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terça-feira, 6 de outubro de 2020

"A Obrigação da Verdade" - Texto de Harold Pinter


of Lady Giovanna in Tennyson's The Falcon, 1879
 

A Obrigação da Verdade 
 

"Quando olhamos um espelho, pensamos que a imagem à nossa frente é exata. Mas basta movermo-nos um milímetro para a imagem se alterar. Aquilo que estamos realmente a ver é uma gama infindável de reflexos. Mas às vezes o escritor tem de quebrar o espelho — porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara.
Estou convencido de que, apesar dos enormes obstáculos existentes, há uma obrigação crucial que recai sobre todos nós enquanto cidadãos: de com uma determinação intelectual inflexível, inabalável e feroz definir a verdade autêntica das nossas vidas e das nossas sociedades. É de facto uma obrigação imperativa.
Se essa determinação não se incorporar na nossa visão política, não tenhamos esperança de restaurar aquilo que já quase se perdeu para nós — a dignidade do homem."


Harold Pinter
, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"Deus abençoe a América" - Poema de Harold Pinter


George LuksArmistice Night, 1918. Whitney Museum of American Art



Deus abençoe a América


Lá vão eles outra vez,
Os Ianques e as suas blindadas paradas
Entoando as suas baladas de alegria
A galope pelo vasto mundo
Louvando o Deus da América.

As sarjetas estão entupidas de mortos
Dos que não puderam alistar-se
Dos outros que se recusam a cantar
Dos que estão a perder a voz
Dos que esqueceram a música.

Os cavaleiros têm chicotes que ferem.
A tua cabeça rola para a areia
A tua cabeça é uma poça no lixo
A tua cabeça é uma nódoa no pó

Os teus olhos apagaram-se e o teu nariz
Fareja apenas o fedor dos mortos
E todo o ar morto está vivo
Com o cheiro do Deus da América.


Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão,
 Quasi Edições, Junho 2003


Harold Pinter, 1992, by Justin Mortimer (b.1970)


(Harold Pinter foi laureado com o Nobel de Literatura em 2005.) 


sábado, 10 de setembro de 2016

"Tu à Noite" - Poema de Harold Pinter



Jeff Rowland (British painter, b. 1964), 'Last embrace' 


Tu à Noite


Tu à noite havias de escutar 
A trovoada e o ar ambulante. 
Tu nessa margem hás de virar 
Para onde estão as intempéries dominantes. 

Toda essa honrada esperança 
Ruirá na ardósia, 
E destroçará o inverno 
Que vocifera a teus pés. 

Se bem que ardam os altares apaixonantes, 
E que o sol deliberado 
Faça ladrar a águia, 
Tu avançarás na corda bamba. 


Harold Pinter, in "Várias Vozes"



Jeff Rowland (British painter, b. 1964), 'The Embrace'


Derrete-se o gelo.
Porém se resfria a água:
Ela fria, eu ardo...

(Haikai)

domingo, 6 de dezembro de 2015

"O Mundo está prestes a rebentar" - Poema de Harold Pinter


Joachim Wtewael, The Deluge, 1595, 148 x 184.6 cm, Germanisches Nationalmuseum
 


O Mundo está prestes a rebentar


Não olhes. 
O mundo está prestes a rebentar. 

Não olhes. 
O mundo está prestes a despejar a sua luz 
E a lançar-nos no abismo das suas trevas, 
Aquele lugar negro, gordo e sem ar 
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar 
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos 
A ver se conseguimos de novo um posto de partida. 


Harold Pinter, in "Várias Vozes"
Tradução de Jorge Silva Melo e Francisco Frazão
Quasi Edições
 

sábado, 25 de abril de 2015

"O Teatro e a Sátira Política" - Texto de Harold Pinter


A Catedral e a Torre Inclinada de Pisa, na Piazza dei Miracoli (Praça dos Milagres). 
A Praça é Património Mundial pela UNESCO e ambos os edifícios são exemplos de arquitetura românica.



O Teatro e a Sátira Política


O teatro político coloca toda uma série de problemas. Há que evitar os sermões a todo o custo. A objetividade é essencial, deve-se deixar as personagens respirar o seu próprio ar. O autor não pode confiná-las nem obrigá-las a satisfazer o seu próprio gosto, inclinações ou preconceitos. Tem de estar preparado para as abordar sob uma grande variedade de ângulos, um leque de perspetivas diversas, apanhá-las de surpresa, talvez, de vez em quando, mas deixando-lhes a liberdade de seguirem o seu próprio caminho. Isto nem sempre funciona. E a sátira política, é evidente, não obedece a nenhum destes preceitos; faz exatamente o inverso, e é essa a sua função principal. 

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"


Harold Pinter, fotografia de Eamonn McCabe


Harold Pinter (Londres, 10 de outubro de 1930 — Londres, 24 de dezembro de 2008) foi um ator, diretor, poeta, roteirista, e certamente um dos grandes dramaturgos do século XX, além de destacado e incómodo ativista político britânico.
Foi um dos grandes representantes do teatro do absurdo junto com Samuel Beckett e Eugène Ionesco. Recebeu o Nobel de Literatura de 2005 e o prémio Companion of Honour da Rainha da Inglaterra pelos serviços prestados à literatura. (Daqui)