Mostrar mensagens com a etiqueta Albert Gleizes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Albert Gleizes. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de junho de 2026

"Canção do vento e da minha vida" - Poema de Manuel Bandeira

 


Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed founder
of Cubism and an influence on the School of Paris, 1881–1953), Paysage cubiste,
Arbre et fleuve (Cubist Landscape)
, 1914, oil on canvas, 97 x 130 cm,
published in Der Sturm, 5 October 1920.
 
 
Canção do vento e da minha vida


O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


Manuel Bandeira (1886–1968),
in "Lira dos Cinquent’anos", 1940.
 
 
 

"Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples."

Manuel Bandeira, Trecho do poema "Belo Belo",
in "Estrela da Vida Inteira", Ed. Nova Fronteira.
 

sábado, 30 de maio de 2026

"Minibiografia" - Poema de Luiza Neto Jorge

 

 
Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
 founder of Cubism, 1881–1953), 'Woman with animals' (La dame aux bêtes) 
Madame Raymond Duchamp-Villon, 1914, oil on canvas, 196.4 x 114.1 cm,
 Peggy Guggenheim Collection.


Minibiografia


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge (1939–1989),
in 'A Lume', 1989.
 

sábado, 23 de maio de 2026

"Amanhecer" - Poema de Lúcio Cardoso



Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
founder of Cubism, 1881–1953), L'Homme au Balcon, Man on a Balcony
(Portrait of Dr. Théo Morinaud)
, 1912, oil on canvas, 195.6 x 114.9 cm,
Philadelphia Museum of Art.



Amanhecer


A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trémulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sobre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.

E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a música das flores que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.

Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo cor-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.


Lúcio Cardoso
(1912
1968),
in "Poesias", 1941.
 

terça-feira, 19 de maio de 2026

"O que não se sabe não existe" - Poema de Pedro Tamen



Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
founder of Cubism and an influence on the School of Paris, 1881–1953),
'Le Chemin, Paysage à Meudon', 1911, oil on canvas, 146.4 x 114.4 cm.
Private collection.



O que não se sabe não existe


O que não se sabe não existe.
Quando, por vitória do fogo
ou jorro surdo, inesperado, de água,
um golpe de asa, leve e mal sentido,
te leva os olhos a recantos calados
aos ouvidos que até então te dera
o acaso imóvel, teu parco nascimento,
quando um murmúrio desperta duvidoso
o que em certeza tinhas construído
e um véu que não sabias ao não saber
se abre, e, mais ainda, quando
consegues ver a mão que desvelou
o país das narinas, dos dedos, das pupilas,

então existe, o mundo cresce em ti
e em ti decresce a gruta que apalpavas.

Outras voltas darás, de novo à espera,
até que um dia, súbito, te entendas
ao entenderes de vez à luz de um raio
que era preciso saberes que mais existe
e que o que existe deveras não se sabe.


Pedro Tamen
(1934–2021),
in "Guião de Caronte", 1997.


sábado, 3 de abril de 2021

"Aos Atletas" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Albert Gleizes (French artist, theorist and writer, 1881–1953),
Les Joueurs de football (Football Players), 1912–13,
National Gallery of Art, Washington D.C.


Aos Atletas

 
Os poetas haviam composto suas odes 
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.

Que importa hajam perdido?
Que importa o não-ter-sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
Mercúrio de sua perda no futuro?

É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?

Nem valia ter ganho
a esquiva copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
ternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.

Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prémio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.

Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.

Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.

24 de julho de 1966

Carlos Drummond de Andrade
,
do livro 'Quando é dia de futebol'
 
 
 
‘Quando é dia de futebol’ - 1ª Ed. (2002)
 
Publicados em sua maioria nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nos quais o autor ocupou cadeira cativa durante muitos anos, os textos de ‘Quando é dia de futebol’ mostram um Carlos Drummond de Andrade atento ao futebol em suas múltiplas variantes: o esporte, a manifestação popular, a metáfora que nos ajuda a entender a realidade brasileira. São crónicas e poemas escritos a partir da observação do autor sobre campeonatos, Copas do Mundo, rivalidades entre grandes times e lances geniais de Pelé, Mané Garrincha e outros. Selecionados por Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond, netos do poeta, os textos oferecem um passeio - muito drummondiano, e portanto leve, inteligente e arguto - por nove Copas do Mundo: de 1954, na Suíça, até a última testemunhada pelo autor, em 1986, no México. Não são, claro, resenhas de certames nem tentativas de análise futebolística. Vão além, em seu aparente descompromisso, pois capturam no futebol aquilo que mais interessava ao autor: a capacidade que o bate-bola tem de estilizar, durante os noventa minutos de duração de uma partida, as grandes paixões humanas. ‘Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério’, anota o mineiro em um dos textos. Pura modéstia, como se verá na leitura deste ‘Quando é dia de futebol’, pois, se houve algum escritor brasileiro habilitado à decifração desse esporte apaixonante, foi mesmo Carlos Drummond de Andrade. (daqui)



Leo Santana
(Artista plástico brasileiro, n. 1965), Estátua em bronze em tamanho natural
do poeta Carlos Drummond de Andrade. Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, 2002.
 

