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sábado, 29 de novembro de 2025

"Quando eu era menino" - Poema de Friedrich Hölderlin

 


Almeida Júnior (Pintor, professor e gravurista brasileiro, 1850 -1899),
 Garoto com Banana, 1897.


Quando eu era menino


Quando eu era menino,
Um deus muitas vezes me salvava
Do tumulto e da vergasta dos homens,
E eu brincava, tranquilo e feliz,
Com as flores do bosque,
E as brisas do céu
Brincavam comigo.

E tal como tu alegras
O coração das plantas
Quando para ti estendem
Os delicados braços,

Assim também, Hélio, pai!, me encheste
De alegria a alma, e como Endimião,
Sagrada Lua,
Fui teu favorito!

Oh, deuses fiéis, todos
Vós, e amáveis!
Se soubésseis
Como vos amava este meu coração!

Então, é verdade, ainda vos não chamava
Pelos vossos nomes, nem vós
A mim me nomeáveis, como fazem os humanos,
Julgando que assim se conhecem.

Mas eu a vós conhecia-vos melhor
Do que jamais conheci os humanos,
Compreendia o silêncio do éter,
As palavras dos homens nunca as entendi.

A mim, criou-me o murmúrio
Harmonioso das árvores do bosque
E fui aprendendo a amar
No meio das flores.

E nos braços dos deuses me fiz grande.


Friedrich Hölderlin
, in "Todos os Poemas" 
Tradução de João Barrento 


[Friedrich Hölderlin, poeta lírico alemão, dos mais influentes do seu tempo, nasceu a 20 de março de 1770, na Alemanha, e morreu a 7 de junho de 1843, também na Alemanha.
Licenciou-se em Teologia, mas não pôde seguir a vida religiosa devido ao seu posicionamento filosófico e mesmo estético, que atribuía grande valor à tradição mitológica clássica.
Em 1795 apaixonou-se por Susette Gontard, a "Diotima" dos seus poemas. Este amor impossível marcou toda a sua escrita posterior. A sua obra mais conhecida é o romance Hyperion (1799). 
Hölderlin deixou uma obra que é uma constante interrogação metafísica, uma tentativa de diálogo com o transcendente.(daqui)
 
 

"Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética",
de Friedrich Hölderlin. Editora: Assírio & Alvim, 2021.
 
 
Uma vida contada a verso a verso, Assírio & Alvim publica Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética, volume que nos revela, pela primeira vez, «um Hölderlin de corpo inteiro».

Com tradução, introdução, comentários e notas de João Barrento, Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética é um verdadeiro acontecimento editorial pois reúne, pela primeira vez e num único volume, em Portugal, a obra poética de Friedrich Hölderlin. O livro inclui ainda uma cronologia ilustrada da vida e do legado do autor alemão cuja obra permaneceu desconhecida até meados do século XIX e só viria a ser reconhecida depois da sua morte, transformando-o num dos mais influentes poetas de todos os tempos e de todos os lugares.

«Não se fecha do espírito ao homem a via sã,
É esse o fio que segue a sua vida,
Esse é da vida o dia, é da vida a manhã,
Pois o tempo do espírito é riqueza infinita.

O que faz o esplendor da natureza
É a alegria que pomos no olhar,
São os dias, a vida que sabemos amar,
Em comunhão com o espírito e a beleza.»
 
SINOPSE
 
«Trazer ao leitor português toda a poesia de Hölderlin significa entrar num mar desconhecido desse leitor, num território de contradições, de uma diversidade não imaginada e desigual de registos poéticos, do mais naïf e convencional ao mais elaborado e sublime, do mais heróico ao mais prosaico, do poema transbordante à brevidade do dístico epigramático. Mas é altura de esta poesia nos ser dada de corpo inteiro. Só assim se compreenderá o percurso trágico, intenso e nele mesmo tenso e contraditório desta figura singular da Poesia, corrigindo ao mesmo tempo uma certa visão, mitificada e totalmente sublimizada, de um poeta que, como tantos outros, tem lados bem mais humanos e vulneráveis do que aqueles que os chamados “grandes poemas” nos dão.» (daqui)
 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Sebastião em sonho" - Poema de Georg Trakl


Pompeo Batoni (Italian painter, 1708–1787), 'The Sacred Family', 


Sebastião em sonho

1.

