1851-1876) e Martial Caillebotte (1853-1910).



Gustave Caillebotte, Young Man at his Window (René Caillebotte), 1875,
Private collection



Foi provavelmente por volta de 1866 quando Caillebotte começou a desenhar e pintar. Muitas das pinturas de Caillebotte exibem os membros de sua família na vida doméstica; Young Man at His Window, 1875, mostra René na casa da rue de Miromesnil, The Orange Trees, 1878, exibe Martial Jr. e sua prima Zoë no jardim da propriedade da família em Yerres, e, mostra a mãe de Caillebotte junto com sua tia, primos, e um amigo da família.


Gustave Caillebotte, The Orange Trees (Les orangers), 1878


Caillebotte formou-se em advocacia em 1868 e uma obteve licença para praticar direito em 1870. Pouco tempo depois, ele foi convocado para lutar na Guerra Franco-Prussiana, e serviu à Guarde Nationale Mobile de la Seine. 
Após a guerra, Caillebotte começou a visitar o estúdio do pintor Léon Bonnat, onde ele iniciou seus estudos de arte. Em 1873, Caillebotte entrou na École des Beaux-Arts, mas aparentemente não a frequentou por muito tempo. Por volta dessa época, Caillebotte encontrou e se tornou amigo de vários artistas que não eram da academia francesa, incluindo Edgar Degas e Giuseppe De Nittis. Caillebotte compareceu, mas não participou da primeira exibição Impressionista de 1874.


Gustave Caillebotte,  Les raboteurs de parquet, 1875
 

A abastada pensão que Caillebotte recebia, somada à herança que ele recebeu após a morte de seu pai em 1874 e de sua mãe em 1878, permitiram-lhe pintar sem a pressão de vender seus trabalhos. Isso também permitiu-o ajudar a financiar exibições impressionistas e a dar suporte a companheiros artistas e amigos (incluindo Claude Monet, Auguste Renoir, e Camille Pissarro, dentre outros), ao comprar seus trabalhos e, pelo menos no caso de Monet, pagar o aluguer de seus estúdios. Além disso, Caillebotte usou sua fortuna para financiar vários hobbies pelos quais ele era apaixonado, incluindo colecionar selos (sua coleção encontra-se atualmente no Museu Britânico, cultivo de orquídeas, construção de iates, e até mesmo design de modelos (as mulheres nas pinturas Madame Boissière Knitting, 1877, e Portrait of Madame Caillebotte, 1877, poderiam estar trabalhando em modelos criados por Caillebotte).


Gustave Caillebotte, Portraits à la campagne, 1876, Musée Baron Gérard, Bayeux


O estilo de Caillebotte pertence à escola do Realismo. Como fizeram seus predecessores Jean-Francois Millet e Gustave Courbet, assim como seu contemporâneo Edgar Degas, Caillebotte tinha como objetivo pintar a realidade como ela existia e como  a via, tentando reduzir ao máximo a teatricidade inerente à pintura. Ele também compartilhava do comprometimento com a verossimilhança ótica dos Impressionistas.




Caillebotte pintou muitas cenas domésticas, familiares, interiores, e figuras na paisagem de Yerres, mas ele é mais conhecido por suas pinturas da cidade de Paris, como The Floor Scrapers, 1875, Le pont de l'Europe, 1876, e Paris Street, Rainy Day, 1877. Estas pinturas são um tanto controversas por mostrarem cenas banais e mundanas, e por sua perspectiva profunda. O piso inclinado comum a essas pinturas é bastante característico dos trabalhos de Caillebotte, o que pode ter sido fortemente influenciado por telas japonesas e a nova tecnologia da fotografia. Técnicas como cropping e zoom são facilmente encontradas nas obras de Caillebotte, o que pode ter sido o resultado de seu interesse por fotografia.


Gustave Caillebotte, Le Pont de l'Europe, 1876, Petit Palais - Genève


Um considerável número dos trabalhos de Caillebotte também emprega um ponto de vista muito alto, incluindo muitos de suas pinturas de varandas, como Vue des toits, effet de neige, 1878, e Boulevard vu d'en haut, 1880.


Gustave Caillebotte, Vue des toits, effet de neige, 1878
 

A carreira de pintor de Caillebotte diminuiu seu ritmo drasticamente na década de 1880, quando ele parou de produzir telas de tamanho grande e de exibir seus trabalhos. Ele adquiriu uma propriedade em Petit Gennevilliers, na margem do canal perto de Argenteuil, em 1881, e se mudou para lá permanentemente em 1888.