Escritor brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902. Estudou em Belo Horizonte e diplomou-se em Farmácia, carreira que não exerceu, e fez a sua vida no Rio de Janeiro, entregando-se às letras. Aderiu ao Modernismo, no qual se distinguiu. Como poeta, estreia-se em 1930 com "Alguma Poesia", obra à qual se seguem outras que estão reunidas em "Poesia até Agora" e "Fazendeiro do Ar" (1955). Aí se encontram: "Alguma Poesia, Brejo das Almas" (1934), "Sentimento do Mundo" (1940), "José" (1942), "A Rosa do Povo" (1945), "Novos Poemas" (1948), "Claro Enigma" (1951) e "Fazendeiro do Ar", apenas com exclusão da poesia circunstancial de "Viola de Bolso" (1952). Escreve ainda "Ciclo" (1957), "Poesias" (1959) e "Lição de Loiras" (1962), reunindo, então, toda a sua produção literária em "Obras Completas" (1965). 

Na sua poesia, caldeiam-se o sarcasmo, a ironia, o humor, mas há lirismo puro e profundo, a pesquisa do «sentimento do mundo», por vezes a revelação do seu mundo interior, do seu povo, da sua paisagem, atingindo a verdadeira serenidade e pureza clássicas em muitas composições. Foge do sentimental, do patético, mas afirma uma poesia séria, de sentimento límpido e acentuado sentido trágico, transmitidos com discrição e delicadeza. É, então, uma poesia séria, meditada, que se insere no Modernismo brasileiro. É evidente a sua preocupação formal e a abordagem dos temas numa atitude anti-lírica. Tem para ele um grande relevo o mistério da palavra que considera relevadora de poesia. É evidente a sua progressiva depuração quanto ao tema. Como ficcionista, escreve "Contos de Aprendiz" (1951); como cronista e crítico, é autor de "Confissões de Mimas" (1944), "O Gerente" (1945), "Passeios na Ilha" (1952), "Fal, Amendoeira" (1957). Na prosa há humor e ceticismo, por vezes uma certa ironia e graça sem esconder a sua natural preocupação com o homem e com o autêntico. Carlos Drummond de Andrade faleceu em 1987 no Rio de Janeiro. (daqui)
 

terça-feira, 11 de abril de 2017

"Mudançar" - Poema de Fernando Lemos



Albert Gleizes (French artist, theorist and writer, 1881–1953),
La Femme aux Phlox, 1910, Museum of Fine Arts, Houston.


Mudançar


Repor 
na planta da cor brancura 
em pedra solicitada 

Reler 
por vacilação das sílabas 
em escuridão afundada 

Rever 
por olho areado com águas 
a imagem contaminada 

Reter 
no músculo oxigenado vaso 
areal terra aterrada 

Resistir 
ao cântico suado no temor 
a evolução revoltada 

Reaver 
do padre eterno esquecido 
fé febril equivocada 

Rematar 
pontilhados no voo manual 
asa de vazio blindada 

Reacordar 
quando o tempo do morto é 
vício pele reciclada 

Recomeçar 
linguajar contínua marcha 
vivente reinventada. 


 in 'Cá & Lá'


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

"Criei, não possuí" - Poema de Orlando Neves



Albert Gleizes (French artist, theorist and writer, 1881–1953),
 Composition for "Jazz", 1915, oil on cardboard, 73 x 73 cm,
Solomon R. Guggenheim Museum, New York.


Criei, não possuí


Criei, não possuí. 
Instante de infinitude, o que moldei na voz 
respira. A firme casa do meu corpo se fez 
pelo contraste, que só o contrário cria. 
Não possuí, 
denso ou raro, 
pequeno até ao nada, 
nenhum símbolo, 
nenhum olhar de brasa, 
nenhum odor colado à pele. 
Pretendi a verdade, mas tudo se muda 
pelos meus olhos e a fosca luz do que foi viver 
só no amor se moveu. Morto o amor, 
transforma-se a água. 
Onde a noite não há e o dia não é, 
esqueço as mudanças do tempo 
e com meus ardis me defendo 
do terror de mim. 


in "Noema - Regresso de Orfeu"