Uma mãe pariu a criança branca à luz da lua, 
À sombra da nogueira, do secular sabugueiro, 
Ébria do mosto das papoilas, do lamento dos melros; 
E silenciosas 
Inclinavam-se sobre essa mulher em compaixão as barbas de um rosto, 
Mudas no escuro da janela; e velhos trastes 
Ancestrais 
Apodreciam para ali; amor e fantasia outonal.

Tão estranho era o dia do ano, a triste infância, 
Quando o rapazinho desceu suavemente para as frescas águas, para os argênteos peixes, 
Paz e continência; 
Quando, pétreo, se atirou sob corcéis desenfreados, 
Na noite cinzenta a sua estrela desceu sobre ele; 
Ou quando, pela mão gelada da mãe, 
Pastava ao cair da noite pelo outonal cemitério de São Pedro, 
Frágil cadáver jazia mudo no escuro da câmara 
E ele erguia, para olhá-lo as frias pálpebras.

Ele, porém, era uma avezinha em troncos nus, 
O sino alongava-se no Novembro da noite, 
O silêncio do pai, quando a dormir descia a escada crepuscular. 

2.

Paz da alma. Solitária noite de inverno, 
As negras silhuetas dos pastores no velho lago; 
Criança na cabana de palha; oh, como baixava 
Levemente o rosto em negra febre. 
Noite sagrada.

Ou quando, pela dura mão do pai, 
Subia em silêncio o sombrio monte do Calvário 
E no entardecer, em nichos dos rochedos, 
A figura azul do Homem atravessava a sua lenda, 
Da ferida sob o coração corria purpúreo o sangue. 
Oh, como se elevava suavemente a cruz em escura alma.

Amor; quando em escuros becos a neve derretia, 
E no velho sabugueiro ficava alegremente presa uma brisa azulada. 
Na abóbada da sombra da nogueira; 
E silenciosamente aparecia ao rapaz o seu anjo rosado.

Alegria; quando em frescas salas soava à noitinha uma sonata, 
Nos vigamentos castanhos 
Uma borboleta azul saía da crisálida de prata.

Oh, a proximidade da morte. Em pétreo muro 
Curvava-se uma cabeça amarela, a criança calada, 
Quando nesse mês de Março, a lua declinava. 

3.

Sino rosado da Páscoa na abóbada tumular da noite 
E as vozes argênteas das estrelas, 
que fazem descer tremenda e sombria loucura da fronte de quem dorme.

Oh, que silencioso o andar rio azul abaixo 
Meditando sobre coisas olvidadas, enquanto nos ramos verdes 
O chamamento do melro leva um estranho ser à decadência.

Ou quando, pela ossuda mão do ancião, 
Passava à noite pela muralha arruinada da cidade 
E aquele levava no casaco negro uma criança rosada, 
O espírito do mal aparecia na sombra da nogueira.

Tatear por sobre os verdes degraus do verão. Oh, como o jardim 
Caiu suavemente no silêncio castanho do outono, 
Aroma e melancolia do velho sabugueiro, 
Quando na sombra de Sebastião se extinguiu a voz argêntea do anjo.

(1913) 

(Tradução de João Barrento)


Georg Trakl


Georg Trakl (Salzburgo, 3 de fevereiro de 1887 — Cracóvia, 3 de novembro de 1914) foi um proeminente poeta expressionista austríaco do início do século XX.
A poesia de Georg Trakl, assim como a de grande parte dos expressionistas, é marcada por profunda angústia, melancolia e desespero humano, priorizando o mundo interior em oposição ao exterior. Assim sendo, uma poesia extremamente subjetiva. Outro aspeto marcante de sua poesia é seu diálogo contante com o simbolismo francês, em especial Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire. Atualmente sua obra goza de grande fama e prestígio internacional, sendo considerado por muitos críticos o maior dos poetas expressionistas. (daqui)