Gustave Caillebotte, Homme portant une blouse, 1884, collection privée


Ele devotou seu tempo à jardinagem e a construir iates de corrida, e passou muito tempo junto a seu irmão Martial, e seu amigo Renoir, que frequentemente visitava Petit Gennevilliers.


Gustave Caillebotte, La Plaine de Gennevilliers, 1888
 

Caillebotte morreu enquanto trabalhava em seu jardim em Petit Gennevilliers, em 1894, de congestão pulmonária, e foi enterrado no Cemitério de Père Lachaise em Paris.


Gustave Caillebotte, Nasturces, 1892


Em seu testamento, Caillebotte doou uma grande coleção ao governo francês. Esta coleção incluía sessenta e oito pinturas de vários artistas: Camille Pissarro, Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Alfred Sisley, Edgar Degas, Paul Cézanne, e Édouard Manet.


Gustave Caillebotte, Le jardin du Petit Gennevilliers en hiver, 1894, private collection.
 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"A propósito de estrelas" - Poema de Adília Lopes


Gustave Caillebotte, La berge du Petit-Gennevilliers et le Seine, 1892-1893



A propósito de estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes, de um jogo bastante perigoso, 1985
em Obra, Mariposa Azual, 2000 

Adília Lopes
, pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poetisa, cronista e tradutora portuguesa.


Keane - Everybody's Changing


"Sempre existiram drogas mais potentes, mais calmantes, mais tranquilizantes, mais alucinógenas do que todas as drogas da farmacopeia antiga e da farmacologia moderna. Essas miracle-drugs, essas drogas-milagre são as palavras."

Pitigrilli
Fonte - Amori Express, Le Droghe-miracolo


Dino Segrè, também conhecido pelo pseudónimo Pitigrilli (Turim, 9 de maio de 1893 — Turim, 8 de maio de 1975) foi um escritor italiano.
Jornalista, trabalhou nos principais jornais de sua época, tecendo comentários ácidos e humorísticos sobre a sociedade e os costumes. 
Muito influenciado pelo existencialismo do fim da Segunda Guerra Mundial, seus personagens são homens e mulheres de ciência, lutando para se libertar em seus universos vazios de moral. 
Afirmava que adotou esse pseudónimo porque gostava de "colocar os pingos nos ii"
Algumas de suas obras são: Loira Dolicocéfala, O Colar de Afrodite (aforismos), Moisés e o Calaveiro Levi, Os Vegetarianos do Amor, O Deslize do Moralista (contos) onde satirizou a moral da época em relação ao aborto, A Maravilhosa Aventura, A Virgem de 18 Quilates, Cocaína, Manual de Boas Maneiras (ou não se come frango com as mãos), O Experimento de Pott, O Farmacêutico a Cavalo.
Em Pitigrilli fala de Pitigrilli, uma das últimas obras, mostra sua opção pelo espiritismo, ou, pelo menos, sua enorme curiosidade pelo lado oculto das religiões. 
Já estava em idade avançada e morava em Buenos Aires, Argentina, onde se refugiou. 
Influenciou alguns autores e pensadores italianos, argentinos e brasileiros, como Guido Gozzano, Flavio Bonfá, Chico Anysio e Julio Cortázar.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"Chove? Nenhuma chuva cai" - Poema de Fernando Pessoa


Gustave Caillebotte (Paris, 1848-1894), Richard Gallo and His Dog at Petit Gennevilliers, 1884


Chove? Nenhuma chuva cai... 

 
Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia

Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...
 
 
 Fernando Pessoa, in Cancioneiro


Gustave Caillebotte, The Gardeners, 1875-1877 


"O tempo é demasiadamente lento para os que esperam; veloz para os que o temem; prolongado para os que sofrem; curto para os que se divertem; mas para os que amam, o tempo não conta". 

Henry Van Dyke (1852-1933), diplomata, pastor e escritor americano.
 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Canção" - Poema de Cecília Meireles





Canção 


Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar; 
— depois, abri o mar com as mãos, 
para o meu sonho naufragar. 

Minhas mãos ainda estão molhadas 
do azul das ondas entreabertas, 
e a cor que escorre dos meus dedos 
colore as areias desertas. 

O vento vem vindo de longe, 
a noite se curva de frio; 
debaixo da água vai morrendo 
meu sonho, dentro de um navio... 

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Cecília Meireles, in 'Viagem'